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quinta-feira, 10 de março de 2022

Conto "Marias da Boca Maldita", por Rafael Caputo

“Onde já se viu!”, exclamou inconformado Seu Ari. Também pudera, sendo ali o reduto exclusivo de nobres cavalheiros.

“Quem elas pensam que são?”, completou Seu Bastião, revelando revoltado tamanha indignação.

Um grande burburinho deu-se então. Tudo fora deixado de lado: futebol, política e até religião. O assunto do momento passou a ser as assanhadas raparigas sem noção. Tudo porque começaram a frequentar, todas as noites, o mesmo local daqueles machistas de plantão.

Pronto! Estava armada a confusão.

Uma delas recebeu a alcunha de Maria Vai Com As Outras. As outras, por sua vez, de Maria Gasolina e Maria Batalhão. Esta última porque não podia ver homem de uniforme: policial, bombeiro e até soldado de qualquer que seja o pelotão; já ficava toda derretida, vermelha que nem um pimentão.

Era assim, com esses apelidos, que eles conseguiam distingui-las sem maior preocupação.

Coitada das Marias! Como poderiam imaginar que naquele local de agitação existia, na verdade, uma confraria só de homens da região. Mesmo que soubessem dos chamados “Cavalheiros da Boca Maldita de Curitiba” as Marias sequer pediriam autorização. Afinal de contas, aquela área ao redor de bares, cafés, bancas de jornais e bancos do calçadão era um local público, para estarem ali não precisavam de nenhuma permissão.

Mas aqueles senhores assim não pensavam, donos da Boca todos se achavam.

Tudo isso começara há muitos anos atrás, época em que se reuniam ali para discutir as principais manchetes dos jornais. Ora, é por isso que existe um obelisco em frente ao Hotel Braz. Justamente para homenagear os confrades que ali ficavam: engenheiros, doutores, jornalistas e outros tantos intelectuais. Por isso a afronta daquelas Marias.

Até que elas faziam jus ao nome do lugar, seja dita a verdade. Pois era ali na menor avenida do mundo que se encontravam as maiores línguas da cidade. E que línguas afiadas também tinham as Marias. Não perdoavam ninguém. Fofocavam sem parar desde a hora que chegavam. Davam altas gargalhadas, cantavam alguns rapazes e de vez em quando até choravam. Tudo isso elas faziam sem nenhuma cerimônia, até que os distintos cavalheiros perderam de vez a parcimônia.

Seu Ari, então inconformado, pagou um mendigo para incomodá-las feito chato. Seu Bastião, achando falta de respeito, ordenou ao garçom nem atendê-las mais direito. Mas nada disso adiantou. As Marias acabavam voltando sempre do mesmo jeito. Seu Ari então decidiu:

“Vamos falar com o Prefeito!”

Sendo o Prefeito um homem bem sério, ao saber do assunto, recusou-lhe o pedido. Como poderia de um espaço público expulsar as Marias? Ele mesmo se sentiu ofendido.

Até que de repente, sem mais nem menos, as Marias simplesmente sumiram. Assim como do nada chegaram, do nada partiram. Não deixaram nenhum rastro e sequer vestígios. Pararam, de uma hora para outra, de frequentar aquela Boca.

Uma grande festa deu-se então. Seu Ari bebeu até cair. Seu Bastião chegou até rolar no chão. Todos se esbaldaram na comemoração. Por três dias seguidos houve festa de montão. Até que novamente deram-se a falar da vida alheia. Tudo voltara ao normal na Boca Maldita.

Bem! Quase tudo. A aparente normalidade não durou por muito tempo. Durou até a hora que alguém disse: “Por onde será que andam as Marias no momento?”

Uma enorme curiosidade então se fez presente. O paradeiro das Marias tornou-se um assunto bem frequente. Todas as noites eles se lembravam daquelas meninas sorridentes. Não davam o braço a torcer, mas no fundo estavam morrendo de saudade. Não conseguiam sequer discutir os assuntos da atualidade. Só falavam das Marias, todas elas, a Vai Com As Outras, a Gasolina e a Batalhão. Foram acometidos por uma nostalgia sem maiores precedentes ou sequer comparação.

Como não sabiam o nome delas de verdade, recorreram novamente ao Prefeito, só que desta vez, pedindo urgentemente para encontrá-las na cidade. Sendo o Prefeito, homem sincero, logo foi direto ao assunto e disse “não”, tratando de explicar àqueles cavalheiros: “Nada posso fazer sem saber quem elas são.”

Uma grande tristeza deu-se então. Seu Ari, mais uma vez, bebeu até cair. Prevenido, seu Bastião bebeu sentado já no chão. Todos se abateram inconformados por não terem a solução. Um a um, os senhores foram deixando de frequentar a confraria. Cada um com uma desculpa diferente. Com o passar do tempo, mais silenciosa e sem graça ficava aquela Boca; restando apenas Seu Ari, o único presente.

Nem mesmo da sua grande boca velha ouviu-se algum som. Seus companheiros de agora: apenas um cachorro, o mendigo e o garçom.

“Vou procurá-las pro senhor!”, disse o mendigo andarilho querendo prestar-lhe um favor.

“Vá pra casa senhor, se elas voltarem logo lhe aviso!”, completou o garçom um tanto compadecido.

“Au! Au!”, até o vira-lata latiu intrometido.

Mas Seu Ari, teimoso e carrancudo, não se dava por vencido. Ficou ali sentado esperando elas voltarem, por várias noites a fio.

Eis que de repente, sem maior explicação, não é que as Marias de fato retornaram. É como dizem por aí: quem espera, sempre alcança. Seu Ari pulou feito criança. Ao saber da novidade, Seu Bastião quase enfartou do coração. Foi aquela agitação! Liga pra um, liga pra outro. Eles nem estavam acreditando. De certo acharam que estavam até sonhando.

Todos correram para rever as ilustres Marias. A famosa Boca Maldita então recuperara sua alegria. Estava de volta a tão temida, galhofeira e espirituosa confraria, que não perdoava nada e nem ninguém quando ali se reunia.

A cada instante, novos curiosos chegavam acompanhando os tais senhores. Uma multidão se aglomerou naquela conhecida Rua das Flores. As Marias, percebendo tamanho alvoroço, ficaram meio sem jeito. Também pudera, todos estavam ali: até o mendigo, o garçom e o prefeito. Além de um cachorro que nunca tinham visto cujo rabo abanava de modo perfeito.

Seu Ari, desta vez, não quis cometer o mesmo erro. Logo dirigiu-se às Marias e se apresentou com todo respeito. Com elas se sentou, comeu e bebeu. Tudo estava uma delícia! Descobriu que as Marias na verdade se chamavam Stella, Paula e Patrícia. Outrora casadas, agora viviam um relacionamento sério apenas com o trabalho. Trabalhavam juntas e juntas se reuniam todas as noites para conversar depois do horário. Se davam ao luxo de, assim como eles, fofocar a vida alheia, porém, desprovidas de qualquer que seja o preconceito.

Envergonhado Seu Ari se desculpou: “Perdoe-nos pelo mau jeito.”

O verdadeiro motivo do sumiço das Marias permaneceu um grande mistério. Seu Ari conhecia o segredo, mas não contaria a ninguém. O levaria consigo para o cemitério. Mas isso já não era importante. O que importava era que daquela noite em diante, as Marias ficaram para trás. Afinal de contas, todo Cavalheiro que se preze necessita de uma Dama.

E assim, mudaram inclusive o estatuto da Boca numa extraordinária reunião. Nomeadas como “Damas da Boca Maldita” foram as Marias, para felicidade geral da nação. Que dirá Seu Bastião, que agora todo assanhadinho só vive na farda de Capitão. Ah! Segura essa Maria Batalhão.

O mais tradicional ponto de encontro de Curitiba nunca mais foi o mesmo desde então. Seu Ari não parava mais de rir. Seu Bastião, só falava em aviação. Um bando de assanhados querendo chamar a atenção. Pelo menos, AGORA SIM! Tudo voltara ao normal na Boca Maldita.

Bem! Quase tudo. A aparente normalidade durou por muito tempo não. Durou até a hora que alguém disse: “Quem são aqueles rapazes alegres com roupa de mulher e cara de João?”

Pronto, estava armada a confusão!

🙈🙉🙊


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