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segunda-feira, 16 de maio de 2022

Conto "A vida é trem-bala, parceiro!", por Rafael Caputo




A vida é trem-bala, parceiro!

Rafael Caputo


Quarentena que nada, nunca trabalhei tanto na vida. A demanda está absurda. Não que eu esteja reclamando, longe de mim. Enquanto muitos perderam seus empregos em meio à crise, só tenho a agradecer. Afinal, fiz por merecer. Tô batendo meta atrás de meta. Tanto sacrifício, entretanto, tem seu preço. Sinto-me exausto. Até mesmo eu preciso de um descanso. Falando nisso, é hora da minha pausa. Bato o cartão, pego um copo de leite e aproveito para ler as notícias: “Milagre: avião cai no meio do oceano e todos os passageiros sobrevivem”. Mal tenho tempo para reagir, logo sou interrompido.

“Com licença, Senhor. Sei que está em seu horário de intervalo, mas os estagiários chegaram.”

Abandono as notícias, engulo o leite, bato novamente o cartão e sigo em direção aos novatos. Como vocês podem perceber, está ficando cada vez mais difícil dar conta do serviço. Não tive outra alternativa, a não ser pedir ajuda. Sim, foi preciso deixar o orgulho de lado, pelo menos dessa vez. O pessoal do RH até que foi rápido. Como é maravilhoso ver o termo “Recursos Humanos” sendo tão bem empregado novamente.

Os candidatos selecionados possuem bom potencial. Um deles tem vasto conhecimento em logística, o que é imprescindível nesse ramo. O outro, um pouco mais velho, dedicou grande parte da sua vida recepcionando pessoas. Já sei para onde irei designá-lo. E, por fim, uma outra, mais nova e sem muita experiência, atuava como motorista de aplicativo. Não sou muito familiarizado com essas novas tecnologias, mas acho que tal conhecimento pode ser útil. Quem dirige um carro também pode dirigir um barco, por que não? Tudo bem que, ultimamente, esse barco mais que triplicou de tamanho. Quase um transatlântico. Já é a segunda vez que mudamos de modelo. Culpa do trabalho, que só aumenta. Até entrei com um requerimento — polêmico, por sinal — para usarmos um trem como meio de transporte. De preferência, um trem-bala. Acredito que assim, com a distribuição dos passageiros em vagões, seria tudo mais organizado, e rápido. Digo por experiência própria. Mas o pessoal da velha guarda insiste em defender que o transporte marítimo é uma antiga tradição e estão meio receosos com uma mudança nessa altura do campeonato. Vamos ter que esperar para ver se o pedido será ou não deferido. Tô na torcida! Pode me chamar de ousado, não tem problema. Ou nostálgico, tanto faz. Vou fazer de tudo para ganhar de goleada. Tipo sete a um, se é que você me entende.

Guten Tag, senhoras e senhores, sejam muito bem-vindos! Modéstia à parte, tenho certeza de que vocês já me conhecem, ou pelo menos, já ouviram falar de mim. Pois bem, graças ao vosso currículo, vocês foram requisitados como meus assistentes. Não se enganem, sei tudo sobre cada um de vocês. Você, da logística, foi acusado de pedofilia e conseguiu incriminar um inocente que agora está pagando a pena em seu lugar. Nada mal. O cara da recepção, por sua vez, atuava também como pastor e usou o dízimo dos fiéis para pagar dívidas com prostitutas e traficantes. Corajoso, tenho que admitir. Por último, a motorista que atropelou o próprio cliente e fugiu sem prestar socorro. Bem, a política da empresa é que todos merecem uma segunda chance. Eu, no entanto, espero que vocês se esforcem ainda mais dessa vez. Temos muito trabalho pela frente. Isso está um verdadeiro inferno, um caos. Não para vocês, obviamente! Para vocês isso aqui é o Paraíso, fala a verdade? Bando de sortudos. Hoje é o primeiro dia, então, me acompanhem e observem.”

Passo pela sala de operações estratégicas e pego meu megafone. Subo com eles até um dos palanques principais para colocar ordem na casa. O local nos permite uma visão ampla de todo o saguão. Estamos no deck principal, o maior deles. À nossa frente, uma multidão de gente. Desde o início do ano está assim. Recentemente, nas duas últimas semanas, tivemos um crescimento ainda maior: cerca de dez mil pessoas por dia. Tem gente de todo o lugar, de várias partes do mundo. Nosso papel — nessa estação, especificamente — é relativamente simples: transportá-las com segurança para o outro lado da fronteira. Eu sou o responsável por isso também, além de trazê-las até aqui. É um cargo importante, escolhido a dedo. Não vejo problemas em acumular certas funções.

“Pessoal, atenção! Escutem com atenção. Essa fila maior é somente para COVID-19. Por favor, saia da fila quem não for COVID. Consultem o nome de vocês na lista afixada no mural. Outra coisa: moedas e bilhete nas mãos. Quem não validou o bilhete de embarque, favor retornar ao primeiro guichê. Quem ainda não recebeu as duas moedas de ouro precisa passar na bilheteria. Sem as moedas, não embarca.”

Todo dia é a mesma coisa: precisamos repetir essas instruções senão vira bagunça. O pior que pode ocorrer é alguém embarcar sem a devida autorização. Se eu os transporto, sobra pra mim. Tem alguns engraçadinhos que tentam burlar o sistema e adiantam a viagem. Quando descobertos, são deportados imediatamente. Voltam para lá, sem piedade. Antes, porém, acabam sendo punidos. Poucos retornam sem nenhuma sequela. Mas isso já não é meu departamento. Aqui, cada um cuida do seu setor.

Muitos acham que a Morte é um ser, uma espécie de indivíduo (tipo uma pessoa), mas não é. Na verdade, trata-se de um título. Assim como o Papa. Já existiram vários Papas, assim como várias Mortes. Sou eu quem ocupa esse cargo agora. (não o do Papa, o outro). E não que eu esteja querendo me gabar, mas estou fazendo um ótimo trabalho. Depois de tanto empenho para chegar até aqui, é o mínimo que posso fazer. Soube da possibilidade e aproveitei um programa de intercâmbio. Me candidatei pouco tempo depois que fiz a travessia. O tempo aqui é relativo, parece que foi ontem. O diretor de onde eu estava não queria abrir mão de mim de jeito nenhum, mas consegui convencê-lo. Nunca duvide do meu poder de argumentação, sou ótimo nisso! Ele está satisfeito agora, sua casa nunca esteve tão cheia.

Tomei posse no primeiro dia de 2020 e, desde então, venho recebendo bônus por produção, mês a mês. Um recorde. Nunca uma Morte foi tão eficaz logo no início do mandato. Não vejo a hora de receber a PLR. Acho que no fundo, me escolheram porque já sabiam da minha capacidade. Usei parte da minha experiência em vida como campanha eleitoral para disputar o título. Ganhei fácil. Fiquei sabendo, mais tarde, que não haviam candidatos à altura para competir comigo. Que pena, iria adorar travar mais uma batalha. Comigo é assim: ou tudo, ou nada. Quando entro numa guerra é para vencer. Pode apostar! Cá entre nós: a ideia do vírus foi tão boa quanto a do gás, não é mesmo?

Deixo o megafone nas mãos da estagiária e volto para concluir meu intervalo, também sou filho de Deus. Bato de novo o cartão, pego outro copo de leite e retomo a leitura: “Vazo ruim não quebra fácil: marginal toma quinze tiros e, ainda assim, consegue escapar da Polícia”, “Motorista bêbado que invadiu supermercado foi preso. Ninguém saiu ferido”, “Inacreditável: câmeras de segurança flagram o momento em que uma criança de apenas quatro anos despenca do sexto andar de um edifício, se levanta e sai andando normalmente”, “Protestos antifascistas e conflitos contra o racismo geram quebra-quebra generalizado com incêndios, brigas e saques. Apesar do prejuízo, não houve vítimas.”, ao ler esta última notícia, deixei escapar um curto sorriso irônico de canto, quase um espasmo. Amadores! Novamente, sou interrompido.

“Com licença senhor, desculpe incomodá-lo mais uma vez. É que o senhor pediu para avisá-lo caso afrouxassem o isolamento social e acabou de chegar uma informação de que no Brasil estão reabrindo as igrejas, academias, shopping centers e várias outras atividades comerciais.”

“Perfeito! Ótima notícia. Vamos colocar em prática o plano emergencial de contingenciamento brasileiro. Eu já imaginava que isso fosse acontecer. Avise o RH que preciso quadriplicar o efetivo o quanto antes (e não é exagero). Também ligue para ‘você sabe quem’ e pergunte sobre o trem, tente sondar se eles já se decidiram. Vou voltar ao trabalho imediatamente, temos muito o que fazer. Tome, já li o relatório com as notícias.”

“O que eu faço com ele, senhor?”

“Guarda na gaveta das pendências. Depois da Pandemia, eu resolvo tudo.”

“Tá bom, e não esqueça da sua reunião às cinco com o chefe.”

“Pode deixar!”

“Mais uma coisa: já estou com ‘você sabe quem’ na linha e ele disse que, graças ao Governo Tupiniquim, concordaram com o seu trem. Parabéns, você conseguiu!”

Sieg Heil, minha querida. Sieg Heil.”

😳

★★★

  • Conto angariado com uma menção honrosa no 19º Prêmio Literário Paulo Setúbal em 2021, promovido pela Secretaria de Cultura da Prefeitura de Tatuí/SP.

  • Obra também publicada na 3ª Edição da Revista Cultural Traços em 2021.

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segunda-feira, 9 de maio de 2022

Conto "Bocão de jacaré", por Rafael Caputo


Saio inconformado daquele consultório. Quem ele pensa que é? Eu só queria ajuda para fixar a dentadura. Sua mente deveras limitada deve pressupor que sou louco. Uma loucura visceral a consumir minha sanidade, aposto. 

Não estou doente, pelo contrário, meus sentidos estão mais-que-perfeitos. A audição, por exemplo, nunca esteve tão aguçada. Nenhum som do céu ou da terra me passa despercebido. Sou capaz de ouvir tudo claramente, inclusive o que acontece em outras dimensões. Como então estou louco? Como? Sinto-me ofendido. Logo ele, um dentista. Por obrigação do ofício, tinha que acreditar em mim. Você vai concordar comigo, eu sei, posso ouvir seus pensamentos também. 

Vou lhe explicar como tudo aconteceu: há uma semana, ao recostar minha cabeça sobre o travesseiro, crente de algum sossego meu, a escutei pela primeira vez. Sabia que ela estava lá. Era tarde da noite, local de morada do silêncio absoluto, silêncio que fora cortado por um sussurro torpe. Outros menos privilegiados nem a notariam, mas eu a notei. Eu disse que nenhum som me escapa aos ouvidos, não disse? Era ela, certeza! Podia perceber até sua respiração, sequer ofegante. Escutava-a perfeitamente quando fui interrompido pelo gosto de ferrugem em minha boca, era sangue: a prova real de sua chegada. O espelho do banheiro, sempre sincero, me contou a verdade: era o dente que sangrava. Eu sabia! Esfreguei com força a escova a fim de expulsá-la. Ansiava novamente pelo sossego do silêncio absoluto. Queria, portanto, que ela fosse embora, que me deixasse em paz, que me deixasse dormir. Não houve jeito, ela permaneceu lá, teimosa e insistente, vigilante como toda criminosa. À espreita, à espera. 

Em uma das noites, porém, me peguei surpreso ao ouvir um choro não muito distante. Um lamento por detrás do dente. Nada de ferrugem dessa vez, mas sim água do mar. A maresia adentrou pelas minhas narinas brotando das fossas nasais ora encharcadas por lágrimas daquela fada arrependida. Comovido, passei a escovar mais suavemente aquele dente, quiçá o até saltava. Minha intenção nunca foi de machucá-la. Seu chorinho acertou-me em cheio, confesso! Coitada da fadinha, pobrezinha. Sem escolhas e destinada eternamente a vida do crime estaria ela arrependida? Talvez sim! 

Inevitavelmente, ficamos amigos. Contei a ela que gostava de cozinhar, de passear no parque e tocar violão. Cheguei a dedilhar algumas canções sobre redenção e arrependimento só para aliviar sua culpa. Tornamo-nos, além de tudo, confidentes. Até que numa noite, dei-me por falta do dente meu. O silêncio então regressou soberano com o jugo do abandono a tiracolo. Nunca me senti tão sozinho desde então. Acabei sendo traído mais uma vez, porém jurei a mim mesmo que seria a última. Alguns dirão que fiz o que fiz por vingança, outros por autopreservação, tanto faz! Desci ao porão, tirei de dentro da caixa de ferramentas o alicate boca-de-jacaré e, um a um, arranquei eu mesmo todos os dentes da boca. Quão tolo fui por acreditar em fadas.

👀

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terça-feira, 26 de abril de 2022

Poesia "Malus da vida", por Rafael Caputo


Pecado seria não a desejar.
Arte de Edda em sua plenitude,
Iduna, a Deusa, a trocara por juventude.
Xis da questão a solucionar.

Ardente sentir de incerto destino
Onde envenenada fora por profundo sono.
Pseudofruto de flora em outono,
Revés de um insano sabor clandestino.

Outrora símbolo da fertilidade,
Imortalizada rendeu-se à força da gravidade.
Bendita se fez por um breve instante.

Infinito culpar-se de perder o paraíso
Do pomar da vida ao fim do juízo,
Algoz do amor, tu és, divina e antioxidante!

🍎

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terça-feira, 12 de abril de 2022

Conto "Lockdown marinho", por Rafael Caputo



Ano passado, visitei Florianópolis. Também chamada de Floripa, a ilha da magia. Realmente, o lugar é mágico. Fui com minha namorada. Lá, conhecemos o Projeto Tamar. Você já deve ter ouvido falar, é uma das mais bem-sucedidas iniciativas de conservação da vida marinha. Em especial, no que tange à preservação das tartarugas. Ficamos admirados. O trabalho que eles desenvolvem vai desde Santa Catarina até o Ceará, abrangendo grande parte do litoral brasileiro.

Vale lembrar que os seres humanos são bem mais evoluídos do que as tartarugas. Aprenderam a criar e a manusear o fogo, desenvolveram ferramentas, construíram casas, carros, inventaram um monte de remédios etc. Possuem grande capacidade intelectual e artística. Você nunca verá uma tartaruga, de qualquer espécie que seja, dirigindo um automóvel ou tocando um instrumento, por exemplo. Ainda assim, por algum motivo, esses animais são fascinantes e despertam grande curiosidade. Hoje, sabemos quase tudo ao seu respeito.

As tartarugas possuem sangue frio, têm escamas e colocam ovos. Todas essas características as definem como um réptil. Contudo, algumas pessoas acham que elas são anfíbios. É certo que ambos possuem semelhanças e, como os anfíbios, algumas delas podem viver tanto na água como fora dela, mas também existem grandes diferenças. Os répteis possuem pele seca e escamosa, depositam seus ovos na terra e respiram pelos pulmões, assim como os humanos. Característica intrigante. Já os anfíbios tem pele lisa, colocam os ovos na água e respiram por brânquias (quando ainda são larvas) e só depois é que usam pulmões (fase adulta). No ranking da escala evolutiva, os répteis estão um patamar acima. Entretanto, ser classificada como réptil ou anfíbio não muda em nada a vida da tartaruga, que sequer tem conhecimento de tal classificação. Isso porque elas podem até sentir a presença do homem, mas não fazem a menor ideia de sua existência, como pensam, o que comem ou qualquer outra coisa do tipo. Literalmente, não sabem nada sobre a raça humana. Se soubessem, ainda assim, não compreenderiam.

Já o contrário, é bem diferente. Dezenas de pesquisadores monitoram esses animais dia e noite. Conhecem seus hábitos alimentares, sua biologia, ciclo de vida, como se reproduzem e muito mais. Existem centenas de tartarugas que agora mesmo, nesse exato momento, estão sendo monitoradas. Esses animais possuem grande capacidade migratória e de forma inteligente aproveitam as várias correntes marítimas para se locomoverem por grandes distâncias. Fazem isso muito bem. São capazes de percorrer quilômetros e quilômetros pela imensidão do oceano só para desovarem em uma praia distante, longe dos predadores. Possuem um senso de orientação tão eficaz quanto qualquer GPS. As tartarugas marinhas, por exemplo, arrastam-se pela praia até um lugar livre das marés. Ali cavam a areia (sessenta centímetro de profundidade por um metro de diâmetro), e enterram seus ovos (cem ou duzentos de uma só vez). Um feito incrível! Depois disso, tapam o buraco, alisam a areia e voltam para o mar. Após quinze dias, fazem tudo de novo, mais ou menos no mesmo lugar. Você sabia que é o sol que se encarrega de incubar os ovos? Pois, é! As tartarugas terrestres, chamadas de jabutis, e as de água doce, os cágados, fazem o mesmo nas margens do rio e pântanos, ou entre as folhagens. Depois de três meses, nascem as tartaruguinhas, bem pequenininhas. Logo que nascem, correm direto para o mar.

Nas áreas de reprodução, as praias de desova são monitoradas por pescadores contratados pelo Tamar. Eles são chamados de tartarugueiros. É realizado patrulhamento ostensivo durante a noite para flagrar as fêmeas, observar seu comportamento durante a desova, registrar dados e coletar material biológico para posterior análise genética. Os pesquisadores também monitoram os ninhos nos próprios locais de postura, ou transferem alguns, encontrados em áreas de risco, para locais mais seguros na mesma praia ou para cercados de incubação, expostos ao sol, em praias próximas às bases de pesquisa. Os pescadores são, ainda, orientados a salvar aquelas que ficam presas nas redes. Verdadeiros anjos. E as tartarugas nem desconfiam.

Nas ilhas oceânicas, como em Fernando de Noronha e Atol das Rocas, é realizado um programa de captura, marcação e recaptura, através do mergulho livre ou autônomo. Tanto nas áreas de desova como de alimentação, os animais encontrados vivos recebem um anel de metal nas nadadeiras dianteiras, para identificação e estudo de seu deslocamento e de hábitos comportamentais, além de dados sobre crescimento e taxa de sobrevivência. As tartarugas nem se dão conta do adereço. Muito menos do sistema de telemetria fixado, em muitos casos, nos seus cascos. Justamente, graças a esse sistema, foi possível resolver um grande mistério que ocorreu recentemente. Toda a população de tartarugas, do nada, desapareceu. Simplesmente, sumiu. Não foram vistas em lugar algum. Nem por pescadores, mergulhadores, banhistas, ninguém. As praias já conhecidas como ponto de desova, ficaram totalmente vazias. Fato que causou espanto.

O mais estranho foi saber que, na verdade, elas não tinham sumido. Estavam apenas paradas, imóveis. Por algum motivo, até então desconhecido, pararam de se locomover. Permaneceram assim: estáticas, em um mesmo local, por meses. Subiam à superfície, apenas para respirar. Logo em seguida, retornavam para dentro d ́água. Como isso era possível? O Tamar sempre estudou o deslocamento das tartarugas por meio do monitoramento por satélite e nunca registrou nada parecido. Só para você ter uma ideia, sabe-se que muitas tartarugas que trafegam pela costa brasileira nasceram ou frequentemente aparecem na costa de outros países, tanto do continente americano quanto do africano, uma comprovação do grande potencial de locomoção desses animais, que como eu disse: são fascinantes. Como, então, de uma hora para outra, eles decidiram hibernar? Tartarugas não hibernam, só animais de sangue quente fazem isso. No máximo, alguns jabutis, que vivem em climas tropicais, quando chega o inverno, cavam o terreno e entram em letargo, uma espécie de sono profundo, que é diferente da hibernação. Sendo assim, o que estaria causando esse comportamento tão peculiar? Técnicos e pesquisadores do mundo inteiro se uniram. Criaram uma força-tarefa a fim de investigar a fundo o problema. Diversos cientistas, de várias nacionalidades, foram chamados: húngaros, franceses, alemães, russos, americanos, israelenses e até brasileiros. Os países não mediram esforços e enviaram seus melhores biólogos, ambientalistas, oceanógrafos e diversos outros especialistas. Até quem não se interessava pelo estilo de vida desses animais ficou preocupado, ou, no mínimo, curioso. Diversas embarcações, grandes e pequenas, partiram rumo ao local onde as tartarugas se concentravam. Todos atrás de respostas. Não demorou para que elas percebessem que não estavam mais sozinhas. Passaram a se incomodar um pouco com a presença daqueles seres estranhos em seu território, acima e abaixo da superfície. Algumas ficaram assustadas. Outras, perplexas. Todas, sem entender o que estava acontecendo.

Contei essa história a um amigo meu hoje cedo. Por videoconferência, lógico! Foi logo depois que ele compartilhou em suas redes sociais uma série de notícias publicadas recentemente: “Pentágono divulga oficialmente vídeos mostrando OVNIs”, “Luzes misteriosas aparecem piscando no céu e intrigam a web (e estudiosos)”, “OVNI gigante e triangular faz terceira aparição em três meses”. Ele me pareceu um tanto paranoico com todo esse lance de quarentena, pandemia etc. Começou a me mandar vários áudios falando sobre extraterrestres, aparição de objetos voadores em várias partes do globo e coisas assim. Daí você vai me perguntar: mas o que toda essa história tem a ver com o assunto? Eu te respondo: querendo ou não, nós é que somos as tartarugas.

🐢


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segunda-feira, 28 de março de 2022

Podcast Literário "Do Livro Não Me Livro", você já ouviu?




Um dos grandes desafios para nós, escritores iniciantes, é justamente conseguir visibilidade. Eu, particularmente, sei muito bem o que é isso. Sendo assim, quero compartilhar com os leitores da revista Conexão Literatura a minha experiência pessoal com o trabalho da escritora e podcaster Monique Machado, criadora do podcast literário DO LIVRO NÃO ME LIVRO e fundadora do projeto LIVE LITERÁRIA – BATENDO PAPO COM O ESCRITOR.

Para início de conversa, Monique me cativou de imediato por sua imensa simpatia e alto-astral. Explicou sobre o funcionamento do podcast e me convidou a participar. Eu topei na hora. Meu episódio acabou de estrear (dia 23/03) e encontra-se disponível em diversas plataformas, sendo as principais: Spotify e Anchor. Modéstia à parte, adorei o resultado (rsrsrs). Para ouvi-lo na íntegra, segue o link:



Podcast Literário “Do Livro Não Me Livro”


Vale lembrar que o podcast literário DO LIVRO NÃO ME LIVRO é vinculado em diversos países. Dentre eles: Brasil, com 82% dos ouvintes e EUA, 14%. O público é bem diversificado e, atualmente, as mulheres lideram a audiência. A maioria dos ouvintes está na faixa etária dos 35 aos 45 anos. Ao todo, são seis mil ouvintes assíduos (pelo menos, por enquanto) que acompanham os episódios narrados pela própria Monique Machado (com aquele sotaque carioca carregadíssimo que eu amo demais) e publicados diariamente de domingo a domingo, com regularidade de dois a três episódios por dia.

Um detalhe curioso é que não há a participação dos autores nos episódios narrados. Aos escritores compete o preenchimento de um simples questionário, cujo o objetivo é coletar todas as informações necessárias para a construção da narrativa, que fica a cargo de Monique. Contudo, o próprio autor é quem seleciona o trecho de sua preferência para vinculação da obra escolhida. Preferencialmente, aquele que funcione melhor para despertar o interesse do público (não sou um especialista em marketing, mas isso é obviamente muito importante e exige atenção e sensibilidade). Dica: não tenha pressa em escolher uma parte atrativa. Detalhe técnico: de no máximo seis linhas. Os episódios são curtos (de 5 a 10 minutos), então, seja assertivo.

No meu caso, optei por divulgar o meu romance de estreia “Larissa Start”, finalista da quarta edição do Prêmio Kindle de Literatura. Preenchi o questionário e enviei via aplicativo de mensagens (Whatsapp). Tudo muito fácil e sem burocracia, feito com bastante antecedência. Com essas informações, Monique montou uma prévia e me enviou para aprovação. Acertamos a data e voilà, o episódio entrou no ar e logo de cara já vendi um exemplar. O e-mail abaixo não me deixa mentir:


Logicamente que todo esse trabalho tem um custo, mas posso garantir que é super justo e extremamente acessível. Quase “simbólico”, eu diria (sem querer ofender!).

Monique Machado, escritora e podcaster


Claro que além de podcaster, Monique Machado também é escritora. Autora dos livros: “O homem do quarto andar”, “Bandeira branca”, “A mulher da foto” e “O caso de Sara Castro”.

Escritora e podcaster Monique Machado - Podcast "Do Livro Não Me Livro"
 
Por ser escritora, Monique conhece bem as “dores” de seus colegas literários e junto com o podcast DO LIVRO NÃO ME LIVRO, ela ainda toca um projeto de lives no Instagram intitulado LIVE LITERÁRIA – BATENDO PAPO COM O ESCRITOR. Mais de duzentos autores já foram entrevistados por essa carioca que esbanja simpatia e profissionalismo. Em breve, serei um deles. Estou ansioso, confesso! Após esse encontro, volto aqui para contar como foi a experiência. Fiquem ligados!

Para maiores informações:

Instagram:

 🎧


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terça-feira, 22 de março de 2022

Poesia "Presente, passado e futuro", por Rafael Caputo

 

Meu presente é sofrimento.
É dor, é tormento!
Lascas de um pensamento perdido no tempo.

Meu passado é passado.
Simples ato inacabado.
Resíduos e ecos de um desconhecido perdido no espaço.

Meu futuro é incerto.
Pobre, decerto!
Um longo deserto a ultrapassar.
Um subjugar da sobrevivência.
Um sobreviver de plena sofrência.
Um destino insano
de delírios mundanos
com demônios profanos
a me observar.


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quinta-feira, 10 de março de 2022

Conto "Marias da Boca Maldita", por Rafael Caputo

“Onde já se viu!”, exclamou inconformado Seu Ari. Também pudera, sendo ali o reduto exclusivo de nobres cavalheiros.

“Quem elas pensam que são?”, completou Seu Bastião, revelando revoltado tamanha indignação.

Um grande burburinho deu-se então. Tudo fora deixado de lado: futebol, política e até religião. O assunto do momento passou a ser as assanhadas raparigas sem noção. Tudo porque começaram a frequentar, todas as noites, o mesmo local daqueles machistas de plantão.

Pronto! Estava armada a confusão.

Uma delas recebeu a alcunha de Maria Vai Com As Outras. As outras, por sua vez, de Maria Gasolina e Maria Batalhão. Esta última porque não podia ver homem de uniforme: policial, bombeiro e até soldado de qualquer que seja o pelotão; já ficava toda derretida, vermelha que nem um pimentão.

Era assim, com esses apelidos, que eles conseguiam distingui-las sem maior preocupação.

Coitada das Marias! Como poderiam imaginar que naquele local de agitação existia, na verdade, uma confraria só de homens da região. Mesmo que soubessem dos chamados “Cavalheiros da Boca Maldita de Curitiba” as Marias sequer pediriam autorização. Afinal de contas, aquela área ao redor de bares, cafés, bancas de jornais e bancos do calçadão era um local público, para estarem ali não precisavam de nenhuma permissão.

Mas aqueles senhores assim não pensavam, donos da Boca todos se achavam.

Tudo isso começara há muitos anos atrás, época em que se reuniam ali para discutir as principais manchetes dos jornais. Ora, é por isso que existe um obelisco em frente ao Hotel Braz. Justamente para homenagear os confrades que ali ficavam: engenheiros, doutores, jornalistas e outros tantos intelectuais. Por isso a afronta daquelas Marias.

Até que elas faziam jus ao nome do lugar, seja dita a verdade. Pois era ali na menor avenida do mundo que se encontravam as maiores línguas da cidade. E que línguas afiadas também tinham as Marias. Não perdoavam ninguém. Fofocavam sem parar desde a hora que chegavam. Davam altas gargalhadas, cantavam alguns rapazes e de vez em quando até choravam. Tudo isso elas faziam sem nenhuma cerimônia, até que os distintos cavalheiros perderam de vez a parcimônia.

Seu Ari, então inconformado, pagou um mendigo para incomodá-las feito chato. Seu Bastião, achando falta de respeito, ordenou ao garçom nem atendê-las mais direito. Mas nada disso adiantou. As Marias acabavam voltando sempre do mesmo jeito. Seu Ari então decidiu:

“Vamos falar com o Prefeito!”

Sendo o Prefeito um homem bem sério, ao saber do assunto, recusou-lhe o pedido. Como poderia de um espaço público expulsar as Marias? Ele mesmo se sentiu ofendido.

Até que de repente, sem mais nem menos, as Marias simplesmente sumiram. Assim como do nada chegaram, do nada partiram. Não deixaram nenhum rastro e sequer vestígios. Pararam, de uma hora para outra, de frequentar aquela Boca.

Uma grande festa deu-se então. Seu Ari bebeu até cair. Seu Bastião chegou até rolar no chão. Todos se esbaldaram na comemoração. Por três dias seguidos houve festa de montão. Até que novamente deram-se a falar da vida alheia. Tudo voltara ao normal na Boca Maldita.

Bem! Quase tudo. A aparente normalidade não durou por muito tempo. Durou até a hora que alguém disse: “Por onde será que andam as Marias no momento?”

Uma enorme curiosidade então se fez presente. O paradeiro das Marias tornou-se um assunto bem frequente. Todas as noites eles se lembravam daquelas meninas sorridentes. Não davam o braço a torcer, mas no fundo estavam morrendo de saudade. Não conseguiam sequer discutir os assuntos da atualidade. Só falavam das Marias, todas elas, a Vai Com As Outras, a Gasolina e a Batalhão. Foram acometidos por uma nostalgia sem maiores precedentes ou sequer comparação.

Como não sabiam o nome delas de verdade, recorreram novamente ao Prefeito, só que desta vez, pedindo urgentemente para encontrá-las na cidade. Sendo o Prefeito, homem sincero, logo foi direto ao assunto e disse “não”, tratando de explicar àqueles cavalheiros: “Nada posso fazer sem saber quem elas são.”

Uma grande tristeza deu-se então. Seu Ari, mais uma vez, bebeu até cair. Prevenido, seu Bastião bebeu sentado já no chão. Todos se abateram inconformados por não terem a solução. Um a um, os senhores foram deixando de frequentar a confraria. Cada um com uma desculpa diferente. Com o passar do tempo, mais silenciosa e sem graça ficava aquela Boca; restando apenas Seu Ari, o único presente.

Nem mesmo da sua grande boca velha ouviu-se algum som. Seus companheiros de agora: apenas um cachorro, o mendigo e o garçom.

“Vou procurá-las pro senhor!”, disse o mendigo andarilho querendo prestar-lhe um favor.

“Vá pra casa senhor, se elas voltarem logo lhe aviso!”, completou o garçom um tanto compadecido.

“Au! Au!”, até o vira-lata latiu intrometido.

Mas Seu Ari, teimoso e carrancudo, não se dava por vencido. Ficou ali sentado esperando elas voltarem, por várias noites a fio.

Eis que de repente, sem maior explicação, não é que as Marias de fato retornaram. É como dizem por aí: quem espera, sempre alcança. Seu Ari pulou feito criança. Ao saber da novidade, Seu Bastião quase enfartou do coração. Foi aquela agitação! Liga pra um, liga pra outro. Eles nem estavam acreditando. De certo acharam que estavam até sonhando.

Todos correram para rever as ilustres Marias. A famosa Boca Maldita então recuperara sua alegria. Estava de volta a tão temida, galhofeira e espirituosa confraria, que não perdoava nada e nem ninguém quando ali se reunia.

A cada instante, novos curiosos chegavam acompanhando os tais senhores. Uma multidão se aglomerou naquela conhecida Rua das Flores. As Marias, percebendo tamanho alvoroço, ficaram meio sem jeito. Também pudera, todos estavam ali: até o mendigo, o garçom e o prefeito. Além de um cachorro que nunca tinham visto cujo rabo abanava de modo perfeito.

Seu Ari, desta vez, não quis cometer o mesmo erro. Logo dirigiu-se às Marias e se apresentou com todo respeito. Com elas se sentou, comeu e bebeu. Tudo estava uma delícia! Descobriu que as Marias na verdade se chamavam Stella, Paula e Patrícia. Outrora casadas, agora viviam um relacionamento sério apenas com o trabalho. Trabalhavam juntas e juntas se reuniam todas as noites para conversar depois do horário. Se davam ao luxo de, assim como eles, fofocar a vida alheia, porém, desprovidas de qualquer que seja o preconceito.

Envergonhado Seu Ari se desculpou: “Perdoe-nos pelo mau jeito.”

O verdadeiro motivo do sumiço das Marias permaneceu um grande mistério. Seu Ari conhecia o segredo, mas não contaria a ninguém. O levaria consigo para o cemitério. Mas isso já não era importante. O que importava era que daquela noite em diante, as Marias ficaram para trás. Afinal de contas, todo Cavalheiro que se preze necessita de uma Dama.

E assim, mudaram inclusive o estatuto da Boca numa extraordinária reunião. Nomeadas como “Damas da Boca Maldita” foram as Marias, para felicidade geral da nação. Que dirá Seu Bastião, que agora todo assanhadinho só vive na farda de Capitão. Ah! Segura essa Maria Batalhão.

O mais tradicional ponto de encontro de Curitiba nunca mais foi o mesmo desde então. Seu Ari não parava mais de rir. Seu Bastião, só falava em aviação. Um bando de assanhados querendo chamar a atenção. Pelo menos, AGORA SIM! Tudo voltara ao normal na Boca Maldita.

Bem! Quase tudo. A aparente normalidade durou por muito tempo não. Durou até a hora que alguém disse: “Quem são aqueles rapazes alegres com roupa de mulher e cara de João?”

Pronto, estava armada a confusão!

🙈🙉🙊


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quarta-feira, 2 de março de 2022

Crônica "Já é um começo", por Rafael Caputo



A seguinte manchete saiu na Tribuna do Ceará: “Ônibus terão passagens gratuitas para presos em regime aberto e semiaberto”. A mesma notícia passou a ser compartilhada nas redes sociais acompanhada de uma avalanche de revolta por parte dos internautas. Curioso, porém precavido; antes de expressar qualquer opinião, fui me aprofundar no assunto. Como professor e coordenador pedagógico, acho até louvável alguns esforços para reintegrar o egresso à sociedade, principalmente, quando o objetivo de tal medida polêmica trata do deslocamento deles para cursos de ensino fundamental e demais atividades que tem como propósito a sua capacitação profissional. Mas venhamos e convenhamos, né? A justificativa apresentada é que os apenados sofrem dificuldade em se ressocializar (tá de brincadeira!). Se fosse assim, por uma questão de equidade, condenados por estupro deveriam ganhar entrada livre nos puteiros, pois eles também irão enfrentar dificuldades em seus relacionamentos amorosos futuros. Que mulher em sã consciência vai querer se envolver com um ex-estuprador? Prefiro acreditar que nenhuma. Pela lógica, ainda diminuiríamos os casos de estupro. ZONA COM PASSE LIVRE PARA EX-ESTUPRADORES, essa sim seria uma medida eficiente no combate à violência, principalmente, contra a mulher; e ainda mais no Ceará (que fique bem claro para a atual geração mi-mi-mi que provavelmente terá dificuldades em interpretar esse texto e se sentirá ofendida: ESTOU SENDO IRÔNICO!).

Não podemos nos esquecer dos pedófilos. De todos, os mais estigmatizados. Ora, eles também merecem uma segunda chance. E se quiserem adotar uma criança? Como ficarão? Serão marginalizados para sempre? (continuo sendo irônico). Partindo do mesmo princípio, o governo deveria adotar o PAIS – Programa de Adoção Simplificada para ex-condenados por pedofilia. Reduzindo, nesses casos, as exigências e a burocracia de todo o processo de adoção. Nada mais justo! Trata-se de Direitos Iguais. Apesar do nome sugestivo, deixo para você leitor definir o significado da letra “I” (de Indignação) na sigla do programa.

Em contrapartida, a sociedade também deve fazer a sua parte. Eu, por exemplo, já estou usando o mesmo critério aqui em casa. Em um ataque de fúria por ter pedido no videogame, o caçula xingou e chutou o irmão mais velho. O coloquei de castigo, óbvio! Agora, em retaliação, os meninos não o deixam jogar. Afinal, ele não sabe perder. Coitado, o castigo já acabou e ele ainda está enfrentando dificuldade em se ressocializar com os irmãos. Como pai, não posso permitir isso. Então, fiz assim: liberei o menor de todos os afazeres domésticos. Enquanto os outros lavam a louça e arrumam os quartos, o mais novo joga videogame. E sozinho, sem ter que dividir com ninguém. Quem sabe assim ele aprende. Não é uma solução definitiva, mas já é um começo.

👎


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segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

Poesia "À deriva", por Rafael Caputo


Sem o Norte que gostaria,
Mais ao Sul do que imaginara.
Um instante, um momento,
uma saudade cor de rosa dos ventos.
Tempos perdidos em vários anseios.
Tudo abstrato, nada concreto:
tesouro perdido, enterrado, incompleto.
Adição de incertezas, aflição de desejos.
Efêmera espera que me aborrece,
me consome, me angustia, me enlouquece.
Do baú das lembranças esquecidas
vasculho em vão Palavras de alento.
Dor e sofrer são alimentos da alma.
De tempero: tomilho e tormento.
Naufragado ao passado, ancorado no tempo.
Preciso fugir, navegar, correr, sair, escapar.
Nada me resta senão atracar. Mas aonde?
Estou fraco e abatido, cansado e iludido.
Sonhando com a utopia de uma esperança fúnebre.
Pulsos ilesos, pelo menos por enquanto.
E se o infinito do horizonte não for suficiente?
Navego há tempos num mar de dúvidas.
Os remos já deixei para trás.
À deriva me encontro:
pálido, enjoado, sujo salgado de lágrimas.
Lamentando a boiar distante do cais
com vaga esperança de terra firme.
Maldita pirata!

💔



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segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

Conto "O Especialista", por Rafael Caputo



Era uma vez uma casa de carnes chamada “O Especialista”. Quando inaugurou na região foi aquele burburinho. Também pudera, o local sempre foi carente de comércio rico e selecionado. Um açougue que nem se chamava açougue, mas sim Casa de Carnes deu, portanto, o que falar.

Seu proprietário, Eugênio Lobo, queria mesmo era chamar o estabelecimento de Boutique da Carne, mas como a região era de fato bem carente, acabou descendo um degrau na escada da ostentação — meio que a contragosto, claro — e a nomeou, de modo simplório, como Casa de Carnes. Era mais do que suficiente. Afinal de contas, não era uma casa de carnes qualquer, mas sim a casa do especialista em carnes, o próprio senhor Lobo, vulgo “O Especialista”.

Antes de se aventurar como empreendedor, porém, Eugênio trabalhava como motorista de ônibus. Já tinha perdido as contas de quantas vezes repetira o trajeto da linha FLORESTA-CENTRO. Conhecia o caminho melhor do que ninguém, uma vez que fora nascido e criado no local. Foi assim que economizou para realizar o grande sonho de ter um açougue, ou melhor, uma casa de carnes. Acabou aprendendo a profissão meio que na prática, por uma questão de sobrevivência. Quando viu, já estava desossando bois, aves e porcos; dentre outros animais.

Porém, Eugênio se diferenciava dos demais da sua família, que era de origem simples e humilde. Praticamente, da roça. Ele não! Ele tinha bom gosto. Era exigente. Ansiava por vinhos caros, roupas de grife, tênis de marca e carros da moda. Possuía, seja dita a verdade, um paladar aguçado. Era inteligente e aprendia rápido. Mas humildade e simplicidade, de fato, não eram as suas qualidades. Às vezes, o próprio se sentia como se adotado fosse. Nunca quis carregar o estigma de “bicho do mato” como seus familiares. Na verdade, ele era o único ambicioso naquela família. Ambicioso até demais.

Aquele já era o terceiro açougue da rede na cidade. Sim, Eugênio Lobo, apesar de pouca instrução, tinha tino para os negócios, e desde que largou o volante para se dedicar ao novo ofício, o Especialista não parava de crescer. Tinha virado uma rede de casa de carnes. Como ele mesmo dizia: sua ideia era virar uma franquia, porque não!?

Como não teve muito estudo, assim que sobrou tempo e dinheiro, Eugênio se matriculou em um curso de Gastronomia. Tudo o que sabia sobre cortes e entrecortes tinha aprendido na prática. Agora, por sua vez, queria desbravar novos dons e possibilidades. Sempre tinha sido um amante da boa comida e boa bebida. Só que nunca teve dinheiro suficiente para usufruir desses prazeres. Não até agora.

Na verdade, se Eugênio tivesse nascido em outra família, com certeza, sua profissão também seria outra: bon vivant. Tamanha personalidade fazia de Eugênio uma celebridade daquela região. E como toda celebridade que se preza tem um passatempo, ou uma excentricidade, Eugênio não ficava atrás: também tinha lá sua mania. Praticamente, um vício. Algo que revelarei mais adiante.

Desde quando começou seu curso culinário, passou a reunir alguns amigos e clientes para jantares especiais, a fim de pôr em prática tudo o que aprendia. Todas as quintas, como de costume, muitos se reuniam em sua casa — não a de carnes — para uma experiência gastronômica, sempre nova, surpreendente e extremamente saborosa. Melhor marketing do que esse, impossível. Eu falei que ele tinha tino para os negócios, não falei? Seu sucesso era tanto, que pessoas de outros cantos da cidade vinham comprar com ele. Seu corte preciso e cirúrgico, além da carne macia e suculenta, eram o grande diferencial. O sonho dos clientes era fazer parte do rol exclusivo daqueles que frequentavam todas as quintas a residência do açougueiro metido a cheff de cozinha.

Para comemorar a abertura do açougue ali no bairro, decidiu realizar um grande jantar com muitos dos clientes locais. Era uma forma de agradecer e retribuir pela preferência. Ele mesmo seria o cheff. Cuidaria de tudo, desde o início. A escolha da carne, seu abate, corte e preparo. Tudo ficaria a cargo do egocêntrico e perfeccionista “O Especialista”. Não poderia perder a oportunidade de aumentar ainda mais a fama que já lhe precedia.

Surpreendentemente, poucos dias antes do evento, eis que dois policiais adentraram à famosa Casa de Carnes. Eles estavam investigando o desaparecimento de uma garotinha e sua vovó. A menina tinha sido vista pela última vez usando um moletom vermelho e pegando, justamente, o ônibus que Eugênio dirigia para ir visitar a matriarca. Queriam, portanto, interrogá-lo a respeito do ocorrido. Antes de prestar seu depoimento, porém, Eugênio atendeu a dona Maria, que levara dois quilos de filé mignon. A melhor parte da garota sumida, motivo da visita dos senhores policias ali presentes.

Eugênio se lembrava bem dela. O capuz vermelho da menina lhe trouxe à tona recordações antigas de um assunto mal resolvido. Isso mesmo, eu disse que o Especialista tinha lá sua excentricidade, não disse!? Pois é, os homens da lei nem imaginavam, mas estavam diante de um suspeito acima de qualquer suspeita. Um assassino frio, calculista e com grande tino para os negócios. Esse era o segredo da tamanha suculência e maciez. As carnes do Especialista eram, de fato, únicas e exclusivas. Extremamente bem selecionadas e altamente saborosas. Ainda mais nos jantares promovidos por aquele anfitrião, empreendedor e assassino em série. Sim, porque antes da garota do moletom vermelho, já tinha sido fornecido a seus clientes, assim como servido em seus jantares: algumas partes da avó da dita-cuja, a moça da farmácia, a menina estudante do ensino médio, o loirinho da oficina mecânica e, um dos últimos, o seu Moacir do Sacolão. Por pouco, até seu José não virou carne moída. Ele era um dos clientes mais assíduos do Especialista. Um velho chato e ranzinza que sempre reclamava ou das carnes ou do atendimento. Eugênio o chamava de Zé Panceta, uma alusão à única parte dele que valia a pena. Na verdade, Eugênio já tinha perdido a paciência com aquele velho fazia tempo, ainda mais depois que descobriu — por fofoca dos outros clientes — que ele batia na mulher. Só esperava por uma chance.

Certa noite, perto da hora de fechar, o tal do seu Zé apareceu querendo um quilo de coxão mole. O Especialista já estava fechando as portas, mas ainda assim Eugênio o atendeu. Com segundas intenções, óbvio! Após o velho entrar, seu Lobo baixou as portas de aço e logo pensou: é agora! Passou para o lado de dentro do balcão, pegou sua faca preferida mais-que-afiada e quando estava prestes a fatiar aquela Panceta foi interrompido pelo toque do celular. Era outro cliente. Este, por sua vez, avisando que já estava em frente à sua casa para o jantar. Isso foi numa quinta-feira. Que sorte deu Zé Panceta. Sorte do Panceta e azar do Especialista, que já estava atrasado para mais um de seus compromissos semanais.

Toda essa história começou, justamente, com o sumiço da garota do moletom vermelho. A presença dos policiais, entretanto, não abalou em nada sua frieza. Chegou até a convidá-los para o grande jantar de comemoração. Afinal de contas, era a celebração daquela famosa Casa de Carnes na região. E se eles estavam realmente interessados no paradeiro da garotinha e sua avó, aquela comemoração seria, justamente, o local ideal para estarem. Todas as suas partes seriam servidas lá. Eugênio tinha pensado em tudo, minuciosamente. Como sempre!

De entrada, ofereceria canapés: pequenas torradas com um patê delicioso do fígado da menina. Como acompanhamento: pierógui com molho caseiro de linguiça artesanal e um strogonoff rústico de carne, tudo feito — diga-se de passagem — com os melhores pedaços da vovozinha. Já o prato principal seria o resto da velhota em forma de rosbife. Para completar: o seu famoso molho pardo, apurado, feito à base de sangue e especiarias. O Especialista fazia jus ao nome, não desperdiçava nada.

Irônico e debochado, ainda iria decorar a mesa de jantar com três porquinhos enfileirados. Todos à pururuca. Uma maça na boca de cada um daria o toque final, um típico clássico culinário que serviria também para despistar qualquer convidado mais curioso. Enquanto soprava e soprava os leitões que estavam pelando de quentes, o prazer mórbido e sombrio de Eugênio era admirar a comilança dos ali presentes, que se deliciavam com seus quitutes pra lá de peculiares. Um prazer viciante que nem mesmo ele sabia explicar. Chegava a salivar involuntariamente ao perceber o lamber dos beiços daqueles convidados, que repetiam por duas ou mais vezes.

Tudo seria perfeito e sairia como o planejado se não fosse pela reclamação que Zé Panceta abriu um dia depois que quase virou carne moída. Seu Zé ligou para a vigilância sanitária que visitou a Casa de Carnes na véspera do grande jantar de inauguração. No frigorífico do local, partes e restos tanto da garotinha, sua avó e de duas ou mais pessoas. Foi um escândalo. Saiu em todos os jornais da cidade e chegou a repercutir até em outros países. Se o cheff Eugênio queria fama e status internacional, tinha conseguido. A casa de carnes foi fechada, o local voltou a ser carente de um comércio rico e selecionado e o Especialista veio parar atrás das grades. Divido com ele e mais uns vinte uma cela de poucos metros quadrados. Como sei dessa história? Ele mesmo me contou. Me contou hoje pela manhã depois que um novo preso aqui chegou — um velho chato e ranzinza — condenado por bater em mulher. Pelo que falaram, acho até que agrediu sua própria esposa. Acho que foi isso!

Por ironia do destino, Eugênio Lobo ajuda na cozinha aqui da prisão. Pelo menos a gente sai ganhando com os dotes culinários do ex-empresário e célebre açougueiro. Se é coincidência eu não sei, mas depois que o Cícero, um dos presos lá do bloco três, aparentemente fugiu aqui da cadeia, todo mundo comeu carne por uma semana. Estava uma delícia! Se me importo com o Lobo sendo mau? Eu não! Posso até apostar com você o que vai ter hoje na janta: Panceta.

🍴
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segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

Crônica "Síndrome de Pilatos", por Rafael Caputo


Recentemente, atendi um pai de aluno que simplesmente me disse: “Professor, eu lavo as minhas mãos.” Pasmem, o assunto que discutíamos era a falta de comprometimento do seu próprio filho em assistir as videoaulas e o comportamento inadequado do garoto nos encontros presenciais, atitudes que vinham comprometendo todo o sucesso do binômio ensino-aprendizagem. Uma verdadeira afronta aos inúmeros profissionais da Educação que estavam se virando nos trinta para dar conta do recado em plena pandemia. Por conta do que dizia Paulo Freire: “não há educação sem amor”, tal afirmativa acabou me lembrando uma passagem bíblica, foi inevitável.

Provavelmente, você já deve ter ouvido falar em Pôncio Pilatos, o governador da província da Judeia, que – literalmente – lavou as mãos em um dos julgamentos mais importantes da história da humanidade. O réu em questão era um “rebelde” considerado fora dos padrões que chamava a atenção de todos e, consequentemente – ainda que só pregasse o amor –, incomodava os poderosos da época (líderes políticos e religiosos). Pilatos, como representante do poder na região, tinha total autoridade para julgar e decidir – por sua própria análise de mérito – se o acusado era culpado ou inocente; mas adivinhe? Ele não o fez.

O que me intriga é o fato de que, mais de dois mil anos depois, a história se repete, se repete e se repete. Fico me perguntando: Quantos pais, líderes, governantes – e, inclusive, colegas de profissão – também não sofrem com essa que chamo de Síndrome de Pilatos?

Por outro lado, o que me conforta é saber que na contramão da história, vez ou outra, “rebeldes” aparecem para – justamente – quebrarem o modus operandi padrão. Obrigado, Senhor!

Pouco tempo atrás, por exemplo, na terra do Improvável – apelidada de Brasil –, um representante do poder não se fez omisso e julgou aqueles que mereciam (e deveriam) ser julgados. Ao invés de lavar as mãos, lavou à jato. Depois disso, virou Ministro. Porém, não durou muito. Realmente, é impossível agradar a todos! Ainda assim, durante o curto tempo que ficou no cargo, teve não só a autoridade, mas também o carisma e quiçá um pouco do respeito de um povo que – ironicamente – ainda o via como um salvador, mas que, no fim, voltou a escolher Barrabás. Vai entender?!

Se somente a Educação tem o poder de transformar o mundo, e não há como falar de Educação sem Amor. Seja presencial ou à distância. A solução parece simples, mas não é. Amar dá trabalho, exige tempo, dedicação e paciência. É muito mais fácil lavar as mãos (com ou sem álcool em gel). Infelizmente, é só o que continuamos a ensinar dois mil anos depois de Cristo, e de Pilatos. 

Ecce homo”.

🙌

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segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

Poesia "Dissabor", por Rafael Caputo

Poesia Dissabor do Escritor Rafael Caputo
Imagem: BEIJO_HOME.jpg em <https://www.hypeness.com.br>


Essa língua que preenche
a minha boca e não é minha,
mas quem dera fosse.

Língua quente!

Uma segunda língua que
conheci pelo caminho.
Calou-me.

Língua quente e amarga.
De sabor caminho sem volta.

Quem dera minha fosse,
Língua amarga.
Língua doce.

👄

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segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

Conto "Ditos populares", por Rafael Caputo


Minha avó sempre dizia: "a justiça tarda mas não falha!". Assim era dona Odete, representante da sabedoria popular, casada há muito com seu Geraldo, santo homem. Afinal de contas, por detrás daqueles cabelos grisalhos de vozinha escondia-se uma mulher difícil de lidar.

Mas essa história não é sobre a dona Odete e o seu Geraldo, é sobre outro homem em particular, este nada santo, pelo contrário, homem dos infernos: mentiroso, cínico e dissimulado. Grande só no tamanho, tanto é que mais parece um armário três por quatro. O grandalhão sempre se livrava dos problemas. Jamais fora punido, por nada e nem por ninguém. Conseguia ludibriar tudo e todos, e isso desde quando era apenas um pequeno criado mudo.

Quem avisa amigo é: pau que nasce torto, nunca se endireita. O sujeito nem mesmo andava, sequer falava, quando sua mãe o encontrou na cozinha com os armários debaixo da pia abertos, as panelas reviradas e a lata de óleo caída num chão que se transformara em sebo.

“Meu Deus! O que você fez?”, perguntou ela.

O menino todo besuntado de óleo, mascando a chupeta num canto da boca, só mexia a cabeça de um lado para o outro, num gesto negativo de quem diz: não fui eu! Quanta fofura! pensou a mamãe. Quanta cara de pau! pensaria minha falecida vó.

A mãe por sua vez, achando a cena deveras engraçada, aproveitou para fotografar a peripécia do menino, divulgando-a nas redes sociais com a seguinte frase: não adianta chorar pelo leite (óleo) derramado! Rapidamente a foto alcançou mais de mil curtidas. Que as aparências enganam todo mundo sabe, mas ninguém leva isso muito a sério. Vale lembrar ainda que de boas intenções, o inferno está cheio.

Falando em inferno, como cabeça vazia é oficina do Diabo, na época da escola, por conta de uma aula tediosa, o então garoto gordinho jogou sem querer uma bolinha de papel que atingiu, em cheio, a cabeça da professora.

“Quem foi que jogou?”, ela questionou toda a turma.

O de fato culpado, então acuado, sem pestanejar apontou para um moleque de quem nem gostava mesmo. Ele estava de pé, não prestava atenção na aula e conversava com outro amiguinho. Onde há fumaça há fogo, então ele acabou levando a culpa. Vingança é realmente um prato que se come frio. Antes ele o tivesse deixado copiar sua tarefa de casa na semana passada, talvez o apontado seria outro.

“Pode sair de sala!”, ordenou a professora.

“Mas fêssora…”

“Po…”

O garoto nem esperou ela terminar de falar, saiu batendo o pé. Para um bom entendedor, meia palavra basta. Pobre e inocente menino, sequer teve tempo de se defender. A vida é assim: manda quem pode, obedece quem tem juízo.

No ensino médio não foi diferente. Já um adolescente robusto, traiu sua namorada com a melhor amiga dela. Gosto não se discute. Ao serem pegos em flagrante alegou que foi a menina que o seduziu. A santinha do pau oco, como ele a acusou, tinha sido era chantageada e nem mesmo a verdade podia contar. Chantagista sem vergonha, diria dona Odete. O jovem sem escrúpulos possuía um vídeo comprometedor dela com outro rapaz e ameaçou postar para todos da escola se eles não ficassem. É, no fim das contas, o seguro morreu de velho!

Como nada é tão ruim que não possa piorar, sem saber da verdade, a namorada traída acreditava que quando um não quer, dois não brigam, e assim pôs fim a grande amizade que existia entre elas. Quem ama o feio, bonito lhe parece, tanto é que perdoou o namorado. Sua amiga até hoje alimenta a esperança de que ela também a perdoe, de fato a esperança é sempre a última que morre.

E assim foi vivendo impune o lobo em pele de cordeiro, que na faculdade colocava o seu nome nos trabalhos sem ao menos ter feito coisa alguma, seus supostos amigos aceitavam numa boa. É a velha história: quem cala consente. Todos cegos da pior espécie, aquela que prefere não ver.

Já como um marmanjo corpulento e formado, arrumou trabalho numa firma de renome. Como gato escaldado tem medo de água fria, não se abria muito com os colegas de trabalho, apenas com seu chefe. Queria conquistar a amizade dele por interesse puro, vivia jogando verde para colher maduro. Mas o tal chefe era um cara desconfiado, sempre com um olho no peixe e outro no gato. Então o saradão não teve escolha, ou melhor, fez a única escolha que sua índole permitia: puxou o tapete do chefe e tomou o seu lugar. Quem não tem cão caça com gato mesmo. Dinheiro não traz felicidade é uma ova, pensava ele. É a vida! Amigos, amigos, negócios à parte.

Mas como nada dura para sempre, certa noite, por coincidência ou não do destino, o três por quatro caiu do cavalo. Acabou atropelando um casal de velhinhos. Alcoolizado e com várias multas de trânsito, fugiu sem prestar socorro. Se tivesse parado para ajudar teria salvo a vida deles.

Seu Geraldo, o santo homem do qual falei no início, que Deus o tenha, sempre dizia que coincidências não existem, elas são a maneira que o Pai encontrou de permanecer no anonimato. Ele tinha razão, há males que vem para o bem. Sentindo-se encurralado, o homicida pensou logo num álibi. Decidiu parar seu carro na frente de uma construção. Sabendo que na manhã seguinte estariam ali vários operários trancou-se dentro do porta malas simulando que fora sequestrado. Quando os funcionários da obra chegassem, ele faria barulho e chamaria a atenção do pessoal que o libertaria. Assim, poderia pôr a culpa do atropelamento nos supostos bandidos. Não perderia sua habilitação e nem responderia por crime algum, ou seja, como se já não bastasse, mataria mais dois, só que desta vez coelhos, com uma cajadada só. Todos aqueles trabalhadores, sem muito grau de instrução, seriam as testemunhas perfeitas para garantir, mais uma vez, sua impunidade. É assim: em terra de cego, quem tem um olho é rei. O plano também seria perfeito se não fosse um único detalhe: a pressa. Essa é realmente inimiga da perfeição.

O dia clareou. Não era um dia qualquer, era o dia da caça e não mais do caçador. Quando a cabeça não pensa, pelo menos direito, é o corpo que padece. Por isso é melhor prevenir do que remediar. Se ele fosse realmente prevenido poderia até valer por dois. Seu segundo eu, portanto, o tiraria dali facilmente. Mas quem com ferro fere, com ferro será ferido. Há remédio para tudo nessa vida, menos para a morte. 

O incidente ocorreu na sexta-feira à noite, não numa sexta qualquer, mas numa sugestiva sexta-feira Santa. Nada como um dia depois do outro. O sábado era de Aleluia e o domingo, de Páscoa. Nenhum operário apareceu para trabalhar, em nenhum desses dias. Aleluia!

Quem está na chuva é para se molhar, então só lhe restavam duas opções: se correr o bicho pega, se ficar o bicho come, mais ou menos assim. Chuva, ironicamente, era só o que desejava. Mas com nuvem baixa e um sol que racha, começou o coitado a, literalmente, cozinhar dentro daquele porta malas, minúsculo em relação ao seu tamanho. O tiro acabou saindo pela culatra. Ninguém o ouviu gritar, até que sufocou comido pelo bicho. Ao brincar com fogo, acabou de fato se queimando. Breve foi sua loucura e longo seu arrependimento. Aqui ele fez, aqui ele pagou. Acabou colhendo o que mesmo plantou e do próprio veneno, sem saber, experimentou.

Dona Odete e seu Geraldo também já partiram desta para melhor. Partiram juntos, como juntos viveram, tudo bem que atropelados pelo mesmo homem que agora cozido estava, mas Deus, que escreve certo por linhas tortas, tem mais para dar do que o Diabo para tirar. Não é que a velha estava certa: a justiça tarda mas nunca falha!

🙏

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sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

Crônica "Felicidade self-service", por Rafael Caputo



Sextou! É assim que andam dizendo por aí, né? Chega o fim de semana e é sempre a mesma coisa: surgem inúmeras postagens com o tal bordão na internet. São fotos de pessoas se arrumando para cair na noite, imagens de amigos já na balada, gente bebendo etc. Uma felicidade só! Ironicamente, foi numa “infeliz” sexta-fire (sexta-feira* — culpa do corretor) que percebi uma coisa: você já viu alguém brindar com o copo vazio? Não!? Sabe por quê? Porque o brinde é um ato de celebração, de comemoração. Por consequência, o copo deve estar sempre cheio, como um sinal de abundância, de fartura. Essa é a lógica! Brindar com o copo vazio, inclusive, dá azar. Pelo menos é o que dizem as más línguas e isso, com certeza, você já deve ter ouvido.

Só que ao contrário do que acontece em um bar, onde os amigos estão prontamente dispostos a encher seu copo, na vida — quando se trata da SUA FELICIDADE — é você quem deve mantê-lo sempre cheio. De preferência, até a boca. Essa responsabilidade é única e exclusivamente sua e de mais ninguém. Postando você ou não, ou melhor, gostando você ou não. E ao contrário do que acontece nas redes sociais, a felicidade não se resume a um único dia da semana ou, ainda, a hashtags do momento.

Sendo assim, não me traga seu copo vazio esperando que eu o complete por você. Não venha me marcar nas fotos ou brindar comigo sem antes encher o seu próprio copo primeiro. É isso mesmo! É a chamada felicidade self-service. Faça você mesmo! A vantagem é que você pode enchê-lo quantas vezes quiser, como refil de refrigerante de lanchonetes fast-food. Seja na sexta ou em qualquer outro dia da semana. Na maioria das vezes, só depende da sua vontade e, acredite, é realmente de graça. Talvez, em algumas situações, há de se pagar o preço. Ainda assim, só você será capaz de enchê-lo o suficiente a ponto de transbordar.

Depois disso, — aí sim! — chegue mais perto, erga o copo e #vamosjuntoscelebrar. Pode até postar como stories, mas não esqueça de compartilhar na sua linha do tempo. Tim-tim.

🍺

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terça-feira, 18 de janeiro de 2022

5 livros de autores nacionais que você deveria conhecer


Como leitor, escritor e editor, tenho o prazer e privilégio de conhecer centenas de obras nacionais e internacionais. São inúmeros títulos lançamentos mensalmente. Mas destaco alguns títulos de autores que venho acompanhando nessa jornada literária. São eles: José M S Freire, autor de ficção científica que vem se destacando com o título "Tamara Jong". Freire criou uma coleção magnífica de 6 obras ricamente trabalhadas, mostrando ser um exímio conhecedor do gênero FC.  Roberto Schima, outro exímio escritor. Schima é um autor incansável, com inúmeras participações em antologias, possui obras solo e domina a arte de contar uma boa história. Sérgio Simka e Cida Simka, escritores ativos que dominam o português e a arte da escrita, com livros didáticos, como "Prática de Escrita ", título que já expõe o que o leitor encontrará na obra. Rafael Caputo, provavelmente o mais jovem da lista, mas que vem ganhando cada vez mais leitores com seus textos bem elaborados e criativos. E Bert JR, ativo escritor gaúcho e ganhador de prêmios literários, escreve excelentes poemas, contos e crônicas. 

Os autores citados podem ser de cidades e gêneros diferentes, mas todos possuem algo em comum: a paixão pela escrita.   

TAMARA JONG: O CHAMADO DE ÚLION - JOSÉ M S FREIRE 

Universos paralelos, portais interdimensionais, viagens interestelares, mundos futuristas, guerras interplanetárias e tantas outras coisas que intrigam e fascinam a humanidade há longo tempo, mas que ainda permanecem como mistérios a serem revelados em um futuro longínquo, tornam-se, de repente, a mais pura realidade para uma jovem coreana. Tamara Jong, campeã de taekwondo e espadachim do estilo Hankumdo, após deixar a Coreia do Sul com a mãe, uma viúva que se estabelece como empresária no Rio de Janeiro, vê-se, inesperadamente, arrebatada para um mundo de outra dimensão. Tudo aconteceu porque a garota, que adquirira o hábito de treinar seus novos amigos nas artes marciais durante as manhãs de Sábado e Domingo, na Floresta da Tijuca, é confundida com uma poderosa guerreira. O povo do planeta Úlion, que fora dominado por uma raça invasora, vê em Tamara a sua chance de reconquistar a liberdade perdida. Um jovem revolucionário, chamado Zorach, pede a ela para ensinar seus companheiros a lutar, para que eles possam fazer frente aos terríveis inimigos. Sensibilizada com a situação dramática do simpático povo de cabelos vermelhos e olhos azuis, Tamara responde ao chamado para a luta, engajando-se, de corpo e alma, numa guerra cruel e sangrenta. Com sua coragem, determinação e a implacável espada nas mãos, ela logo se torna a mais temível e respeitada combatente das fileiras ulianas.

CINZA NO CÉU - AUTOR: ROBERTO SCHIMA

A exemplo da minha coletânea anterior, "Sob as Folhas do Ocaso", "Cinza no Céu" reúne histórias que foram publicadas na revista digital "Conexão Literatura", editada por Ademir Pascale. Seus vinte e sete contos abrangem fantasia, horror, ficção científica, nostalgia em quase setecentas páginas. Este livro, assim como "Limbographia", "O Olhar de Hirosaki" e "Sob as Folhas do Ocaso" são retalhos de mundos diversos que preencheram minha mente, nos quais mergulhei, me perdi, me achei, por vezes com relutância em voltar. Para mim, eles existem de verdade. Estou neles. Estão em mim. E são aquilo que deixarei para trás.

CARNE FRACA - AUTOR: RAFAEL CAPUTO

“Carne Fraca” é o segundo romance do escritor Rafael Caputo, autor finalista do Prêmio Kindle de Literatura em 2019, que traz novamente a cidade de Curitiba como cenário de suas tramas. A capital paranaense, conhecida como uma “cidade europeia” em pleno Brasil, esconde vários segredos do velho mundo, guardados a sete chaves por alguns descendentes de estrangeiros e membros remanescentes de famílias tradicionais, como a família Sampaio, do carioca Fábio. Que, como seus antepassados, migrou para o sul do país em busca de certa redenção. Usando uma narrativa peculiar, a obra explora uma relação confusa (quase doentia) entre três personagens: Fábio, Manuela e Gizele. Esta última é possessiva e obcecada, faz de tudo para conseguir o que deseja, que no enredo é destruir a relação de Fábio e Manu, só para fisgar o professor de informática bonitão, que – em várias ocasiões – é complacente com as investidas da insistente consultora imobiliária e atriz de teatro amador, capaz de absolutamente tudo para alcançar seus objetivos. Uma atração assim irá trazer consequências perturbadoras para ambos e, principalmente, para quem cruzar seus caminhos. Manuela, por sua vez, é como a maioria das garotas: insiste em acreditar no amor, menos no amor próprio. Por conta disso, acaba sofrendo graves consequências. Principalmente, pela dificuldade em lidar com seus próprios sentimentos, buscando aliviar suas dores emocionais por meio de uma prática nada convencional: a da automutilação. Culpa de sua personalidade depressiva potencializada por uma involuntária síndrome de Asperger. Já Fábio é mulherengo, dissimulado e inconsequente; características que dão um toque a mais na relação já conturbada dos protagonistas. Chega a ser quase um triângulo amoroso. Fruto dos delírios e do talento de Rafael Caputo, a história trata dos perigos de brincarmos com os sentimentos dos outros e chama a atenção para uma grande verdade: as pessoas não são o que normalmente aparentam. Não, a maioria delas. Além de apresentar um desfecho inesperado, o autor ainda surpreende a todos com um final alternativo fora do comum, presenteando o leitor com uma experiência literária insana.

PRÁTICA DE ESCRITA - AUTORES: CIDA SIMKA E SÉRGIO SIMKA

A escrita sempre foi e sempre será fator essencial na existência de qualquer ser humano. Ela representa a porta de entrada e de saída para as oportunidades de transformação de vida, seja no aspecto intelectual, pessoal, profissional ou social, além de ser facilitadora para se conviver melhor em sociedade. E não há como dissociar a escrita da leitura, recurso igualmente primordial para que haja interação entre as pessoas.

EU CANTO O ÍPSILON E MAIS

BERT JR. é gaúcho de Porto Alegre, onde viveu até os 26 anos. Depois de graduar-se em História pela UFRGS, formou-se em Diplomacia pelo Instituto Rio Branco, em Brasília. Sua experiência como diplomata o levou a conhecer vários países. Publicou em 2020 o livro Fict-Essays e contos mais leves pela Labrador. Também compõe músicas e letras. Mantém perfis nas redes sociais para a divulgação de seus trabalhos literários e musicais. Eu canto o ípsilon E mais é seu primeiro livro solo de poesia.

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sábado, 15 de janeiro de 2022

Poesia "Retorno adiante", por Rafael Caputo



Fui por tempo indeterminado, vim prazo de validade vencido.
Fui semente em solo fértil, vim fruta madura longe do pé.
Fui tudo pode acontecer, vim nada está em seu lugar.
Fui desenho para colorir, vim borrão a ser apagado.
Teimoso, voltei.

Fui arco-íris, vim azul-solidão — cor da saudade.
Fui sexta-feira santa, vim quarta-feira de cinzas.
Fui copo meio cheio, vim cálice meio vazio.
Fui folhas em branco, vim faltando páginas.
Frustrado, voltei.

Fui licença poética, vim desculpa plagiada.
Fui fazer acontecer, vim não tive tempo.
Fui brilho nos olhos, vim cego catarata.
Fui múltipla escolha, vim única opção.
Sem saída, voltei.

Fui grito de gol, vim zero a zero.
Fui erre jota, vim cê dáblio bê.
Fui parabéns, vim pêsames.
Fui sim e não, vim talvez.

Cansado de voltar,
Adiantei-me
E retornei.


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quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

Em um relacionamento extraconjugal com a Literatura, por Rafael Caputo

 


Tudo começou com pequenos flertes aqui e acolá, ainda na juventude. A expectativa era grande e chegamos a nos encontrar algumas vezes, mas o romance não vingou. Depois disso, cada um seguiu seu caminho. Ficamos afastados por um bom tempo. Quarenta anos para ser mais exato. Até que o destino (irônico como sempre) nos uniu novamente. Isso foi em 2017. De lá para cá, investidas despretensiosas marcaram o compasso de nossa relação. Pelo menos, no início. Inevitavelmente, o tesão só aumentou, não posso negar. E vem se tornando cada vez mais potente e irresistível.

Fazendo jus à alcunha de amante, ela me resgatou do cotidiano monótono de uma vida sem graça, me salvando de um vazio existencial sem precedentes. Alguns dizem que isso só aconteceu porque eu estava vulnerável, fragilizado. Outros, afirmam que sucumbi à paixão. Simples assim! Os mais céticos, entretanto, falam da crise dos “enta” para justificar nossos devaneios. Isso mesmo: nossos (no plural), pois estamos nos encontrando às escondidas já faz algum tempo, confesso!

Em muitos momentos, nos vemos de madrugada, na calada da noite, depois que todos já foram dormir. Em outras ocasiões, bem cedinho, antes mesmo do galo cantar e acordar todo mundo. Às vezes, marcamos de nos ver no meio da tarde, graças a uma escapadinha rápida do trabalho, ou na correria da hora do almoço, ou até mesmo na sala de espera de um consultório qualquer, quando dá. Isso explica a intensidade dos nossos encontros. Sei que ela merece mais, muito mais. Digo isso a ela, muitas vezes. Sem falsas promessas, eu juro! A verdade é que, infelizmente, a vida adulta é feita de prioridades. Não somos mais os jovens inconsequentes e imaturos de antigamente. Temos responsabilidades. Por mais que eu queira (e queira muito), não posso simplesmente jogar tudo para o alto a fim de viver uma louca paixão, seria imprudente e insensato. Eu tenho família, filhos para sustentar. Filhos legítimos, não bastardos como os que concebemos. É complicado, eu sei. E dói mais em mim, pode apostar! É claro que sinto orgulho de nossas crias, mas somente orgulho não enche barriga, sejamos práticos.

Não me interpretem mal, por favor! Saibam que, ainda assim, passo os dias saciando minha alma com porres de esperança. Shakespeare que me perdoe, mas me nego a sermos como Romeu e Julieta, prefiro mil vezes Florentino e Fermina, de Gabo. Leve o tempo que for, não importa; com ou sem cólera.

Resumindo, nada mais sou do que um sonhador, um otimista em início de carreira que alimenta uma contida paixão pelo universo literário com a esperança de um dia viver, pura e simplesmente, desse amor.

Quem sabe as coisas não comecem a andar mais rápido daqui por diante? O ano novo já fez a sua parte e nos trouxe um presente: ganhamos um cúmplice. Alguém que se compadeceu (mesmo sem saber) por nosso caso secreto de amor, esse amor clandestino. O chamarei de “Padrinho”, nada mais justo. A convite desse amigo literário, aqui estou eu. Agora, um colunista. Um escritor que segue digitando alucinado, numa tentativa aflita de imortalizá-la com rápidos toques por minuto. Prometo dar a ela toda a atenção merecida. Irei me esforçar como nunca para fortalecer nossa conexão ainda mais. Licença poética à parte, nossa Conexão Literatura.


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