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sexta-feira, 5 de agosto de 2022

Conto “A Terra das Boas Promessas”, por Roberto Fiori


— Temos de fugir, Mestre.

— Assim como os outros, Sidney?

Sidney coçou a barba comprida e emaranhada e disse:

— Há de haver um jeito, Apolonius.

— Não há mais guerreiros entre os que sobraram, amigo. A fé foi perdida e as esperanças se escoaram para o breu sem cor, sem vida.

— E se....

— Nem sugira, nem tenha falsas ambições, amigo. Quer que o resto de nós acabe como as sete tribos do Oriente?

— E os boatos?

Apolonius era alto, corpulento, mas estava cansado. Como os outros, acampados no salão de pedra, exaurira-se, esgotara-se. Fora campeão entre os peregrinos, nas Olimpíadas de Zeus e Odin, mas isso era passado. Um passado digno, porém, fantasioso. Disse:

— Esqueça. Morreremos, isto é certo. Uns cedo, outros mais tarde. Mas você sabe o que aconteceu aos que tiveram esperança em excesso, não? — ele esperou e calou-se. Sidney podia ser inconstante, imprevisível, mas sabia o bastante sobre o Massacre. E disso, Apolonius não tirara nenhuma lição profunda ou enigmática para ensiná-lo. Era simples questão de viver ou morrer. — Cheguei aos cento e dez anos. Vi coisas demais, meu melhor discípulo. Lá. Veja o horizonte e diga-me se estou errado. É uma nuvem que avança, areia seca e mortal, que vem, ou minha visão está tão falha que não consigo distinguir entre elementos da natureza e nós mesmos?

Sidney apertou os olhos e fitou a linha duvidosa entre a areia e o céu azul. A vista de Apolonius continuava perfeita. A melhor. O amigo e estudante disse-o ao Mestre e este bateu com seu cajado de ferro no solo. Falou:

— Então estou certo. Sidney, é chegado o momento de nos despedirmos como Professor e Aluno. Como Mestre e Discípulo. Como Sábio e Pessoa-que-o-Reverencia. Somos amigos, pertencentes à mesma casta, à mesma tribo. Está certo, quando vê a nuvem se formando a dez quilômetros de altura, a cem quilômetros de distância. Neste deserto, não há esperanças. Há somente água aqui, e só neste lugar há proteção.

Por que entramos no deserto, afinal, Apolonius? Foi um jogo do Destino ou erro seu, sábio dos sábios?, matutou o homem baixo, envolto em tecido branco, que deixava entrever os olhos. Estavam rente ao teto, no ponto mais elevado da enorme entrada da caverna avermelhada. Do lado oposto a eles, caía a única fonte-d’água que eles conheciam, uma cascata com cem metros de altura, correndo a partir do interior das rochas no teto e despencando no centro de um círculo vazio, sem que se soubesse para onde o fosso levava.

Os homens haviam construído um sistema de canais que levavam a água para outros pontos da caverna. Calhas feitas de cascas duras de plantas comestíveis conduziam as centenas de metros cúbicos de líquido que jorravam por hora para reservatórios entalhados na rocha, ao lado da cascata, e no interior da gruta. Por todo perímetro da caverna, calhas foram aproveitadas para que houvesse água suficiente para todos... por todo o ano.

Mas, com a chegada da tormenta de areia, Apolonius sabia que aquele imenso esforço havia sido em vão. Como Sidney o acreditava, da mesma forma.

 

--//--

 

Os sons no salão ecoavam amplificados, à medida que o erudito falava à multidão. Mas Sidney descera e se encontrava no lado exterior da abertura na rocha vermelha. Caminhava olhando para baixo, acompanhando suas passadas lentas e firmes. Sem ideias para resolver aquele quebra-cabeças de vida e de morte, dava voltas ao redor do exterior da gruta, pensando que, com aquela peregrinação sem começo nem fim, uma ideia luminosa poderia vir à superfície.

Levantou a cabeça, suspirando, e notou uma estranha depressão na areia. Como todos os membros de sua tribo, trazia em suas vestes uma adaga afiada e pontuda, feita do fêmur de um animal morto a centenas de quilômetros de distância, no trajeto que fizeram desde Omluark, a Terra do Início. Sidney raspou, com a extremidade de sua lâmina, a depressão, canaleta encoberta pela areia. Um quadrado de duzentos metros por novecentos e cinquenta metros se revelou.

— Tragam todos os homens, mulheres e crianças. Inclusive Apolonius!

Os três mil humanos rodearam a estranha formação. Seus lados eram perfeitos, retos, sem se desviarem de seu percurso retilíneo. Isso Sidney o percebia, mas Apolonius foi o único outro integrante da tribo que o viu.

— Sidney, reparou no que eu já percebi?

— Os lados são retilíneos, perfeitos. A estrutura é um quadrado de noventa graus em seus ângulos dos vértices.

— E...?

— Os seres do espaço vieram e cavaram a areia, deixando este abrigo...

— Ou nave... — o ancião alto começou, sendo ecoado pelo jovem:

— Ou nave...

— Para transportar, sairmos desse pedaço de rocha arenosa... vamos cavar!

Todos cavaram, com os objetos que trouxeram de Omluark, que usavam para plantar sementes, abrir buracos nas paredes de pedra e argila e para construir calhas e outros objetos para armazenar água.

A nuvem de areia mortal estava a dois dias de distância, quando conseguiram chegar ao último nível da pirâmide rochosa. A pirâmide era uma construção de basalto rugoso e todos se dedicaram a abrir cavidades para entrar no edifício.

— O basalto é resistente, Apolonius — comentou o amigo para o erudito.

Em dez minutos de silêncio, em que Sidney pensara que ele se manteria quieto, o sábio disse:

— Tragam água e os recipientes negros e brancos que guardei em minha casa, na caverna.

Apolônius descreveu como um superácido o produto que guardara nos recipientes brancos. Disse para deixarem-nos encostados às paredes da pirâmide, deitados, e que pusessem as vasilhas fechadas de cor negra junto aos recipientes alvos.

O Mestre dos Mestres abriu com imenso cuidado os recipientes brancos, fechados a ponto de as tampas estarem quase soldadas ao corpo dos vasilhames, revelando um pó de cor esbranquiçada que preenchia os potes até a metade. Com mais cuidado ainda, despejou o pó branco junto às paredes da pirâmide, sem que tivesse contato com a substância. Foi nesse momento que falou para trazerem partes das calhas, de cinco a seis metros de comprimento, e vinte a trinta armações que as sustentassem para que formassem declives de, no máximo, seis metros de altura.

Montaram as estruturas e, olhando sempre para a nuvem de poeira sufocante que parecia que chegaria a qualquer momento, ordenou que destampassem os recipientes negros e saíssem correndo. Com o auxílio de baldes, Apolônius ordenou que trouxessem trinta e cinco litros de água.

Com o auxílio de pirâmides humanas, onde cada pessoa se apoiava nos ombros dos homens do nível inferior, os humanos alcançaram seis metros de altura e montaram as calhas.

Derramaram a água sobre as substâncias e houve um chiado, acompanhado de borbulhas e o superácido reagiu com a substância catalisadora dos vasilhames negros. A multidão recuou alguns metros da pirâmide. Explosões ensurdecedoras e fumaça corrosiva fizeram o estrago pretendido. As calhas foram despedaçadas e uma parte do resistente basalto da pirâmide foi pelos ares.

A pirâmide pode ser adentrada. Patamares de pedra e basalto duro e áspero compunham o seu interior. Apolonius disse para que Sidney fechasse a abertura que haviam feito.

— Mas como faremos para que a abertura seja fechada por completo, sem que haja orifícios ou fendas?

— Use isto, Sidney, misture com areia e use água para criar uma argamassa de composição fundida.

Como mágica, o pouco que havia do ingrediente que Apolonius dera a Sidney esquentou e endureceu, aumentando seu volume, ao ser manuseado, e tornou-se o mais resistente e duro material da pirâmide. Sidney via ao redor como os homens se maravilhavam ao descobrirem os tesouros que existiam na construção. Comida, guardada em potes de barro endurecido, e que exalava um aroma maravilhoso e de dar água na boca. Um material frio, liso e transparente, como ninguém havia visto, exceto Apolonius, encerrava nível a nível plantas comestíveis, cujas mudas e sementes podiam ser plantadas na terra fértil que existia no interior da construção. Água, sim... água existia em tanques de dez mil litros, lacrados, mas que podiam ser aproveitados... havia, próximo ao topo dos imensos tanques, orifícios de todos os tamanhos, tampados com objetos de madeira e ferro. Foi só destamparem os tanques que água pura escoou em jatos finos, mas constantes. Era só fechar cada orifício, que não se perdia água alguma.

É isso, Apolonius aconselhou a todos, sentados no décimo pavimento, a partir do topo da pirâmide, jamais deixem a água escoar sem motivo. Usar com inteligência e sabedoria faz parte de nossa sobrevivência. Haverá uma hora em que partiremos de nosso Mundo de Areia, para nos estabelecermos na Terra, Lua, Marte e as luas de planetas gigantescos gasosos. Meu pai me contou sobre a Terra. Só posso descrevê-la como um paraíso, onde nada falta e viveremos como vivemos aqui, mas com a ausência de um deserto perigoso. Haverá muito verde das florestas e o azul dos oceanos e rios. Em todos os lugares haverá comida em abundância e água existirá em maior quantidade, ainda.

Um dia decorreu e ouviram as primeiras rajadas de vento e areia. Já haviam explorado trinta níveis da pirâmide enterrada. Mas o basalto e a pedra de que compunham as paredes estavam imersos sob a superfície e nada aconteceu. O pouco da pirâmide cuja areia que a cercava fora descoberto, no topo, resistiu aos açoites da areia mortal.

— Sei que tudo o que me falou e me ensinou até hoje é verdadeiro. Vi como a Matemática, a Geometria e a Álgebra podem ser complexas e, ao mesmo tempo, dominadas por mentes como a sua — disse Sidney a Apolonius, enquanto desciam uma escada no quadragésimo nível da pirâmide. Ali, havia o que o Mestre da Matemática procurava. O que completava sua erudita formação. — Mas, desculpe-me por duvidar, como sairemos desse planeta? A força propulsora dos motores de uma astronave com as dimensões deste edifício deverá ser colossal...

— Venha até aqui, Sidney. Veja com seus olhos.

Sidney aproximou-se do erudito e viu, em uma mesa esférica, negra, a imagem de pirâmides subindo e convertendo areia em vidro, à medida em que o fogo das detonações nucleares da base de seus edifícios-astronaves queimava e cristalizava tudo o que havia sob eles.

Sidney tocou o vidro da superfície da tela à sua frente e milhares de imagens, convertidas em filmes e hologramas, passaram para sua mente, acompanhadas de cálculos, demonstrações, a sabedoria dos antigos, que haviam caído na superfície e reparado suas astronaves, escapando à morte no seco Mundo de Areia. Sidney viu como, no centésimo nível a partir do topo da astronave, motores hercúleos os levariam às estrelas, à Terra e seu Sistema Solar, em particular.

Podemos chegar aos controles antes da semana findar, Mestre!

Apolonius pousou sua mão no ombro de seu ex-discípulo e falou:

— Não sou seu Mestre, Sidney. A partir do tempo em que descobriu o topo da astronave, tornei-me seu amigo. Mas esperemos todos se reunírem no décimo nível. Enquanto não se reúnem nele, estude esta tela de instruções. Será um dos pilotos desta astronave, portanto, saiba tudo sobre a nave. Outros virão, eu os organizarei em grupos. Eles saberão, também, dos mistérios da propulsão da fusão nuclear.

Sidney absorveu, em um dia, o que filósofos e sábios teriam levado anos para colocar em prática, sobre a nave. Alcançou os princípios de como construir tal astronave e como consertar qualquer parte de sua estrutura, no espaço.

O mesmo aconteceu com cem outros homens. Ansiavam pelo conhecimento que nunca tiveram. Em um dia, todos podiam ser qualificados como engenheiros astronáuticos, mas conheciam mil vezes mais do que os seus irmãos terráqueos jamais o souberam, na Terra.

Apolonius foi o primeiro a atingir a câmara de propulsão. Imenso salão, um espaço de profundidade impressionante. Seriam necessários dez a vinte dias para explorar aquele colosso. Porém, havia elevadores. Pontes rolantes entre as paredes do maciço. Escadas auto-extensoras, que levavam a qualquer ponto do vazio.

Descendo por um elevador transparente, em meio à escuridão do vazio, o Mestre dos Mestres chegou à base da pirâmide. Era simples o que existia, em aparência. Complexas eram as leis físicas que possibilitaram trazer a nave a tão longínqua distância, como a Terra se encontrava.

Ele saiu do elevador principal e andou por uma passarela entre dois imensos cilindros-mestre, carcaças de dois motores nucleares que, perto deles, os homens eram meras miniaturas. Havia mil propulsores e Apolonius suspirou de prazer. Ao lado do elevador que levara o sábio até ali, outros se abriram. Humanos procuravam... algo. Naquele lugar, luz era projetada do interior dos motores e do espaço entre cada um deles, paralelos entre si. Deixaram de se maravilhar com fantasia e ficção e aceitaram a realidade como a única ficção que existia, concreta e admissível.

Apolonius viu um platô de metal, a cinquenta metros, que se alargava entre dois elevadores. Gritou para que todos se encontrassem naquele lugar.

— Somente cem indivíduos, dos três mil que somos, poderão pilotar esta astronave. Os outros viajarão em nichos, em segurança. Há água, comida e medicamentos deixados pelos nossos antepassados. Passem a informação de que em dez dias partiremos. Vocês, pilotos, já saberão tanto quanto os Antigos, então. Os demais poderão passar o tempo a estudar, atingindo, no nível das esferas de reeducação, um ponto que em tempo algum vocês poderiam alcançar. Ou poderão dormir durante a viagem inteira. A decisão é de cada um, e a cada um caberá a responsabilidade de seguir com tal decisão ou mudar de ideia, durante a viagem. Calculo que se passará um mês de nosso planeta natal, o Mundo de Areia, até chegarmos ao Sistema Solar.

Todos, menos Apolonius, subiram para os níveis superiores. Os pilotos familiarizaram-se com os instrumentos destinados à propulsão e à direção da nave. Sidney, no último dia antes da partida, memorizou equações que tinham pouco sentido para ele, no início de sua educação. Agora, podia, e deveria ser capaz de lidá-las tanto nos instrumentos de controle, como em sua mente. Talvez fosse perda de tempo, mas ele descobriu alguma coisa estranha, sobre os propulsores. Programados para levá-los anos-luz para o espaço profundo, mesmo eles eram dados a falhas.

Sidney procurou Apolonius.

— Das quinhentas equações de direcionamento da astronave, duas delas estão com elementos faltantes. Descobri isso hoje.

— Pode conclui-las, suponho.

— Apolonius, examinei mil e quinhentas equações e vetores fusionais. Só essas duas equações são o suficiente para nos perdermos entre as galáxias, a milhões de anos-luz de qualquer uma.

Apolonius começou a caminhar, a um ritmo elevado, para o nível das esferas educacionais. Disse:

— Em qual delas viu a falha? Pretendo confirmar o que penso.

— Nesta — Sidney respondeu, andando até um dispositivo negro, salpicado de pontos de luz dourada. Flutuava no ar, a dez centímetros de altura.

Apolonius entrou em contato com a superfície dela, pousando sua mão sobre a esfera semilíquida. Moveu seus dedos de um lado para o outro, sussurrando.

— Descobri a falha, Sidney. Teremos de reconstruir um módulo de controle completo, entre dois painéis de direção. Venha comigo. Mostrar-lhe-ei o quanto essa astronave é capaz de fazer.

No quinto nível, onde os pilotos se posicionariam, o teto era alto e o Mestre retirou, de uma reentrância da parede, acima dos painéis de comando, cinco bolsas confeccionadas de material marrom e resistente. Colocou-as no chão e apontou-as.

— Sidney, esse material que envolve as ferramentas de trabalho, circuitos, peças mecanoides e disruptores de segurança, é maravilhoso. Nem com a mais afiada de nossas navalhas conseguiríamos fazer um corte sequer nas bolsas. Mas sei o que perguntará. Como abri-las? Veja este nódulo, esta parte que lembra uma costura, feita em suas vestes. Ele fecha ou abre a sacola. Assim.

Apolonius agarrou com o polegar e o indicador duas partes do nódulo e pressionou-as para dentro do vinco. Um estalo e parecia que... sim, a bolsa se abrira.

— Mostre para os outros. Agora, já sabe também como fechá-la — e Apolônius bateu em seus ombros. — Não se esqueça. Mantenha a mente preparada. Eu irei dormir na viagem. Meu físico está enfraquecido, não sou mais o mesmo de quando completei cem anos. Venha comigo, vou lhe mostrar os motores de propulsão. Você já os tem em sua mente, aprendeu o que era possível sobre fusão e fissão nuclear, o bastante para construir um propulsor atômico.

Mas uma das mulheres da tribo tinha outras ideias na cabeça. Havia aprendido como construir um artefato explosivo de grande poder. Desceu em outro elevador para o primeiro nível e escondeu-se entre dois cilindros de propulsão.

— Vê aquele circuito, cheio de transistores orgânicos, que se conectam a outros, e mais outros?

— Sim, é um dos bloqueadores de radiação.

— Exato! Sem esses dispositivos, a radiação se espalharia para o restante da nave. Não é um propulsor de fissão nuclear, este, mas certamente a radiação proveniente dos propulsores, que incidirá para o espaço, se espalhará para este nível, vaporizando-o por completo. Os bloqueadores de radiação são tão importantes, que, sem eles, a nave se transformaria em uma pirâmide de radiação gama. E se desintegraria.

— É óbvio que... espere, Apolonius, espere um pouco — sussurrou o rapaz. Sidney abaixou-se e rastejou até o propulsor seguinte, na fila de motores, e virou à direita. Chegou à esquina de quatro interligações e flagrou a traidora instalando o explosivo junto a um dos propulsores.

— Te peguei! — o rapaz falou, pulando sobre a terrorista. Ela sacou sua lâmina de trinta centímetros de comprimento e desferiu um golpe contra Sidney. Este desviou a arma e cravou o metal do seu punhal no ombro da outra. Ela era resistente. Cortou a pele do queixo do adversário e tentou esfaqueá-lo no estômago. O humano era ágil, porém. Desviou-se e cortou as costas da mão que empunhava a lâmina da moça. Ela largou seu punhal e chutou Sidney entre as pernas. Ele caiu.

A moça começou a correr. Se escapasse, poderia ser o fim de todo o projeto. Sidney a perseguiu de perto, sem ligar para a dor nos testículos. A moça chegou a um dos elevadores, já aberto no nível dos propulsores, mas Sidney chegou junto. Ela socou-o no rosto e nas costelas e o homem a prendeu pelo pescoço contra a parede do elevador. A jovem chutou-o com todas as forças, mas ele ignorou a dor no estômago, jogando-a contra o chão.

— Pare! O que queria fazer, destruir os motores?

Ele apoiara o joelho no tórax da traidora. Chegaram outros. Apolonius abriu espaço entre o grupo de curiosos.

— Recue, Sidney.

Apolonius fechou os olhos dela e sussurrou: Ah-leva-mandivh!

— Se tentarmos sair, os propulsores explodirão. Não viram a falta de elementos matemáticos periódicos nas duas equações transurânicas? — ela perguntou.

— Consertaremos essa falha, Gradibh. Diga-me apenas quem mais deseja destruir os motores... por favor, sim?

Gradibh lutou contra, mas Apolonius segurou as mandíbulas da mulher com a outra mão. Forçou seus olhos a ficarem fechados. Murmurou frases. Fez conexões com a mente da terrorista.

— Agora, sei quais os integrantes da sociedade secreta de Gradibh, Sidney. No vigésimo nível, há uma ala que serve para isolar os elementos perigosos da sociedade astronáutica que viera para o Mundo de Areia.

Sidney observou como Gradibh se prostrara no elevador, sob a ação de Apolonius. Ergueu-a e a segurou contra a parede.

— Vou levá-la ao vigésimo nível, amigo. Organizarei um grupo de busca.

Apolonius encostou os dedos anular, médio e indicador na testa do outro. Todas as informações que o Mestre conseguira, passara para Sidney.

— Agora, pode ir.

Em cinco dias, trinta dos cinquenta membros da equipe organizada por Sidney colocaram os rebeldes sob vigilância, atrás de uma espécie de campo de força. E, no décimo dia, todos os três mil homens, mulheres e crianças da tribo estavam deitados nos catres ou sentados nos assentos dos pilotos. Engenhosos, feitos para anular a aceleração da astronave na hora da decolagem, até chegarem à órbita do Mundo de Areia.

A decolagem foi um ribombar de mil bombas de hidrogênio, que abalaram a estrutura da astronave. Sidney não podia se mover, assim como os demais. Portanto, aquietou-se. Fechou os olhos e imaginou como seria a Terra. Gramados, existentes no ponto de onde vieram, atravessando o deserto, existiriam no mundo de destino. Animais marinhos, como só conhecera através das descrições de Apolônius, povoavam os  ocenanos. Tudo o que não havia no Mundo de Areia existia na Terra. Sabia, por intuição, que seriam bem-sucedidos, as duas equações matemáticas falhas agora estavam corrigidas.

A nave libertou-se das milhares de toneladas de areia que a cobriam e um quadrado de luz azul brilhante se revelou, da base da pirâmide.

Sidney e os outros pilotos traçaram a rota para a estrela mais próxima, Rigel, que atingiriam em dois dias. A nave passou a cem milhões de quilômetros da estrela e continuou em seu percurso programado. Alcançariam Bettelgeuse, Marduk, Sírius, Alpha Centauri e, por fim... Terra.

Nada mais foi penitência ou sacrifício para os viajantes. Nada foi perigoso, nas campinas e florestas terrestres. A beleza do céu, azul e branco das nuvens, cativava o grupo. Encontraram milhares de outros humanos e, como pessoas semelhantes, miscigenaram-se.

No Mundo de Areia, restaram tempestades mortais.

Na Terra, a Ciência foi desenvolvida. Ir às estrelas não era ambição dos povos terrestres, no momento, mas um dia, se tornaria objetivo inquestionável.

A Noite caiu.

A atmosfera tropical, onde pousaram, era agradável e, o que era surpreendente, nada abafada ou causticante.

Ficariam ali por algum tempo, um milhão de anos, talvez. Partiriam, quando se cansassem da Terra.

A Terra de seus parentes humanoides, a Terra das promessas que Apolonius sempre contara a Sidney e à sua tribo.



SOBRE  O AUTOR:
Roberto Fiori é um escritor de Literatura Fantástica. Natural de São Paulo, reside atualmente em Vargem Grande Paulista, no Estado de São Paulo. Graduou-se na FATEC – SP e trabalhou por anos como free-lancer em Informática. Estudou pintura a óleo. Hoje, dedica-se somente à literatura, tendo como hobby sua guitarra elétrica. Estudou literatura com o escritor, poeta, cineasta e pintor André Carneiro, na Oficina da Palavra, em São Paulo. Mas Roberto não é somente aficionado por Ficção Científica, Fantasia e Horror. Admira toda forma de arte, arte que, segundo o escritor, quando realizada com bom gosto e técnica apurada, torna-se uma manifestação do espírito elevada e extremamente valiosa.

Roberto Fiori sempre foi uma pessoa que teve aptidão para escrever. Desde o ginásio, passando pelo antigo 2º Grau, suas notas na matéria de redação eram altas, muito acima da média. O que o motivava a escrever eram suas leituras, principalmente Ficção Científica e Fantasia. Descobriu cedo, pelo mestre da Fantasia Ray Bradbury, que era a Literatura Fantástica que admirava acima de qualquer outro gênero literário.

Em 1989, sob a indicação de uma grande amiga sua, Loreta, que o escritor conheceu a Oficina da Palavra, na Barra Funda, em São Paulo. E fez uma boa amizade com o maior professor de literatura que já tive, André Carneiro. Sem dúvida alguma, se não fosse pelo André, Roberto nos diz que jamais saberia o que sabe hoje, sobre a arte da escrita. Nos cursos que ele ministrava, o autor aprendeu na prática a escrever, as bases de como tornar uma mera história de ficção em uma obra que atraísse a atenção das pessoas.

“Futuro! – Contos fantásticos de outros lugares e outros tempos” é uma obra parte Fantasia, parte Ficção Científica, parte Horror, e que poderá vir a se tornar realidade, quer em outra época, no futuro, quer em outra dimensão paralela à nossa. Vivemos em um Cosmos que não é o único, nessa teia multidimensional chamada Multiverso. Ele existe, segundo as mais avançadas teorias da cosmologia. São Universos Paralelos, interligados por caminhos ou “wormholes” – buracos de minhoca. Um “wormhole” conecta dois buracos negros, ou singularidades, em que a gravidade é tão elevada que nada pode escapar de sua atração gravitacional, nem mesmo a luz. Em tais “wormholes”, o tempo e o espaço perdem suas características, tornam-se algo que somente pode-se especular e deduzir matematicamente.

“Futuro! – Contos fantásticos de outros lugares e outros tempos” é uma coletânea de treze contos e noveletas. Invasões alienígenas por seres implacáveis, ameaças vindas dos confins da Via Láctea por entidades invencíveis, a luta do Homem contra uma raça peculiar e destrutiva ao extremo, terrível e que odeia o ser humano sem motivo algum. Esses são exemplos de contos em que o leitor poderá não enxergar qualquer possibilidade de sobrevivência para o Homem. Mas, ao lado de relatos de pesadelo, surgem contos que nos falam de emoções. Uma máquina pode apresentar emoções? Ela poderia sentir, se emocionar? Nosso povo já esteve à beira da catástrofe nuclear, em 1962. Isso é realidade. Mas e se nossa sobrevivência tivesse sido conseguida com uma pequena ajuda de uma raça semelhante à nossa em tudo, na aparência, na língua, nos costumes? E que desejaria viver na Terra, ao lado de seus irmãos humanos? Há histórias neste livro que trazem ao leitor uma guerra milenar, que poderá bem ser interrompida por um casal, cada indivíduo situado em cada lado da contenda. E há histórias de terror, como uma presença, não mais que uma forma, que mata, destrói e não deixa rastros. 
Enfim, é uma obra de ficção, mas que poderá vir a se revelar algo palpável para o Homem, como na narrativa profética da destruição de um planeta inteiro.

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sexta-feira, 15 de julho de 2022

Conto "O Destino do Homem", por Roberto Fiori

 

Lançamento de foguete ao espaço pela Empresa SpaceX: com ela e mais meia dúzias de poderosos fabricantes de foguetes, espera-se atingir Marte... e além

“Era uma época indistinta... sem mudanças significativas... Os campos foram abandonados, os alimentos deixados em armazéns e silos, para apodrecerem...  Nas cidades, as construções civis haviam estagnado e, de um dia para o outro, o dinheiro não valia mais nada. Começou-se o negócio de trocas. Um microcomputador valia três quilos de arroz, sem que se percebesse que tal falta de visão dos comerciantes levaria à ruína, o novo sistema econômico vigente.

“As forças armadas se reuniram em Ostrogod, à beira do Mar Negro, a Leste, e no Estreito de Gibraltar, a Oeste. Lançaram-se os primeiros e últimos mísseis termonucleares. Alguns foram eliminados, pela ação dos lasers em órbita da Terra e pelos mísseis antimísseis dos lados Ocidental e Oriental. Porém, muitos passaram pela cortina defensiva, e destruíram, primeiro, as forças bélicas de ambos os lados e, depois, as capitais de todas as cidades do mundo. A seguir, lançaram-se armas nucleares de menor poder destrutivo, as táticas. Acabaram com o restante de civilização que ainda havia, no mundo dito civilizado.” 

Fazia calor. Um mormaço abrasador de trinta e dois graus e um céu de brigadeiro, azul, com rolos de nuvens flamejantes. O Sol estava sempre oculto pelas nuvens, como se quisesse se esconder, se iludindo de repente ao perceber o quanto a Humanidade o odiava. O resto dos seres humanos odiavam o Sol, o ar, a terra, o mar, a água dos rios e lagos. O ar radioativo matava e isso fora alertado, antes da Época do Massacre.

Analisando-se o problema de outra forma, porém, erigira-se, entre os escombros da Cidade do México, a mais populosa que houvera em qualquer época, uma estátua de Jesus Cristo. Os que estavam em um raio de cem metros de distância da construção podiam viver. Fora do raio de alcance dela, estava-se por sua própria conta e risco.

As refinarias haviam sido destruídas pelos mísseis nucleares táticos. Então, acabara-se com os Séculos dos Veículos, como foram chamados os séculos XX e XXI. Não havia navios, pois, sem combustível, eles não podiam mais navegar. Era também óbvio que todo meio de transporte, mesmo os impulsionados por um sistema elétrico de tração, foram eliminados da jogada. As usinas hidrelétricas, as termelétricas e nucleares haviam sido alvos preferidos dos lados Oriental e Ocidental, em seguida aos alvos militares.

Tudo fora pensado. A falta de dinheiro redundou no sistema mais óbvio que se podia pensar, para restabelecer a paz mundial, o sistema de troca de mercadorias. Mas o homem, ambicioso, dava valor ao que era seu e não ao que era valioso para outros. Um sistema de som profissional que custava dez mil reais passara a valer duzentos reais ou menos, em comida.

Porém, ninguém pensou que a radiação mataria o solo e, com isso, as sementes. Não existiam suprimentos, após meio ano e, com a fome, veio o barbarismo. Grupos de bandidos delinquentes resolveram aplacar a dor da fome por meio do canibalismo. Aos poucos, os que foram bem vistos pela antiga civilização se juntaram a tais grupos.

Você poderia pensar que isso acabaria com os seres humanos. Na verdade, antes de se devorarem, foi organizada, no mundo inteiro, a caça às espécies animais e vegetais que podiam ser comestíveis. Todos invadiram as florestas que restaram, em busca de fauna e flora que pudesse ser destrinchada e devorada. Bastou cinco dias para os que enviaram noventa por cento dos integrantes dos grupos selvagens percebessem que ninguém voltaria, jamais. Havia alguma coisa entre as árvores, que impedira os homens, mulheres e crianças de voltarem com vida.

Decretou-se Estado de Calamidade. Dez por cento da Humanidade sobrara. Caçaram-se uns aos outros. O homem devorava o homem, até mesmo de forma crua e bárbara! A fome continuava. Ninguém sabia no que a Terra se transformaria, após o último homem ser extinto. Mas a radiação dera fim nos últimos dez homens, mulheres e crianças que haviam restado. Todos adoeceram, seus órgãos internos apodrecendo, sob a dose letal que precipitava e se espalhava pela crosta terrestre. Os que se esconderam em “bunkers” mataram-se uns aos outros. Isso foi novidade.

Sob as Montanhas Rochosas e sob o Himalaia, os figurões dos governos dos Estados Unidos e Rússia viviam da noite para o dia, sabendo que, uma hora, as provisões lá estocadas acabar-se-iam. Mas algo se infiltrara até mesmo a dez quilômetros de profundidade e ordenara que os dirigentes mundiais se aniquilassem. No “bunker” do Ocidente, detonou-se no Comando do NORAD uma bomba de cem megatons de potência. O solo tremeu. A terra afundou um pouco. Mas no Oriente as coisas foram trágicas. Lutou-se pelos mantimentos protegidos por guardas dos Exércitos da China, Rússia e Coreia do Norte. A carnificina que sobreveio não pode ser contida. À base de mordidas, socos e pontapés, mataram-se milhares. As crianças... foram as primeiras a serem trucidadas. Depois, as mulheres. Os homens formaram quadrilhas para roubar comida e matar para devorar. As hortaliças, crescendo em soluções hidropônicas, foram arrancadas de seus nichos e o caos imperou. Carne foi jogada entre as multidões das cavernas de aço e sangue correu. Quem tinha uma faca, estava em vantagem, pois disparara-se toda munição que se achara, até que, nos níveis inferiores, onde havia a maior parte das munições e armas de combate, algo se misturara à atmosfera. Atuando no cérebro dos homens, impedira que alguém descesse.

Era como se a única forma de se destruir fosse pelo canibalismo.

Mas uma única e numerosa família sobreviveu, nas praias do litoral Sul do Estado de São Paulo, em um país chamado Brasil. Ninguém dera a mínima por esse grande e pobre país, pois dele não se podia confiar em ninguém, em políticos, nos empresários, no clero, nos cientistas e no povo em geral. Era uma das nações que se supunha não poder sobreviver por si mesma, então, não se gastara mísseis balísticos nas capitais do país. A única coisa que havia em comum com o resto do mundo era o canibalismo e os efeitos dos ventos radioativos, que sopravam do Golfo do México e do Oceano Atlântico.

Essa família cresceu em meio à radiação, sem ser afetada por ela. Cresceu. Houve vários desentendimentos e dos cinquenta membros, vinte partiram para o Sul, Centro-Oeste, Norte e Leste. A maior parte continuou na Praia Grande, onde tinham vivido, até então. Construíram casamatas, onde se abrigariam, caso houvesse ameaças. Armaram-se com fuzis militares e toda sorte de munição e peças de artilharia. Sabiam pilotar caças de guerra. Armazenaram milhões de galões de gasolina e querosene para os aviões e reformaram automóveis de todos os tipos. Formaram uma sociedade completa. Atingiram mil integrantes em um ano. Determinados a sobreviver e lembrando-se da vida luxuosa que tiveram, reconstruíram suas moradias. Inaugurou-se um centro para estudar os efeitos da entidade que impedia que os homens dos outros países de lutarem com armas de fogo.

Um vírus, se é que se podia chamá-lo desse modo, controlava a mente do ser humano. Levara à catástrofe nuclear e ao canibalismo. Quanto mais se matava desse modo, mais ele se reproduzia. Isolou-se tal entidade e fizera-se experiências com ele. Era fácil destruí-lo. Podia-se dar cabo dele com água e sabão, ou com desinfetantes, álcool, gasolina, qualquer líquido que pulverizasse as moléculas que o formavam.

“Sou quem lhes conta esse relato fantástico. Mesmo que somente uma fração da Humanidade tenha restado, nossa genética foi mais forte... Ninguém tem o direito de dizer que não tentamos. Agora, nossa meta é colonizar a Lua. Temos uma plataforma pronta, de onde subirá um foguete de vinte estágios, em que dez deles levará astronautas à Lua e os outros dez estágios conduzirá o homem para Marte. Terraformar-se-á o planeta vermelho e alcançaremos Júpiter, Saturno, Urano... atingiremos em dez mil anos o restante da Via Láctea.

O Destino do Homem está em suas próprias mãos.

O Destino da Humanidade está em sua mente, suas emoções e sua bravura.

Um viva aos que sobrevivem e sobreviverão! 



SOBRE  O AUTOR:
Roberto Fiori é um escritor de Literatura Fantástica. Natural de São Paulo, reside atualmente em Vargem Grande Paulista, no Estado de São Paulo. Graduou-se na FATEC – SP e trabalhou por anos como free-lancer em Informática. Estudou pintura a óleo. Hoje, dedica-se somente à literatura, tendo como hobby sua guitarra elétrica. Estudou literatura com o escritor, poeta, cineasta e pintor André Carneiro, na Oficina da Palavra, em São Paulo. Mas Roberto não é somente aficionado por Ficção Científica, Fantasia e Horror. Admira toda forma de arte, arte que, segundo o escritor, quando realizada com bom gosto e técnica apurada, torna-se uma manifestação do espírito elevada e extremamente valiosa.

Roberto Fiori sempre foi uma pessoa que teve aptidão para escrever. Desde o ginásio, passando pelo antigo 2º Grau, suas notas na matéria de redação eram altas, muito acima da média. O que o motivava a escrever eram suas leituras, principalmente Ficção Científica e Fantasia. Descobriu cedo, pelo mestre da Fantasia Ray Bradbury, que era a Literatura Fantástica que admirava acima de qualquer outro gênero literário.

Em 1989, sob a indicação de uma grande amiga sua, Loreta, que o escritor conheceu a Oficina da Palavra, na Barra Funda, em São Paulo. E fez uma boa amizade com o maior professor de literatura que já tive, André Carneiro. Sem dúvida alguma, se não fosse pelo André, Roberto nos diz que jamais saberia o que sabe hoje, sobre a arte da escrita. Nos cursos que ele ministrava, o autor aprendeu na prática a escrever, as bases de como tornar uma mera história de ficção em uma obra que atraísse a atenção das pessoas.

“Futuro! – Contos fantásticos de outros lugares e outros tempos” é uma obra parte Fantasia, parte Ficção Científica, parte Horror, e que poderá vir a se tornar realidade, quer em outra época, no futuro, quer em outra dimensão paralela à nossa. Vivemos em um Cosmos que não é o único, nessa teia multidimensional chamada Multiverso. Ele existe, segundo as mais avançadas teorias da cosmologia. São Universos Paralelos, interligados por caminhos ou “wormholes” – buracos de minhoca. Um “wormhole” conecta dois buracos negros, ou singularidades, em que a gravidade é tão elevada que nada pode escapar de sua atração gravitacional, nem mesmo a luz. Em tais “wormholes”, o tempo e o espaço perdem suas características, tornam-se algo que somente pode-se especular e deduzir matematicamente.

“Futuro! – Contos fantásticos de outros lugares e outros tempos” é uma coletânea de treze contos e noveletas. Invasões alienígenas por seres implacáveis, ameaças vindas dos confins da Via Láctea por entidades invencíveis, a luta do Homem contra uma raça peculiar e destrutiva ao extremo, terrível e que odeia o ser humano sem motivo algum. Esses são exemplos de contos em que o leitor poderá não enxergar qualquer possibilidade de sobrevivência para o Homem. Mas, ao lado de relatos de pesadelo, surgem contos que nos falam de emoções. Uma máquina pode apresentar emoções? Ela poderia sentir, se emocionar? Nosso povo já esteve à beira da catástrofe nuclear, em 1962. Isso é realidade. Mas e se nossa sobrevivência tivesse sido conseguida com uma pequena ajuda de uma raça semelhante à nossa em tudo, na aparência, na língua, nos costumes? E que desejaria viver na Terra, ao lado de seus irmãos humanos? Há histórias neste livro que trazem ao leitor uma guerra milenar, que poderá bem ser interrompida por um casal, cada indivíduo situado em cada lado da contenda. E há histórias de terror, como uma presença, não mais que uma forma, que mata, destrói e não deixa rastros. 
Enfim, é uma obra de ficção, mas que poderá vir a se revelar algo palpável para o Homem, como na narrativa profética da destruição de um planeta inteiro.

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sexta-feira, 24 de junho de 2022

Conto "Onde Surgem os Sonhos do Espaço Infinito", por Roberto Fiori

                 

Dois Universos Paralelos: no extremo de nossa compreensão, em outra dimensão que não a nossa, poderia existir outro Universo, com tudo o que nosso Cosmos possui, mas em oposição. Haveria outra Terra, outra Lua, outro Sistema Solar, outra Via Láctea, porém seriam como  imagens refletidas em um espelho.

Um ponto de luz. Ao menos uma luz, na imensidão do escuro firmamento, para me satisfazer com seu calor diminuto. As viagens na dimensão do espaço sem fim são tão eternas, quanto monótonas.

Os neurônios do cérebro da nave sobrecarregar-se-iam de energia mortal, se tivessem a mínima noção do que é o infinito. O que causa ilusões tresloucadas. O que transforma homens em zombies sem consciência. Mas, o que é a consciência de um homem, em comparação com o inconsciente coletivo de uma astronave classe M?

Naves que podiam tudo, graças a seu centro de controle organometálico.  Os únicos objetos sem vida que podiam pensar e gerar feixes de energia quântica, transportando-se para uma enésima dimensão sem descrição possível.

Estou no caminho para um Universo Paralelo, o único até agora descoberto, e que é um espelho de tudo o que o nosso Cosmos é. Segundo o cérebro da nave, conteria o oposto a tudo o que conhecíamos. Fico pensando nisso... e odeio a forma pela qual chego a certas conclusões. Violência, depravação, sentimentos de raiva insana e uma farta dose de sadismo...

Pouso o braço na concavidade da poltrona e um líquido azul-claro penetra em uma veia de meu pulso. Muda o meu ânimo para o de um homem revigorado, satisfeito, um explorador do infinito, sem medo de qualquer coisa que se mexa. É claro que, sem o fator tempo, tempo da Terra, é impossível estabelecer comparações e conclusões acertadas. Por isso, é que há cinco relógios atômicos, regulados para o tempo terrestre, no painel de controle, para o qual meu tronco se inclina.

A imobilidade de uma nota soada única é o requisito para a imutabilidade de uma viagem sem destino... é o que está escrito no monitor do supercomputador que controla toda a viagem. Ignoro tal absurdo. Como notas musicais se comparariam à escuridão sem movimento na qual nos encontramos? Mas, de fato, se você pensar bem, uma viagem absurda e ilógica poderia ser comparada ao soar de um Dó ou um Fá sustenido, repetido sem interrupção ao longo da Eternidade.

Luz! Finalmente, luz! Na matéria sem consistência que nos tornamos podemos estabelecer, por fim, uma comparação entre o que há ao nosso redor e o que conseguimos enxergar. Um som de maquinaria voltando à vida me alcança. Pisco os olhos, secos de tão abertos que se encontravam. Mexo meus braços, tirando o pulso da concavidade na qual descansa. Sem necessidade de drogas para recuperar o ânimo perdido, retorno à realidade sem ilusões. Pisco os olhos e movimento-me. Ativo os controles de descida, os motores de empuxo reduzidos a jatos de vapor, faço contato com o cérebro da nave e vejo o mundo-Terra no qual descerei.

Alcanço o Equador. Uma ilhota pouco maior que a astronave se aproxima. Um quilômetro, quinhentos metros, trezentos metros, cem metros, cinquenta metros... pousei! Nada melhor que pisar em ambiente de gravidade, após centenas de anos terrestres passados em velocidade c e 0 Gs.

Levanto a proteção do comando de abertura da comporta de saída e pressiono o interruptor. Sem nenhuma necessidade de uma roupa especial, pois sei o que vou encontrar, saio de meu assento de Comandante e me dirijo à saída. Inspiro fundo. Aromas de flores e plantas desconhecidas. Não há mares ou oceanos, apenas desertos e ilhotas situadas acima das areias escaldantes... Na atmosfera, corvos negros e urubus buscando carniça. Levanto meu binóculo telescópico e dou um giro. Nada! Absoluta ausência de água ou vegetação, quanto mais de habitantes! Mas, de onde vêm esses aromas?

Um buraco no chão, a dez metros da nave, atrai minha atenção. Vapores sobem do poço. Aproximo-me e vejo lama em ebulição, que lança perfumes de rosas e hibiscos, em dado momento. Em seguida, aromas de pinheiros e nozes. A seguir, cheiro de amores-perfeitos e dicotiledôneas. Consigo discernir um rosto, na matéria quente.

— Saia! Saia! Saia! Saia...

Minha mente entra em colapso. Estou preparado para o que vier. Imobilizo-me, com toda a força de vontade que tenho.

— Fora daqui! Ou morrerá... Fora daqui! Ou morrerá... Fora! Fora! Fora!...

Um fio de saliva corre do canto de minha boca. Alcanço minha pistola de raios com a mão. Destravo a trava de segurança da arma. Levanto-a e disparo. Continuo disparando. O buraco se abre e lodo negro se espalha. Devo ir...

Dou meio passo para trás. Viro-me e ando trôpego até a astronave. Com supremo esforço, passo pela comporta aberta. Sento-me esgotado na poltrona dos passageiros, a mais próxima de mim. Sem olhar para os controles auxiliares da mesa de comando da poltrona, ativo a comporta, que se fecha. Digito, o pescoço torto, olhando para o vazio, as coordenadas de volta.

Estou bem, deixando ao esquecimento a forma de vida que me levaria para a não existência. Sem aplicar-me o soro da imobilidade, durmo. A viagem será curta. Foram dez trilhões de anos-luz, deste planeta até a Terra. Sei que estou seguro, agora.

Volto em paz. É o que procuro, há muito. Alcançar a paz de Cristo, Buda e Maomé. Atingir o Nirvana e o Céu. Tocar as Valquírias. Dedilhar o infinito e compreendê-lo, de uma só vez.

Sim.



SOBRE  O AUTOR:
Roberto Fiori é um escritor de Literatura Fantástica. Natural de São Paulo, reside atualmente em Vargem Grande Paulista, no Estado de São Paulo. Graduou-se na FATEC – SP e trabalhou por anos como free-lancer em Informática. Estudou pintura a óleo. Hoje, dedica-se somente à literatura, tendo como hobby sua guitarra elétrica. Estudou literatura com o escritor, poeta, cineasta e pintor André Carneiro, na Oficina da Palavra, em São Paulo. Mas Roberto não é somente aficionado por Ficção Científica, Fantasia e Horror. Admira toda forma de arte, arte que, segundo o escritor, quando realizada com bom gosto e técnica apurada, torna-se uma manifestação do espírito elevada e extremamente valiosa.

Roberto Fiori sempre foi uma pessoa que teve aptidão para escrever. Desde o ginásio, passando pelo antigo 2º Grau, suas notas na matéria de redação eram altas, muito acima da média. O que o motivava a escrever eram suas leituras, principalmente Ficção Científica e Fantasia. Descobriu cedo, pelo mestre da Fantasia Ray Bradbury, que era a Literatura Fantástica que admirava acima de qualquer outro gênero literário.

Em 1989, sob a indicação de uma grande amiga sua, Loreta, que o escritor conheceu a Oficina da Palavra, na Barra Funda, em São Paulo. E fez uma boa amizade com o maior professor de literatura que já tive, André Carneiro. Sem dúvida alguma, se não fosse pelo André, Roberto nos diz que jamais saberia o que sabe hoje, sobre a arte da escrita. Nos cursos que ele ministrava, o autor aprendeu na prática a escrever, as bases de como tornar uma mera história de ficção em uma obra que atraísse a atenção das pessoas.

“Futuro! – Contos fantásticos de outros lugares e outros tempos” é uma obra parte Fantasia, parte Ficção Científica, parte Horror, e que poderá vir a se tornar realidade, quer em outra época, no futuro, quer em outra dimensão paralela à nossa. Vivemos em um Cosmos que não é o único, nessa teia multidimensional chamada Multiverso. Ele existe, segundo as mais avançadas teorias da cosmologia. São Universos Paralelos, interligados por caminhos ou “wormholes” – buracos de minhoca. Um “wormhole” conecta dois buracos negros, ou singularidades, em que a gravidade é tão elevada que nada pode escapar de sua atração gravitacional, nem mesmo a luz. Em tais “wormholes”, o tempo e o espaço perdem suas características, tornam-se algo que somente pode-se especular e deduzir matematicamente.

“Futuro! – Contos fantásticos de outros lugares e outros tempos” é uma coletânea de treze contos e noveletas. Invasões alienígenas por seres implacáveis, ameaças vindas dos confins da Via Láctea por entidades invencíveis, a luta do Homem contra uma raça peculiar e destrutiva ao extremo, terrível e que odeia o ser humano sem motivo algum. Esses são exemplos de contos em que o leitor poderá não enxergar qualquer possibilidade de sobrevivência para o Homem. Mas, ao lado de relatos de pesadelo, surgem contos que nos falam de emoções. Uma máquina pode apresentar emoções? Ela poderia sentir, se emocionar? Nosso povo já esteve à beira da catástrofe nuclear, em 1962. Isso é realidade. Mas e se nossa sobrevivência tivesse sido conseguida com uma pequena ajuda de uma raça semelhante à nossa em tudo, na aparência, na língua, nos costumes? E que desejaria viver na Terra, ao lado de seus irmãos humanos? Há histórias neste livro que trazem ao leitor uma guerra milenar, que poderá bem ser interrompida por um casal, cada indivíduo situado em cada lado da contenda. E há histórias de terror, como uma presença, não mais que uma forma, que mata, destrói e não deixa rastros. 
Enfim, é uma obra de ficção, mas que poderá vir a se revelar algo palpável para o Homem, como na narrativa profética da destruição de um planeta inteiro.

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sexta-feira, 3 de junho de 2022

Conto "Têmpera de Aço", por Roberto Fiori

          

            Silver McCollum era um homem único. Mantendo a sanidade, vangloriava-se de que podia enfrentar qualquer homem ou fera em luta. Gabava-se, exibindo seus músculos hipertrofiados, sua força superior. Falava que em um mundo de valentões e homens musculosos e fortes, ele era o primeiro da lista dos homens de físico mais dotado.

Sua arrogância era sem limites, mas evitava de qualquer maneira participar de um campeonato de fisiculturismo. O Mr. Olímpia é para os fracos e anormais!, disse ele para um campeão por sete vezes do concurso. E, para espanto de todos, desferiu um golpe de judô que lançou o campeão no chão. Segurou-o, impedindo-o de se levantar, e quando se cansou daquela perda de tempo, segundo ele, torceu o pulso redobrado do gigante do halterofilismo, até que ele pediu água.

Em uma ocasião em que quis demonstrar sua força que dizia ser inigualável, entrou em uma academia de musculação, a que detinha o número máximo de vencedores no Mr. Olímpia. A imprensa foi chamada, todos na academia já o conheciam. E suas bravatas. McCollum posicionou-se no centro do tatame reservado aos lutadores de caratê, que treinavam três vezes por semana. Ele estava com os pés calçados, o que era uma ofensa ao mestre de lá. Quando se vai entrar no tatame, deve-se tirar sapatos e meias e executar uma vênia em relação a uma imagem ou a um pagode em tamanho reduzido, fixado na parede. Há permissão, desse modo, para se adentrar ao espaço sagrado.

Silver McCollum fitou um a um os praticantes da luta, que lotavam o tatame. Ele falou:

— Se vocês se julgam grandes lutadores, por que não vejo me desafiarem e me confrontarem? Você, o da faixa negra. É um lutador encorpado, forte, com certeza. Venha até aqui.

O mestre olhou fixo para a face de Silver, sem desviar os olhos por um momento sequer. Ele olhou para o ginásio de musculação e discerniu três vencedores de campeonatos, um campeão olímpico medalha de ouro americano por uma vez, um gigante sem expressão vencedor do Mundial de Fisiculturismo por cinco anos seguidos, e um competidor fortíssimo, com mais de um metro e meio de ombro a ombro, peitorais de aço e pernas que eram troncos de árvore. Tinha alcançado por seis anos consecutivos o título de Mr. Olímpia e seis vezes levara a medalha de ouro nas Olimpíadas, nos últimos vinte e oito anos. Era um veterano. Os outros ginastas se mexeram inquietos. Todos sabiam da ofensa ao mini-pagode que encimava o tatame e, portanto, era uma ofensa a todos os lutadores de caratê.

— Se preferem assim... vou até vocês — ele se aproximou do mestre, um japonês faixa preta de nono dan, que o olhava com o rosto sem nenhuma expressão. Silver encostou a mão direita no ombro esquerdo do mestre e, em meio segundo, a tinha presa por um aperto de ferro do professor — Hummm... temos alguém forte, aqui. Continue segurando minha mão, japonês. O americano moveu sua mão para o pescoço do mestre e o levantou do chão. Jogou-o no ar, o japonês caindo de pé, dois metros afastado de McCollum. O outro olhou para suas mãos, treinadas por cinquenta ou sessenta anos em academias, no Exército Imperial do Japão, participado da Segunda Grande Guerra, mas a força bruta era algo um tanto rasteiro e rudimentar, para ele. Percebera agora que nem suas mãos, que rachavam telhas, tábuas de madeira, tijolos e barras de gelo ao meio, eram páreas para o oponente que tinha à sua frente.

Mas ele podia lutar em movimento e acreditava que ninguém nos Estados Unidos era mais rápido do que ele. Fora discípulo de Bruce Lee, lutara e vencera Chuck Norris e até acabara com Steven Seagal, em dois duelos rápidos e de repercussões mundiais, visto que fora provada a superioridade do Japão contra os Estados Unidos, nas artes marciais, tanto no combate contra um, como contra o outro campeão.

Moveu-se com lentidão estudada, ao redor de Silver. Este girava o corpo, acompanhando o movimento do mestre. O salto foi enganoso. Os pés do japonês cruzaram a distância entre os dois em uma fração de segundo, mirando a testa de McCollum. Porém, no último milésimo de segundo, quando os pés atingiriam o centro da testa em um golpe mortal, o oriental desviou seu alvo. Um dos pés atingiria o pomo-de-adão do americano e o outro, seus testículos.

Silver McCollum experimentara dois tipos de ansiedade, ao se defrontar com lutadores e levantadores fantásticos de peso, que erguiam mais de trezentos quilos de carga, no arranque. Mas com o japonês, ele não sentiu nada. Somente teve de levantar os braços, agarrar os pés do outro e lançá-lo contra a parede, a dois metros e meio de distância.

— Alguém mais se habilita? — ele perguntou, desviando os olhos do professor, que machucara as costas, com o impacto. McCollum deu um último olhar a ele, que se queixava de dores na região das omoplatas. Saiu do tatame andando, o que deixou de surpreender Silver, que previa que ele seria ferido de forma superficial. Ele não era um matador, havia usado uma fração de sua força física.

— E quanto a vocês três? Por que não vem para o tatame?

Eles responderam:

— Você está calçado! Pisando no tatame, vagabundo! Acha que é o melhor porque derrotou um homem idoso! Venha aqui e lhe ensinaremos alguns truques, Conan de araque!

— Ora... por que não me explicaram antes? — E ele saiu do tatame, caminhando e se desviando dos aparelhos de ginástica. Chegando frente a frente com o gigante que demonstrava falta absoluta de emoção, disse: — E então, grandalhão, quer fazer as honras da casa?

Os três campeões se jogaram contra Silver McCollum, cada um desferindo socos e pontapés contra o adversário. Silver recuou e se desviou do ataque, agarrando duas anilhas de dez quilos. Atirou um dos discos perfurados no centro contra o gigante, que desviou o projétil com as mãos desmesuradas, de tão grandes. McCollum agarrou uma barra para se colocar anilhas nas extremidades e pulou, evitando que o outro campeão, medalha de ouro, o triturasse com seus punhos, que atingiram um banco para se fazer supino e uma barra para erguer pesos, suspensa no ar por um sistema de cabos e polias.

Silver esperou o campeão terminar de atingir os objetos e enfiou a extremidade de sua barra em seu estômago. Ao mesmo tempo, os outros dois adversários, o gigante e o outro campeão olímpico, fecharam todas as saídas daquele espaço. E avançaram para massacrar McCollum, com uma anilha de vinte quilos em cada mão.

Silver tirou sua barra de musculação da barriga do homem fortíssimo e atingiu seu nariz. Ele gritou. Os outros deram golpes com as anilhas, mas McCollum segurou-as e chutou com as duas pernas o estômago dos dois oponentes. McCollum caíra de costas no chão, mas dera uma cambalhota e se pusera de pé. Avançou contra o gigante e o levantou pela cintura, jogando-o longe, contra uma bicicleta fixa no chão. Com o peso do homem enorme, a máquina foi arrancada do chão e tombara. Silver virou-se para o último dos lutadores. Ele tentava estancar o sangue que corria das narinas e olhou apavorado para o adversário.

Silver agarrou o pescoço e o testículo do homem forte, que começou a gritar. Levantou-o e lançou-o em direção ao tatame, onde caiu, segurando seu nariz e seus testículos. Rolava no tecido verde do tatame, igual a um lagarto rastejante e moribundo. O terceiro campeão ameaçou atacar, mas desistiu e saiu do alcance de McCollum.

Silver tirou a camiseta branca que vestia. Não havia homem algum que pudesse competir com ele no Mr. Olímpia, era óbvio. Nem nas Olimpíadas ou nos Mundiais de Fisiculturismo. Ele mostrou os músculos, flexionando-os. Os participantes da academia murmuraram entre si, espantados. Havia inúmeros pequenos músculos em todas as partes do pescoço, dos ombros, das costas, do ventre. Mesmo Arnold Schwartzenegger ficaria obscurecido, em termos de físico esculpido por exercícios sem fim.

McCollum vestiu a camiseta e cumprimentou a todos. Quando saiu, disse:

— Treinem firme, que poderão competir comigo, em alguma academia da vida!

A rua estava sem muita gente ou automóveis que ao meio-dia tornavam-na intransitável. Eram dez da noite. Silver colocou as mãos nos bolsos das calças de sarja e assobiou. No caminho deu seu dinheiro a três moradores de rua, que suplicavam por um prato de sopa.

Quando chegou em seu prédio de apartamentos, abriu a porta para uma velhinha, que sofria de dores fortes nas costas e caminhava usando uma bengala. Acompanhou-a, segurando seu braço, até seu andar. Ela deu as chaves para o atleta, que abriu a porta do apartamento da senhora Smiles. Ela foi claudicando até o sofá da sala, sustentada pelo homem, que a segurou, para ela sentar-se com suavidade.

McCollum apartou uma briga entre um casal de nórdicos, que dividiam o décimo andar com o apartamento dele. O marido desferiu uma facada contra Silver, mas este segurou seu cotovelo pelo lado interno e apertou. O homem, que parecia ser um sueco, tentou levantar o braço, mas a dor foi intensa. Ele deixou cair a faca.

— Está drogado? Ou somente vítima de uma fúria assassina?

— Estou bem, você é quem interferiu!

— Teria surrado a mulher?

— Não, não... só preciso de uma noite de sono...

Silver apanhou a faca e a quebrou entre os dedos.

— O... quê? Como fez isso?

— Um truque de mágica. Só.

O grandalhão, que mal passava por sua porta, virou-se e a abriu.

— Nunca use armas. Você pode se machucar, amigo — e ele entrou no seu apartamento, o da esquerda.

O casal observou a lâmina da faca, quebrada e deixada no chão do hall do elevador.

— Quem é ele? — a mulher perguntou?

— Não sei. É novo, aqui.

— Trate de se controlar — sussurrou ela.

— E você — ele respondeu, baixo —, veja se me deixa usar mais o computador! Tenho de trabalhar!

O casal entrou em seu apartamento. A noite chegara. Os ruídos leves da madrugada logo chegariam, em sete horas. Cada um cuidando do que era seu, no prédio.
Namorados se amando, famílias se recolhendo para dormir, animais de estimação latindo ou miando, alguns papagaios crocitando nas áreas de serviço.

Silver McCollum apanhou um peso de duzentos quilos com uma mão, outro idêntico com a outra, e colocou-os nas extremidades da barra de levantamento de peso. Colocou-se na posição média, entre as anilhas, os pés por baixo da barra, e flexionou o tronco. Agarrou o haltere e inspirou. Levantou o enorme peso, expirando e colocando-o na posição de repouso, defronte ao quadril. Inspirou, levantou o haltere, expirando e colocando-o na altura do pescoço. Inspirou e levantou o peso acima da cabeça, expirando. Inspirou, desceu o peso...

Ele passou a noite e a madrugada com essa carga de duzentos quilos. Ao começar a sentir sono, acrescentou duzentos quilos às extremidades e fez cinco movimentos iguais aos anteriores, em uma única série.

Cansado, foi dormir. Amanhã, teria de treinar mais. E no outro dia, repetiria o numero dos movimentos com outra série de exercícios. E continuaria... continuaria... continuaria, até seu coração parar para descansar.



SOBRE  O AUTOR:
Roberto Fiori é um escritor de Literatura Fantástica. Natural de São Paulo, reside atualmente em Vargem Grande Paulista, no Estado de São Paulo. Graduou-se na FATEC – SP e trabalhou por anos como free-lancer em Informática. Estudou pintura a óleo. Hoje, dedica-se somente à literatura, tendo como hobby sua guitarra elétrica. Estudou literatura com o escritor, poeta, cineasta e pintor André Carneiro, na Oficina da Palavra, em São Paulo. Mas Roberto não é somente aficionado por Ficção Científica, Fantasia e Horror. Admira toda forma de arte, arte que, segundo o escritor, quando realizada com bom gosto e técnica apurada, torna-se uma manifestação do espírito elevada e extremamente valiosa.

Roberto Fiori sempre foi uma pessoa que teve aptidão para escrever. Desde o ginásio, passando pelo antigo 2º Grau, suas notas na matéria de redação eram altas, muito acima da média. O que o motivava a escrever eram suas leituras, principalmente Ficção Científica e Fantasia. Descobriu cedo, pelo mestre da Fantasia Ray Bradbury, que era a Literatura Fantástica que admirava acima de qualquer outro gênero literário.

Em 1989, sob a indicação de uma grande amiga sua, Loreta, que o escritor conheceu a Oficina da Palavra, na Barra Funda, em São Paulo. E fez uma boa amizade com o maior professor de literatura que já tive, André Carneiro. Sem dúvida alguma, se não fosse pelo André, Roberto nos diz que jamais saberia o que sabe hoje, sobre a arte da escrita. Nos cursos que ele ministrava, o autor aprendeu na prática a escrever, as bases de como tornar uma mera história de ficção em uma obra que atraísse a atenção das pessoas.

“Futuro! – Contos fantásticos de outros lugares e outros tempos” é uma obra parte Fantasia, parte Ficção Científica, parte Horror, e que poderá vir a se tornar realidade, quer em outra época, no futuro, quer em outra dimensão paralela à nossa. Vivemos em um Cosmos que não é o único, nessa teia multidimensional chamada Multiverso. Ele existe, segundo as mais avançadas teorias da cosmologia. São Universos Paralelos, interligados por caminhos ou “wormholes” – buracos de minhoca. Um “wormhole” conecta dois buracos negros, ou singularidades, em que a gravidade é tão elevada que nada pode escapar de sua atração gravitacional, nem mesmo a luz. Em tais “wormholes”, o tempo e o espaço perdem suas características, tornam-se algo que somente pode-se especular e deduzir matematicamente.

“Futuro! – Contos fantásticos de outros lugares e outros tempos” é uma coletânea de treze contos e noveletas. Invasões alienígenas por seres implacáveis, ameaças vindas dos confins da Via Láctea por entidades invencíveis, a luta do Homem contra uma raça peculiar e destrutiva ao extremo, terrível e que odeia o ser humano sem motivo algum. Esses são exemplos de contos em que o leitor poderá não enxergar qualquer possibilidade de sobrevivência para o Homem. Mas, ao lado de relatos de pesadelo, surgem contos que nos falam de emoções. Uma máquina pode apresentar emoções? Ela poderia sentir, se emocionar? Nosso povo já esteve à beira da catástrofe nuclear, em 1962. Isso é realidade. Mas e se nossa sobrevivência tivesse sido conseguida com uma pequena ajuda de uma raça semelhante à nossa em tudo, na aparência, na língua, nos costumes? E que desejaria viver na Terra, ao lado de seus irmãos humanos? Há histórias neste livro que trazem ao leitor uma guerra milenar, que poderá bem ser interrompida por um casal, cada indivíduo situado em cada lado da contenda. E há histórias de terror, como uma presença, não mais que uma forma, que mata, destrói e não deixa rastros. 
Enfim, é uma obra de ficção, mas que poderá vir a se revelar algo palpável para o Homem, como na narrativa profética da destruição de um planeta inteiro.

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