quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

Conto: "No conforto da esteira", por Katia S. Parente


*Katia S. Parente

Caminhava por trinta minutos na esteira todos os dias no final da tarde. Era como trabalhava seus músculos, após passar o dia inteiro sentado em frente ao computador judiando das teclas para crias histórias que seus leitores adoravam.
Na esteira havia um monitor onde o cronômetro e a quilometragem eram marcados, mas o mais divertido era um filme simulando lugares por onde andar.  A paisagem passava pela tela e parecia de fato estar lá. Ele escolhia sempre o percurso da Pacific Crest, Califórnia, uma trilha rodeada por árvores e picos nevados.
Raramente andava na rua, era muito trabalhoso. Calçadas acidentadas, carros, semáforos, muita coisa para prestar atenção. Na esteira selecionava a trilha com os picos nevados e não tinha qualquer preocupação.
Certa tarde, após finalizar um romance no qual vinha trabalhando há um ano, foi para a academia fazer sua caminhada. Subiu na esteira, selecionou a velocidade e depois o percurso. A trilha começava plana, rodeada por pinheiros e vez ou outra um chalé aparecia à margem, depois de alguns minutos era possível ver um rio caudaloso acompanhando o caminho e as montanhas cobertas de neve, igual açúcar de confeiteiro.
De repente a esteira começou a tremer. Parecia quando o metrô passava por baixo, mas desta vez foi mais forte e contínuo. As luzes piscaram e apagaram, o ambiente se tornou sombrio. Ele segurou nas laterais da esteira para não cair e olhou para os lados, a academia estava vazia e escura.
O tremor da esteira aumentou e uma força o puxava, atraindo seu corpo para o monitor da esteira. Ele segurou no suporte de braços, mas a força era enorme, sugava seu corpo para perto do monitor. Até que veio um apagão e tudo parou.
Quando abriu os olhos, estava em pé na trilha de terra cercada de pinheiros e montanhas nevadas. Ficou ali parado, sem entender nada. Só podia ser uma alucinação, talvez não houvesse comido direito! No entanto, o frio, o cheiro da terra e das árvores despertavam seus sentidos. Aquilo era real. Havia entrado na esteira.
Olhou para trás e não viu nada, estava sozinho. Decidiu que o melhor a fazer era seguir caminhando pela trilha até chegar em um dos chalés. Caminhou rápido, mantendo a velocidade da esteira para não passar frio.
A trilha era acidentada com buracos, pedras e desníveis, além dos trechos íngremes que exigiam mais esforço dos seus músculos. O chalé apareceu após uma curva, igual ao percurso da esteira. Era real! Ele se aproximou e olhou pela janela, não viu ninguém. Chamou por ajuda, nenhuma resposta. Continuou caminhando.
O rio caudaloso era o único ruído que trazia vida, de resto, nem pássaros. Caminhou por cerca de uma hora, já estava exausto. Na esteira não cansava tanto!
Ao atingir o pico de um morro, após uma subida tão íngreme que pensou que teria um enfarto, uma vista apareceu em sua frente; tão linda que mal pôde acreditar. Aquilo não aparecia no percurso da esteira!
Montanhas nevadas circundavam o vale por onde serpenteava o rio e ao fundo podia ver o oceano. Azul e imenso. Sentiu vontade de ir lá, viajar até aquele oceano lindo e ultrapassar aquelas montanhas imponentes. Poderia escrever um novo romance com essa experiência.
Uma águia soltou um grunhido atrás dele. Olhou para cima e viu o grande pássaro voando em direção ao mar, despertando ainda mais essa vontade de fazer as malas e cair no mundo.
Foi neste instante que o chão voltou a tremer. A terra escorregava precipício abaixo, em direção ao rio e as árvores farfalharam com um vento gelado, sentiu seu corpo arrepiar. A escuridão repentina caiu outra vez.
Quando abriu os olhos, estava em pé na esteira da academia. O visor exibia a mensagem: Parabéns! Você concluiu seu exercício. Fitou aquela frase por um instante e foi como se um clique houvesse estalado em sua cabeça.
Voltou para casa e após uma pesquisa rápida no Google, comprou uma viagem para a Pacific Crest Trail. Faria 800 dos 4.265 km.
Levou três meses de preparo, físico e emocional, e mais três meses para concluir o percurso. Ganhou bolhas nos pés, um joelho inchado, tornozelo e lombar estragados, mas escreveu seu livro e fez mais sucesso que os anteriores, afinal era um suspense baseado em fatos reais.
Após esta experiência, o conforto da esteira ficou só para os dias de tempestades elétricas, pois nem as chuvas o impedia de caminhar pelas ruas.


Katia S. Parente
é engenheira química e atua na área ambiental como professora e conteudista, escrevendo textos técnicos para a sua área de atuação. Começou a trabalhar como escritora há três anos e possui alguns trabalhos publicados como o livro Em busca da Fotografia Perfeita, pela Editora Chiado, A Lenda do Vale Seco, Editora Viseu, além de outros contos publicados no wattpad.com, onde está seu conto Café com leite, ganhador do prêmio Dois melhores contos de 2018, promovido pela revista Conexão Literatura.
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