domingo, 24 de maio de 2020

João Bernardo Oliveira e o livro Restos de Coragem


João Bernardo Oliveira, 41 anos, autor, terapeuta holístico e roteirista, formado pela Escola de Cinema Darcy Ribeiro. Carioca, torcedor do Botafogo (embora prefira o remo e rúgbi a futebol), é amante de um bom café e de música barroca, além de mate (do galão antigo) com biscoito globo na Praia do Leme, onde espera mergulhar outra vez quando tudo isso passar. 

ENTREVISTA:

Conexão Literatura: Poderia contar para os nossos leitores como foi o seu início no meio literário?

João Bernardo Oliveira: A literatura invadiu-me antes mesmo de eu percebê-la. No fundo de algum armário entulhado, escondem-se vestígios do que escrevia freneticamente aos garranchos, ainda nas primeiras séries do antigo primeiro grau. Naquela época, quase tudo era livremente “inspirado” em filmes, séries e HQs. Poderia mencionar as gravações em cassetes ou os primeiros rabiscos do que se pretendiam histórias em quadrinhos, não irei tão longe.
Seria difícil precisar minhas motivações na época. Um pouco de timidez ou o fato de o livro fazer-se presente em minha vida desde sempre. O lar não era daqueles super cultos onde as crianças mal nascem e já recitam grego, porém tive bastante incentivo à leitura por parte de minha mãe, que lia muito para mim. E quando eu ficava doente, era certo, leria algumas crônicas do Febeapá, de Stanislaw Ponte Preta. A solidão e a falta de opções recreativas foram outras grandes incentivadoras. Só em plena adolescência tive acesso aos meios de lazer doméstico da época, como videocassete e videogame. De algum modo, aquela vida, até certo ponto restrita, empurrou-me para a leitura e a imaginação. Reinações de Narizinho, por exemplo, longe de sugerir um programinha de TV, jogou-me em um cinema 4D trilionário. Seria impossível mencionar todos os tipos de incentivos que me conduziram à paixão pela escrita, um livro da série vagalumes emprestado por um primo mais velho aqui, livros intrigantes presenteados pela madrinha ali, a biblioteca de escola pública, os passeios pelo CCBB... Só para não deixar citar alguns.      
Embora o desejo de publicar estivesse sempre lá, somente com uns vinte e três anos, em plena faculdade de Direito, escreveria seriamente com esse fim. Período no qual publiquei alguma coisa. Só voltaria a publicar quase uma década depois na atual fase da vida. 

Conexão Literatura: Você é autor do livro “Restos de Coragem”. Poderia comentar? 

João Bernardo Oliveira: A trama de Restos de Coragem acontece num futuro, no qual o Rio Amazonas é povoado por colônias navegantes, embarcações que abrigam cidades inteiras. Brazil Novo (z mesmo) é a colônia onde transcorre toda ação do livro assim como os demais seis volumes da série inaugurada em Sol Enviesado. Todavia não há ordem obrigatória de leitura.
A ideia geral da hexalogia surgiu enquanto escrevia Sol Enviesado. Pretendi trabalhar a questão se, no futuro, as máquinas inteligentes seriam capazes de julgar o ser humano na dimensão dos sentimentos, no caso, se um juiz cibernético seria capaz de saber do arrependimento ou não de alguém. Isso, somente por meio de dados fisiológicos e bioquímicos. Na construção da trama, abriram-se algumas questões que, em resumo, abordam a timidez do bem contra a proatividade do mal, a tecnologia a favor e contra o ser humano. E no embate das perguntas veio a necessidade de explorar tal universo em uma série, que, no macro, englobam o mesmo ambiente e período. Cada história acontece no mesmo ano, podendo pegá-lo todo ou residir em uma pequena fração de dias ou em lapso ainda menor. Tudo isso dentro do ano em que Brazil Novo colapsou e foi invadida por selvagens.
Restos de Coragem, narra as aventuras de Rebeca em busca de socorro médico para uma jovem acometida de um mal misterioso, ninguém consegue acordá-la. Acompanharemos como Rebeca, jovem assessora parlamentar, se comportará em mundo onde tudo o que conhecia está corrompido. Se até poucos dias havia civilização, reinam agora a lei do mais forte e o caos. 
Enquanto isso, em uma outra região, Jorge deve escoltar uma caravana debilitada para longe da batalha crudelíssima de raios desintegradores contra lanças e flechas. Ele precisa redimir-se de um desvio fortuito que pode custar a honra da família. Jorge sobreviveu a missão suicida da qual só poderia sair morto ou com o inimigo neutralizado, coisa que nem de longe aconteceu. Não bastasse, o reencontro inesperado com um antigo amor abalará seu juramento.
Rebeca e Jorge são protagonistas proativos, que apesar de alguns momentos de hesitação e acabrunhamento, agem, perseguem suas metas. Isso, mesmo perdidos num labirinto mortal. Aliás enveredar pelo desconhecido, mesmo que de má vontade e empurrado a ferros pelos acontecimentos, é a tônica não só da série como de muitos de meus trabalhos. 

Conexão Literatura: Como foram as suas pesquisas? 

João Bernardo Oliveira: O livro que me custou mais em pesquisas chama-se Estrela Solidão, não só por ser uma saga de fantasia folclórica, como também inspirado ambientalmente no Brasil dos séculos XVII ao XIX. Nunca gastei tantas horas em pesquisas. Já em Restos de Coragem e Sol Enviesado a pesquisa resumiu-se a observação. Possivelmente, Sol Enviesado foi o mais dispendioso da hexalogia, foi análogo a um parto complicadíssimo ou o ato de fazer a fundação de um arranha-céu, a cada parágrafo o universo da série ia sendo criado. Ficou pronto coisa de ano e meio, já Restos de Coragem, foi rápido, em menos de três meses já estava pronto. Há, sem dúvida, a questão dos protagonistas. No primeiro livro, também há um protagonismo duplo, mas só um dos heróis é proativo qual os de Restos de Coragem, o outro protagonista, pelo contrário, sujeito introspectivo e até medroso, só se mexia fustigado ao extremo. E construir uma história em cima de um personagem quase inerte sem travá-la é de um esforço hercúleo, é ser obrigado a movimentar uma série de engrenagens para a coisa não parar. Restos de Coragem, pelo contrário, fluiu como se nem sequer eu precisasse digitar que Rebeca e Jorge continuariam sem mim.  

Conexão Literatura: Poderia destacar um trecho que você acha especial em um dos seus livros?  

João Bernardo Oliveira: Destaco um trecho curtíssimo, mas que oferece ao leitor a atmosfera de Restos de Coragem. 
“Por mais que se fizesse silêncio, os passos ecoavam em crescendo, isso não bastasse o ranger das rodas e de toda estrutura de madeira encharcada. Jonas a empurrava, Sérgio seguia escabreado entre Amanda e Rebeca. Iam todos numa linha. 
— Está tudo sossegado demais. — Suspirou ele. 
— Silêncio! Disse Amanda. Assim vai atraí-los.
— Onde estarão Júlia e Maíra? Não era para nos orientarem? 
— Silêncio, já disse! Quer que... Não se lembra como foi? 
Havia outros ruídos. Ruídos soturnos além do crepitar da tocha, dos rangeres da maca, dos passos ou do tremer de frio. Um murmúrio sorrateiro de um perigo que se aproximava num cerco. Máscaras de visão noturna flutuavam em torno deles, num baile de horror. Mas não viam nem ouviam, apenas pressentiam a atmosfera tenebrosa, que nada rememorava os andares atarefados, a gente bonita, os ternos, as blusas de uma sofisticação até sensual, e das sutilezas mais mínimas no bom trato. Não havia local com maior sensação de segurança em Brazil Novo do que Poder. Mas isso foi antes.”

Conexão Literatura: Como o leitor interessado deverá proceder para adquirir os seus livros e saber um pouco mais sobre você e o seu trabalho literário? 

João Bernardo Oliveira: Restos de Coragem e outros livros meus podem ser encontrados no Amazon. Pelo instagram @escritor_jb o leitor poderá acompanhar um pouco do meu dia a dia de autor.

Conexão Literatura: Existem novos projetos em pauta? 

João Bernardo Oliveira:  Minhas atenções estão voltadas para a confecção de um romance tipo realista. Outros projetos aguardam em uma lista caótica de espera, entre eles, o próximo da hexalogia, o segundo livro do universo de Estrela Solidão, a sequência de Prelúdio..., além de diversos trabalhos em revisão. 

Perguntas rápidas:

Um livro: Esaú e Jacó
Um (a) autor (a): Moacyr Scliar  
Um ator ou atriz: Fernanda Torres 
Um filme: Saneamento Básico, o filme.
Um dia especial: Um mergulho na Praia do Leme domingo de manhã e uma fatia do melhor brownie do mundo à tarde.

Conexão Literatura: Deseja encerrar com mais algum comentário? 

João Bernardo Oliveira: Despeço-me dos leitores da Conexão Literatura desejando que todos nós suportemos da melhor maneira possível esse período escabroso. E que boas leituras tragam algum alívio, como um córrego amaina o calor do deserto. 
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