sexta-feira, 10 de julho de 2020

Conto "Quando cai a noite", por Roberto Fiori


*Por Roberto Fiori

Estrelas binárias. Supernovas incendiando o céu noturno. Um buraco negro invisível tão maciço quanto mortal, tão perto quanto minha mão. Tudo isso pode ser observado, analisado e estudado, de meu planeta. O oceano de metano líquido pode ser letal para mim, mas as ondas negras quebrando na praia outonal são belas e atraentes, como nenhuma outra paisagem se revelaria. Das cercanias do centro da Galáxia, o ponto de partida para viagens longas e preguiçosas, vejo o que nenhuma outra pessoa poderia observar: fantásticas cores desenhadas na noite, saudando a nave que me levará a um glorioso destino na infinita imensidão do espaço cósmico.
Um pirilampo de energia pousa no meu ombro. Tenta penetrar na roupa fina de titânio, sem êxito. Aproximo a mão do brilho fraco do inseto e ele passa do ombro onde pousou para a manopla. Levanto a luva de metal e o animalzinho alça voo, para alcançar a praia, a duzentos metros de distância.
Cansei-me da paisagem onírica. Dou uma volta, os servo-mecanismos das juntas da roupa chiando e zumbindo baixo. Entro na antecâmara, que se fecha sem ruído. Fachos de energia descontaminam o traje pesado e a porta semicircular que leva à sala do apartamento se abre. Um passo pesado e estou na sala de estar, onde Diafne, minha esposa, me aguarda. Ela vem para me ajudar a tirar a roupa protetora. Pressiono uma tecla em meu peito e a carcaça se abre em duas partes idênticas. A meus pés, uma grande placa de ergomite absorve a camada líquida, que escorre célere da blindagem para o chão.
Abraço Diafne e a beijo. Quando saio para a varanda de nosso apartamento, deixo de pensar no perigo de sair ao ar livre, com a atmosfera corrosiva de ácidos e álcalis me aguardando.
— Demoraste mais a entrar. Viste algo especial, na noite escura que antecede à tua partida, marido meu?
— Vejo que não deixou de falar neste tom tão cerimonioso. Pode se dirigir a mim como um terráqueo o faria. Um terrestre comum e sem atrativos.
— Mas você tem atrativos! Quem deixaria de notá-los, você, prestes a partir para a Terra?
— Ah! — abano a mão, sorrindo e me dirigindo para uma parte da parede da sala, seguido por minha amada Diafne. — Está exagerando! A Terra está estragada por excesso de riquezas pertencentes a um milhão de outros planetas! O Império deixará de existir, um dia, e quando isso acontecer, quero estar neste lugar, a seu lado.
Encosto a mão em um ponto da parede e a cozinha se descortina perante mim. Passo pelo campo de energia e vejo os mais diferentes tipos de alimento que a Galáxia produz: vagens gigantes de Titã, carne de polvo centípede de Régulus, matéria-prima para cozimento instantâneo de massa de farfalle róseo de Heliosponto. Verdura embalada a vácuo de Circe. Crustáceos conservados em animação suspensa da fossa abissal de Mindanau, da Terra. Mas estou enjoado de tantas iguarias exóticas. Abro a geladeira a um canto do aposento e retiro uma garrafa de whiskey congelado. Hoje seria uma noite de bebidas. A comemoração da partida, marcada para uma hora da madrugada.
Sento-me no sofá relaxador, ao lado de minha esposa. Uma sensação de calmaria invade meu corpo, passando para minha mente. Os pensamentos que fluem são agradáveis, entorpecedores. A garrafa estala, descongelando à temperatura ambiente. A tampa dilata e solta-se do gargalo. Afastando o velcro de que é feita, entorno o vasilhame. O whiskey tem baixa porcentagem de álcool. Nunca embebedaria, nem tornaria uma pessoa violenta. Esse é o ponto a favor dos mundos colonizados: cada um, avançado a ponto de ultrapassarem a Terra em tecnologia, em todos os sentidos.
Sim, o planeta de origem dos homens estava cansado. Velho, o mundo antigo, onde a tradição agressiva e cruel de mil anos atrás continuava. Beta Crucis, o meu mundo próximo à constelação de Sagitário, havia há muito deixado os hábitos viciantes e destrutivos de lado. Restavam prazeres simples, mas, por trás deles, havia centenas de anos de avanço tecnológico.
— Termine — digo para Diafne, passando o vasilhame cheio pela metade para as mãos suaves dela. — Termine, está na hora. Em duas horas, verá o foguete me jogar para os braços das estrelas.
— Não quero que vá. Fique comigo e aprecie a vida que tem, na orla do Mar do Desespero — era estranho ouvi-la falar desse modo, mas, ao mesmo tempo, eu conseguia me familiarizar rápido com seu linguajar. O oceano era calmo, mas Diafne continuava a chamá-lo com este nome pomposo.
Entro na cozinha. Coloco na mesa central dois quilos de iguarias, que fariam qualquer habitante da Terra tentar, no mínimo, se apossar, para vendê-los no Mercado Negro. Encho uma sacola com as comidas especiais e retorno à sala, o zumbido do campo eletrostático da entrada me ensurdecendo por um instante.
— Venha, Diafne. Vamos até o Espaçoporto 10.
Ela gemeu, protestando. Então, peguei uma porção de camarõezinhos de água doce de Sírius, congelados, e deixei-os em minha mão fechada, por alguns instantes. Eles se aqueceram e o aroma foi inconfundível. Coloquei-os nas mãos da mulher.
— Sentirei sua falta, mesmo ausente por dois meses.
— Sim, querida, eu também — mas o trabalho me chamava. Tinha de estar nas docas do estaleiro da sonda Viking-30 até daqui a um dia, o tempo que levava a viagem à Terra. 
Diafne comeu com parcimônia os frutos do mar. Eu vesti o traje espacial e verifiquei as juntas, o oxigênio, a pressão, os dispositivos anti-radiação. Armei-me com a pistola, os cilindros de energia laser e falei, a voz saindo anasalada do alto falante da roupa hermética:
— Vista-se, vamos, a partida é em... — verifiquei o mostrador infravermelho, no interior do capacete —... uma hora e cinquenta minutos...
Ela foi para o quarto e ouvi com nitidez Diafne se vestindo. O traje dela era de uma geração passada, obsoleto para viagens espaciais, mas que seria adequado por dezenas de anos na atmosfera de 0,8 G de nosso mundo em Sagitário. Em cinco minutos, estava de volta, a linha da viseira do capacete definida com suavidade e a roupa impermeável, sem ser bonita, mas adequada contra a atmosfera tóxica. Ela poderia dar um mergulho no metano líquido do oceano, que a roupa a manteria viva.
Descemos para o subsolo do edifício e tomamos o carro da companhia transpacial, que nos esperava com um androide, nosso motorista. Aquele mundo era pacífico, quem usava armas eram eu e mais dez outros membros da equipe da decolagem do foguete.
Disparamos a cem, duzentos, quinhentos quilômetros por hora. O veículo era seguro, à prova de colisões ou acidentes. A aceleração chegou à faixa dos 7,0 Gs, mas nossas roupas blindadas nos protegiam.
Nos subterrâneos de nosso destino, o carro desacelerou com brusquidão. Senti-me revigorado, com o solavanco. A porta escamoteável do veículo se abriu para cima e eu saltei, me puxando pelo teto. Um diretor da companhia, um espião, uma garota de prazer, dois androides de combate e cinco soldados me aguardavam.
— Está pronto? — o diretor foi direto. Diante de meu abanar do capacete, deu-me as costas e todos o seguimos para um grande elevador de carga. Um ribombar de um compressor de ar se ouvia, à distância. 
No topo do edifício, segui para a abertura. Voltei-me para a figura blindada de Diafne e a toquei no capacete.
— Espere dois meses. É o melhor — ela concordou, mas pelo modo como o fez, concluí que estava chorando. — Então, estará livre.
Virei-me e marchei pelo conector de aço-boro de paredes semicirculares de dois metros de espessura que unia o edifício de comando ao foguete. Estava por minha própria conta. A porta de entrada da espaçonave se abriu para cima e eu entrei. Andei até a cabine de comando e sentei-me na poltrona ergonômica. O foguete fechou sua porta de acesso e iniciou a contagem regressiva, fosforescente no painel à frente. Fechei os olhos e dormi.
A contagem terminou e os motores de antimatéria brilharam, a luz dos propulsores elevando o poderoso artefato a uma aceleração de 60 Gs. Sem um ruído. A nave seguiu por cinco segundos pela atmosfera e desapareceu na órbita. Então, de 60 Gs, passou para 100 Gs, 200, 300, 1.000, 5.000 Gs...
O foguete era submetido a acelerações que fariam um louco gargalhar de dor, mas eu seguia incólume, a poltrona de comando absorvendo em seus servo-mecanismos algo tão violento que mataria qualquer ser humano em um centésimo de segundo...
O planeta ficou para trás. E a verdadeira viagem teve início, quando a nave passou pela barreira do hipervoo. Uma nova dimensão alcançada. Uma nova Física e uma nova Matemática guiava a astronave, agora. Em um dia, alcançaria dois terços da largura da Via Láctea, para um destino que todos procuravam evitar: Terra.
E, quando cai a noite, nos abismos incomensuráveis do hipervoo inaudível, ninguém tem certeza de que o que vislumbra em seu inconsciente é a morte, ou um arremedo de um sonho, que pode vir a ser belo ou hediondo...


*Sobre Roberto Fiori:
Escritor de Literatura Fantástica. Natural de São Paulo, reside atualmente em Vargem Grande Paulista, no Estado de São Paulo. Graduou-se na FATEC – SP e trabalhou por anos como free-lancer em Informática. Estudou pintura a óleo. Hoje, dedica-se somente à literatura, tendo como hobby sua guitarra elétrica. Estudou literatura com o escritor, poeta, cineasta e pintor André Carneiro, na Oficina da Palavra, em São Paulo. Mas Roberto não é somente aficionado por Ficção Científica, Fantasia e Horror. Admira toda forma de arte, arte que, segundo o escritor, quando realizada com bom gosto e técnica apurada, torna-se uma manifestação do espírito elevada e extremamente valiosa.

Sobre o livro “Futuro! – contos fantásticos de outros lugares e outros tempos”, do autor Roberto Fiori:

Sinopse: Contos instigantes, com o poder de tele transporte às mais remotas fronteiras de nosso Universo e diferentes dimensões.
Assim é “Futuro! – contos fantásticos de outros lugares e outros tempos”, uma celebração à humanidade, uma raça que, através de suas conquistas, demonstra que deseja tudo, menos permanecer parada no tempo e espaço.

Dizem que duas pessoas podem fazer a diferença, quando no espaço e na Terra parece não haver mais nenhuma esperança de paz. Histórias de conquistas e derrotas fenomenais. Do avanço inexorável de uma raça exótica que jamais será derrotada... Ou a fantasia que conta a chegada de um povo que, em tempos remotos, ameaçou o Homem e tinha tudo para destruí-lo. Esses são relatos dos tempos em que o futuro do Homem se dispunha em um xadrez interplanetário, onde Marte era uma potência econômica e militar, e a Terra, um mero aprendiz neste jogo de vida e morte... Ou, em outro mundo, permanece o aviso de que um dia o sistema solar não mais existirá, morte e destruição esperando pelos habitantes da Terra.
Através desta obra, será impossível o leitor não lembrar de quando o ser humano enviou o primeiro satélite artificial para a órbita — o Sputnik —, o primeiro cosmonauta a orbitar a Terra — Yuri Alekseievitch Gagarin — e deu-se o primeiro pouso do Homem na Lua, na missão Apollo 11.
O livro traz à tona feitos gloriosos da Humanidade, que conseguirá tudo o que almeja, se o destino e os deuses permitirem.

Para adquirir o livro:
Diretamente com o autor: spbras2000@gmail.com
Livro Impresso:
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