sábado, 12 de setembro de 2020

As origens e perspectivas da literatura de cordel


Há quem defenda que o gênero é genuinamente brasileiro e há quem diga que o cordel se originou da cultura árabe, o debate está no Circuito Cultural Digital de Pernambuco, promovido pela Cepe
  
No último dia do Circuito Cultural Digital de Pernambuco, dia 13, domingo, às 11h, o debate fica acirrado com a discussão sobre as origens e perspectivas da literatura de cordel. O bate-papo virtual terá participação do escritor Aderaldo Luciano, doutor em Ciência da Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro; e do poeta, pesquisador da poesia popular, além de xilógrafo, entre outras coisas, Meca Moreno, com mediação da também escritora e cordelista Érica Montenegro.
Meca Moreno sustenta que a origem da literatura de cordel remonta à cultura árabe. Enquanto Aderaldo Luciano afirma que como forma poética o cordel nasceu no Recife, tendo como seu sistematizador Leandro Gomes de Barros, nascido em 1865 e que morreu em 1918. Essa defesa está publicada em seu livro Apontamentos Para uma História Crítica do Cordel Brasileiro, publicado pela Editora Luzeiro, de São Paulo.
A ideia não é polemizar, mas mostrar a força e a riqueza desse sistema poético que, como dizem os especialistas, uma coisa é o folheto, elemento meramente gráfico, outra o cordel, elemento-linguagem. A compreensão desses conceitos é essencial para acompanhar a discussão.
Outras formas de arte complementaram o cordel, como a xilogravura na confecção dos livretos. Outras beberam de sua fonte. Aderaldo lembra que quando a editora Prelúdio de São Paulo passou a publicar folhetos doou um novo formato ao cordel, com capas coloridas, papel melhor, letras trabalhadas. Ele conta que foi uma revolução. Já a Editora Luzeiro, sucessora da Prelúdio, transformou-se na maior e mais bem-sucedida editora de cordel do Brasil.
“Muitos folheteiros, como José Bernardo, culparam a Luzeiro pelo fim das folhetarias tradicionais no Nordeste. Quem produzia as capas eram grandes nomes das artes plásticas nacionais: Sérgio Lima, Eugenio Colonese, Seabra, Smaga. A Luzeiro passou a quadrinizar o cordel. Até hoje é reeditado o Pavão Misterioso em quadrinhos. No cinema, O Homem Que Virou Suco, de João Batista de Andrade, é um exemplo, usou o cordel como matéria principal. O Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, é inspirado em três folhetos de cordel. A música nordestina tem a base no cordel e na cantoria. As artes plásticas e até a arquitetura seguiram temas cordelísticos. Há inclusive presença do cordel na moda. O cordel é uma ordem”, destaca.
Para acompanhar este e outros debates no último dia desta etapa do circuito acesse a programação, ancorada no portal (www.circuitoculturalpernambuco.com.br) e nas redes sociais do evento, que começou no dia 9 deste mês.
Nesta segunda edição do circuito, que tem curadoria da Fundação Gilberto Freyre, o formato é realizado excepcionalmente no ambiente digital, em função da pandemia de Covid-19. O poeta João Cabral de Melo Neto, que teria completado 100 anos de nascimento em 9 de janeiro de 2020, é o homenageado do evento.
Vinte editoras, livrarias e instituições, como a Câmara Brasileira de Livros (CBL) e a União Brasileira dos Escritores participam do evento com programações e ações próprias. O circuito conta com o apoio das secretarias estaduais de Educação, Cultura e Fundarpe. As próximas etapas acontecerão em outubro (07 a 11), novembro (12 a 15) e dezembro (09 a 13) com novas programações e participantes.
  
ENTREVISTA COM ADERALDO LUCIANO E MECA MORENO
PERGUNTA - Quais as origens do cordel?
ADERADO LUCIANO - O cordel é forma fixa da poesia brasileira. Os folhetos do final do séc. XIX estão acessíveis a quem quiser consultar. O primeiro folheto impresso por Leandro Gomes de Barros no Recife é o marco da aparição do cordel como sistema literário. O cordel não apareceu apenas como poesia, mas como sistema literário: havia a presença de um autor de cordel, de um impressor de cordel e de um público leitor de cordel. Leandro Gomes de Barros, cidadão nascido em Pombal, Alto Sertão da Paraíba, foi adotado por seu tio, um padre da paróquia de Teixeira, cidade vizinha. Dali, Leandro saiu rumo ao Recife. Aos 18 anos estava na capital. Morou em vários locais. Os seus folhetos impressos trazem esses endereços desde o primeiro folheto Alonso e Marina. Ele, Leandro, criou o sistema no Recife. Talvez outros hajam impresso livretos, mas o sistema é recifense. Quatro grandes poetas do cordel estiveram no Recife no início do séc. XX produzindo sistematicamente: Silvino Pirauá de Lima, o primeiro que chegou. Depois Leandro Gomes de Barros, o segundo. Depois João Martins de Athayde. Passou aí também Francisco das Chagas Batista que depois migrou para João Pessoa. O Recife foi o grande centro cordelístico, até a década de 50, quando José Bernardo da Silva comprou a gráfica com todos os títulos de Athayde e levou para o Juazeiro do Padre Cícero.
MECA MORENO - É uma pergunta que não tem apenas uma resposta. Temos as origens do cordel no mundo e as temos no Brasil. Há uma grande diversidade de registros do modelo narrativo em prosa e em poesia, em países europeus como Grécia, Alemanha, Inglaterra, Espanha, Portugal, Holanda, bem como no oriente médio, em sociedades tribais, inclusive nos textos religiosos. Na Península Ibérica, a partir do ano 711 da era cristã, devido à invasão que partiu do Marrocos, através do Estreito de Gibraltar, os chamados mouros tomaram o poder e permaneceram por lá até o ano de 1492, ou seja, durante 781 anos fizeram história e impuseram o árabe, como idioma administrativo,  e seus modos culturais, embora tolerassem as culturas locais, de modo tal que também absorveram muito dessas culturas e conseguiam conviver “pacificamente”. Assim, percebemos características culturais como um todo, mas principalmente da poesia árabe, na nossa poesia popular, especialmente da estética do verso, que foram amalgamadas à poesia popular ibérica, guardando, evidentemente traços para além disso, como a poesia berbere, resquícios da poética celta e dos países norte africanos (Magreb), além das influências galegas e greco-latinas, posto que depois das reconquistas das monarquias portuguesa e espanhola, o próprio uso das línguas latinas refletia o convívio misto dos povos, inclusive do povo judeu, que já estava por lá muito antes da chegada dos mauritanos. No Brasil, entretanto, não podemos negar que os primeiros textos e poetas vieram da península ibérica nas caravelas, ainda no início do século XVI, mas estamos falando de um modelo oral e, em parte, manuscrito, posto que a imprensa veio a ser implementada muito lentamente em todo o mundo a partir o final do século XV no Brasil e, somente depois a chegada de Dom João VI, em 1808, no Brasil. Tivemos os nossos primeiros cordéis impressos, já ao final do século XIX, por um paraibano chamado Leandro Gomes de Barros, no Recife. Na época, ainda tínhamos as histórias de plebeus que apaixonavam-se pela princesa e vice-versa. Também histórias de heróis, etc. Mas com o passar dos anos, as nossas próprias temáticas passaram a ser narradas, sempre em poesia. Novas adaptações temáticas e estruturais foram acrescentadas e hoje podemos dizer que o cordel brasileiro tem características próprias e é único.

PERGUNTA - Quais as perspectivas da literatura de cordel?
ADERALDO - Na década de 80 do séc. XX alguém vaticinou a morte do cordel. O aparecimento de novas tecnologias acabaria com o cordel. Mas o cordel é poesia. Ninguém decreta o fim da poesia. Podem apontar o fim do livro físico, mas até isso é quase uma impossibilidade. Analise este caminho: quando o rádio apareceu, como meio de comunicação de massa, disseram: o rádio vai acabar com o jornal impresso. E não acabou. Pelo contrário: o rádio passou a ser o maior aliado do jornal. Com locutores lendo os jornais no rádio. Mas aí veio o cinema. E disseram: o cinema vai acabar com o rádio. Não deu certo. O cinema, o rádio e o jornal permaneceram ombro a ombro, cada um no seu caminho, dialogando e crescendo. Numa manhã de sol, apareceu a televisão. E agora a televisão acabaria com o cinema, que teria acabado com o rádio, que teria fechado os jornais. A internet chegou. E agora? Tudo migrou para ela. Mas nada acabou. Mudou. Todos esses elementos que usei foram também apontados como assassinos do cordel. Jamais. O cordel usou o jornal, o rádio, o cinema, a televisão e neste momento está usando a internet. Todos a serviço do cordel. Logo, a perspectiva é ótima. Os jovens amam a ludicidade do cordel. Escolas têm projetos premiados de literacia e leitura pelo cordel. Poetas se multiplicam. E o cordel caminha. Um veleiro, velas abertas para onde o vento soprar. A poesia sopra. O cordel navega.

MECA MORENO - Na atualidade, as nossas perspectivas são as maiores, visto que os cordelistas sempre se superaram através do uso das mais diversas tecnologias. Logo, o cordel está cada vez mais presente, publicado e lido em papel e nos mais diversos moldes, especialmente com os nossos declamadores e nas redes sociais, com amplo acesso através de desktops, notebooks, tablets, smartphones, androids e muito mais. Cordel é o modelo poético, não apenas a mídia através da qual é veiculada. Hoje, entre bits e bytes, trafegamos com propriedade em alta velocidade no mundo digital e alcançamos todo o planeta.

PERGUNTA - O cordel é reconhecido em sua plenitude ou é considerado um gênero menor, como tudo que tem sua raiz na arte popular?
ADERALDO LUCIANO - O cordel sofre com o preconceito das elites culturais. O conhecimento, no Brasil, foi construído verticalmente. é uma forma de opressão e não de libertação. Nossos intelectuais são chegados à opressão do povo. Então os intelectuais criticam a maneira do povo falar, se vestir, comer, cantar e até transar. É horrendo o cenário. O cordel sofre com esse mesmo mal. Minha tese de doutorado é pioneira nos estudos literários sobre o cordel. É a primeira na pós-graduação em Letras, Ciência da Literatura, Poética, que reivindica o olhar literário para o cordel, seu lugar de direito. De 2009 para cá, o movimento tomou um corpo imenso. Várias teses foram surgindo e citando meu livro Apontamentos Para uma História Crítica do Cordel Brasileiro como referência. Em 2018, o conselho do Iphan reconheceu o cordel como patrimônio cultural imaterial brasileiro. Não foi Portugal. Isso prova minha tese. O cordel é brasileiro. É literatura brasileira. É poesia brasileira.

MECA MORENO - Antigamente, o chamado folheto de feira, vindo depois a ser denominado cordel, era tendenciosamente considerado como uma produção folclórica. Apenas depois do reconhecimento pelos acadêmicos e suas universidades, houve a adoção do termo “Literatura de Cordel”, passando a ser um pouco mais valorizada. Mesmo assim, no Brasil, ainda há a necessidade de um movimento de divulgação e resistência muito decidido em, de fato, levar o cordel ao seu merecido lugar de destaque. Para isso, continuamos o trabalho junto às diversas camadas sociais. Estamos fazendo o nosso trabalho de formiguinhas. O reconhecimento pelo Iphan, em 2018, do Cordel como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil, nos deu mais oxigênio para uma divulgação maior e penetração nas mais diversas camadas da sociedade.
  
PROGRAMAÇÃO DO DIA 13.09, DOMINGO

8h – Oficina
Oficina de construção de instrumentos musicais com Givanilson Soares.

9h – Senta, que lá vem história!
Contação da história do livro Cabra Cabriola (Além da Lenda) com Joanah Flor.

10h – Apresentação cultural
Tocando, cantando e aprendendo com Givanilson Soares.

11h – Bate-papo
Origens e perspectivas da literatura de cordel. Participação de Aderaldo Luciano, Meca Moreno e Érica Montenegro (mediadora).

12h – Lançamento virtual
A história da eternidade, de Camilo Cavalcante. Conversa entre o autor e a jornalista Luciana Veras.

14h - Por dentro do livro
Conversa sobre coletâneas de fotografias editadas pela Cepe Editora (Alcir Lacerda, Benício Dias e Lula Cardoso Ayres). Participação de Betty Lacerda e Rita de Cássia Araújo.

15h – Bate-papo
Encontro de ilustradoras pernambucanas. Com Mari Souza, Clari Cabral e Renato Mota (mediador).

16h – Show Infantil
Bandalelê

17h – Contação de história
Contação da história do livro Cabra Cabriola (Além da Lenda) com Joanah Flor.

18h – Cineminha
Guerreiros da rua (ViuCine)

19h – Sarau 
Teatro em perspectiva - Com a Companhia Maravilhas de Teatro.
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