sexta-feira, 30 de outubro de 2020

Ombros Hereges, de Mariana Pio


O tear de Mariana

Ontem Monise veio em casa. Ela morava numa roça em Monteiro Lobato. Eu nunca apareci lá, sabe? Sou meio preguiçosa para me mexer às vezes. Para sair do meu caos cotidiano. Quando Monise disse que ia me visitar, fiz um café e me sentei para esperá-la. Nas mãos carregava o livro Ombros hereges.

Tomei uma caneca inteira de café (tesão cotidiano) enquanto deslizava os dedos sobre as sílabas de Mariana. Li em voz alta alguns trechos. Era meu segundo momento de leitura.

O primeiro, decidi que fosse mais conturbado. Li no ônibus enquanto a geringonça extensa atravessava a Avenida Vinte e Três de Maio e dava passagem à ambulância que zunia. Escolhi

ler assim. Li de olhos atentos e de pelo eriçado. Imersa pelos barulhos que marcam meu dia.

Ontem a minha leitura foi outra. Na minha casa nova. Fresta de sol que acalma meu peito. Caneca esmaltada que arranquei da tua página. Li em voz alta, já disse. Mas li de novo.

A espera de Monise não era pretexto para leitura. A leitura era para chamar Monise, como um canto. E ela chegou. Para  variar, me perdi no tempo, e quando ela me avisou que estava a me esperar na Estação República, matei o resto do café (pois esse resíduo eu não largo no copo) e saí com os ombros à mostra, mesmo com aquele frio doído. Saí com Mariana na cabeça, com teus ombros pontiagudos também à mostra e tua caneca verde esmaltada.

Encontrei Monise. Somos diferentes. Mas eu sei que às vezes ela entra em mim e eu entro nela. Às vezes, quando me vejo falando com os outros, vejo que é Monise que transita pelos meus poros.  Ao chegar ao meu prédio, subimos as escadas, abri a porta e, feito gato, ela foi cheirando os cômodos... tateando as texturas... Logo nos jogamos no chão e abri o livro. Ela sorriu. Parecia que esperava. E esperava mesmo. Lemos juntas e em voz alta. Eu queria a presença dela para esse terceiro momento de leitura.

Gosto de ler sentada no chão com as pernas ligeiramente esticadas, jeito que criança fica sentada. Para mim, não é fácil, mas eu gosto de sentir o peso do corpo, o esticar aguçado. Assim, li mais uma vez Mariana, enquanto experimentava meu corpo.

Mariana pontua três eixos em seu livro: cidade, corpo e desejo. Apesar de o dicionário nos dizer que eixo é sinônimo de divisória, de linha reta, não entendo os eixos de Mariana assim. Entendo-os como movimentos.

Cidade, corpo e desejo não são blocos de concreto que não se misturam. Pelo contrário, entram um no outro brincando e aumentando a superfície de contato. Assim, se desdobram em potência. A potência aqui se escancara num convite para se conhecer, coisa que requer cuidado consigo e força para encarar o próprio bolor. Potência é força vital para a gente se reinventar. E Mariana atiça a isso.

Passei o dia inteiro com Monise. Fizemos comida e bem na hora do café o gás acabou. Ela me levou para fora do apartamento. Cruzamos a Praça da República e fomos até o metrô São Bento. Lá, em frente à banca, aconteceu uma batalha de rap só de minas, batalha potente e sem nenhum fiapo de humilhação.

Primeiro o espaço ficava aberto para qualquer manifestação de arte: uma mina cantou, outra leu poesia e assim foi indo... Depois se iniciou a batalha. Os temas são propostos pelas minas que ali habitam. Fazia frio e eu me esquentava. Não é um rolê habitual para mim. Sair numa segunda-feira gelada de casa e ir parar em frente ao metrô São Bento, mas Monise e a caneca esmaltada de Mariana me atiçaram e eu fui.

Mesmo que um pouco sem jeito no próprio corpo, eu fui e meu peito era caixa aberta de fio. As sílabas de Mariana encharcaram meu corpo. Convidaram-me a experimentá-lo, a lembrar de quão difícil pode ser habitá-lo. E essa tarefa não deveria ser assim. Por isso a importância do exercício contínuo de liberdade — de estilhaçar diariamente o bolor que nos habita.

Voltamos para casa a passos rápidos, o centro de São Paulo invadia cada pedaço da gente, e muitas vezes eu não sei o que fazer com isso. No mesmo chão, Monise me contou de uma dor aguda que tem frequentado seu corpo pelas manhãs. Quando a questionei sobre um médico, ela deu de ombros

e disse que não era coisa de médico. Depois me contou da relação quase que inexistente que sua mãe teve com sua avó (que já era falecida).

E que, apesar de estar muito aflita em relação a um novo trabalho, estava feliz, pois, assim, iria conseguir levar sua mãe para a cidade onde ainda havia alguns familiares. Disse que, apesar de toda a tristeza que sua mãe parecia ter de sua avó, elas conseguiram se unir e orar juntas por ela.

Monise e sua mãe — sentadas também no chão — juntas deixando o peso transformar-se em leveza.

Ela disse que queria entender o que se passou com a avó e acabou por refletir-se nas subjetividades cotidianas da mãe. No tato. Ela queria entender de onde vinha essa dor quase no útero que a rasgava toda manhã. Não havia ali uma busca raivosa por motivos pontuais e nenhuma tentativa de traduzir

aquilo em culpa. Pelo contrário, o que ela menos queria era pensar em culpa.

Entender nossos baixos começos, escavacar nosso corpo e toda a ancestralidade que vem com ele, teias nossas — tias–irmãs– mães–avós–amigas–companheiras–mulheres —, teias que são

tão esquecidas e silenciadas. Às vezes até por nós mesmas.

Mariana e Monise não se conhecem, mas certamente já se olharam.

Eu estava inteira naquela conversa, e as sílabas de Mariana também. Inteiras em mim. Inteiras em Monise e inteiras naquele movimento de madrugada adentrando afora.

Desde que este livro veio parar em minhas mãos, passei a me demorar mais em certos pensamentos e acrescentar novas pausas ao meu caminhar.

O livro de Mariana permeou meus dias, minhas andanças e meu encontro com Monise. Lemos juntas. Algo que acho tão bonito e percebo que faço tão pouco. Ler para a outra. Ler com a outra. Ainda mais quando a outra é também um bocado de você.

Mariana é um bocado de mim. Me achei nas tuas palavras lambuzadas, no bolor que atravessa pedaço do corpo e no tesão que estilhaça o que já não serve mais e faz a gente não morrer.

Fiz do livro minha andança — meu mapa torto de mim. Lacuna que enche o peito de ar.

— Raquel Santos


SOBRE A AUTORA:

Mariana Pio nasceu em 1990, em Belo Horizonte. Formou-se em Direito, cursou Filosofia e estudou Teatro, mas acredita que a informação importante esteja no seguinte: cresceu entre Minas e Bahia e foi criada por uma família de mulheres. Escreve em blogs desde a adolescência, participa de antologias e revistas e publicou seu primeiro livro de poesias, “Ombros hereges”, em 2018, pela editora Urutau. Devota da curiosidade, pesquisa ancestralidade e saberes antigos. Mariana é uma escritora e poeta monodissidente latino-americana – brasileira. Para saber mais: umpio.com.br

Link de venda do livro: https://editoraurutau.com.br/titulo/ombros-hereges ou via DM em https://www.instagram.com/umpio/



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