sexta-feira, 30 de abril de 2021

Conto "Fogo na Floresta", por Roberto Fiori


É tarde da noite... ruídos estranhos alcançam-nos... É tarde da noite... seres da Floresta sussurram:

“Ei, vocês, o que estão fazendo?

Larguem esses brinquedinhos de mentira e retirem-se!

Aqui é o Lar das Criancinhas abandonadas...

Fora daqui, fora daqui!

Agora, ou eu os espicaçarei com este pedaço de pau!”

Antiga Cantiga de Assombração, Livro dos Sussurros e Segredos, Século XXII, 11º Volume, Página 505.


Geraldine era uma mulher de rara beleza. Sabia que um dia sofreria as vicissitudes do Tempo, mas, para isso, preparara-se. Tinha suas artimanhas. Um broche de veludo, herança de família, uma rosa nos cabelos, o pó-de-arroz, o ruge e o rímel que sobraram de antes da Guerra, unhas belamente esmaltadas com esmalte fabricado das árvores que se tinha permissão para serem aproveitadas, perfumes extraídos de flores, uma roupa alegre e descontraída. As pernas, braços e o decote deveriam ser nem escandalosos e colocados à mostra, nem cobertos por inteiro com tecidos puritanos.

A mulher seria um dia coroada na passarela do concurso Miss-Universo? Só se isso fosse feito por sua livre vontade, e ela se considerava jovem o bastante para tentar, velha o suficiente para perder, e com um temperamento moderado, o que a fazia uma pessoa não tão extravagante e, ao mesmo tempo, relutante.

Sua tez da cor dourada do feno enrugou-se, quando ela viu o cartaz. Era o anúncio de uma festa que ocorreria nas imediações da Vila de Sommerville, onde morava. Em cinco dias, os moradores do povoado deveriam seguir para a rodovia e caminhar uns dois quilômetros pela trilha entre o bosque, margeando a autoestrada. Ela sentiu-se uma pessoa diferente, belicosa e raivosa, ao cruzar com o cartaz, chegando da feira nos arredores e entrando na cidadezinha.

Era simples a razão. Ninguém ia ao bosque que acompanhava a estrada. Ninguém queria ser chamado na vila de imprudente e estranho. Havia medo. Medo de que o bosque um dia acabasse, com o Fogo que se estenderia por milhares de quilômetros quadrados, estendendo-se do início da rodovia até os confins da Floresta a centenas de quilômetros de distância.

Todos a reverenciavam. Ela regenerava a atmosfera venenosa e era lar dos animais e da vegetação que haviam restado, com a Guerra. Era santificada, era deificada como uma deusa intangível, mas que existia desde a o início da Era pós-Industrial. Ninguém queria ser chamado de irresponsável. O prefeito e o vigário sabiam qual a pena para depredadores e destruidores das matas, e sem dúvida a aplicariam. E o segredo do que seria tal punição era respeitado pelos moradores, que tinham uma pálida ideia do que era.

Para alguns, as crianças, era ficar sem sobremesas e brinquedos por um tempo indeterminado. Sem escola. Sem amigos. Sem a mãe e o pai. Cada um desses castigos era terrível, para elas.

Para os jovens, era ficar sem a namorada, escolher ficar na pequena cidade e perder um dedo, ou ser expulso da vilazinha... para as garotas, podia ser uma operação terrivelmente dolorosa, como a extração de um mamilo a frio. Para os homens adultos, ter uma perna esmagada ou ter uma mão decepada. Tudo era vago, mas sabiam que, uma vez que se cometesse o crime de destruição da fonte da vida que era a Floresta, um sacrifício teria de ser feito.

Geraldine apressou o passo. Ninguém sabia quem o fixara na curva da rua enlameada e esburacada do centro da vila. Era mesmo grande, com grande probabilidade pintado com tintas de fora do povoado, pois a única fábrica de tintas que existia no município estava enferrujando, no limite Leste de Sommerville.

A mulher passou pela oficina de reparação de móveis, em que, da mesma forma como se reformava a madeira, elaborava-se cadeiras, cômodas, mesas e outros objetos feitos de madeira. A madeira vinha de uma parte da Floresta que, tanto o padre como o prefeito, sabiam estar condenada, inútil para que pássaros, esquilos, cervos e marmotas o habitassem, mas que podia abastecer a vila. Um fungo que ninguém sabia de onde surgira atacara as árvores e deixara os animais sem alimento. As frutinhas que cresciam nos galhos em toda a Floresta, nessa parte dela ou já nasciam apodrecidas, ou eram impedidas de se desenvolverem e secavam. Os arbustos de vegetação que alimentavam os veados há mais de cinco anos tinham desaparecido. Nem alimento para outros animais havia, tal a podridão que se apossara dessa parte da vasta mata. 

O que intrigava os moradores era por que ela fora a única parte atingida da Floresta. E por que acontecia de justo a vila se dispor entre a região apodrecida e o bosque e a Floresta saudáveis que se estendiam para o Norte, Oeste e Leste de Sommerville.

Geraldine entrou pela porta simples de madeira da loja e foi direto ao balcão. O padre vivia nos fundos da oficina, que se estendia por centenas de metros para o interior da mata adoecida. Como segunda autoridade da vila, o vigário era dono de metade da parte arruinada da Floresta. A outra metade pertencia ao município e o prefeito a administrava com zelo.

— Geraldine! Como vai a nossa flor de lótus? — o sacerdote perguntou, vindo dos fundos da loja, onde a oficina de móveis situava-se.

— Padre Dyon, estou bem, vim da feira — e a mulher mostrou as cinco sacolas de frutas, verduras e cereal que comprara. — Quero conversar um pouquinho com o senhor. O que significa o cartaz da festa, que fala que foi programada para daqui a cinco dias?

— Aquilo é sinal de que temos de nos precaver, mocinha. Os demônios do Inferno estão entre nós. Querem que nos destruamos. Mas ninguém está autorizado a deixar os limites da vila, em cinco dias. A ordem foi passada de boca em boca, o prefeito não a avisou?

Geraldine estranhou. Sem saber o que falar para se desculpar, disse que ninguém teve a civilidade de comunicar a ela o que se faria. Mas elogiou a atitude do padre Dyon. 

— Dependemos do bosque e da Floresta para respirarmos, Geraldine. Você compreende isso. Se derrubarmos uma única árvore do Norte, Leste ou Oeste, as boas e saudáveis, haverá o início de uma catástrofe que nos afetará de modo fatal. E você sabe que somos os que sobraram, nesse mundo esquecido.

A moça prestava atenção ao vigário e, enquanto ele falava, depositou uma sacola de frutas cítricas que comprara na feira no balcão, ao lado dos dois. Dyon terminou de falar seu discurso que tinha pronto para ocasiões como aquela e abarcou com seu braço magro a loja.

— O que quiser, pode levar.

— Tem outros mantimentos, padre, para mim?

— Sim, claro, tenho batatas e couve na dispensa. Espere.

Geraldine aguardou e, quando o padre trouxe o equivalente de mantimentos às frutas da moça, em peso, ela conversou durante alguns minutos e se retirou, desejando boa sorte. Desejar “boa sorte” significava muito, naqueles dias de dificuldade. Significava serem as pessoas envolvidas nesses votos até mais que meras amigas, Eram irmãos e irmãs de sangue, até o dia de suas mortes.

Geraldine caminhou quinhentos metros, entrando em uma ruazinha empoçada que partia da casa da prefeitura, e andou outro tanto, abrindo o portão de ferro da frente de sua pequena propriedade. Entrou na casinha de madeira que construíra com a ajuda de vizinhos e notou algo, antes de fechar a porta. Estava distraída pela conversa com Dyon, portanto havia deixado de reparar no papel escrito a mão, fixado com um prego em sua porta, do lado de fora.


“Quem não for à festa, perderá os dedos;

Quem não comparecer à comemoração do Dia do Sacrifício, perderá os dentes;

Quem deixar de ir à Congregação dos Fiéis, será condenado ao Inferno das Crianças,

e as menininhas e menininhos saudáveis se tornarão lama e podridão,

como as árvores e o solo inútil do bosque, ao Sul de Sommerville”.


O horror daquelas brutais palavras atingiu a mulher no estômago. Ela se dobrou sobre si e correu para fora. Devolveu o que comera no café-da-manhã em uma touceira verde ao lado da casa. Quando se sentiu em condições de se levantar da grama onde havia se esparramado, sem forças, arrancou a folha de papel da porta e guardou os alimentos no armário da cozinha.

Foi à prefeitura e encontrou todos os funcionários reunidos em um salão. Na mesa de centro, dezenas de panfletos idênticos ao de Geraldine haviam sido depositados pelso moradores da vila. Ela avançou e, sob o olhar de todos, deixou a sua folha cair sobre o tampo, com nojo.

— Você é a última da cidade, que nos traz esse “presente” — era o próprio prefeito que dizia isso, ao seu lado. Ele colocou a mão em seu ombro e continuou: — Temos armas em quantidade, usadas na agricultura local. Foices, facas, forcados, instrumentos para o cultivo afiados e contundentes. Vou pedir ao ferreiro para preparar mais. Até o dia da festa, quero todos armados com facas nos cintos das calças dos homens e por dentro dos vestidos das mulheres. Haverá toque de recolher, e isso vale para todos!

Isso, Quantrell declarou virado para o grupo de trinta pessoas que rodeava a mesa central. Os homens concordaram com a cabeça. Eram as principais autoridades da vila, o chefe e altos oficiais de polícia, os comandantes da guarda do povoado, os principais lojistas e as respectivas esposas dos homens reunidos.

— Não há um modo mais eficaz de combater esse Mal, prefeito? — Geraldine falou. — Distribua armas do depósito da guarda civil pela população, são apenas mil, mil e quinhentas pessoas!

— Farei o possível, moça, para armar todos os moradores, até a data da festa.

Geraldine estava incrédula quanto a essa promessa, mas agradeceu e saiu da prefeitura. No dia seguinte, um policial bateu em sua porta, carregando um grande alforje.

— É para sua proteção, Geraldine. 

Ela sorriu, surpresa com a rapidez da entrega, e fez o guarda entrar. 

— Vamos ver o que você trouxe, Phillips — eram facas, uma arbaleta, flechas, uma lança, uma espada. — Vou ficar preparada, fecharei minha casa no dia maldito da comemoração, do que quer que ande assustando a todos.

— A guarda civil se encarregará de patrulhar as ruas, senhorita. Um bom dia para você.

Choveu, uma chuva fraca, mas que molhava até os ossos, nos quatro dias seguintes. Quando chegou o dia-D, ninguém saiu às ruas. O toque de recolher foi estipulado da uma hora da manhã até à meia-noite.

Geraldine, segurando sua arbaleta armada, aguardou. Mas o tempo passou, as horas passando com lentidão, e coisa alguma aconteceu. Chegando a meia-noite, ela saiu pelo terreno de sua casa com cuidado, segurando uma faca longa serrilhada. 

— As crianças! As crianças sumiram! Socorro! 

Era a voz de sua vizinha, uma revendedora de verduras trazidas da feira. Revendia-as para quem estava doente ou quem estava sem tempo para ir à feira e sem ninguém para trazê-las para a cidade.

— Senhora Margolis, por que diz isso? — correu Geraldine, falando alto e chegando à frente da casa da vizinha.

— Meu bebê, ele não está mais comigo, nem os pequenos sobrinhos meus, ou meus filhos. Eu os tinha debaixo do nariz, na sala, mas... — Margolis correu para abraçar Geraldine, no pátio da frente de seu chalé.

— Aqui! Acudam! Guardas, revistem tudo, temos de encontrar os meninos e as meninas! — os gritos vinham da prefeitura, onde o prefeito ficara armado até os dentes e acompanhado de um destacamento da polícia, com sua família em segurança... até o momento.

— Isso é um absurdo, senhora Margolis, eles têm de estar em algum lugar. Não subiram no forro de madeira, para se esconder? A senhora sabe, as crianças todas conhecem o significado da festa...

— O Demônio os levou, sim! De que adiantou termos nossos filhos e sobrinhos debaixo de nossos olhos, quando eles desaparecem de um segundo para o outro, em pleno ar? — Margolis retornou, os ombros curvados, a cabeça baixa, para sua casa.

Geraldine caminhou a passos rápidos e largos até a sede da prefeitura. Chegando lá, encontrou uma multidão de moradores da vila esperando por alguma decisão do prefeito, da guarda civil e da polícia. O prefeito saiu da grande casa e falou:

— Amigos, meus filhos desapareceram. Também soube da tragédia com suas famílias, através da polícia e da guarda civil. 

Houve pouco tempo para lamentos. Do Norte, uma luz. Uma chama se propagando pelo bosque, perto da autoestrada. 

— Gente, temos de apagar aquele incêndio! Vem da rodovia! — disse um morador, um jovem com a melhor visão que existia em todo o povoado.

A multidão correu, bem como uma parte das autoridades. Os moradores estavam armados com facas e alguns carregavam pás. Levaram cinco minutos para chegar ao local. As chamas devoravam dez árvores, pelo menos, e todos sabiam que a propagação do fogo seria inevitável, caso ninguém fizesse algo. Com as pás, dez pessoas começaram a jogar terra contra o fogo, que se alastrava pela vegetação rasteira. Um pinheiro caiu, com estrondo.

— Vamos, rapazes, temos de abafar esse incêndio! — berrou o prefeito. — Cerquem a área que queima, vamos isolar a parte em chamas do restante da Floresta!

Com tempo e esforço, controlou-se o acidente. Sobraram brasas e cinzas, que a multidão apagava, batendo com as pás no chão, ou enterrando sob a terra.

— O pior passou, mocinha — disse o chefe de polícia para Geraldine, a única mulher do povoado que se pusera a ajudar. Ela viu o suor no rosto dos homens e comentou:

— Se Dimas não houvesse dado o alarme, comandante, receio que teríamos dois problemas insolúveis pela frente.

— Se soubéssemos onde os meninos e as meninas estão... até os bebês desapareceram!

Mas havia uma criança a uns oitocentos metros do limite do incêndio. Era Stuart, um dos filhos da senhora Margolis. Caminhava entre os pinheiros e vinha em direção ao grupo. Geraldine correu e tomou a criança nos braços.

— Você está bem? Onde estão as outras crianças, Stuart? — o menino permaneceu em silêncio, olhou por sobre os ombros e colocou o polegar na boca, enquanto que, com o indicador da outra mão, apontou. Havia uma construção baixa, meio escondida pela vegetação arbustiva e por pinheiros. Geraldine gritou o nome de Quantrell e levou Stuart para junto dos homens. — Há uma casa, em meio à mata. As crianças devem estar nela, ou nas imediações.

Liderados por Geraldine, o prefeito e o chefe de polícia, o grupo adentrou a Floresta. A casa era baixa, térrea, e situava-se em uma depressão do terreno, cercada por árvores em grande quantidade. Era possível que um homem passasse pela muralha florestal, por entre dois pinheiros, em certos lugares. 

— Não querem nos deixar entrar... — disse o chefe de polícia.

— Ou não querem que nada saia — ponderou Geraldine.

— Estão sentindo o cheiro? — falou Quantrell.

Pelas aberturas entre alguns troncos dos pinheiros, o grupo passou para o terreno da casa. O chefe de polícia espreitou pelas janelas e viu. Camas, dezenas de camas e, sobre elas, crianças e restos sangrentos de animais... ou homens e mulheres. 

O prefeito tentou arrombar a porta principal da habitação, mas foi em vão. Os homens da polícia e da guarda civil que tinham vindo pediram licença, entre o grande grupo, e tomaram o lugar do prefeito. A porta era larga o suficiente para que três policiais encorpados pudessem arrombá-la.

O odor a sangue velho, carne em decomposição e morte que sentiram do lado exterior era repugnante, no interior. Geraldine cobriu o nariz com um braço, protegendo-se com o tecido do vestido, e franziu a testa. Constatou, junto com os homens que entraram no ambiente único da casa, que as crianças estavam sem ferimentos. Vestidas, dormiam de modo tranquilo.

— Mas... o que teria feito isso com os corpos?

— Não sei, prefeito, não sei — respondeu Geraldine.

Havia sangue, pele, órgãos abertos e esmagados, as cabeças intactas de homens, mulheres e adolescentes, ao lado das crianças. 

— Vamos tirá-las daqui, chefe, e rápido — disse com uma careta de repugnância Quantrell.

Os homens do povoado levaram as crianças, que permaneceram inconscientes até quando chegaram em seus lares. Geraldine voltou à sua casa em três horas, deixando a polícia retirar os restos mortais dos que estavam junto às crianças. Bebês foram encontrados com saúde.

A jovem caminhou entre as árvores. Quando chegou a outra clareira, tendo caminhado uns cinco quilômetros para o Norte, reprimiu um grito e colocou as mãos no rosto. 

Vinte pessoas estavam dependuradas do topo das árvores mais baixas por arame farpado, os corpos dilacerados e sangue escorrendo. As mãos cortadas, os pés torcidos e a língua esticada. Sem olhos, como se extraídos por uma operação cirúrgica. E todos estavam sem roupas.

--//--

Geraldine levou a polícia até a clareira. Os homens subiram em árvores e cortaram os arames farpados. Constataram haver dez homens, cinco mulheres e cinco adolescentes de ambos os sexos. Os rostos estavam intactos. 

— Nâo são dessas bandas, querida — falou o padre Dyon em sua casa para ela, que continuava sem acreditar em tamanha violência. — São europeus, com traços nórdicos. A polícia encontrou isso, faça segredo desse volume. Eu o tenho, por enquanto, com a desculpa de que precisava dele para tentar encontrar a origem e identidade dessas pessoas. E veja o que achei. 

O vigário abriu um livro antigo, tão antigo que suas páginas se encontravam a ponto de se esfarelar. O homem usava luvas de lã de carneiro, que algumas famílias da cidade criavam e vendiam sua pelagem. Sem elas, o livro teria se desfeito há muito. Dyon levou tempo para chegar à página que queria. Havia desenhos a carvão, lápis e caneta esferográfica vermelha nas páginas.

— É latim. Eu sou a única pessoa nessa vila que compreende essa língua morta. Diz aqui que vivemos dias difíceis, que ficarão realmente duros, à medida que os grupos sobreviventes começarem a se encontrar. Fala na Floresta de Sommerville, no modo como parte dela apodreceu, para que sementes novas fossem levadas pelo vento e outras árvores e plantas nascessem e se desenvolvessem no bosque fronteiriço à rodovia e na Floresta, em si.

— Padre, como é possível que sementes mortas, podres, dessem origem a árvores e vegetação saudável?

— Eu, você, e ninguém sabe. Da mesma forma que as pessoas que você encontrou foram encontradas mortas. Talvez o início de incêndio no bosque não tenha sido acidental, tenha sido causado por forças estranhas... e que os restos que vimos na casa tenham sido de gente má, que tentou o pior que nossas regras, leis e costumes ditam para nós. Algo pior do que devastar a própria mata. Na verdade, acho que na clareira onde você encontrou as pessoas suspensas nas árvores deve ter ocorrido algo como um julgamento. Como se tivesse sido dado um basta, a partir do dia de ontem, nas transgressões que ocorriam em nossas terras, tanto no bosque, como na Floresta, como além da rodovia e, talvez, estivessem ocorrendo até ontem à noite, no mundo inteiro. 

— Seria a Justiça Divina, finalmente, padre? 

— Se as execuções ocorrem dessa forma por todo o planeta, algo se cansou do que se fazia contra as crianças, Geraldine. Deus não intervém dessa maneira, jamais. Para Deus, somos nós que fazemos a justiça, em assuntos dos mortais. Deus é misericordioso em sua grandeza, por todo o seu Reino.

Geraldine foi acompanhada pelo padre até a saída e, na porta, virou-se para ele:

— Como acha que as crianças desapareceram, sob os olhos de suas famílias?

— Algo que não pertence ao nosso mundo, talvez — e o padre Dyon desviou a vista para o teto.

— O que pensa que é isso, o que veio fazer justiça?

— Algo nem bom, nem mal, que aplica castigo contra pecado, destrói os criminosos de forma terrível, mas justa — Dyon ficou na soleira da porta, observando Geraldine desaparecer aos poucos em direção à feira, cinco quilômetros ao Sul do povoado. E, quando sumiu de vista, o padre pensou:

“Tão justa quanto a justiça divina, é a justiça dos homens. E tão justa quanto é a justiça que tivemos na última Grande Guerra, é a justiça do Demônio”.

Pensando nisso, o religioso entrou em sua casa e fechou a porta, suspirando e pensando a respeito de tudo o que havia ocorrido nos dois últimos dias.


*Sobre Roberto Fiori:
Escritor de Literatura Fantástica. Natural de São Paulo, reside atualmente em Vargem Grande Paulista, no Estado de São Paulo. Graduou-se na FATEC – SP e trabalhou por anos como free-lancer em Informática. Estudou pintura a óleo. Hoje, dedica-se somente à literatura, tendo como hobby sua guitarra elétrica. Estudou literatura com o escritor, poeta, cineasta e pintor André Carneiro, na Oficina da Palavra, em São Paulo. Mas Roberto não é somente aficionado por Ficção Científica, Fantasia e Horror. Admira toda forma de arte, arte que, segundo o escritor, quando realizada com bom gosto e técnica apurada, torna-se uma manifestação do espírito elevada e extremamente valiosa.

Sobre o livro “Futuro! – contos fantásticos de outros lugares e outros tempos”, do autor Roberto Fiori:

Sinopse: Contos instigantes, com o poder de tele transporte às mais remotas fronteiras de nosso Universo e diferentes dimensões.
Assim é “Futuro! – contos fantásticos de outros lugares e outros tempos”, uma celebração à humanidade, uma raça que, através de suas conquistas, demonstra que deseja tudo, menos permanecer parada no tempo e espaço.

Dizem que duas pessoas podem fazer a diferença, quando no espaço e na Terra parece não haver mais nenhuma esperança de paz. Histórias de conquistas e derrotas fenomenais. Do avanço inexorável de uma raça exótica que jamais será derrotada... Ou a fantasia que conta a chegada de um povo que, em tempos remotos, ameaçou o Homem e tinha tudo para destruí-lo. Esses são relatos dos tempos em que o futuro do Homem se dispunha em um xadrez interplanetário, onde Marte era uma potência econômica e militar, e a Terra, um mero aprendiz neste jogo de vida e morte... Ou, em outro mundo, permanece o aviso de que um dia o sistema solar não mais existirá, morte e destruição esperando pelos habitantes da Terra.
Através desta obra, será impossível o leitor não lembrar de quando o ser humano enviou o primeiro satélite artificial para a órbita — o Sputnik —, o primeiro cosmonauta a orbitar a Terra — Yuri Alekseievitch Gagarin — e deu-se o primeiro pouso do Homem na Lua, na missão Apollo 11.
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