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sexta-feira, 5 de agosto de 2022

Conto “A Terra das Boas Promessas”, por Roberto Fiori


— Temos de fugir, Mestre.

— Assim como os outros, Sidney?

Sidney coçou a barba comprida e emaranhada e disse:

— Há de haver um jeito, Apolonius.

— Não há mais guerreiros entre os que sobraram, amigo. A fé foi perdida e as esperanças se escoaram para o breu sem cor, sem vida.

— E se....

— Nem sugira, nem tenha falsas ambições, amigo. Quer que o resto de nós acabe como as sete tribos do Oriente?

— E os boatos?

Apolonius era alto, corpulento, mas estava cansado. Como os outros, acampados no salão de pedra, exaurira-se, esgotara-se. Fora campeão entre os peregrinos, nas Olimpíadas de Zeus e Odin, mas isso era passado. Um passado digno, porém, fantasioso. Disse:

— Esqueça. Morreremos, isto é certo. Uns cedo, outros mais tarde. Mas você sabe o que aconteceu aos que tiveram esperança em excesso, não? — ele esperou e calou-se. Sidney podia ser inconstante, imprevisível, mas sabia o bastante sobre o Massacre. E disso, Apolonius não tirara nenhuma lição profunda ou enigmática para ensiná-lo. Era simples questão de viver ou morrer. — Cheguei aos cento e dez anos. Vi coisas demais, meu melhor discípulo. Lá. Veja o horizonte e diga-me se estou errado. É uma nuvem que avança, areia seca e mortal, que vem, ou minha visão está tão falha que não consigo distinguir entre elementos da natureza e nós mesmos?

Sidney apertou os olhos e fitou a linha duvidosa entre a areia e o céu azul. A vista de Apolonius continuava perfeita. A melhor. O amigo e estudante disse-o ao Mestre e este bateu com seu cajado de ferro no solo. Falou:

— Então estou certo. Sidney, é chegado o momento de nos despedirmos como Professor e Aluno. Como Mestre e Discípulo. Como Sábio e Pessoa-que-o-Reverencia. Somos amigos, pertencentes à mesma casta, à mesma tribo. Está certo, quando vê a nuvem se formando a dez quilômetros de altura, a cem quilômetros de distância. Neste deserto, não há esperanças. Há somente água aqui, e só neste lugar há proteção.

Por que entramos no deserto, afinal, Apolonius? Foi um jogo do Destino ou erro seu, sábio dos sábios?, matutou o homem baixo, envolto em tecido branco, que deixava entrever os olhos. Estavam rente ao teto, no ponto mais elevado da enorme entrada da caverna avermelhada. Do lado oposto a eles, caía a única fonte-d’água que eles conheciam, uma cascata com cem metros de altura, correndo a partir do interior das rochas no teto e despencando no centro de um círculo vazio, sem que se soubesse para onde o fosso levava.

Os homens haviam construído um sistema de canais que levavam a água para outros pontos da caverna. Calhas feitas de cascas duras de plantas comestíveis conduziam as centenas de metros cúbicos de líquido que jorravam por hora para reservatórios entalhados na rocha, ao lado da cascata, e no interior da gruta. Por todo perímetro da caverna, calhas foram aproveitadas para que houvesse água suficiente para todos... por todo o ano.

Mas, com a chegada da tormenta de areia, Apolonius sabia que aquele imenso esforço havia sido em vão. Como Sidney o acreditava, da mesma forma.

 

--//--

 

Os sons no salão ecoavam amplificados, à medida que o erudito falava à multidão. Mas Sidney descera e se encontrava no lado exterior da abertura na rocha vermelha. Caminhava olhando para baixo, acompanhando suas passadas lentas e firmes. Sem ideias para resolver aquele quebra-cabeças de vida e de morte, dava voltas ao redor do exterior da gruta, pensando que, com aquela peregrinação sem começo nem fim, uma ideia luminosa poderia vir à superfície.

Levantou a cabeça, suspirando, e notou uma estranha depressão na areia. Como todos os membros de sua tribo, trazia em suas vestes uma adaga afiada e pontuda, feita do fêmur de um animal morto a centenas de quilômetros de distância, no trajeto que fizeram desde Omluark, a Terra do Início. Sidney raspou, com a extremidade de sua lâmina, a depressão, canaleta encoberta pela areia. Um quadrado de duzentos metros por novecentos e cinquenta metros se revelou.

— Tragam todos os homens, mulheres e crianças. Inclusive Apolonius!

Os três mil humanos rodearam a estranha formação. Seus lados eram perfeitos, retos, sem se desviarem de seu percurso retilíneo. Isso Sidney o percebia, mas Apolonius foi o único outro integrante da tribo que o viu.

— Sidney, reparou no que eu já percebi?

— Os lados são retilíneos, perfeitos. A estrutura é um quadrado de noventa graus em seus ângulos dos vértices.

— E...?

— Os seres do espaço vieram e cavaram a areia, deixando este abrigo...

— Ou nave... — o ancião alto começou, sendo ecoado pelo jovem:

— Ou nave...

— Para transportar, sairmos desse pedaço de rocha arenosa... vamos cavar!

Todos cavaram, com os objetos que trouxeram de Omluark, que usavam para plantar sementes, abrir buracos nas paredes de pedra e argila e para construir calhas e outros objetos para armazenar água.

A nuvem de areia mortal estava a dois dias de distância, quando conseguiram chegar ao último nível da pirâmide rochosa. A pirâmide era uma construção de basalto rugoso e todos se dedicaram a abrir cavidades para entrar no edifício.

— O basalto é resistente, Apolonius — comentou o amigo para o erudito.

Em dez minutos de silêncio, em que Sidney pensara que ele se manteria quieto, o sábio disse:

— Tragam água e os recipientes negros e brancos que guardei em minha casa, na caverna.

Apolônius descreveu como um superácido o produto que guardara nos recipientes brancos. Disse para deixarem-nos encostados às paredes da pirâmide, deitados, e que pusessem as vasilhas fechadas de cor negra junto aos recipientes alvos.

O Mestre dos Mestres abriu com imenso cuidado os recipientes brancos, fechados a ponto de as tampas estarem quase soldadas ao corpo dos vasilhames, revelando um pó de cor esbranquiçada que preenchia os potes até a metade. Com mais cuidado ainda, despejou o pó branco junto às paredes da pirâmide, sem que tivesse contato com a substância. Foi nesse momento que falou para trazerem partes das calhas, de cinco a seis metros de comprimento, e vinte a trinta armações que as sustentassem para que formassem declives de, no máximo, seis metros de altura.

Montaram as estruturas e, olhando sempre para a nuvem de poeira sufocante que parecia que chegaria a qualquer momento, ordenou que destampassem os recipientes negros e saíssem correndo. Com o auxílio de baldes, Apolônius ordenou que trouxessem trinta e cinco litros de água.

Com o auxílio de pirâmides humanas, onde cada pessoa se apoiava nos ombros dos homens do nível inferior, os humanos alcançaram seis metros de altura e montaram as calhas.

Derramaram a água sobre as substâncias e houve um chiado, acompanhado de borbulhas e o superácido reagiu com a substância catalisadora dos vasilhames negros. A multidão recuou alguns metros da pirâmide. Explosões ensurdecedoras e fumaça corrosiva fizeram o estrago pretendido. As calhas foram despedaçadas e uma parte do resistente basalto da pirâmide foi pelos ares.

A pirâmide pode ser adentrada. Patamares de pedra e basalto duro e áspero compunham o seu interior. Apolonius disse para que Sidney fechasse a abertura que haviam feito.

— Mas como faremos para que a abertura seja fechada por completo, sem que haja orifícios ou fendas?

— Use isto, Sidney, misture com areia e use água para criar uma argamassa de composição fundida.

Como mágica, o pouco que havia do ingrediente que Apolonius dera a Sidney esquentou e endureceu, aumentando seu volume, ao ser manuseado, e tornou-se o mais resistente e duro material da pirâmide. Sidney via ao redor como os homens se maravilhavam ao descobrirem os tesouros que existiam na construção. Comida, guardada em potes de barro endurecido, e que exalava um aroma maravilhoso e de dar água na boca. Um material frio, liso e transparente, como ninguém havia visto, exceto Apolonius, encerrava nível a nível plantas comestíveis, cujas mudas e sementes podiam ser plantadas na terra fértil que existia no interior da construção. Água, sim... água existia em tanques de dez mil litros, lacrados, mas que podiam ser aproveitados... havia, próximo ao topo dos imensos tanques, orifícios de todos os tamanhos, tampados com objetos de madeira e ferro. Foi só destamparem os tanques que água pura escoou em jatos finos, mas constantes. Era só fechar cada orifício, que não se perdia água alguma.

É isso, Apolonius aconselhou a todos, sentados no décimo pavimento, a partir do topo da pirâmide, jamais deixem a água escoar sem motivo. Usar com inteligência e sabedoria faz parte de nossa sobrevivência. Haverá uma hora em que partiremos de nosso Mundo de Areia, para nos estabelecermos na Terra, Lua, Marte e as luas de planetas gigantescos gasosos. Meu pai me contou sobre a Terra. Só posso descrevê-la como um paraíso, onde nada falta e viveremos como vivemos aqui, mas com a ausência de um deserto perigoso. Haverá muito verde das florestas e o azul dos oceanos e rios. Em todos os lugares haverá comida em abundância e água existirá em maior quantidade, ainda.

Um dia decorreu e ouviram as primeiras rajadas de vento e areia. Já haviam explorado trinta níveis da pirâmide enterrada. Mas o basalto e a pedra de que compunham as paredes estavam imersos sob a superfície e nada aconteceu. O pouco da pirâmide cuja areia que a cercava fora descoberto, no topo, resistiu aos açoites da areia mortal.

— Sei que tudo o que me falou e me ensinou até hoje é verdadeiro. Vi como a Matemática, a Geometria e a Álgebra podem ser complexas e, ao mesmo tempo, dominadas por mentes como a sua — disse Sidney a Apolonius, enquanto desciam uma escada no quadragésimo nível da pirâmide. Ali, havia o que o Mestre da Matemática procurava. O que completava sua erudita formação. — Mas, desculpe-me por duvidar, como sairemos desse planeta? A força propulsora dos motores de uma astronave com as dimensões deste edifício deverá ser colossal...

— Venha até aqui, Sidney. Veja com seus olhos.

Sidney aproximou-se do erudito e viu, em uma mesa esférica, negra, a imagem de pirâmides subindo e convertendo areia em vidro, à medida em que o fogo das detonações nucleares da base de seus edifícios-astronaves queimava e cristalizava tudo o que havia sob eles.

Sidney tocou o vidro da superfície da tela à sua frente e milhares de imagens, convertidas em filmes e hologramas, passaram para sua mente, acompanhadas de cálculos, demonstrações, a sabedoria dos antigos, que haviam caído na superfície e reparado suas astronaves, escapando à morte no seco Mundo de Areia. Sidney viu como, no centésimo nível a partir do topo da astronave, motores hercúleos os levariam às estrelas, à Terra e seu Sistema Solar, em particular.

Podemos chegar aos controles antes da semana findar, Mestre!

Apolonius pousou sua mão no ombro de seu ex-discípulo e falou:

— Não sou seu Mestre, Sidney. A partir do tempo em que descobriu o topo da astronave, tornei-me seu amigo. Mas esperemos todos se reunírem no décimo nível. Enquanto não se reúnem nele, estude esta tela de instruções. Será um dos pilotos desta astronave, portanto, saiba tudo sobre a nave. Outros virão, eu os organizarei em grupos. Eles saberão, também, dos mistérios da propulsão da fusão nuclear.

Sidney absorveu, em um dia, o que filósofos e sábios teriam levado anos para colocar em prática, sobre a nave. Alcançou os princípios de como construir tal astronave e como consertar qualquer parte de sua estrutura, no espaço.

O mesmo aconteceu com cem outros homens. Ansiavam pelo conhecimento que nunca tiveram. Em um dia, todos podiam ser qualificados como engenheiros astronáuticos, mas conheciam mil vezes mais do que os seus irmãos terráqueos jamais o souberam, na Terra.

Apolonius foi o primeiro a atingir a câmara de propulsão. Imenso salão, um espaço de profundidade impressionante. Seriam necessários dez a vinte dias para explorar aquele colosso. Porém, havia elevadores. Pontes rolantes entre as paredes do maciço. Escadas auto-extensoras, que levavam a qualquer ponto do vazio.

Descendo por um elevador transparente, em meio à escuridão do vazio, o Mestre dos Mestres chegou à base da pirâmide. Era simples o que existia, em aparência. Complexas eram as leis físicas que possibilitaram trazer a nave a tão longínqua distância, como a Terra se encontrava.

Ele saiu do elevador principal e andou por uma passarela entre dois imensos cilindros-mestre, carcaças de dois motores nucleares que, perto deles, os homens eram meras miniaturas. Havia mil propulsores e Apolonius suspirou de prazer. Ao lado do elevador que levara o sábio até ali, outros se abriram. Humanos procuravam... algo. Naquele lugar, luz era projetada do interior dos motores e do espaço entre cada um deles, paralelos entre si. Deixaram de se maravilhar com fantasia e ficção e aceitaram a realidade como a única ficção que existia, concreta e admissível.

Apolonius viu um platô de metal, a cinquenta metros, que se alargava entre dois elevadores. Gritou para que todos se encontrassem naquele lugar.

— Somente cem indivíduos, dos três mil que somos, poderão pilotar esta astronave. Os outros viajarão em nichos, em segurança. Há água, comida e medicamentos deixados pelos nossos antepassados. Passem a informação de que em dez dias partiremos. Vocês, pilotos, já saberão tanto quanto os Antigos, então. Os demais poderão passar o tempo a estudar, atingindo, no nível das esferas de reeducação, um ponto que em tempo algum vocês poderiam alcançar. Ou poderão dormir durante a viagem inteira. A decisão é de cada um, e a cada um caberá a responsabilidade de seguir com tal decisão ou mudar de ideia, durante a viagem. Calculo que se passará um mês de nosso planeta natal, o Mundo de Areia, até chegarmos ao Sistema Solar.

Todos, menos Apolonius, subiram para os níveis superiores. Os pilotos familiarizaram-se com os instrumentos destinados à propulsão e à direção da nave. Sidney, no último dia antes da partida, memorizou equações que tinham pouco sentido para ele, no início de sua educação. Agora, podia, e deveria ser capaz de lidá-las tanto nos instrumentos de controle, como em sua mente. Talvez fosse perda de tempo, mas ele descobriu alguma coisa estranha, sobre os propulsores. Programados para levá-los anos-luz para o espaço profundo, mesmo eles eram dados a falhas.

Sidney procurou Apolonius.

— Das quinhentas equações de direcionamento da astronave, duas delas estão com elementos faltantes. Descobri isso hoje.

— Pode conclui-las, suponho.

— Apolonius, examinei mil e quinhentas equações e vetores fusionais. Só essas duas equações são o suficiente para nos perdermos entre as galáxias, a milhões de anos-luz de qualquer uma.

Apolonius começou a caminhar, a um ritmo elevado, para o nível das esferas educacionais. Disse:

— Em qual delas viu a falha? Pretendo confirmar o que penso.

— Nesta — Sidney respondeu, andando até um dispositivo negro, salpicado de pontos de luz dourada. Flutuava no ar, a dez centímetros de altura.

Apolonius entrou em contato com a superfície dela, pousando sua mão sobre a esfera semilíquida. Moveu seus dedos de um lado para o outro, sussurrando.

— Descobri a falha, Sidney. Teremos de reconstruir um módulo de controle completo, entre dois painéis de direção. Venha comigo. Mostrar-lhe-ei o quanto essa astronave é capaz de fazer.

No quinto nível, onde os pilotos se posicionariam, o teto era alto e o Mestre retirou, de uma reentrância da parede, acima dos painéis de comando, cinco bolsas confeccionadas de material marrom e resistente. Colocou-as no chão e apontou-as.

— Sidney, esse material que envolve as ferramentas de trabalho, circuitos, peças mecanoides e disruptores de segurança, é maravilhoso. Nem com a mais afiada de nossas navalhas conseguiríamos fazer um corte sequer nas bolsas. Mas sei o que perguntará. Como abri-las? Veja este nódulo, esta parte que lembra uma costura, feita em suas vestes. Ele fecha ou abre a sacola. Assim.

Apolonius agarrou com o polegar e o indicador duas partes do nódulo e pressionou-as para dentro do vinco. Um estalo e parecia que... sim, a bolsa se abrira.

— Mostre para os outros. Agora, já sabe também como fechá-la — e Apolônius bateu em seus ombros. — Não se esqueça. Mantenha a mente preparada. Eu irei dormir na viagem. Meu físico está enfraquecido, não sou mais o mesmo de quando completei cem anos. Venha comigo, vou lhe mostrar os motores de propulsão. Você já os tem em sua mente, aprendeu o que era possível sobre fusão e fissão nuclear, o bastante para construir um propulsor atômico.

Mas uma das mulheres da tribo tinha outras ideias na cabeça. Havia aprendido como construir um artefato explosivo de grande poder. Desceu em outro elevador para o primeiro nível e escondeu-se entre dois cilindros de propulsão.

— Vê aquele circuito, cheio de transistores orgânicos, que se conectam a outros, e mais outros?

— Sim, é um dos bloqueadores de radiação.

— Exato! Sem esses dispositivos, a radiação se espalharia para o restante da nave. Não é um propulsor de fissão nuclear, este, mas certamente a radiação proveniente dos propulsores, que incidirá para o espaço, se espalhará para este nível, vaporizando-o por completo. Os bloqueadores de radiação são tão importantes, que, sem eles, a nave se transformaria em uma pirâmide de radiação gama. E se desintegraria.

— É óbvio que... espere, Apolonius, espere um pouco — sussurrou o rapaz. Sidney abaixou-se e rastejou até o propulsor seguinte, na fila de motores, e virou à direita. Chegou à esquina de quatro interligações e flagrou a traidora instalando o explosivo junto a um dos propulsores.

— Te peguei! — o rapaz falou, pulando sobre a terrorista. Ela sacou sua lâmina de trinta centímetros de comprimento e desferiu um golpe contra Sidney. Este desviou a arma e cravou o metal do seu punhal no ombro da outra. Ela era resistente. Cortou a pele do queixo do adversário e tentou esfaqueá-lo no estômago. O humano era ágil, porém. Desviou-se e cortou as costas da mão que empunhava a lâmina da moça. Ela largou seu punhal e chutou Sidney entre as pernas. Ele caiu.

A moça começou a correr. Se escapasse, poderia ser o fim de todo o projeto. Sidney a perseguiu de perto, sem ligar para a dor nos testículos. A moça chegou a um dos elevadores, já aberto no nível dos propulsores, mas Sidney chegou junto. Ela socou-o no rosto e nas costelas e o homem a prendeu pelo pescoço contra a parede do elevador. A jovem chutou-o com todas as forças, mas ele ignorou a dor no estômago, jogando-a contra o chão.

— Pare! O que queria fazer, destruir os motores?

Ele apoiara o joelho no tórax da traidora. Chegaram outros. Apolonius abriu espaço entre o grupo de curiosos.

— Recue, Sidney.

Apolonius fechou os olhos dela e sussurrou: Ah-leva-mandivh!

— Se tentarmos sair, os propulsores explodirão. Não viram a falta de elementos matemáticos periódicos nas duas equações transurânicas? — ela perguntou.

— Consertaremos essa falha, Gradibh. Diga-me apenas quem mais deseja destruir os motores... por favor, sim?

Gradibh lutou contra, mas Apolonius segurou as mandíbulas da mulher com a outra mão. Forçou seus olhos a ficarem fechados. Murmurou frases. Fez conexões com a mente da terrorista.

— Agora, sei quais os integrantes da sociedade secreta de Gradibh, Sidney. No vigésimo nível, há uma ala que serve para isolar os elementos perigosos da sociedade astronáutica que viera para o Mundo de Areia.

Sidney observou como Gradibh se prostrara no elevador, sob a ação de Apolonius. Ergueu-a e a segurou contra a parede.

— Vou levá-la ao vigésimo nível, amigo. Organizarei um grupo de busca.

Apolonius encostou os dedos anular, médio e indicador na testa do outro. Todas as informações que o Mestre conseguira, passara para Sidney.

— Agora, pode ir.

Em cinco dias, trinta dos cinquenta membros da equipe organizada por Sidney colocaram os rebeldes sob vigilância, atrás de uma espécie de campo de força. E, no décimo dia, todos os três mil homens, mulheres e crianças da tribo estavam deitados nos catres ou sentados nos assentos dos pilotos. Engenhosos, feitos para anular a aceleração da astronave na hora da decolagem, até chegarem à órbita do Mundo de Areia.

A decolagem foi um ribombar de mil bombas de hidrogênio, que abalaram a estrutura da astronave. Sidney não podia se mover, assim como os demais. Portanto, aquietou-se. Fechou os olhos e imaginou como seria a Terra. Gramados, existentes no ponto de onde vieram, atravessando o deserto, existiriam no mundo de destino. Animais marinhos, como só conhecera através das descrições de Apolônius, povoavam os  ocenanos. Tudo o que não havia no Mundo de Areia existia na Terra. Sabia, por intuição, que seriam bem-sucedidos, as duas equações matemáticas falhas agora estavam corrigidas.

A nave libertou-se das milhares de toneladas de areia que a cobriam e um quadrado de luz azul brilhante se revelou, da base da pirâmide.

Sidney e os outros pilotos traçaram a rota para a estrela mais próxima, Rigel, que atingiriam em dois dias. A nave passou a cem milhões de quilômetros da estrela e continuou em seu percurso programado. Alcançariam Bettelgeuse, Marduk, Sírius, Alpha Centauri e, por fim... Terra.

Nada mais foi penitência ou sacrifício para os viajantes. Nada foi perigoso, nas campinas e florestas terrestres. A beleza do céu, azul e branco das nuvens, cativava o grupo. Encontraram milhares de outros humanos e, como pessoas semelhantes, miscigenaram-se.

No Mundo de Areia, restaram tempestades mortais.

Na Terra, a Ciência foi desenvolvida. Ir às estrelas não era ambição dos povos terrestres, no momento, mas um dia, se tornaria objetivo inquestionável.

A Noite caiu.

A atmosfera tropical, onde pousaram, era agradável e, o que era surpreendente, nada abafada ou causticante.

Ficariam ali por algum tempo, um milhão de anos, talvez. Partiriam, quando se cansassem da Terra.

A Terra de seus parentes humanoides, a Terra das promessas que Apolonius sempre contara a Sidney e à sua tribo.



SOBRE  O AUTOR:
Roberto Fiori é um escritor de Literatura Fantástica. Natural de São Paulo, reside atualmente em Vargem Grande Paulista, no Estado de São Paulo. Graduou-se na FATEC – SP e trabalhou por anos como free-lancer em Informática. Estudou pintura a óleo. Hoje, dedica-se somente à literatura, tendo como hobby sua guitarra elétrica. Estudou literatura com o escritor, poeta, cineasta e pintor André Carneiro, na Oficina da Palavra, em São Paulo. Mas Roberto não é somente aficionado por Ficção Científica, Fantasia e Horror. Admira toda forma de arte, arte que, segundo o escritor, quando realizada com bom gosto e técnica apurada, torna-se uma manifestação do espírito elevada e extremamente valiosa.

Roberto Fiori sempre foi uma pessoa que teve aptidão para escrever. Desde o ginásio, passando pelo antigo 2º Grau, suas notas na matéria de redação eram altas, muito acima da média. O que o motivava a escrever eram suas leituras, principalmente Ficção Científica e Fantasia. Descobriu cedo, pelo mestre da Fantasia Ray Bradbury, que era a Literatura Fantástica que admirava acima de qualquer outro gênero literário.

Em 1989, sob a indicação de uma grande amiga sua, Loreta, que o escritor conheceu a Oficina da Palavra, na Barra Funda, em São Paulo. E fez uma boa amizade com o maior professor de literatura que já tive, André Carneiro. Sem dúvida alguma, se não fosse pelo André, Roberto nos diz que jamais saberia o que sabe hoje, sobre a arte da escrita. Nos cursos que ele ministrava, o autor aprendeu na prática a escrever, as bases de como tornar uma mera história de ficção em uma obra que atraísse a atenção das pessoas.

“Futuro! – Contos fantásticos de outros lugares e outros tempos” é uma obra parte Fantasia, parte Ficção Científica, parte Horror, e que poderá vir a se tornar realidade, quer em outra época, no futuro, quer em outra dimensão paralela à nossa. Vivemos em um Cosmos que não é o único, nessa teia multidimensional chamada Multiverso. Ele existe, segundo as mais avançadas teorias da cosmologia. São Universos Paralelos, interligados por caminhos ou “wormholes” – buracos de minhoca. Um “wormhole” conecta dois buracos negros, ou singularidades, em que a gravidade é tão elevada que nada pode escapar de sua atração gravitacional, nem mesmo a luz. Em tais “wormholes”, o tempo e o espaço perdem suas características, tornam-se algo que somente pode-se especular e deduzir matematicamente.

“Futuro! – Contos fantásticos de outros lugares e outros tempos” é uma coletânea de treze contos e noveletas. Invasões alienígenas por seres implacáveis, ameaças vindas dos confins da Via Láctea por entidades invencíveis, a luta do Homem contra uma raça peculiar e destrutiva ao extremo, terrível e que odeia o ser humano sem motivo algum. Esses são exemplos de contos em que o leitor poderá não enxergar qualquer possibilidade de sobrevivência para o Homem. Mas, ao lado de relatos de pesadelo, surgem contos que nos falam de emoções. Uma máquina pode apresentar emoções? Ela poderia sentir, se emocionar? Nosso povo já esteve à beira da catástrofe nuclear, em 1962. Isso é realidade. Mas e se nossa sobrevivência tivesse sido conseguida com uma pequena ajuda de uma raça semelhante à nossa em tudo, na aparência, na língua, nos costumes? E que desejaria viver na Terra, ao lado de seus irmãos humanos? Há histórias neste livro que trazem ao leitor uma guerra milenar, que poderá bem ser interrompida por um casal, cada indivíduo situado em cada lado da contenda. E há histórias de terror, como uma presença, não mais que uma forma, que mata, destrói e não deixa rastros. 
Enfim, é uma obra de ficção, mas que poderá vir a se revelar algo palpável para o Homem, como na narrativa profética da destruição de um planeta inteiro.

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