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sábado, 20 de outubro de 2018

As estradas da vida em Sobre poeira e sol e uma certa calça floral, de Catarina Guedes

 
*Por Alexandra Vieira de Almeida

O novo romance de Catarina Guedes Sobre poeira e sol e uma certa calça floral (Penalux, 2018) faz parte de uma trilogia e é o segundo volume da série Isadora e a BR. Contém 18 capítulos muito bem encaixados e estrategicamente sequenciados numa estrutura leve e bem humorada. O humor é a dose picante que compõe esse livro magistral. Deixando o mundo do trabalho e da rotina de lado, Isadora se impõe férias antecipadas para rodar pelo Oeste da Bahia, a região de Barreiras e outras, observando agudamente o que se passa ao ser redor num tom descontraído: “Um dia saí de casa com a roupa do corpo para entregar um press-kit num jornal e decidi mandar tudo às favas”. O processo da viagem pela rodovia, passando por hotéis da estrada, a leva para as casas de pessoas que ela vai conhecendo pelo caminho e, a partir das relações complexas com o outro, ela se mira no espelho de sua própria face, passando por um itinerário de autoconhecimento e reflexão sobre a vida. Suas análises sobre o espaço são magníficas, mostrando-nos o quanto de filosofia da experiência encontramos por aqui.
Passando por fazendas suntuosas e festas de deixar qualquer um surpreso, é importante uma certa psicologia dos vestuários e da gastronomia, juntamente com os espaços externos pelos quais Isadora vai se misturando. E neste entremesclar entre corpo do ser e a carne da realidade vão se figurando os espaços da adaptabilidade, como a roupagem externa vai vestindo esta narradora-personagem. Isadora passa por mudanças. Transformações no seu estilo de vida, gostos. Como uma camaleoa, ela se veste de acordo como a situação que se lhe apresenta sem nenhum pudor. As situações engraçadas e inusitadas pelas quais ela se movimenta produz traços fortes de humor bem elaborado a partir de fatos cotidianos, como o diálogo consigo mesma através de uma rã que aparece no banheiro do hotel. E neste processo de análise externa e interna, ela vai comparando a cidade com o campo: “Quando eu morava na cidade, as intrusas eram as baratas”. É de crucial importância este processo comparativo entre cidade e campo, viagem interior e exterior, o dentro e o fora, fazendo-nos lembrar do conto “O espelho”, de Machado de Assis, em que o externo (a farda) dialoga com o eu da personagem.
Toda uma geografia do vestuário é apresentada e não poderia faltar no título este momento em que a calça floral é um componente forte na vida de Isadora. Esta se veste de acordo com seu interior. O externo também a impacta, causando transformações na sua psicologia, caráter e comportamento. Ela se surpreende quando em meio à estrada ela encontra grandes lojas com roupas de grife para os moradores das fazendas de lá: Chanel, Montblanc, Salvatore Ferragamo. É extremamente forte e impactante a invasão do estrangeiro na vida de Isadora e daqueles moradores. A língua inglesa e francesa são as principais em seu vocabulário, em que solta aos olhos a influência da internacionalização no campo e seu processo de modernização e urbanização. O surpreendente é isto, como uma mini-cidade está adentrando o espaço do campo, com seus hibridismos e diálogos. Os desejos contidos de Isadora vêm à tona. Uma das palavras de grande força no livro é o desejo. Como o desejo, o prazer molda a vida dessas pessoas com grande intensidade. O desejo pelo consumismo de Isadora não deixa, na verdade, que ela esqueça a cidade, a capital, ela está mais viva do que nunca no seu interior.
A nova amiga Sheila lhe revela o mundo das festas no campo, regadas a boas bebidas e comidas típicas da região, entrecruzando o gosto do que é nacional ao estrangeiro. Apesar de Isadora ser uma visitante naquele local, ela é vista como participante daquele mundo campestre. Ela ganha tons de familiaridade naquelas zonas hospitaleiras. O hospitaleiro é um elemento recorrente em seu romance. Como não nos lembrarmos do tom hospitaleiro na epopeia A Odisseia, de Homero, em que Ulisses é bem recebido em várias partes nas quais ele vai percorrendo ao longo de suas aventuras. Isadora passa por uma intensa aventura que deixa marcas e inscrições no seu corpo interno e externo. Os personagens se modificam ao longo da narrativa. Sheila que teve uma educação religiosa, apesar disso não quer seguir religião hoje e ultrapassa os limites do que é imposto pela sociedade. Há uma reviravolta no mundo de Isadora. A cidade pequena pela qual ela se estabelece por um tempo é invadida pela tecnologia e pela moda e gastronomia estrangeiras. Temos até aeronaves, como a do atlético Adriano, por quem Isadora se apaixona e de Piotr, um bonitão rico por quem Isadora não dá muita atenção.
No livro de Catarina Guedes há toda uma psicologia dos afetos e relações, muito estrategicamente exposta. Como exemplo, temos o método do ouvido seletivo de Sheila, que pesca aquilo que lhe aprouver no momento certo. Encontramos as vidas destas pessoas endinheiradas no meio do campo e o que pareceria fútil e banal à primeira vista, ganha ares de profundidade das relações humanas, embora Isadora ache descolada a forma de conversar no Skype com as amigas da capital. Apesar deste tom desinteressado, é com fina ironia que Isadora revela a comparação entre o tráfego intenso do corredor na festa e o tráfego na rodovia, fazendo um interessante malabarismo linguístico a criar esta inusitada analogia. Entre traições, bebidas, festas, jogos de pôquer e de sedução, Isadora vai levando tudo isto com sua flexibilidade natural, se amoldando às situações. Não é só de festas que ela cria suas comparações originais. Entre a moda e a rodovia, intensas metáforas são criadas: “Esse look não tinha nada a ver comigo, mas estava tentando ultrapassar novas fronteiras também na moda.”
Outro fator importante na sua narrativa, além do autoconhecimento, são as verdadeiras aulas que o leitor tem no campo do saber, aliando a sabedoria ao sabor, através de conhecimentos gastronômicos, do agronegócio e até mesmo técnico, dos aviões. Não falta também conhecimento político, pois no meio da estrada com seu fusca amarelo, Isadora se envolve na greve dos caminhoneiros e é conduzida por eles a mostrar para a mídia a pauta de reivindicações deles. A linguagem erótica também se faz presente. Isadora se admira com Adriano, sendo revelada a atração mútua entre eles. Há uma intensa sensualidade na descrição dele, que se revela como “um adônis esculpido em âmbar”. Ele é quase uma “entidade mítica”, nem maduro nem muito jovem, a ensinar para Isadora o saber/sabor das coisas. O clima quente e seco de Barreiras condiz com as relações quentes e temperadas com forte atração.
A viagem de Isadora é sempre um itinerário de adiamentos, o ponto de chegada nunca se apresenta, pois o importante é ir, é a trajetória do caminho. Uma viagem sem compromissos e regras pré-estabelecidas. Uma liberdade jamais imaginada em uma viagem. A rotina é completamente desfeita pela originalidade dos fatos, das coisas inusitadas que vão ocorrendo nesta viagem que amadurece Isadora. É intensa a força da mulher e seu duplo. Isadora revela identidades até então desconhecidas, mas que se mostram pela complexidade da viagem. E neste percurso, encontramos o contraste da cidadezinha de Taguá, um “recanto perdido e quase congelado no tempo.” O exotismo da região é apresentado, assim como a sua culinária típica e diferente. Um ambiente rústico. O caubói de Taguá Roquessandro não se afina a nenhuma moral social e conquista várias mulheres. Aqui, a moralidade usual cai por terra. Temos um lugar emancipado, não se prendendo aos ideais românticos da mulher apaixonada por um homem só. O casal monogâmico é deixado de lado nestas paragens.
Outro elemento de grande importância, no seu romance também, é a música, tendo a influência da cultura estrangeira a partir das citações de trechos de música em inglês, algo de que Isadora gosta muito e leva para sua vida. Como não se encantar com trechos da música “The Zephyr song”, do Red Hot Chili Peppers, que é atirada de um buquê do avião de Adriano num arquivo de pendrive para Isadora. Esta, não tão romântica assim, não gosta de flores, mas da tecnologia do dispositivo com a música. A força de seu erotismo é mais forte, deixando os sonhos das princesas de lado. Temos análises importantes e tacadas geniais de Isadora, que vai nos conduzindo nesta “imersão antropológica” em sua viagem. Portanto, o que temos neste romance genial é um aprendizado nas estradas, em que ela passa da relação humana e sentimental para o tom mais social e politizado. Com descrições detalhadas, dignas de um Proust, Catarina Guedes conduz seus leitores para uma verdadeira geografia literária. As aulas em meio à narrativa, longe do tom didático e professoral, nos leva à complexidade da vida. Aprendemos sobre aviação, plantação, culinária, vestuário de forma humorística e comparativa. A aventura não pode terminar e é deixada em aberto no fim do romance para que nossos olhos percorram as camadas de dentro e de fora. É rica a metáfora das relações humanas com relação ao sistema solar, do núcleo aos planetas, os contatos são importantes e impactam a vida de Isadora profundamente, sem banalidades. Um humor fino e inteligente nas estradas da vida.

“Sobre poeira e sol e uma certa calça floral”, romance. Autora: Catarina Guedes. Editora Penalux, 188 págs., R$ 40,00.
Disponível em:
http://editorapenalux.com.br/loja/sobre-poeira-e-sol-e-uma-certa-calca-floral
E- mail: vendas@editorapenalux.com.br

A resenhista
Alexandra Vieira de Almeida é Doutora em Literatura Comparada pela UERJ. Também é poeta, contista, cronista, crítica literária e ensaísta. Publicou os primeiros livros de poemas em 2011, pela editora Multifoco: “40 poemas” e “Painel”. “Oferta” é seu terceiro livro de poemas, pela editora Scortecci. Ganhou alguns prêmios literários. Publica suas poesias em revistas, jornais e alternativos por todo o Brasil. Em 2016 publicou o livro “Dormindo no Verbo”, pela Editora Penalux.
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terça-feira, 17 de julho de 2018

A humanidade que brota na liberdade das palavras, em Agora sapiens, de Camila Mossi


Por Alexandra Vieira de Almeida

Neste livro de crônicas, de Camila Mossi, Agora sapiens (Penalux, 2018), temos uma crítica ácida sobre nossa própria humanidade, naquilo que nos caracteriza como “sapiens” após muitos séculos de evolução. A escritora vem nos dizer da necessidade de buscarmos a sabedoria em meio a atitudes infantis e ingênuas que traduzimos ao longo da vida. Apesar do grande desenvolvimento tecnológico, o psicologismo humano nos deixou um legado anêmico de atitudes pueris e castradoras de nossa verdadeira identidade. Ainda somos “simulacros” e não conseguimos dar o grande salto humanístico de que precisamos. Parece-nos que ainda estamos na idade da pedra, apesar de tanto desenvolvimento político, econômico, social e tecnológico. Precisamos atar as pontas de nossa sabedoria com o desejo de liberdade, ultrapassando nosso mundo sufocante e paralisante. No Dicionário de símbolos, de Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, vejamos como eles caracterizam esta espécie, o homem: “O homem não deixou de a si mesmo se conceber como símbolo também. Em inúmeras tradições, desde as mais primitivas, ele é descrito como síntese do mundo, modelo reduzido do universo, microcosmo”. Mas para isto, Camila Mossi busca a completude entre o homem e àquilo que o rodeia. Mas o que vemos são choques e guerras, brigas e lutas, pela sobrevivência e pelo nosso próprio egoísmo. 
Numa linguagem cotidiana, como a crônica requer, a autora não deixa de ter o poder analítico afiado. Sua crônica vai além da superfície cotidiana para, a partir do aspecto filosófico, nos fazer pensar sobre nossa humanidade. Mossi leva o leitor aos labirintos tortuosos de nossos dilemas pessoais com grande argúcia e elaboração de uma linguagem perspicaz. Nas primeiras crônicas, ela tem uma crítica mordaz de como tratamos nossa sexualidade, que deveria ser válida não por seu caráter apenas animal, mas também pela sua característica implícita de erotismo, ou seja, o pensar sobre ela de maneira mais madura e adulta. Foi dessa forma que pensou o grande teórico Georges Bataille, que criticava a sexualidade puramente restrita aos instintos quando ela deveria ser tratada filosoficamente como dom erótico, de Eros, e toda sua simbologia rica e presente no nosso interior também, pois não só no externo que ela se verifica. Vejamos como Massad Moisés caracteriza a crônica na sua bela obra elucidativa Dicionário de termos literários, para percebermos a eternidade que extrapola o meramente convencional: “Modalidade literária sujeita ao transitório e à leveza do jornalismo, a crônica sobrevive quando logra desentranhar o perene da sucessão anódina de acontecimentos diários, e graças aos recursos de linguagem do prosador”. Camila Mossi ultrapassa o meramente convencional ao lançar seu grito de resistência, buscando uma realidade livre do moralismo pequeno e massacrante. E é através daquilo que nos torna humanos que temos de nos humanizar cada vez mais, fugindo de nossos instintos primitivos.
Outra marca exemplar nas crônicas de Mossi é sua capacidade de recontar, de reescrever o passado com os olhos do presente, como a crônica necessita. Numa das crônicas, ao pai explicar para o filho sobre políticos, Mossi retoma o mito de Camelot para recriar todo um cenário pós-moderno com tintas medievais, para mostrar que as coisas se repetem ao longo do tempo. E na crônica sobre a escrita, que fecha o livro, é magistral o recorte que a autora dá à linguagem que, ao mesmo tempo, que nos devora, nos ressignifica. Ela diz: “E a escrita vira a reprodução impessoal do mundo. E só. Cotidiana e necessária, mas banal”. A escrita, como disse Derrida (repensando Platão), no livro A farmácia de Platão, leva à diminuição de nossa memória, quando a oralidade reforçava nossas lembranças. A escrita é phármakon, tem seu remédio, por ser uma necessidade humana, mas traz também seu veneno, por nos escravizar a coisas medíocres e banais, como a autora nos revela na crônica “Não sabia, agora sapiens”. A linguagem da autora é uma lâmina que corta os véus da memória, trazendo à tona nossos segredos mais recônditos. Tudo é exposto no terreno da referência a partir da literatura. As veias humanas são expostas. Nossa identidade é revelada por uma linguagem clara e metamorfoseante. Seu texto é múltiplo e eficaz, desenrola a magia de nossa dualidade, que nos aponta para nossa própria humanidade e aquilo que se esconde nas nossas peles internas.
A autora traduz a relação entre o homem e o mundo no seu livro exemplar. O leitor busca essa totalidade a partir da síntese de suas crônicas que servem como metonímia da equação humanidade x universo. O grandioso Umberto Eco, em Seis passeios pelos bosques da ficção, assim disse sobre o papel do leitor na ficção: “Afinal (como já escrevi), todo texto é uma máquina preguiçosa pedindo ao leitor que faça uma parte de seu trabalho”. A autora aqui em questão torna estas lacunas possíveis de serem preenchidas pelos leitores argutos. A literatura seria uma forma de ultrapassar nossa bestialidade, a idade da pedra, e avançarmos por uma floresta de signos e símbolos que devem ser decifrados pelos leitores. Mossi faz um trabalho perfeito nas suas crônicas de verdadeiros diálogos com os leitores. É o questionamento que ela faz de nossa humanidade e o que devemos buscar para que o humano se torne cada vez mais possível num mundo que nos aprisiona com suas TVS que nos domesticam.
Mossi segue a grande máxima barthesiana que dizia que a Literatura tem que ultrapassar suas próprias fronteiras, aceitando o risco de extrapolá-la. Vejamos Barthes: “Ela também deve indicar alguma coisa, diferente de seu conteúdo e de sua forma individual, e que é o seu próprio fechamento, aquilo pelo que, precisamente, ela se impõe como Literatura”. A autora não foge a esta perspicácia ao utilizar no seu livro o conhecimento da mídia, da tecnologia, da história, da política, do mito, do bíblico e muito mais. A Literatura derruba seus muros de introspecção para se tecer como pontes de possibilidades através de seu viés transdisciplinar. Mossi rearranja tudo de maneira exemplar, fazendo de seu livro uma conjunção de conhecimentos outros. 

Portanto, Camila Mossi arquiteta seu livro com maestria e domínio da técnica da escrita com uma linguagem rica e plena de conhecimentos. É uma Literatura com “L” maiúsculo que nos faz pensar sobre nossa humanidade tão corroída pela sociedade tão cruel e ferina. Seu voo feérico alcança outras margens, nos faz enxergar sobre o quanto o homem precisa de outro ser para que a rede não se desfaça e que os nós da língua nos levem para aquilo que nos humaniza a partir das artes e dos saberes que nos devem tirar das gaiolas e nos lançar ao voo pleno dos pássaros livres numa sociedade mais justa e libertadora. Mossi vai fincar raízes no nosso lado humano e nos fazer olhar mais para dentro do que para fora, fazendo-nos acordar do sonho de nossa desumanidade. O olhar do ser é o olhar do outro que deve buscar a harmonia em meio ao caos circundante. Esta é a humanidade que brota na liberdade das palavras.

“Agora sapiens”, crônicas. Autora: Camila Mossi. Editora Penalux, 122 págs., R$ 36,00, 2018.
Disponível em: http://editorapenalux.com.br/loja/agora-sapiens
E-mail: vendas@editorapenalux.com.br

A resenhista:
Alexandra Vieira de Almeida é Doutora em Literatura Comparada pela UERJ. Também é poeta, contista, cronista, crítica literária e ensaísta. Publicou os primeiros livros de poemas em 2011, pela editora Multifoco: “40 poemas” e “Painel”. “Oferta” é seu terceiro livro de poemas, pela editora Scortecci. Ganhou alguns prêmios literários. Publica suas poesias em revistas, jornais e alternativos por todo o Brasil. Em 2016 publicou o livro “Dormindo no Verbo”, pela Editora Penalux.
Contato: alealmeida76@gmail.com
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quinta-feira, 14 de junho de 2018

A solidez do humano, em Não temos wi-fi

Foto divulgação
*Por Alexandra Vieira de Almeida

O que une os quatro autores neste livro de crônicas Não temos wi-fi (Penalux, 2018) é o poder da crítica em vários campos do saber: a crítica literária, a política, a social e até mesmo a pessoal, extrapolando os limites de um saber específico e recriando-se no subjetivo, com as impressões sobre o universo contemporâneo que os cerca e, voltando no tempo, na experiência habitável de tais escritores. A linguagem se faz morada, casa habitada por cada autor em sua vivência com o real. O externo se torna habitação das impressões recorrentes destes quatro autores que compõem o livro, que entre a crônica, o ensaio e a poesia, expõem a nervura da realidade sem medo da exposição.
São eles autores já com uma larga trajetória pela literatura, com vários livros publicados entre romances, contos, crônicas e poesias. O livro é dividido em quatro capítulos, um para cada autor: “O avesso da medida”, de Cyelle Carmem; “Um sol vermelho no fundo turvo do espelho”, de Lau Siqueira; “Lupas de elefante”, de Letícia Palmeira e “Conversas de rodapé”, de Linaldo Guedes. O título não poderia ser mais convidativo e irônico. Autores com larga experiência nas redes sociais convidam os leitores a darem um stop na rede internética para falarem de coisas humanas, o que revela nossa humanidade em face do tempo, quando ainda não tínhamos esta febre de internautas. Não temos wi-fi é um louvor à nossa humanidade, tão corroída pelo preconceito, pela corrupção, pela desumanização e liquidez do ser, que nos tornaram reféns da crueldade e do medo. Esse belo livro nos vem falar da solidez do ser, dos laços imprescindíveis dos afetos, o que nos torna ao mesmo tempo, semelhantes e diferentes nessa rede inextrincável da vida.
Na crônica “Despertador literário”, Cyelle Carmem diz: “Mas na verdade a poesia me deixou acordada para sair de mim, libertar-se de mim”. A tônica maior de suas crônicas é despertar o ser sobre sua verdadeira identidade em face do mundo. Questões ligadas às minorias, como o teor da negritude, uma voz que não quer ser abafada e esquecida pelo preconceito de uma sociedade preocupada com seu próprio umbigo e que não vê no irmão a máxima maior da fraternidade que uniria todos os seres sem maiores violências e objeções. Cyelle Carmem levanta sua voz de liberdade perante a incompreensão humana. Suas crônicas são carregadas de críticas ao racismo, mas também aponta para outros temas, como as relações entre os casais, a sua experiência de viajante e o mundo virtual. Também discursa sobre cotidianidades, como o gênero da crônica requer, mostrando temas atuais e presentes na sua vida, regredindo, ao mesmo tempo, ao seu próprio passado para contrastá-lo com o nosso dia a dia, pois cronos é tempo. Tempo que nos circunda, nos envolve. “O avesso da medida” é o grito da libertação, daquilo que é limitado pelo olho da desrazão opressora.

Em “Um sol vermelho no fundo turvo do espelho”, Lau Siqueira nos convida para um debate profundo em torno de vários temas, como o cenário político atual, com suas mazelas, o papel do escritor no passado e no presente, o cinema, as artes em geral, a mídia, a lei do mercado, o papel da escola na disseminação e riqueza da literatura. Ou seja, este sol vermelho no fundo turvo do espelho é a nossa esperança que sobrevive em meio ao caos, a escuridão de uma sociedade obscurecida pelo preconceito e pelo medo. O mito de Pandora nos deixa ver este lastro de esperança que é o sonho utópico da humanidade em meio ao trágico destino dos seres que são assombrados pela crueldade do real que nos açoita covardemente. Lau Siqueira busca esse sonho utópico que nos faz desbravadores de horizontes para que a potência do humano, sua solidez em meio à liquidez da fraqueza, se eleve como revolução necessária em solo fértil. Na crônica “Canção da esperança incontida”, ele diz: “A esperança sempre será um caminho, um germinar de iluminuras - jamais uma espera. Estamos caminhando sobre navalhas”. Este mar de coisas pontiagudas a nos ferir será coberta pela delicadeza de nossa humanidade, parece nos dizer o autor.
Em “Lupas de elefante”, Letícia Palmeira vem responder às nossas questões filosóficas – quem somos e para que viemos - trazendo à lume questões presentes nas nossas relações em torno da vida. As lupas de elefante parecem bem dizer dessa maximização de nossa vista. O olhar é recorrente em seus textos, o olhar totalizante sobre as coisas do nosso universo cotidiano. Fala desde as miudezas (salão de belezas, novelas, amor virtual) aos temas mais sublimes como a amizade, o amor e a espiritualidade. Como uma arguta observadora da realidade, revela aos leitores as camadas superpostas do real sem temer represálias. Com ironia, sarcasmo e doçura, tudo misturado, faz de algo minúsculo uma coisa grandiosa, como se fosse possível cobrir a crosta dura da nossa realidade com o véu fino da poesia. Assim, suas crônicas se enchem de beleza pelo dom de observar com lupas de elefante, hiperbolizando o cotidiano com a lupa introspectiva de seu ser transbordante e aberto à imaginação mais fecunda.
Por fim, temos “Conversas de rodapé”, de Linaldo Guedes, que apresenta o lado mais humorístico do livro, como conversas que estendem os discursos críticos sobre várias temáticas nos rodapés da vida, fazendo a ponte entre a escrita (o miolo) e os rodapés (real), o que se expande do texto à sua continuidade e desdobramento no espaço exterior. O papel do escritor e do receptor, longe dos holofotes editoriais. Ele diz, em “Futurologia”: “Literatura não é o que você escreve. É o que os outros leem (mesmo que seja num futuro em que não sabemos qual)”. Com uma crítica mordaz, o autor nos fala sobre o universo da literatura com grande empenho, nos mostrando os acertos e mazelas do trabalho literário. Também discursa sobre música, política, sociedade e os relacionamentos humanos. O escritor aqui em questão faz um verdadeiro mergulho neste mar abarcante da literatura, descortinando para nós, leitores, o que se esconde por trás de suas dobras movediças, que, por lado, pode nos afundar, mas que por outro, pode nos libertar da nossa pequenez a partir não de uma vaidade ou bajulação empolgante, mas no nosso poder de criar e inventar através da mais bela poesia, o que nos torna sólidos como uma rocha em meio ao mar tempestuoso e contrário aos nossos sonhos.
Portanto, nestes quatro autores geniais, temos a expressão rica e original da criação literária, no terreno da crônica, trazendo para nós, leitores, os valores mais humanos, o que nos torna seres especiais, não em navegar no terreno movediço da liquidez imprecisa, mas no que nos solidifica enquanto pessoas que somos e nos adentramos na carnadura libertadora. Uma voz que não se afunda no mar vacilante do cosmos, mas que, humanamente, nos funda como uma fortaleza em meio à vastidão do real, que por ser flutuante, teme em fincar a solidez em lugar infértil. Mas pela força das palavras, da própria poiesis, tais escritores fundam castelos firmes como a utopia do visível sobre o invisível, da força sobre a fraqueza do nosso mundo ondulante e escorregadio. Não temos wi-fi nos conecta não através de senhas desconhecidas, mas a partir do familiar e habitual, da chama que reside em nosso interior.

“Não temos wi-fi”, coletânea de textos em prosa. Autores: Cyelle Carmem, Lau Siqueira, Letícia Palmeira e Linaldo Guedes, 90 págs., R$ 35,00, 2018.
Link para compra: http://editorapenalux.com.br/loja/nao-temos-wi-fi
E-mail: vendas@editorapenalux.com.br

*SOBRE A RESENHISTA

Alexandra Vieira de Almeida é Doutora em Literatura Comparada pela UERJ. Também é poeta, contista, cronista, crítica literária e ensaísta. Publicou os primeiros livros de poemas em 2011, pela editora Multifoco: “40 poemas” e “Painel”. “Oferta” é seu terceiro livro de poemas, pela editora Scortecci. Ganhou alguns prêmios literários. Publica suas poesias em revistas, jornais e alternativos por todo o Brasil. Em 2016 publicou o livro “Dormindo no Verbo”, pela Editora Penalux.
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quarta-feira, 11 de abril de 2018

A força viva de cinco poetas da literatura brasileira

Conceição Evaristo - Foto: Richner Allan
De Alexandra Vieira de Almeida*

A presença da mulher na literatura está mais forte do que nunca. Temos, hoje, poetas vivas que estão fazendo uma excelente contribuição para nossa literatura nacional. Entre elas, podemos citar Conceição Evaristo, Adélia Prado, Astrid Cabral, Olga Savary e Raquel Naveira. Cinco nomes que estão trazendo riqueza cultural para nossa língua.

Conceição Evaristo, por exemplo, tem revelado a importância de se discutir a posição do negro na nossa sociedade. Com uma poesia social impactante, resgata a voz das minorias. Fez recentemente uma homenagem à vereadora e ativista pelos direitos humanos Marielle Franco, morta brutalmente por denunciar as injustiças sociais. A poeta a caracteriza como “luz-mulher”, por dar força ao grito contra o opressor.

Adélia Prado, por outro viés, nos apresenta uma poesia mística, revelando a transcendência das formas. Aplaudida e premiada tanto nacional como internacionalmente, poeta de Divinópolis, mostra-nos um lirismo encantador que enobrece as palavras com o dom dos versos grandiosos. Revelando também a voz feminina que não quer calar, o papel da mulher se enaltece com seus belos poemas. Inspirando o seu lirismo com as faíscas do cotidiano, sua poesia tem a potência da literatura mais profunda.

Já Astrid Cabral reflete temáticas universais e perenes, sem deixar de lado suas experiências ao redor do mundo, nos seus postais-poemas que revelam ser verdadeiras fotografias de nosso imaginário mais interior. Oriunda de uma verve de autores consagrados, tal escritora é reflexiva e complexa, sem se cravar nos malabarismos de um linguajar ininteligível. Sabe cativar o leitor com sua dose fina de intelecto criativo. Dona de uma linguagem plena, doma com perfeição a sua língua.

Olga Savary, que considero um mito literário, trata-se de uma figura excepcional. Através da argúcia de seus versos imagéticos, encanta o leitor com sua poesia genuína. Abordando temáticas de nossa nacionalidade, com “tupinismos” e uma língua clara e cristalina, sua poesia transpira enigmas a serem decifrados pelo inteligente leitor. Através da concisão de seus poemas, consegue concentrar nos espaços dos versos o máximo de densidade poética. Conhecida como a “Monalisa de Copacabana”, a artista engrandece a verdadeira literatura por revelar nossas raízes mais antigas.

Raquel Naveira, no emblemático livro ‘Sangue Português’, apresenta uma poesia magistral que revela nossas raízes lusitanas. No poema que abre e dá título à obra, Raquel nos chama a atenção pelo fulgor da resistência da memória que perpassa como angústia do presente que quer se libertar da nostalgia do passado, mas que não nega a genealogia do sangue português.

Cinco mentes brilhantes da literatura que abraçam uma variedade de temas e desafios. Mulheres, engajadas, cosmopolitas, genuínas e universais, que navegam pelos mares da complexidade poética.



(*) Alexandra Vieira de Almeida é poeta, escritora e doutora em Literatura Comparada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UER). Foto: Tiberius Drumond
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domingo, 10 de dezembro de 2017

A catábase como símbolo positivo do humano, em Ensaios para a queda, de Fernanda Fatureto - Por Alexandra Vieira de Almeida


Seguindo a lição drummondiana de enaltecer o lado gauche da vida, Fernanda Fatureto no livro de poemas Ensaios para a queda (Penalux, 2017) leva os leitores a margearem o rio trôpego da vida. A poeta aqui em questão faz emergir o que está à margem, o caminho errático da vida. O livro é dividido em três partes que se complementam e dialogam entre si: “Travessias”, “Miragem” e “Polifonia”. No poema que abre a primeira parte, temos: “Realizo ensaios para a queda tal qual a última noite/de uma estrela cadente;”. No Novíssimo Aulete, é descrito o fenômeno da estrela cadente: “Visualização da entrada de um meteorito na atmosfera e que provoca incandescência ao se atritar com gases, mostrando-se como o traçado de um risco luminoso no céu noturno”. Portanto a metáfora é digna do título do livro. A escritora dá positividade ao simbolismo da queda, não a apresentando como algo excludente, mas como partícipe da vida. Com seu brilho e luminosidade traz significado para a existência humana. Pois seus poemas são feitos da máxima humanidade. Aqui, nos poemas de Fatureto, comparece o mito de Prometeu que roubou o fogo divino para os homens. O conhecimento traz a queda, à descida ao mundo dos humanos. A catábase é recheada de elementos positivos, levando o ser humano a adquirir a ciência dos deuses, mas sem deixar de lado a hamartia trágica, com seus erros e desconcertos.
Gilbert Durand tem um excelente livro que esclarece sobre a teoria do isomorfismo. Em As estruturas antropológicas do imaginário, ele disse que o isomorfismo é uma forma de aproximar símbolos, que poderiam até se apresentar como díspares entre si, mas que são sintetizadores de um mesmo núcleo temático. Fernanda Fatureto alcança esta difícil proeza ao sintetizar imagens num mesmo núcleo temático, a queda, dando-lhe corpo e substância a partir de metáforas como a estrela cadente, as pedras. O simbolismo da dureza e da petrificação comparece durante sua obra, como na mulher de Ló que olha para trás e vira pedra. Apesar das imagens de imobilização a que o erro pode levar, há uma saída final a partir do vazio e do silêncio. Sua poesia é feita de palavras importantes, mas a ausência é o outro lado deste muro petrificante, como o que encontramos na muralha da China. Porque apesar dos erros é preciso seguir em frente, quebrar a escultura de mármore que nos molda: “O movimento de seguir em frente/Ainda que sangre”. Fernanda Fatureto observa esta “polifonia” em que as linguagens se mesclam num tecido raro, que é a riqueza de suas belas imagens poéticas. Certa elegância hermética sai dos frascos de seus versos que nos encapsula num rede mágica e encantada como os sonhos. O sonho é dança dos corpos em efusão erótica. São densas suas metáforas eróticas que unem os seres naquilo que os assemelham, a humanidade quente da força lírica. È esta consciência que salta aos olhos do leitor, ávido por paragens mais amenas, longe do dualismo que nos move: o amor e a guerra.
O mítico e o poético se mesclam na sua poesia, em que temos as Moiras, Hera e Prometeu, como metáforas de seus versos ensaísticos. A poeta reflete sobre o real a partir dos mitos, mas sem deixar de lado, a parte grave da vida. Seus acordes são múltiplos. Temos uma poeta conhecedora de seu dom de poetar. Se, por um lado o mítico sobressai, ela não deixa na ruína e nos escombros a nossa história mais presente e real. Acompanhando o mítico, temos o bíblico, unindo as crenças no sagrado universal da verdadeira poesia, que não deve se pautar em dogmas e regras estanques, mas no maravilhamento do novo que refaça o caminho da tradição, mas com outros olhos. Se cair produz seu sonho de positividade, o levantar-se é deserto incontido: “Caímos tantas vezes./O levantar é árido como vulto”. Levantar-se exige um esforço descomunal, é difícil, lento, doído, mas necessário para a evaporação dos anos. Fatureto expõe o sofrimento humano, a dor, o outro lado do brilho de uma estrela cadente, que é a sua queda. Se por um lado, a catábase é permeada de positividade, dá-nos o enfrentamento dos espelhos e seus reflexos, qual Narciso em seu manto de dor e nulificação. O enfrentamento é seu lado ético, o olhar humano frente ao conhecimento de sua própria dor, que não pode ser visto como algo negativo, mas como um poder de autoconhecimento que leva ao crescimento do ser ético.
Fatureto diz: “Nunca estivemos no limite do que se chama humanidade;”. Apesar desta alusão à nossa humanidade, a poeta nos apresenta o mundo mágico do onírico e do sonho, do admirar-se com o que ultrapassa a fronteira do real. E não poderia faltar a referência a García Marquez: “Macondo existia só no papel/Seus leitores visitavam a região/Acordados.” Suas poesias têm esta mirada ao verbo delirante, a “miragem” ultrapassa o fugaz do tempo para se fazer lenda. Num tempo que percorre as pupilas do sonho, sua poesia é feita de realidade (pedra) e de utopia (fogo). Unindo o que nos humaniza ao que nos ultrapassa em chama de desejos, a luminosidade do amor nos faz ver que a vida não é só destruição, ruína e violência. O grito se abafa pelo silêncio das estrelas e sua poesia é cântico estrelado da queda e do acordar para a vida e para a beleza do amor: “O poeta já disse que o verbo delira”. A palavra, o verbo toma o veneno da queda, na poesia de Fatureto, para trazer a partir de seus versos o antídoto, o bálsamo que seca as lágrimas do desespero e da dor. Os poemas de Fatureto são um remédio vibrante para a solidão dos homens. Com eles, estamos acompanhados de vida e prazer em meio ao desconcerto do mundo. É preciso buscar uma origem nesta mistura de vozes, procurar um poder encantatório para o mundo: “Falar a língua matriz/Derivada de todos os sábios”. A poesia desta grande escritora nos revela a trilha para o aprendizado da escrita, como a urdidura poética que não se cala frente ao fracasso do mundo e o que ele nos tem a oferecer.
Portanto, temos nesta poeta ímpar o grito contra uma moral vigente que diz que só o acerto produz conhecimento. A falha, nossa errância é símbolo de positividade, mostrando que a descida aos infernos pode trazer as flores perfumadas da esperança e que a queda torna o ser mais grávido de luz do que de escuridão. Um parto precisa ser feito, para que o homem teça uma vestimenta de revelações de sentido, pois apesar do nonsense do mundo, daquilo que nos cerca por todos os lados, suas poesias revelam o máximo da expressão humana, contém fortes sentidos, densos, complexos e questionadores. Sua poesia mais ilumina que desertifica e apesar da natureza pétrea do humano, o fogo original do mítico nos atravessa, tornando-nos sonhadores de mundos impossíveis. Sua poesia nos fragmenta a partir da queda, mas nos une, através da reflexão desta descida nos espelhos labirínticos do ser. Fatureto sabe como ninguém como adentrar no interior do humano, mostrando-nos suas faces múltiplas, polifônicas, fazendo da miragem e do sonho uma ponte, uma travessia para o que lateja além do humano.

“Ensaios para a queda”, poesia. Autora: Fernanda Fatureto, 74 págs., R$ 35,00, 2017.
Link para compra: http://bit.ly/ensaios_para_a_queda_penalux_leia
E-mail: vendas@editorapenalux.com.br

Alexandra Vieira de Almeida é Doutora em Literatura Comparada pela UERJ. Também é poeta, contista, cronista, crítica literária e ensaísta. Publicou os primeiros livros de poemas em 2011, pela editora Multifoco: “40 poemas” e “Painel”. “Oferta” é seu terceiro livro de poemas, pela editora Scortecci. Ganhou alguns prêmios literários. Publica suas poesias em revistas, jornais e alternativos por todo o Brasil. Em 2016 publicou o livro “Dormindo no Verbo”, pela Editora Penalux.

Sobre o autor:
Fernanda Fatureto é poeta e jornalista. Bacharel em jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero. Participa das antologias poéticas 29 de Abril: o verso da violência, Subversa 2 e Senhoras Obscenas. Seu livro de estreia, Intimidade Inconfessável, foi publicado em 2014 pela Editora Patuá.  Possui poemas em diversas revistas literárias do Brasil e na revista InComunidade de Portugal. Nasceu em Uberaba, Minas Gerais, em 1982.
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segunda-feira, 24 de julho de 2017

Entre a máscara e a revelação no romance Veneza, de Alberto Lins Caldas

Por Alexandra Vieira de Almeida –

    Ao ler o esplendoroso e arrebatador romance de Alberto Lins Caldas, Veneza, recordo-me da imagem da Terra como paraíso, o Éden de Leibniz, com seu dizer de que habitamos o melhor dos mundos possíveis. Alberto Lins Caldas vai além, revelando um mundo tenso, denso, em que convivem a beleza paradisíaca da cidade do coração do narrador-personagem Pierre Bourdon, Veneza, com suas águas, cheiros, alimentos apetitosos, numa revelação sinestésica, em que os sentidos aguçados na narração nos levam ao corpo saboroso desta cidade ímpar, com o inferno da miséria dos seres, os desvalidos, os viciosos, e a melancolia do próprio Pierre que tenta captar a imagem de sonho/pesadelo da realidade. No conto de Voltaire, “Cândido ou o otimismo”, em que o filósofo-escritor francês ironiza Leibniz, o personagem passa por todos os infortúnios e mesmo assim é otimista. O autor deste belo Veneza, mostra-nos um personagem que passa por vários problemas devido à sua paixão por mulheres casadas e, por isto, caminha para a iminência da morte: “Livros e mulheres foram sempre o meu fraco...” Logo no primeiro livro do romance por ora aqui estudado, a narrativa se constrói como uma preparação para a morte, como podemos encontrar na história dos grandes filósofos: “...e nesses extremos se delineia a ironia da minha vida e a razão da minha morte”.

De um lado temos, no início do livro, a vivacidade de um personagem que busca o prazer a qualquer custo. A poeticidade e lirismo com que o narrador-personagem narra a beleza idílica e a exaltação do local vista do interior do quarto em Veneza se alongando para as imagens vistas pela janela, acrescentando cores, como se estivesse revelando uma bela pintura, reproduzem a máxima horaciana “Ut pictura poesis” (A poesia como pintura). A força descritiva de Caldas, com constantes adjetivações e enumerações, só reforça esta realidade icônica de sua obra. Esta realidade pictórica de sua escrita é uma estratégia narrativa para reter a memória, pois sua escrita é uma rememoração dos momentos paradisíacos e infernais da história de Pierre Bourdon. Se desde a apresentação com o achamento de um Códice onde estaria esta narrativa encontrada no lixo pelo editor-autor, temos a falta de precisão, o romance em questão fruto deste Códice impreciso, revela um paradoxo rico de estética. A constante adjetivação do narrador-personagem, que não sabemos se ele é real, é uma forma de acobertamento também da falta de precisão que a própria memória pode levar, já que ela, segundo Derrida, em seu livro Farmácia de Platão, seria exterior à escrita ao analisar uma passagem de Fedro, de Platão; pois a escrita é pharmakón, tem seu remédio, mas também traz o veneno. O papel do editor-autor foi ordenar, colocar ordem no que é caótico do próprio Códice, num processo de organização composicional, inserindo epígrafes em cada um dos sete livros, que por sua vez, são divididos em três capítulos.
Ao longo do romance, temos um amadurecimento de Pierre Bourdon, em que a bile negra - a melancolia - se manifesta com o passar dos anos, num processo de autoconhecimento e autorreflexão, cujo primeiro motor é o espelho da ilha em que ele se mira. Ao ver aquelas pessoas paradas na ilha, após a viagem de navio com seu fiel criado, o Mouro, compara tudo num amálgama só (pessoas, árvores, animais). É neste espelho da ilha, que Pierre observa o rosto do mundo mais de perto e a falta do espaço interno, o lar, o joga para o mundo, percebendo os contrastes dele, a vida-morte, dor-prazer, miséria-riqueza, revelando a intensa compaixão dele pelas coisas do mundo, levando-o a partir daí a seus delírios e melancolia. O quarto de Pierre é o mundo, em sua miniatura-metonímia, a cidade de Veneza, ao invés do quarto minúsculo do autor francês Xavier de Maistre, com sua Viagem ao redor de meu quarto, com suas constantes digressões, que influenciaram Machado de Assis. O espaço do externo inebria Pierre com suas sensações, desde o mais belo ao mais repugnante. Em Pierre, o amadurecimento no ato da escrita revela um narrador excepcional: “...e que no tempo não entendia em sua extensão, mas hoje ecoa bem fundo e com plena verdade em todo o meu ser...”
O Mouro, o que dizermos do criado fiel amigo de Pierre Bourdon? Ele é o equilíbrio em meio ao desequilíbrio, o silêncio em meio ao discurso e livros do amo, a cura em meio à doença, a realidade em meio ao delírio e loucura de Pierre, Sancho Pança e Dom Quixote. Em meio à melancolia do narrador-personagem, o Mouro traz o riso. Em meio aos unguentos, ervas medicinais, banhos, Pierre vai estendendo sua vida num cobertor de vida e morte. Pierre tem o poder de ironizar-se, é sarcástico consigo mesmo, culpabiliza-se num mundo gestado pelo Mal, como ele chama. Se o universo está longe do bem, com a fome, o abandono, a morte, o sofrimento, a velhice, a humilhação, a espera, como explicar o problema do Mal e Deus, uma questão dos filósofos? Guimarães Rosa mostrou, em Grande sertão: veredas, este poder demoníaco na natureza, nas coisas. E como escapar dele? Pierre num processo de esvaziamento de sentido, de Deus, diz: “Pela primeira vez não senti Deus nem neles nem mais em mim”.
Pierre não entende aquilo que não diz respeito à sua vivência. Por isto, para ele, escrever é rememorar, uma luta contra o esquecimento e a própria morte. Por isto ele fala antes de morrer: “...recordar antes de esquecer”. No seu viés mimético, ele deve deixar algumas coisas na obscuridade, não quer saber tudo, aquilo que não lhe apraz ou condiz com seu elemento. Ele conversa consigo mesmo e com o leitor no seu processo de escrita, revelando seu livro como um grande monólogo narrativo com intensa dose de dramaticidade, beirando ao trágico, sem ter, paradoxalmente, diálogos diretos entre personagens: “Por que? então querer me enfronhar em imprestáveis minúcias, cansando minha cabeça, sem nenhuma utilidade, sequer servindo, como agora, para a revivescência dessa escrita.”
A imagem de Pierre é como a própria Veneza, um abismo, um mistério, um segredo, como as águas, o mar. Ele é sem chão, sem firmeza, desconhecido para ele mesmo. A água seria este batismo de esquecimento? O caos em meio ao ordenamento da escrita? Na viagem no mar, no navio, Pierre alcança este vazio. O vazio do quadro branco e das cores carregadas do início do livro. Este vazio é o riso do Mouro. Se Pierre é carregado de linguagem, livros, o Mouro é a não-linguagem, o esquecimento, o vazio, o silêncio, as duas faces, paradoxalmente de Pierre Bourdon e da sua escrita: “Todo mundo é um ator” (Mundus universus exercet histrioniam). O prazer da vida leva o narrador-personagem ao prazer e gosto amargo da tinta. Enquanto o Mouro tem medo do mar, das águas profundas, Pierre é todo água, flutuante e conflitante. Ele se adensa na água. Pierre é caracterizado como vírgulas, pontos e interrogações. O Mouro é reticente. No mar, Pierre poderia morrer, mas o Mouro não teria o corpo da mulher. O Mouro vê a fatalidade iminente e Pierre provoca a Desdita por nada, brinca com a Sorte, o Destino. Isto demonstra no romance de Caldas uma dramaticidade plástica, icônica. Ele cria no mundo uma intimidade de sentidos. Ele utiliza uma linguagem visual, dos olhos, mas que não deixa de ter um processo analítico para as mentes.
Se Pierre faz do externo um lar, o interior; o Mouro faz do lar um mundo como vemos na banheira no final da narrativa. O narrador-personagem faz questão de mostrar as diferenciações dos ambientes, dá destaque a cada parte, enfatizando marcas em cada descrição de sua narrativa como num caleidoscópio colorido e multifacetado, como podemos ver no contraste entre o branco e o negro no estábulo dos escravos e das múltiplas cores na fazenda, revelando no ambiente a tensão que ocorreria depois entre ele e o estranho desconhecido. Há uma grande tensão na linguagem, no romance de Caldas. Aqui de novo, no duelo, há a iminência da morte. Esta é o fim da memória e do tempo, da escrita, portanto. O esquecimento é o processo de rasura, de descascamento do ser. Pierre é um ser que hesita, se tensiona. As impressões do narrador se misturam aos delírios e o leitor se pergunta – isto é real ou delirante?
O Mouro é a consciência de Pierre. Ele sempre o está advertindo. É um dique em meio ao transbordamento de Pierre, que vê Veneza como um ser vivo, pronta a ser devorada, num verdadeiro devaneio-degustação da cidade – o corpo de Veneza – como uma mulher, numa verdadeira relação entre amante e amada. A sua real amada, por assim dizer. Numa topografia corporal, Pierre diz: “As tão drásticas mudanças no meu corpo e na minha alma são reflexos dessa cidade...” E o mouro o tira de seus devaneios. No final da vida, em meio à chuva, paradoxalmente, Pierre ri, dá uma “gargalhada sem fim”. Neste sentido, ele incorpora o Mouro. A luz e a sombra, os opostos convivem no final. Após ver a putrefação do irmão mais velho, Pierre se depara com a estátua de um anjo, mostrando a convivência entre o belo e o feio, o nobre e o asco, o alto e o baixo.
Portanto, temos em Alberto Lins Caldas, um estilo lírico e ácido ao mesmo tempo. E o grande mistério, no final, a grande questão é a própria vida nas muitas faces do ser. Pierre é um ser flutuante, como as águas de Veneza, que transmite admiração e maravilhamento, mas que reflete também a dura realidade, como as pistas que o narrador nos dá no início do livro, quando descreve suas águas cheias de peixes mortos e fezes, distante do lirismo dos poetas. Se o narrador revela a ótica da perversidade, da crueldade, também temos a cura, pois pensar sobre este estágio de desequilíbrio, de doença, é uma forma de equilíbrio, mostrando a forte dramaticidade desta relação. Assim, fica a questão de Alberto Lins Caldas, a linguagem é máscara ou revelação? A resposta cabe ao leitor inteligente como o narrador assim o quer.

Veneza”, romance. Autor: Alberto Lins Caldas. Editora Penalux, 184 págs., R$ 40,00, 2017.
Disponível em:
https://www.editorapenalux.com.br/loja/product_info.php?products_id=549
E-mail: vendas@editorapenalux.com.br

A resenhista
Alexandra Vieira de Almeida é Doutora em Literatura Comparada pela UERJ. Também é poeta, contista, cronista, crítica literária e ensaísta. Publicou os primeiros livros de poemas em 2011, pela editora Multifoco: “40 poemas” e “Painel”. “Oferta” é seu terceiro livro de poemas, pela editora Scortecci. Ganhou alguns prêmios literários. Publica suas poesias em revistas, jornais e alternativos por todo o Brasil. Em 2016 publicou o livro “Dormindo no Verbo”, pela Editora Penalux.
Contato: alealmeida76@gmail.com

O autor
Alberto Lins Caldas é pernambucano de Gravatá, onde nasceu em 1957. Colabora em jornais do Recife (Diário de Pernambuco, Jornal do Commercio e Diário da Manhã) com artigos de critica literária e poesia. Fundador do grupo informal Poetas da Rua do Imperador. Cursou Historia e Arqueologia na UFPE. Ensaísta proustiano e poeta. Autor dos contos de Babel (2001), dos romances Senhor Krauze (2009) e Veneza (2017), e dos livros de poemas Minos (2011), De corpo presente (2013), A perversa migração das baleias azuis (2016) e A pequena metafísica dos babuinos de Gibraltar (2017). 


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terça-feira, 18 de julho de 2017

Grátis: Livro infantil resgata a alegria das colônias de férias


Crianças brincando ao ar livre, contações de histórias, música ao som do violão e muitas travessuras. Esses são os elementos principais do novo livro infantil da escritora e poeta Alexandra Vieira de Almeida, com ilustrações da artista plástica Giselle Vieira. A obra "Xandrinha em: a fogueira de constelações" será lançada gratuitamente pelo site da personagem (http://xandrinhaeseusamigos.com.br/) e promete resgatar as tradicionais atividades das colônias de férias.

Segundo a autora, o título do livro é uma metáfora do que acontece nesses locais ao ar livre, onde todos podem admirar o céu estrelado. "Num mundo onde se 'respira' os computadores e os jogos eletrônicos, achei importante destacar a verdadeira beleza que se encontra na natureza, como, por exemplo, as estrelas e as árvores".

A história começa com a personagem principal, Xandrinha, ansiosa para terminar a aula para poder ir viajar para a colônia de férias. Lá, ela conhece dois novos amigos, os irmãos gêmeos Dudu, que gosta de tocar violão, e Duda, que ama dançar. Na colônia também estará Beto, que aprontará todas.

Nesta colônia, à noitinha, Xandrinha cria um novo jogo em que todos vão ter que dizer o que mais gostam de fazer. Então, ela proclama o poema "Sol e lua". "A menina quer mostrar também seu dom que é a poesia, trocando figurinhas com os novos amigos e recitando suas poesias para eles".

- O poema 'Sol e Lua' escrevi durante minha infância. Dessa forma aproveito para dar vida e realidade dentro da ficção. Outra poesia que está nesse livro como sendo de autoria da personagem é o 'Circo da alegria'. Assim, misturo o inventivo, quando a Xandrinha cita o poema enquanto o Dudu toca o violão, com o real, o meu trabalho como poeta desde pequena - ressalta.

Incentivo para as crianças
Além de fornecer aos jovens leitores a aprendizagem por meio do lúdico e da imaginação, a escritora Alexandra destaca que suas obras também têm como objetivo resgatar as coisas boas da infância, como a pureza das brincadeiras saudáveis. "As crianças precisam viver mais o 'mundo real' e ficar menos prostradas diante da tv ou de computadores".

- Para isso, os pais precisam ajudar os filhos a desenvolver melhor a criatividade. E isso só acontece por meio da leitura - conclui.


Ficha técnica:
Título: "Xandrinha em: a fogueira de constelações". Volume 03
Autora: Alexandra Vieira de Almeida
Ilustrações de Giselle Vieira
Revisão gramatical: Rose Cléa Costa
Publicação: 2017
Formato: PDF
Preço: gratuito
Download gratuito pelo site www.xandrinhaeseusamigos.com.br 

 
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terça-feira, 20 de junho de 2017

Construindo o puzzle enigmático na obra Atlas do impossível, de Edmar Monteiro Filho

por Alexandra Vieira de Almeida – Doutora em Literatura Comparada (UERJ)
Contato: alealmeida76@gmail.com

    Os 15 contos do livro Atlas do impossível (Penalux, 2017), de Edmar Monteiro Filho, conduzem o leitor não a um caminho retilíneo e plano, mas por ruas curvilíneas e íngremes, perfazendo uma geometria de dificuldades, com figuras que se desdobram num virtuosismo profundo em que o leitor não tem possibilidade de escolha, uma vez que a narrativa revela múltiplos enfoques, mostrando o plurivocalismo e as camadas de um livro em expansão até o infinito. Para tal intento, o autor utilizou como referência 15 gravuras do formidável Escher, iniciando cada conto com uma ilustração do artista holandês. O título de cada conto é homônimo a cada gravura de Escher, já revelando uma estratégia temática de Edmar Monteiro Filho, a simulação e seu estranhamento a partir de cada narrativa. Outra homenagem prestada por Edmar no seu livro excepcional é a referência ao escritor argentino Borges que num dos contos deste livro é personagem da narrativa, valendo-se o autor brasileiro da temática borgeana também para estruturar a espinha dorsal de seus textos juntamente com Escher, demonstrando a riqueza que se bifurca neste livro, unindo as influências das artes plásticas e da literatura, nos revelando os diálogos entre Escher e Borges.
    No catálogo do CCBB “O mundo mágico de Escher”, do curador Pieter Tjabbes, este já vislumbrava o paralelo entre os dois célebres artistas:  “...ambos abordam temáticas com filosofia (e seus desdobramentos matemáticos), infinidade e metafísica, em narrativas fantásticas onde figuram os “delírios do racional” expressos em labirintos lógicos e jogos de espelhos”. Edmar capta esta íntima relação entre ambos e produz um livro fantástico, trabalhando com a exploração dos efeitos do jogo de espelhos, como o papel do que se intenciona ou deseja com o que se afasta ou repele, que podemos ver no conto “Dia e noite”: “Observo o espelho prestes a quebrar-se...” A fragilidade do espelho aqui que pode se espatifar desnuda este espelhamento fragmentado que acaba levando ao oposto da imagem que se quer construir, ou seja, aquilo que reluz pode mostrar o seu lado mais sombrio. O paradoxo doença/cura nos leva à imagem do pharmakós que traz a cura mais também um veneno, que é a serpente enroscada em cada beleza. Como escapar de um caminho que pode levar à libertação, mas que traz inserida a ruína para estes personagens doentes que vivem nas ruas neste conto emblemático?
    Há espelhos cortados, partes de um espelho formando o todo. O narrador joga com a inteligência do leitor o tempo todo, como se a própria narrativa fosse um espelho a ser refletido pelo leitor inteligente que deve juntar as peças deste puzzle enigmático. O livro de Edmar não percorre as linhas de uma narrativa fácil, é denso em seu poder de autorreflexão que se espelha no conhecimento de um receptor perspicaz. No conto “Predestinação”, temos esta urdidura máxima em que o narrador não poupa sua rica e admirável imaginação nos labirintos em múltiplos caminhos e ângulos. O conto nos faz recordar da origem da palavra “texto” que vem do latim textus, que significa “tecido”. Como não perceber que este conto é uma trama em que as várias linhas se chocam e se unem para formar um todo em seu sentido lógico e coerente? O conto nos dá a chave que tem que ser aberta pelos olhos iluminados do leitor atento. O narrador desafia a todo tempo o leitor como vemos em Machado de Assis.
    Em “Convexo e côncavo”, a mensagem encontrada num origami do bonsai nos direciona para esta fragilidade tênue que se encontra na vida de nosso dia a dia: “A vida é frágil”, fazendo-nos lembrar da notável frase de Guimarães Rosa “Viver é muito perigoso”. Entre a fragilidade e o perigo, a vida carrega o peso desta medida que as personagens complexas e profundas deste maravilhoso contista nos revelam. A camada lisa do espelho é propensa ao arranhão, à rasura, à fratura. Os contos deste livro são intensos em demonstrar as peripécias da vida com suas realidades e irrealidades, com sua nudez e sonho. As personagens destes contos são andarilhos de um labirinto frágil que não lhes dá uma resposta satisfatória. O autor se pauta nas questões, nas interrogações que se encontram no lado ainda não visto do espelho, como em “Espelho mágico”, em que a foto deixada na mesinha da sala é o motivo para a narrativa e para as digressões do narrador/personagem, que se confundem.
    São constantes as interferências do narrador, revelando a intensa maestria no próprio ato da narrativa e da leitura, que equaciona o conto como produto de um acontecimento, de uma presentificação, de um aqui-agora. Clarice Lispector era mestra em nos mostrar a partir de suas narrativas o “instante-já”, o tempo do agora, como proposto pela professora Carina Lessa. O conto “Três mundos”, de Edmar é impactante e revela a outra face do espelho literário, a meta-narrativa, com a autorreflexão sobre seu próprio processo de escrita. O narrador que é personagem, que busca afirmar uma verdade ficcional, onde realidade e ficção se mesclam, a memória e esquecimento se alternam, produzindo um conto de fôlego em que o contista mostra seu pleno domínio sobre esta arte difícil do conto que para muitos é o texto em prosa da literatura mais complexo de se elaborar, pois é necessária a medida certa, o ponto essencial.
    Deleuze já apontava em Diferença e repetição que “...a mais exata repetição, a mais rigorosa repetição, tem, como correlato, o máximo de diferença”. Podemos perceber esta afirmação principalmente em dois contos de Edmar, “Fita de möbius” e “Mãos desenhando”. No primeiro, temos o “déja vu” da personagem e partes da narrativa são repetidas em espiral, revelando a dobra deleuziana que através da repetição produz uma diferença. O espelho mais uma vez aparece aqui, sendo uma metáfora recorrente nos contos de Edmar: “...esse tempo de onde meu rosto olhou-me do espelho, em que cada passo e cada gesto é a repetição de um enredo do qual conheço apenas o terrível desfecho.” No outro conto em que temos Borges como personagem, temos o estudante da faculdade de Buenos Aires Barros que faz uma entrevista com o célebre escritor argentino e na bela narrativa, temos um conto do universitário Barros dentro deste conto, aproximando ainda mais Escher e Borges, pois aquele aproveitava o espelhamento das formas geométricas, utilizando uma mesma imagem de forma diferenciada. Aqui o conto “Pierre Menard, autor de Quixote” de Borges do livro Ficções (1944) é também aproveitado a partir deste espelhamento. O uso dos nomes Borges e Barros não é gratuito para se falar do tema do simulacro. Assim, admiravelmente, temos um duplo jogo de espelhos. Edmar se utiliza do conto de Borges para fundamentar seu próprio e autêntico processo de escrita, pois apesar de se valer do artista plástico holandês e do escritor argentino, o contista brasileiro por ora aqui estudado é de uma originalidade surpreendente. Dialoga com grandes gênios, mas revela também sua intensa genialidade em construir contos tão elaborados e complexos em sua tessitura literária. Temos uma obra ricamente ficcional que conhece todo o processo da confecção de um verdadeiro conto sem deixar nada a dever aos grandes nomes da literatura.
    Edmar Monteiro Filho produziu um belíssimo livro de contos em que ele monta um jogo de puzzle enigmático com os grandes artistas, com sua própria narrativa, com as personagens, com a escrita, com as artes plásticas, com o leitor; produzindo um tapete imaginário e real em que os desenhos geométricos se multiplicam em caminhos da escrita, fazendo de sua obra um mosaico de experiências variadas em que a autenticidade ganha voos altíssimos, costurando as linhas tênues entre a vida e a morte, entre o que se consagra, se realiza ou se fracassa na vida de personagens que deixarão o seu canto mais profundo em várias partes do mundo. O domínio do verbo em Edmar é complexo, profundo e infinito como nos espelhos de Escher e na biblioteca de Borges.


Alexandra Vieira de Almeida nasceu no Rio de Janeiro em 1976. É Doutora em Literatura Comparada pela UERJ. É poeta, contista, cronista, crítica literária e ensaísta. Trabalha como agente de leitura na Secretaria de Estado de Educação. É tutora de ensino superior a distância na faculdade de Letras da UFF. Publicou artigos e ensaios literários em revistas acadêmicas especializadas e livros. Participou do livro “À roda de Machado de Assis, ficção, crônica e crítica”, com um ensaio literário (Argos, 2006). O livro foi organizado pelo professor Doutor João Cezar de Castro Rocha. Tem um livro de crítica literária, publicado em 2008, fruto de sua dissertação de Mestrado em Literatura Brasileira, “Literatura, Mito e Identidade Nacional” (Ômega, 2008). Organizou juntamente com um amigo, Doutor em Letras, Ulysses Maciel, um livro de ensaios literários, intitulado “Inventário de literariedades e outras vertigens”(Imprinta, 2008). É membro correspondente da Academia de Letras de Teófilo Otoni, em Minas Gerais. Também foi aprovada por unanimidade pelos Dirigentes da Litteraria Academiae Lima Barreto (RJ) para o recebimento do Diploma de Distinção Literária, laurel máximo desta instituição. Além disso, a partir desta distinção máxima lhe foi conferido o título de Acadêmica Honorária desta excelente instituição. Publicou os primeiros livros de poemas em 2011, pela editora Multifoco: “40 poemas” e “Painel”. “Oferta” é seu terceiro livro de poemas, pela editora Scortecci. Ganhou alguns prêmios literários. Publica suas poesias em revistas, jornais e alternativos por todo o Brasil.


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segunda-feira, 24 de abril de 2017

Crianças travessas também podem gostar de ler

Alexandra Vieira de Almeida
Mostrar que o mundo das crianças é recheado de travessuras e também de muito aprendizado, essa é a proposta do livro “Xandrinha em: Jardim aberto”. A obra faz parte de uma série ilustrada produzida pela escritora e poeta Alexandra Vieira de Almeida juntamente com a artista plástica Giselle Vieira. 

A história apresenta os personagens Xandrinha e Beto brincando com a imaginação no jardim durante um fim de tarde. No local, eles realizam muitas traquinagens, mas também aprendem a importância da leitura.

Segundo a escritora, o jardim trata-se de um local simbólico das aventuras das crianças, além de ser um espaço de descobertas.  “Isso mostra que o brincar de aprender pode acontecer em qualquer lugar, mas quem proporciona o espaço lúdico e questionador são os livros”.

Um dos trechos que revelam isso é quando no meio da bagunça de Beto, ele deixa de lado as peraltices para prestar atenção na Xandrinha enquanto ela lê alguns poemas para sua florzinha Cecília.

- Apesar de Beto ser sapeca, no fundo ele quer aprender. O intuito é mostrar que meninos bagunceiros também podem gostar de ler – comenta. 

Próxima edição
O volume 03 da série ilustrada “Xandrinha e seus amigos” será online. O livro em formato PDF ficará disponível no site durante o mês de julho no site www.Xandrinhaeseusamigos.com.br. A história acontecerá numa colônia de férias, onde Xandrinha conhecerá novos amiguinhos.

Ferramenta pedagógica
Segundo a escritora Alexandra, as obras têm grande importância pedagógica, fornecendo aos leitores a aprendizagem a partir do lúdico e da imaginação. “Pretendemos ainda incentivar que os pais leiam mais para os filhos e que as crianças estudem mais e desenvolvam a criatividade". 


Ficha técnica:
Livro: “Xandrinha em: o jardim aberto”
Link para comprar a edição: Clique aqui.
Autora: Alexandra Vieira de Almeida
Ilustrações: Giselle Vieira
Publicação: Editora Penalux - impresso
Tamanho: 23 cm
Páginas: 16
Preço: R$ 35,00

Site do livro: www.xandrinhaeseusamigos.com.br
 
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terça-feira, 7 de março de 2017

Série ilustrada promove o gosto pela leitura e pela poesia

Com a proposta de levar para o público infanto-juvenil boas histórias e poesias, a escritora e poeta Alexandra Vieira de Almeida e a artista plástica Giselle Vieira lançam a série ilustrada de livros “Xandrinha e Seus Amigos”. O primeiro volume está disponível gratuitamente para download, em formato PDF, no site www.xandrinhaeseusamigos.com.br.

Segundo a escritora, as obras terão grande importância pedagógica, fornecendo aos leitores a aprendizagem a partir do lúdico e da imaginação. Durante as histórias, as crianças vão ver a personagem principal buscando sempre sanar suas curiosidades através dos livros. “Dessa forma, vamos incentivar o gosto pelos estudos e pela literatura, em especial, as poesias”.

- Pretendemos fazer com que os pais leiam mais para os filhos e que as crianças estudem mais e desenvolvam a criatividade - comenta.

Além do lado pedagógico, haverá muitos momentos de diversão. A autora fala que as crianças vão curtir bastante as travessuras não só da Xandrinha como também dos outros amiguinhos que surgirão nas próximas edições, como o arteiro Beto, os gêmeos Duda e Dudu e a florzinha Cecília.

- Queremos dosar o conhecimento com boas doses de peraltices com o lado crescidinho da Xandrinha e ainda ensinar importantes valores para educação por meio das historinhas com a turminha – comenta.

Alexandra diz que a ideia surgiu durante o lançamento do seu livro de poesias “Dormindo no Verbo”, em 2016. Foi ali que recebeu o convite da ilustradora Giselle Vieira para que produzissem juntas livros infantis ilustrados. “Inicialmente, seriam publicações com poemas que escrevi durante minha infância e adolescência”.

- Daí, veio a ideia de usar uma personagem infantil para levar a poesia para outras crianças. Então, nasceu a Xandrinha - relata.

Próxima ediçãoO segundo volume da série ilustrada será lançado no início de maio em versão impressa. Publicada pela editora Penalux, a obra terá o título “Xandrinha em: o jardim aberto” e custará R$ 30,00.

Ficha técnica:
Título: “Xandrinha em: imaginação de criança”. Volume 01
Autora: Alexandra Vieira de Almeida
Ilustrações de Giselle Vieira

Publicação: 2017
Formato: PDF
Download gratuito pelo site www.xandrinhaeseusamigos.com.br  


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