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segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

ENTREVISTA: Ana Brêtas e o livro Cem vezes uma, por Cida Simka e Sérgio Simka


Fale-nos sobre você.

Nasci em maio de 1961, em São José do Rio Preto (SP). Moro em São Paulo desde 1987. Enfermeira e socióloga, ensinei Saúde Pública e Gerontologia por 28 anos na Escola Paulista de Enfermagem da Universidade Federal de São Paulo. Aposentada, escolhi a Literatura como aposento. Em 2018, publiquei o meu primeiro livro de contos: Velhices e outras coisas (Scortecci). Finalista, com a crônica “Não nasci comendo alface”, do Prêmio Sesc de Crônicas Rubem Braga — edição 2015; com o conto “As sombras da cidade”, do Concurso Literário Mulheres Contistas, promovido em 2017 por Editora Zouk e Casa da Mãe Joanna; e com o projeto Cem vezes uma, do edital no 17/2019 do Programa de Ação Cultural (ProAC) da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Governo do Estado de São Paulo.

ENTREVISTA:

Fale-nos sobre o livro. O que a motivou a escrevê-lo?

Cem vezes uma — publicado pela Editora Jandaíra — é produto do edital no 17/2019 do ProAC. O livro O imitador de vozes, de Thomas Bernhard (Companhia das Letras), me inspirou no que tange à forma: aprecio histórias curtas e potentes. O conteúdo, por sua vez, nasceu da minha experiência como mulher e pesquisadora no campo das Ciências Sociais e da Saúde, onde por duas décadas desenvolvi estudos qualitativos ouvindo, observando, acolhendo, estranhando conversas e comportamentos diversificados; bem como da leitura das obras de escritoras contemporâneas, em especial a Conceição Evaristo e a Maria Valéria Rezende. A motivação à escrita se deu pelo gosto de contar histórias.

A escolha de dar aos contos nomes de jogos, brinquedos, brincadeiras (infantis ou não) surgiu da crença de que o ato de brincar é o momento — finito e intenso, como a própria vida — em que sentidos e sentimentos afloram. Os contos são curtos (uma ou duas páginas), uma estratégia para garantir por meio da brevidade da narrativa a força da história: um convite ao leitor para explorar sensações.

Os cem contos curtos que compõem o Cem vezes uma se guiam por um acúmulo variado de situações singulares presentes no cotidiano feminino, contadas por narradores em primeira ou terceira pessoa. Sua produção ocorreu em um cenário marcado por grandes perdas sociais e políticas no Brasil, sobretudo no que diz respeito aos Direitos Humanos e Sociais; parte dos contos foi escrita em plena pandemia. Neste contexto, sem sacrificar a estética, a escrita expressa alguns dos embates presentes na atualidade, principalmente em relação às mulheres e suas singularidades. Temas como sexualidade, morte, existência, pandemia, assédio, sororidade, vida, violência, envelhecimento, perdas permeiam a obra. 

O espaço e o tempo são múltiplos, em cada um dos contos aparecem de forma diferente. O espaço vai além da descrição de lugares/localidades, inclui os objetos incorporados às intenções da narrativa e relacionados à perspectiva da personagem: ruas e praças, trem do metrô, ônibus, macas, mesa de jantar, ambulância, cama de casal, delegacia são alguns dos espaços presentes nas narrativas. Em relação ao tempo, alguns contos seguem a convenção dos relógios e dos calendários; em outros a delimitação do tempo é vaga ou mesmo inexistente, nesses a experiência singular de ser, estar e tornar-se mulher transversa a dimensão temporal e ganha relevância na história narrada.


Como analisa a questão da leitura no país?

A leitura é um Direito Humano. Ler é fundamento básico para a inclusão social, afinal, quase tudo que movimenta o cotidiano (sobretudo nas cidades) está grafado: itinerário de ônibus, estação de metrô, bula de remédio, tabuletas, cartazes de orientação, entre tantos outros meios de comunicação visual. No Brasil atual, cerca de 11 milhões de pessoas com mais de quinze anos de idade não sabem ler e escrever — o analfabetismo escancara a desigualdade social.

Outra questão que me toca quando penso sobre a leitura no Brasil diz respeito ao acesso (também desigual) aos livros. O gosto e a prática da leitura necessitam de estímulo, experimentações para se perpetuarem; famílias leitoras têm mais possibilidade de ter filhos leitores; da mesma forma, escolas com estímulo à leitura têm mais possibilidade de ter crianças e jovens leitores. Iniciativas de pessoas e coletivos — oportunizando eventos, saraus, slam, mediação de leitura e, criando locais acolhedores, como as bibliotecas comunitárias —, são imprescindíveis, universalizam o acesso aos livros, propiciam o gosto à prática da leitura e quiçá da escrita. Experiências literárias compartilhadas são fundamentais, sobretudo para os segmentos mais vulneráveis, garantem o acesso aos livros, protagonizam gerações de leitores.

O que tem lido ultimamente?

Para mim, livro tem sido abrigo, lugar escolhido para sobreviver à pandemia. No momento, estou lendo Meninas que Escrevem (Editora Jandaíra), um livro lindo organizado pelo Clube Nós Marias, com 17 contos potentes escritos por jovens, e, Grande Sertão: Veredas (Nova Fronteira), do Guimarães Rosa, desejo adolescente que estou concretizando. Revisito A Velhice, da Simone de Beauvoir (Nova Fronteira), inspiração para o meu novo projeto. 

Como analisa o Brasil pós-pandemia? Que lições podemos extrair do isolamento social a que fomos submetidos?

A pandemia, por si, não é capaz de mudar comportamentos, entretanto, acredito que no pós-pandemia não seremos os mesmos. A experiência do isolamento (ou do não isolamento) atinge os corpos de maneira diferente, o local que cada um de nós ocupa no mundo tem definido o acesso (ou não) aos bens públicos e privados para enfrentar este período. A Covid-19 escancarou inequidades enraizadas no país, o isolamento social mostrou brasis — espaços definidos por classe social, etnia, gênero, geração — com acessibilidade desigual às políticas públicas, aos direitos sociais. 

Neste contexto, tão árduo quanto combater o vírus é enfrentar os grupos organizados na produção e divulgação de notícias falsas, o desdém com as orientações dos profissionais da saúde e da ciência sobre os cuidados de saúde (individual e coletiva): ignorância calculada comprometendo a vida em sociedade. É difícil, também, a espera de atitudes mais ágeis e eficazes dos governos, para além da polarização entre Saúde e Economia. Perdemos todos.

Por outro lado, é importante citar o trabalho dos profissionais da área da Saúde, principalmente dos trabalhadores do Sistema Único de Saúde (SUS). Sem eles, o caos que vivemos seria muito pior. No mesmo sentido, temos a boniteza das ações solidárias desencadeadas por vários movimentos sociais, organizações não governamentais, associações e lideranças comunitárias, entre tantos, promovendo educação em saúde, distribuindo cestas com alimentos, máscaras de proteção, produtos de higiene pessoal e limpeza, livros. Experiências do cuidar-de-si, cuidar-do-outro, cuidar-do-planeta compartilhadas: certamente deixarão marcas importantes nas pessoas envolvidas. Lições solidárias potentes. 

Quais os seus próximos projetos?

Estou trabalhando com duas coletâneas de contos: “Novos-Corpos-Velhos” trata velhices contemporâneas e “Lampejos de A a Z sobre vida e morte” aborda a provisoriedade da existência humana.

Link para o livro: https://polenlivros.lojavirtualnuvem.com.br/produtos/cem-vezes-uma/


CIDA SIMKA

É licenciada em Letras pelas Faculdades Integradas de Ribeirão Pires (FIRP). Autora, dentre outros, dos livros O enigma da velha casa (Editora Uirapuru, 2016), Prática de escrita: atividades para pensar e escrever (Wak Editora, 2019), O enigma da biblioteca (Editora Verlidelas, 2020) e Horror na biblioteca (Editora Verlidelas, 2021). Organizadora dos livros Uma noite no castelo (Editora Selo Jovem, 2019), Contos para um mundo melhor (Editora Xeque-Matte, 2019), Aquela casa (Editora Verlidelas, 2020) e Um fantasma ronda o campus (Editora Verlidelas, 2020). Colunista da revista Conexão Literatura.

SÉRGIO SIMKA

É professor universitário desde 1999. Autor de mais de seis dezenas de livros publicados nas áreas de gramática, literatura, produção textual, literatura infantil e infantojuvenil. Idealizou, com Cida Simka, a série Mistério, publicada pela editora Uirapuru. Membro do conselho editorial da Editora Pumpkin e colunista da revista Conexão Literatura. Seu mais novo livro infantojuvenil se intitula Horror na biblioteca (Editora Verlidelas, 2021).

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