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terça-feira, 12 de março de 2019

Contos do livro ‘Enterrando Gatos’, lançado pela Editora Patuá, misturam a estranheza e o cotidiano

Obra é primeiro trabalho de ficção da jornalista e escritora Rafaela Tavares Kawasaki

Uma garota que pratica furtos para acariciar objetos e depois destroçá-los assiste ao caos gerado como consequência do próprio vício. Duas crianças cruzam sozinhas uma cidade, pela primeira vez, para resgatar um cachorro de estimação. Uma mãe digere a intenção de abandonar o filho em um parque de diversões, farta de enterrar animais que acredita terem sido mortos por ele.

Esses são alguns dos protagonistas dos sete contos que compõem o livro “Enterrando Gatos”. A obra, prestes a ser publicada e distribuída pela Editora Patuá, um dos principais selos independentes de São Paulo, é a estreia na literatura da escritora e jornalista araçatubense Rafaela Tavares Kawasaki.

O livro será lançado em 23 de março, às 19h, em São Paulo. O local do evento será o Patuscada – Livraria, Bar e Café, espaço da própria editora, localizado na rua Luís Murat. Haverá também um lançamento, previsto para a primeira quinzena de abril, em espaço cultural de Araçatuba.

CONSTRUÇÃO
Escrito em um estilo que mistura o impressionismo, a estranheza e elementos do cotidiano, os contos de “Enterrando Gatos” começaram a ser compostos entre final de 2017 e meados de 2018, ganhando reescrituras em 2019. Segundo a autora, enquanto as narrativas expõem, em um primeiro plano, os conflitos internos e externos dos personagens, fora da superfície elas refletem os maniqueísmos, uma tendência à histeria coletiva e ao linchamento, a empatia seletiva e o incômodo causado pelas imposições de padrões de comportamento que caracterizam a sociedade atual. “Eu queria contar histórias, sempre tive essa ânsia. Mas a ficção raramente se limita a relatos puros, ela é infiltrada pelo seu contexto histórico e o nosso é marcado pela passividade diante do absurdo, e explosões de violência. Os contos têm um pouco disso.”

As protagonistas são, em grande parte, mulheres. De acordo com Rafaela, elas surgiram de forma quase orgânica. A realidade do gênero feminino é plural, porém, é perspectiva com a qual a autora está mais familiarizada. Por outro lado, ela relata sentir uma urgência em dar voz a mulheres ao escrever, criar personagens femininas com camadas nem sempre agradáveis, porém, que fazem parte da construção de uma psicologia complexa.

Há escritoras cultuadas pelo público e crítica como contistas e romancistas na literatura ocidental dos séculos 20 e 21 que narram uma realidade feminina, como Lygia Fagundes Telles, Clarice Lispector, Alice Munro, Elena Ferrante, Chimamanda Ngozi Adichie e Joyce Carol Oates. “Contudo, é muito mais comum, quando temos contato com literatura clássica, lermos autores homens e estudarmos personagens mulheres idealizadas sob a ótica deles. Acredito que ler mulheres falando sobre mulheres ajuda os leitores a nos enxergar com seres mais múltiplos e menos estereótipos.”

Parte dos personagens inclui também crianças, fazendo emergir um relatos de perda de inocência nas histórias. A ambientação de parte dos contos é o Brasil atual, porém outros deles se passam em décadas como os anos 1980, 1990 e 1950.

CONTOS
O primeiro conto, “Porcelana”, acompanha uma menina que se apoia em furtos e destruição de pequenos objetos como válvula de escape para os próprios desgostos. Já o segundo, “Bolinha”, mostra o dia de dois irmãos que saem de casa sozinhos para buscar um cachorro perdido. Em “Enterrando Gatos”, conto que dá nome ao livro, uma mãe oscila entre a vontade de proteger e a de abandonar um filho ainda criança, que a perturba com o hábito de levar gatos mortos para casa.

O conto “Enjoy the Silence” é protagonizado por um casal de recém-casados que vivem uma crescente de ódio por um vizinho que os impede de dormir. Um menino saboreia a animosidade em relação ao namorado da mãe em uma viagem em “A madrugada ainda tem cinco horas”. Uma mulher revolta a vizinhança ao se negar a sepultar o marido em “Frutas Estragadas”. O último conto, “Poesia de Rodoviária”, tem como ponto de vista o de um atendente de rodoviária que presencia a ascensão e queda de uma moradora de rua ao se tornar uma celebridade local.

Rafaela Tavares Kawasaki - Foto divulgação
AUTORA
Hoje com 31 anos, Rafaela trabalha com a escrita desde 2011, quando começou a estagiar em um jornal. A escritora nasceu em Araçatuba em 1987. Cresceu no Japão, onde passou 12 anos e habitou diferentes regiões do arquipélago. É formada em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo pelo Centro Universitário Toledo, na mesma cidade. Ainda na condição de estudante, foi finalista do “Prêmio Santander Jovem Jornalista”, realizado pelo jornal O Estado de S. Paulo, em 2014. Atualmente trabalha como assessora de imprensa no Centro Universitário Toledo.

Ela recorda que aos sete anos gostava de escrever pequenos contos infantis, que registrava um caderno pequeno de capa vermelha. Resolveu voltar à prática na adolescência, quando se apaixonou pela literatura como leitora e até arriscava a redigir narrativas fictícias, porém costumava esconder ou até descartar os textos que escrevia. Trabalhar como jornalista e escrever diariamente, mesmo que em uma linguagem técnica e com relatos de não-ficção, além de ser uma atividade profissional, serviu de laboratório para a literatura e para encorajá-la a publicar os próprios contos.

EDITORA
A Editora Patuá - Livros são amuletos - é uma alternativa no mercado editorial: com o objetivo principal de publicar bons autores que ainda não encontraram espaço nas grandes editoras, mas que também não desejam pagar pela edição da própria obra. Seu objetivo é apresentar ao público livros com excelente qualidade gráfica e, sobretudo, literária.

A editora iniciou as atividades em fevereiro de 2011 e, após oito anos de muito trabalho e mais de 800 títulos publicados, estabeleceu-se como uma das principais editoras independentes do país, conquistando duas vezes o Prêmio São Paulo de Literatura, três vezes o Prêmio Jabuti, o Prêmio Açorianos e deixando autores e autoras finalistas e semifinalistas dos principais prêmios literários do país, incluindo os Prêmios São Paulo de Literatura, Prêmio Rio, Prêmio Jabuti.

SERVIÇO
O livro “Enterrando Gatos” será lançado em 23 de março, no Patuscada – Livraria, Bar e Café, localizado na rua Luís Murat, 40, Pinheiros, São Paulo.
A obra pode ser comprada nos sites https://editorapatua.minhalojanouol.com.br/ e http://www.amazon.com
Redes sociais da editora: https://www.facebook.com/editorapatua/
https://www.instagram.com/editorapatua/
https://twitter.com/editorapatua

CONTATO DA AUTORA
E-mail: rafaela.tavaresk@gmail.com

TRECHO DO LIVRO
“Se deslizar o dedo pela superfície fria da porcelana não fosse tão bom, Marina não teria prolongado a caça a objetos para acariciar e esmagar. Na verdade, não teria começado. O elefante indiano foi o princípio sem o qual não haveria sequências. Era um bibelô pequeno em meio a uma fauna de miniaturas que decorava a sala da Tia Lia. Apesar do tamanho, devia ser um favorito. Ocupava uma posição de destaque na cômoda de madeira envelhecida. Foi o primeiro de uma coleção de objetos conquistados e destroçados.

Era inevitável esfregar o dedo no bibelô depois do contato inicial. As bochechas e a barriga tinham curvas lisas de porcelana, mas as orelhas e a manta cheia de arabescos em relevos raspavam de leve no dedo. O bibelô tinha uma frieza que contrastava com o mormaço da cidade. O toque refrescava, abria distâncias entre a circunferência da sala onde Marina se encontrava e as outras pessoas da casa.

Sentir o bibelô nas mãos a afastava até da lembrança recente uma tentativa escapar da cozinha sem ser percebida. Foi durante essa fuga que esbarrou na cômoda. Seus pés tocaram o carpete do corredor quase sem fazer barulho, em contraste com sua habitual caminhada forte de quem tem pressa, que tanto irritava a mãe. É muito feio uma mocinha pisar com tanta força, anda direito! A mãe sempre diz o que mocinhas devem ou não devem fazer – e geralmente elas fazem o oposto ao que Marina faz.

Ela fugia não da cozinha em si, mas das pessoas. Especialmente Tia Lia. Mas você já está comendo de novo, meu anjo? Olhe o apetite dessa menina, benzadeus. Dá uma controlada, lindinha. Daqui a pouco você não consegue mais entrar em casa, hein? Os outros adultos da cozinha soltavam risinhos nervosos afiados o suficiente para se entranhar nos poros, atingir o sangue que percorria o braço de Marina e esfriá-lo. Não era um frescor como o toque prazeroso da porcelana, era um arrepio. A fatia do bolo permaneceu no prato depois da primeira garfada.

Ninguém viu Marina quando ela tentou se esconder atrás da cômoda da sala, batendo o braço nas miniaturas. Ou quando seus dedos agarraram o elefante de porcelana antes que ele caísse no chão. Marina foi sua salvadora naquela hora, grande ironia. Uma força maior a impeliu a escondê-lo na bolsa até o fim daquela tarde de domingo. Era prazeroso apalpá-lo de vez em quando por baixo da mesa, sem ninguém notar. Em algum momento, a tia perceberia a ausência do pequeno elefante indiano, mas não enquanto Marina estava na casa. Ah, no entanto, ela tinha de sentir falta em algum momento. O elefante enfeitava tão bem a cômoda de madeira envelhecida. As marcas circulares de limpeza deixadas pelas quatro patas no meio de uma camada espessa de pó chamariam atenção mais tarde. Marina não as espanou. Era excitante deixar pistas.

Só Marina sabia onde estava a miniatura. Era seu segredo e ela brincava com ele. Os olhos dela foram os únicos naquela noite a ver o bibelô ser quebrado com golpes de uma bota ortopédica já aposentada.

Daqui a pouco você não consegue mais entrar em casa, hein? Paft. O sorriso torto da Tia Lia. Paft. E então, não era só a Tia Lia. A voz áspera da mãe quando ela proibia Marina de correr com as outras crianças. Paft. Mas isso lá é nota? É para isso que você me faz enfiar dinheiro naquela porcaria de escola? Paft. A andança por consultórios até encontrar um médico que aceitasse receitar o remédio para cabeça que Marina sabia que não precisava. Paft. O apartamento pequeno do padrasto onde você escuta todos os barulhos que não queria escutar porque os quartos são próximos e as paredes finas. Paft. Ser obrigada a morar lá, porque o pai diz que sente tanto a falta da sua menininha, mas desconversa quando ela insinua que queria passar mais tempo com ele. Paft. Os doces que Marina não podia comer, porque estava engordando ou porque sua pele ganhava mais espinhas. Paft. Senta que nem mocinha. Fecha essas pernas. Vadias é que fazem assim. Paft.

O pequeno elefante indiano foi reduzido a pó. Todos os “sim, senhora” que Marina dizia sem querer e todos os “nãos” que ouviu a contragosto também se dissolveram. Ninguém viu a destruição. Só Marina. A exclusividade era o que chamavam poder, ela soube, então. Era tão bom! Marina precisou reviver a sensação. O pequeno elefante indiano teve muitos sucessores.”
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terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Lançamento de Xadrez, de Eduardo Carvalho (Editora Patuá)

Sinopse: Xadrez é um romance epistolar que transcende o gênero com acréscimos de poesia, resenha literária, cinematográfica e musical, além de traçar, en passant, uma crônica de um período marcado pela transição política da ditadura à democracia no Brasil. Não bastasse, é também o relato de um emocionante embate entre dois enxadristas que colocam no tabuleiro as determinações de suas existências.

Joel - um carioca detento em Fortaleza por ter assassinado a esposa e o amante - ao aceitar o convite de Emanuel - um velho e solitário português recém-chegado ao Brasil - para uma partida de Xadrez por correspondência, não podia supor, nos primeiros lances, a íntima amizade que nasceria entre os dois estranhos e as oportunidades que disso derivariam até um final surpreendente.

Sobre o autor:
Eduardo Carvalho sempre atuou na intersecção entre Cultura, Educação e Política, tendo emprestado da Comunicação Social as ferramentas para as pontes. Estudou Farmácia e Bioquímica e Letras na USP e formou-se em Comunicação Social na ESPM. Foi professor, teatrólogo, jornalista, publicitário, assessor político. Desde 2015, dedica-se exclusivamente à Literatura e já recebeu diversos prêmios, entre eles o Oliveira Silveira e o de Incentivo à Publicação, ambos do Ministério da Cultura.

Publicou também O Teatro Delirante (2014 – poesia erótica e lírica), Retalhos de Sampa (2015 – poesia), ambos pela Editora Giostri e Sessenta e Seis Elos (2016 – romance) pela Fundação Palmares MinC.

Para adquirir: clique aqui.

Informações sobre o lançamento, que ocorrerá no dia 23 de março, em S. Paulo: clique aqui.
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sábado, 12 de janeiro de 2019

Luanda Julião e o livro A Ária das Águas (Editora Patuá)

Luanda Julião - Foto divulgação
Luanda Julião é doutoranda em filosofia francesa contemporânea na Universidade Federal de São Carlos. Mestra em Filosofia pela Universidade Federal de São Paulo. Professora de Filosofia e História nas escolas da rede pública estadual na capital paulista. 

ENTREVISTA:

Conexão Literatura: Poderia contar para os nossos leitores como foi o seu início no meio literário?

Luanda Julião: Eu comecei a escrever em 2003. Na época eu fazia faculdade de Jornalismo e o trabalho de conclusão de curso era fazer uma grande reportagem em formato de livro. No jornalismo chamamos isso de literatura não-ficcional. Foi assim que eu escrevi o meu primeiro livro. Esse livro conta a história de alguns bolivianos que vieram tentar a vida em São Paulo, mas nunca foi publicado, embora eu tenha tirado a nota máxima na faculdade. Escreve-lo me ajudou muito a descobrir a arte de tecer um livro, toda a pesquisa envolvida, todo o esforço.

Conexão Literatura: Você é autora do livro “A Ária das Águas” (Patuá). Poderia comentar?

Luanda Julião: O livro A Ária das Águas é o meu primeiro romance editado e publicado pela editora Patuá. É um livro muito especial pra mim, não só porque foi o meu primeiro livro a ser publicado, mas por ter sido composto num período em que meu pai ficou muito doente, passou muito tempo internado em virtude de um câncer, veio a falecer. Embora não seja um livro autobiográfico, esse livro tem muito do que eu li para compreender o câncer que tirou a vida do meu pai.  



Conexão Literatura: Como foram as suas pesquisas e quanto tempo levou para concluir seu livro?

Luanda Julião: Pesquisei as relações entre bioética e o direito, também chamado de biodireito, me concentrando principalmente nas questões sobre a eutanásia, ortotanásia e distanásia e todos os aspectos médicos e jurídicos envolvidos. Como o personagem principal é um maestro e compositor pesquisei também sobre música clássica, Gustav Mahler e composição musical. Levei dois anos para concluir o livro, que foi escrito entre 2011 e 2013.

Conexão Literatura: Poderia destacar um trecho do qual você acha especial em seu livro?

Luanda Julião:
"- Essa é a passagem dos violinos. Os altos – disse Paolo, apontando com o olhar e o queixo a folha que Sarah segurava entre os dedos.
Sarah leu atentamente a partitura, uma, duas vezes. Para não ter dúvidas tocou-a no piano.
- Pare! – ordenou o maestro com a voz trêmula - Estão carregados demais. Sarah tocou mais uma vez, dessa vez com os olhos fixos na partitura e acrescentou:
- Talvez devêssemos acrescentar uma harmonia mais sinuosa e deslizante.  
Paolo pediu que ela tocasse de novo e de novo e de novo, dez, vinte vezes. Perfeccionista, o compositor exigia precisão. Nenhuma nota podia ficar fora do tom. 
- Precisamos de um som mais limpo e encorpado – disse ele na vigésima vez.
Às vezes, depois de repassar inúmeras vezes uma mesma passagem, dedilhá-la até arredondá-la, Sarah interrompia o trabalho e emocionada, perguntava: 
- Papai, você nunca se perguntou como uma aglutinação de notas, uma harmonia é fonte de tanto deleite? De onde vem o poder divino, a experiência sublime da música? 
Ele a fitava. Já ouvira a mesma pergunta dezenas de vezes e qualquer resposta que pudesse dar não supriria a dúvida. Dessa vez, ele recorreu a Pitágoras, parafraseando-o para respondê-la: 
- A música origina-se no mundo celeste e, se o homem está ciente do fato ou não, ela serve para preservar nele, embora de maneira muito tênue, alguma recordação das esferas divinas das quais ele veio e para as quais ele está destinado a voltar. Ela é importante para prevenir o homem de cair no esquecimento de seu verdadeiro lar. Deve ser uma manifestação terrena daquilo que a gente encontra no mundo celeste.
Ela riu, concordando.
   - Nunca fui um homem religioso, você sabe muito bem disso, mas sempre me julguei falando com deus todas as vezes que toquei. Quando componho é como se eu ouvisse a sua voz, como se o clamor divino e acolhedor soasse no deserto do meu ser. 
Sarah estava atenta. Abandonara o teclado do piano e sentara ao lado do pai para ouvi-lo melhor. Ele fixou os seus olhos e concluiu:
   - Mas não é uma voz que vem dos céus, das alturas, é uma voz que sai de mim e retorna a mim. Deus está dentro de mim.
Ela aproveitou a deixa e perguntou tristemente:
 - E você vai ter coragem de matar o deus que está dentro de você? Logo agora que essa voz está mais viva do que nunca...
- Nós já conversamos sobre isso.
- Desculpe-me, papai. É que eu não pude resistir...
- Eu sei querida – respondeu ele, beijando a mão da filha. Fez uma pausa e continuou:
   – Na verdade, a voz sempre soou, eu é que nunca tive coragem de dar forma e vida a ela – deu um longo suspiro e concluiu: 
- A vida é irônica. Quando finalmente se decide ouvir os seus sons, quando as coisas se tornam grandes e plenas de sentido, o corpo resolve padecer e nos retirar do espetáculo." 

Conexão Literatura: Como o leitor interessado deverá proceder para adquirir um exemplar do seu livro e saber um pouco mais sobre você e o seu trabalho literário?

Luanda Julião: O livro está disponível na loja online da editora: https://editorapatua.minhalojanouol.com.br

Conexão Literatura: Existem novos projetos em pauta?

Luanda Julião: Estou concluindo um livro de Contos e minha tese de doutorado.

Perguntas rápidas:

Um livro: A insustentável leveza do ser
Um (a) autor (a): José Saramago, Conceição Evaristo 
Um ator ou atriz: Viola Davis
Um filme: Melancolia
Um dia especial: O dia em que minha sobrinha Esther nasceu. 
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quinta-feira, 22 de março de 2018

Thalita Pacini e o livro O meu grande avô, por Sérgio Simka e Cida Simka

Thalita Pacini - Foto divulgação
Fale-nos sobre você.

Sou uma existência inquieta, que encontra uma forma de organizar os estímulos do mundo no ofício da escrita. Iniciante, com dois livros publicados, tenho alguns textos de opinião espalhados pela internet, alguns até mesmo imaturos, que penso fazerem parte de um processo de construção pessoal constante. Contribuí para alguns veículos de comunicação na internet, e fui colunista do site Programa Território Animal. Sou mãe de três crianças maravilhosas, Manoela de 12 anos e Pietra e Antonella, que são gêmeas, com 3 anos. Elas me exigem ter pés no chão, na mesma proporção que me estimulam ao exercício criativo. Neste momento busco conciliar a maternidade com projetos independentes. Concluí a licenciatura em Letras, e algum tempo depois finalizei a Pós em Comunicação e Marketing e iniciei outra em Psicopedagogia. Tenho experiência em diversos segmentos, com atuações voltadas a Comunicação e Design, no ambiente corporativo, bem como também tive oportunidade de atuar na área da educação. Sou atraída por teorias e estudos sobre o comportamento humano, arrisco algumas ilustrações e fotografia, tento não me afogar nos excessos das redes sociais, tenho muito entusiasmo com a Neurociência, com a força do feminismo, esperança no foratemer e desejo de contribuir em pautas sociais e humanistas.

ENTREVISTA:

Fale-nos sobre seus livros.


Meu primeiro livro publicado foi O meu grande avô, que traz algumas situações singelas entre uma menina (ilustração inspirada em minha filha Manoela) e o seu avô. O apelo é mais poético, descomplicado, com alguma sonoridade para que proporcionasse um momento de interação em família ou escola. É voltado à primeira infância, com ilustrações muito agradáveis do André Marques, remete a algumas situações bem-humoradas de amizade entre os dois. Embora seja um livro curto, cuja intenção é que seja lido para a criança, fala da troca benéfica entre gerações. Quis exaltar o que há de mais espirituoso no encontro delas, por meio de cenas curtas. O André também dedicou o desenho do avô ao próprio pai. Nos conhecemos pela internet, quando eu tentava propor uma parceria para a inversão do processo criativo na construção de texto e imagem. O André topou o projeto independente, e quando finalizamos nossa parte a Uirapuru nos deixou muito felizes pelo interesse - além da sempre notável gentileza do editor Egídio Trambaiolli Neto. Graças a este projeto pude conhecer o ator Lázaro Ramos e realizei a ousadia de ter o lançamento numa livraria famosona (risos).

O Blasfêmea foi publicado pela Editora Patuá, e tratado com muito respeito e cuidado pelo editor Eduardo Lacerda (que tem a proposta de promover a poesia de uma forma muito árdua e apaixonada). O livro não tem compromisso algum. Contém algumas doses de intensidade humana, versos que se comprazem em questões íntimas, provocações e os deliciosos comentários do ilustre Márcio Américo (humorista e roteirista - entre outros talentos) e do jornalista Felipe Voigt.

A propósito, ambos podem ser adquiridos nos sites das editoras.

O meu grande avô: clique aqui - Blasfêmea: clique aqui.

Qual o motivo que a levou a escrevê-los?

Sobre o primeiro: meu avô materno marca presença forte e saudosista na minha infância, por sua figura simples e atenciosa. Era um dos poucos na família que gostavam de ler, e seus livros na estante me aguçavam a curiosidade. Tinha para mim que sua vida nos afazeres do porto de Santos era uma grande aventura, cheia de histórias de bichos, convívio com as baleias, piratas - certa vez ele trouxe um lagarto para casa. Mas na verdade o trabalho lhe causou a morte por contaminação em tanques químicos. A figura dele despertava o meu imaginário. Assim como minha primeira filha, hoje com 12 anos, tem a presença de seus avós (o meu pai, especial no processo todo) muito marcante, cada qual a sua moda.

Já o Blasfêmea foi um processo muito diferente, quase que visceral e mais longo. Algumas brincadeiras com a palavra, protestos, críticas, experimentações. Poemas que ficaram no ventre por mais de uma década, e então foram revisitados, outros concebidos mais tarde junto com a apropriação de vivências. Expressa um pouco a vontade se rebelar sutilmente com questões relacionadas à religião, política, às opressões, e até comigo mesma.

Como analisa a questão da leitura no país?

Acredito que não basta acessarmos estatísticas oficiais para interpretar a situação. Enquanto uma pessoa pode ler 5 livros por ano (acredito que os dados nem cheguem a isso), outras tantas nem sequer sabem ler, e temos aí uma média em desequilíbrio - e veja que o Brasil nestes indicadores não está nem próximo de um cenário razoável. Os outros termômetros estão nos altos índices de desconforto social, na miséria, na falta de civilidade, de conhecimento dos próprios direitos, na ausência de participação política, nos níveis de preconceito, nas próprias relações sociais em face do descaso com as searas educacionais, científicas e artísticas. Acredito que o analfabetismo, inclusive o funcional, chega a ser um problema de saúde pública, já que pode ser consequência de falta de recursos durante o desenvolvimento infantil. O livro, em determinados contextos, não chega a ser prioridade onde se fazem prevalecer a busca pelo básico à sobrevivência. O estímulo à leitura vem de iniciativas graduais, e não vemos uma incorporação massiva como é realizado com o futebol ou a sexualização nos programas de domingo. Pensando em minha experiência com a religião, vejo outro fenômeno: como é possível multidões defenderem, com fervor, escritos que desconhecem, e nortear suas vidas e muitas vezes as dos outros, em razão disso? Além da necessidade de estimular o senso crítico, o exercício do livre pensar, a quebra das censuras e dos conteúdos simbólicos embutidos nas relações de poder, ainda é necessário atentar que tudo isso depende de boas condições orgânicas e ambientais. Ler é poder, não se manobra tão facilmente seres empoderados, não sem alguma consequência e resistência. É fácil convencer uma pessoa com fome, com sede, com déficit cognitivo, vulnerável e em situação precária. E mesmo com a internet promovendo como nunca tanta informação e interação, somos condicionados cada vez mais a consumir tudo pronto, engolir sem mastigar, de alimentos a ideias, anúncios não solicitados dos quais se é obrigado a ver ao menos alguns segundos antes de prosseguir, de ter que se modelar para caber na estante como um produto que atenda ao ritmo que o mercado impõe. Para o escritor a questão é também confusa: não é valorizado, a grande maioria não pode sobreviver de suas habilidades. Há uma desvalorização sistemática da leitura. Sou totalmente apaixonada pelo SLAM, que seria a poesia falada. Algo muito intenso, que ocupa os espaços públicos, geralmente marginalizados, onde o grupo vai se apropriar do que lhe é direito, com força total. Daí a leitura como manifesto, reação, ato, resistência.

Como vê a literatura infantojuvenil nacional contemporânea? E o mercado de e-books?

Acho que a cena rentável do mercado editorial atua comprometida com o poder de adequação de um autor ou obra. Há exceções. Mas basta um passeio pelas livrarias, e vasculhar a estante. São pilhas de autores importados, alguns nacionais dos quais nunca ouvimos falar e o glamour dos consagrados há décadas. Estes que geralmente figuram em literatura obrigatória nas escolas, indiscutivelmente, são autores atemporais. A questão não seria removê-los, mas sim abrir espaço aos tantos talentos que emergem. Alguns de nós aspirantes não queremos ser bons em socializar, palestrar, ter canais de vídeo na internet. Queremos escrever e sermos valorizados por isso. Essa orientação multitarefa, hoje cada vez mais exigida, pode ser massacrante. É muito bom que as pessoas adquiram habilidades múltiplas. Mas será que cada uma delas não deve manter seu valor?  Alguns escritores vivem de cachês de eventos, atividades paralelas e não de seus textos. Vejo que este paradigma é incorporado silenciosamente: você empacota diversas habilidades, quanto mais, melhor, mas é o leve 10 pague 5, a escrita sai de brinde. Dessa forma, uma ou outra ocupação se desvaloriza.

Os e-books são interessantes, acredito que as surpresas do mundo tecnológico não param por aí. São uma maneira de a literatura se adaptar, sobreviver, atender às necessidades das novas gerações, ser compartilhada, ter o alcance multiplicado. Não entendo muito ainda desta modalidade, sobre a partilha de conteúdos na rede, e como isso gera inclusão e também receita. Gosto da ideia de as pessoas partilharem com as outras de forma gratuita nesse formato. O que é bem diferente do conceito de exploração e desvalorização do todo. Os audiobooks e outras adaptações também pensadas para a inclusão mereciam mais evidência. Têm um alto valor educacional, um relativo apelo ambiental também. Particularmente não consumo por questões "ergonômicas e de pele" (risos), não consigo substituir o prazer de carregar, folhear, o livro físico.

Para você, o que significa ser escritor?


Ser escritor significa estabelecer um diálogo público, a partir de um monólogo íntimo, com sistemas e esquemas instáveis - incluindo a língua (risos). Às vezes acho que o escritor é acompanhado de uma certa castração quando é lido, pois os mundos criados nas cabeças dos leitores ficam lá, infinitos, num imaginário intangível.

O que tem lido ultimamente?

Pretendo terminar a leitura de Escola de Equitação para Moças, de Anton Disclafani. Comecei a ler em paralelo A Metamorfose, de Kafka, mas vou às prestações. E tenho sempre à mão o Poemas Incompletos e outros textos, do grande poeta e amigo Norival Leme Júnior.

Quais os seus próximos projetos?

No momento busco organizar uma série de projetos independentes, tanto na literatura infantil quanto poesia - livros que precisam passar por mais algumas etapas. E a finalização de um romance de terror - nunca me senti tão à vontade em um gênero; que vem amadurecendo bastante, ainda sem editora. Tenho algumas ideias para roteiros, este segmento é um mistério irresistível para mim, do qual pretendo me aproximar.

*Sérgio Simka é professor universitário desde 1999. Autor de cinco dezenas de livros publicados nas áreas de gramática, literatura, produção textual, literatura infantil e infantojuvenil. Idealizou, com Cida Simka, a coleção Mistério, publicada pela Editora Uirapuru.

Cida Simka é licenciada em Letras pelas Faculdades Integradas de Ribeirão Pires (FIRP). Coautora do livro Ética como substantivo concreto (Wak, 2014) e autora dos livros O acordo ortográfico da língua portuguesa na prática (Wak, 2016), O enigma da velha casa (Uirapuru, 2016) e “Nóis sabe português” (Wak, 2017).
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