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terça-feira, 5 de janeiro de 2021

ENTREVISTA: Thiago Cavalcante Jeronimo e o livro Clarice Lispector apesar de: romance de formação e recursos discursivos, por Cida Simka e Sérgio Simka

Thiago Cavalcante Jeronimo - Foto divulgação

Fale-nos sobre você.

Sou bacharel e licenciado em Letras pela Centro Universitário Sant’Anna. Mestre e doutor em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Meu doutorado foi realizado no âmbito do Programa de Doutorado Sanduíche no Exterior, com bolsa CAPES, como parte da investigação realizada na Universidade do Minho, Portugal. Pesquiso a obra de Clarice Lispector desde 2008, quando iniciei minha graduação, sendo que minha tese de doutorado ampliou-se com análises direcionadas à produção de Elisa Lispector, ficcionista talentosa, mas, infelizmente, posta à sombra diante da potência revolucionária da ficção de sua irmã Clarice.

Fale-nos sobre o seu livro, que é fruto de sua dissertação de mestrado defendida na Universidade Presbiteriana Mackenzie. 

Minha dissertação, apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Presbiteriana Mackenzie, em 2016, foi nomeada Figurações do romance de formação e recursos discursivos em Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres. Escolhi estudar o sexto romance de Clarice Lispector, lançado em 1969, porque senti a necessidade de evidenciar as qualidades desse texto dentro do conjunto ficcional de sua autora. Enxergo nO livro dos prazeres um diálogo pulsante entre as produções anteriores de Clarice, bem como uma antecipação do que a autora trataria nos seus últimos escritos. Nesse veio, minha leitura de Uma aprendizagem vai de encontro, se choca, a posicionamentos críticos que consideram este livro como “malogrado” e “falhado”. Minha investigação, contemplada com distinção e louvor, foi eleita pela UPM como a melhor dissertação do Programa no período de 2016 a 2018. Participei, em 2018, do prêmio ANPOLL de Teses e Dissertações (Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Letras e Linguística), tendo ficado entre os finalistas desse importante prêmio nacional. Diante desses reconhecimentos, a publicação do livro Clarice Lispector apesar de, fruto desse trabalho, se efetivou em maio de 2020, e o lançamento foi concretizado em novembro passado.

Qual a sua pesquisa de doutorado?

Pesquisei no meu doutoramento as obras de Elisa Lispector e de Clarice Lispector. O título da tese, no meu entender, sintetiza bem a investigação: Judaísmo e Cristianismo em Elisa Lispector e em Clarice Lispector: testemunho e vestígio. Percebo na obra de Elisa uma inclinação favorável ao judaísmo. A primeira Lispector cultua e celebra a crença de seus antepassdos em sua vida pessoal e em sua escrituração. A obra de Elisa – sete romances, três livros de contos, e um livro de memórias – é testemunho vivo da tradição, religião e cultura judaica, além de ser registro histórico-ficcional do deslocamento dos judeus da Europa antissemita para o continente americano (1917-1920). Ainda hoje, muitos críticos consideram Samuel Rawet como o primeiro a confiar ficcionalidade aos problemas enfrentados pelos imigrantes judeus em direção ao Brasil (e no Brasil), mas, o seu livro, Contos do imigrante, é de 1956. Elisa o antecipa porque seu romance autobiográfico, No exílio, foi lançado oito anos antes, em 1948. Contudo, o primeiro escritor que tratou desses temas foi Marcos Iolovitch, em 1940, no livro Numa clara manhã de abril. Em via oposta ao de sua irmã, Clarice Lispector não se filia ao judaísmo em sua vida pessoal e em suas produções ficcionais. Enquanto Elisa hasteia a bandeira judaica, Clarice silencia essa temática. Benjamin Moser, na sua problemática biografia (Clarice, Cosac Naify, 2010), enxerga na vida e na obra de Clarice um impulso essencialmente espiritual – filiado ao judaísmo –  que anima a produção da autora. Minha investigação rebate esse posicionamento do biógrafo norte-americano. O que sustenta a obra de Clarice, a meu ver, é a própria linguagem: selvagem/indomesticada a normas textuais e religiosas. Na expressão alcunhada por Benedito Nunes (1995), a obra clariciana marca-se e diferencia-se por sua “desescritura”. Clarice “desleu” as tradições de gêneros literários, inclusive a tradição judaica de seus antepassados. 

Por que ler Clarice Lispector?

Clarice Lispector é considerada a escritora maior da nossa literatura. Sua vasta e impactante produção a colocou como uma das maiores escritoras do século XX. Seu livro A paixão segundo G. H. (1964) é destacado por muitos especialistas – nacionais e internacionais –  como um dos textos maiores da literatura do século passado. Tamanha é a pujança  que a obra de Clarice desperta e sucista. Creio que o reconhecimento de sua obra, ampliado nas últimas décadas, deve-se, dentre outras considerações, pelo fato de que as personagens claricianas, a exemplo de G. H.,  anseiam enfrentar as adversidades a elas impostas, visando a uma liberdade para além do que foi determinado e limitado. No atual momento de pandemia que atravessamos, a ficção de Clarice é passaporte para refletirmos acerca de ser e estar no mundo.

Quais os seus próximos projetos?

O ano de 2020, embora conturbado, considerando a intensa problemática da Covid-19, foi frutífero para mim. Lancei o livro Clarice Lispector apesar de: romance de formação e recusrsos discursivos (ed. Todas as musas), no dia 5 de novembro de 2020. No mesmo mês, dia 23, defendi a tese de doutorado acerca das obras de Elisa e de Clarice (fui orientado pela profa. Dra. Aurora Gedra Ruiz Alvarez e coorientado pelo prof. Dr. Carlos Mendes de Sousa). No dia 23, um dia antes do início das festas natalinas, falei acerca do judaísmo na obra das duas ficcionistas no Centro Cultural do Brasil, em Tel Aviv (Israel). No âmbito do centenário de nascimento de Clarice, comemorado no dia 10 de dezembro, tive dois ensaios publicados: o primeiro, na revista Cerrados, da UnB, no qual assinei um artigo com Luciana Luciani acerca das novas edições das capas e obras de Clarice – ladeadas com sua  produção pictórica (Clarice pintou 22 telas!); pela Universidade de São Paulo, assino um  capítulo no livro Clarice Lispector: os mistérios da estrela, no qual discorro acerca da conturbada produção de Benjamin Moser. Há alguns projetos para o ano de 2021: analisar as biografias de Clarice Lispector e o diálogo que a autora nutriu com a cultura portuguesa.

Link para o livro: https://www.todasasmusas.com.br/livro_clarice.html


CIDA SIMKA

É licenciada em Letras pelas Faculdades Integradas de Ribeirão Pires (FIRP). Autora, dentre outros, dos livros O enigma da velha casa (Editora Uirapuru, 2016), Prática de escrita: atividades para pensar e escrever (Wak Editora, 2019), O enigma da biblioteca (Editora Verlidelas, 2020) e Horror na biblioteca (Editora Verlidelas, 2021). Organizadora dos livros Uma noite no castelo (Editora Selo Jovem, 2019), Contos para um mundo melhor (Editora Xeque-Matte, 2019), Aquela casa (Editora Verlidelas, 2020) e Um fantasma ronda o campus (Editora Verlidelas, 2020). Colunista da revista Conexão Literatura.

SÉRGIO SIMKA

É professor universitário desde 1999. Autor de mais de seis dezenas de livros publicados nas áreas de gramática, literatura, produção textual, literatura infantil e infantojuvenil. Idealizou, com Cida Simka, a série Mistério, publicada pela editora Uirapuru. Membro do conselho editorial da Editora Pumpkin e colunista da revista Conexão Literatura. Seu mais novo livro infantojuvenil se intitula Horror na biblioteca (Editora Verlidelas, 2021). 

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terça-feira, 2 de junho de 2020

Eduardo Cardoso e o livro Corpo-Luto

Eduardo Cardoso - Foto divulgação
Eduardo Cardoso é formado em Letras pela Universidade do Grande ABC. É professor de Língua Portuguesa da prefeitura do município de São Paulo. Especialista em Filosofia e Pensamento Político Contemporâneos pelo Centro Universitário Assunção e graduando em Filosofia pela Universidade Paulista, além de pós-graduando em Educação Transformadora pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e psicanalista em formação pela Escola de Psicanálise de São Paulo. Na área literária, participou da “1ª. Antologia Literária do Grupo de Escritores da UniABC” (livro organizado por Adriano Calsone e Sérgio Simka, publicado pela Editora da UniABC, em 2006) e da coletânea “Contos (para Ler) na Universidade” (livro organizado por Sérgio Simka e ítalo Bruno, publicado pela Editora Iglu, em 2009). “Corpo-luto” é o seu romance de estreia (publicado pela Editora Todas as Musas, em 2020).

ENTREVISTA:

Conexão Literatura: Poderia contar para os nossos leitores como foi o seu início no meio literário?

Eduardo Cardoso: O meu processo de escrita, começou mesmo, quando iniciei a minha Licenciatura em Letras. Antes, eram apenas rascunhos, crises existenciais, poemas escritos na fase da adolescência etc. Comecei no meio literário em termos de escrita e publicações (pois desde cedo, sempre fui um leitor assíduo) – quando fui convidado pelo professor Sérgio Simka a participar da Primeira Antologia Literária do grupo de escritores da Universidade do Grande ABC e depois da coletânea: Contos para ler na Universidade. Daí em diante não parei mais de escrever. 

Conexão Literatura: Em seu romance de estreia, você dá voz a um personagem próximo do momento da morte. Como ocorreu essa escolha? 

Eduardo Cardoso: A morte está a todo o momento nos rodeando, porém não sabemos o que é a morte, e principalmente, quando ela aparecerá para nós. O que vemos é a materialização da morte, representada na figura do cadáver alheio – temos uma ideia de que “ali jaz” – entretanto, sentimos essas perdas. A morte pode vir subitamente, ou aos poucos, maltratando o corpo. O meu processo de escrita, também foi baseado em perdas de pessoas queridas e familiares. 
Outro motivo que me levou a escrever a obra Corpo-luto foi a questão de que parte dos jovens e idosos estão desistindo de viver. Por que isto está acontecendo? Por que adolescentes simplesmente não querem mais viver? Por que há uma taxa altíssima de suicídios entre os idosos? Diante destes fatos, passei a fazer leituras sobre o assunto. Além disso, vejo o descaso de parte da sociedade em como trata as pessoas de idade avançada - um objeto envelhecido, obsoleto que não serve mais para nada. Sendo assim, a escrita de Corpo-luto é social - foi direcionada para as relações de afetos que estão ocorrendo entre as pessoas, cujas amizades ou relacionamentos terminam por apenas um clique - o quanto essas relações no fundo são vazias. E as plataformas digitais? Elas nos dão a ideia de que temos realmente cinco mil amigos - olha que loucura? No máximo, conhecemos umas cinquenta pessoas de forma não virtual - as relações se tornaram "líquidas”, como escreveu o sociólogo Zygmunt Bauman (infelizmente já falecido). Obviamente, que fiz um recorte, pois não posso escrever ou determinar que todas as pessoas pensam ou agem desta forma. 
A personagem principal Domenico é um acadêmico em idade avançada, com grandes perdas em sua vida, que passa a se questionar "o que é o morrer?". Portanto, o fluxo narrativo ocorre com o processo narrador-personagem que apresentam ao leitor as suas angústias, seus medos, suas ausências e seus amores - e são seus questionamentos que podem levar os leitores e leitoras a refletir um pouco mais sobre suas próprias vidas. 

Conexão Literatura: Como foram as suas pesquisas e quanto tempo levou para concluir seu livro? 

Eduardo Cardoso: O meu processo de escrita e pesquisa foram frutos de minhas leituras. Basicamente, um dos livros que me inspiraram a escrita de Corpo-Luto foi:  Vivo até a morte – Paul Ricoeur – o filósofo pensava no auge dos seus oitenta anos, na época – em como seria a sua morte. O que o seu corpo ainda teria a dar ao mundo? Será que sua crença em um plano divino realmente se concretizaria? – em suma, o processo do envelhecer e a proximidade de uma existência física.  Além de outros livros ou autores, como Milan Kundera, José Luís Peixoto e Evandro Affonso Ferreira – que ajudaram a refletir sobre o processo existencial da personagem principal, o senhor Domenico. 
Em relação à conclusão da obra, entre revisões e processo de publicação, aproximadamente um ano, A Editora Todas As Musas trabalhou de forma primorosa na confecção do meu livro. Tenho certeza de que outra editora não daria a atenção necessária que esta obra merece. 

Conexão Literatura: O que é Corpo-Luto para você? 

Eduardo Cardoso: Corpo-Luto é social. É preciso fazer este adendo, porque o enredo não está apenas nas personagens que compõem a narrativa – isto é importante, logicamente, mas o que elas carregam é uma mensagem: por que as pessoas estão desistindo de viver? Por que jovens, com doze ou trezes anos, dizem – “eu não tenho mais vontade de viver?” – Por que eles sentem este vazio? Em suma, por que as relações se tornaram mais fluidas ou líquidas – pegando emprestado a metáfora do filósofo Zygmunt Bauman? E os chamados “idosos” ou pessoas da terceira idade? – quando querem falar com jeitinho, usam este termo. Uma hipocrisia social! Além disso, o que a obra pretende trazer para a reflexão, é o  número altíssimo de suicídios entre os jovens – porque em suma, não veem sentido no presente, e principalmente no futuro, e os mais velhos – em alguns casos, vão justificar – “se não fui feliz até agora, já chega. Obviamente o que trago é um recorte social e isto está implícito e explícito em Corpo-Luto – as personagens apresentam a angústia, a dor, mas também, uma bela história de amor que resiste ao tempo. 

Conexão Literatura: Poderia destacar um trecho que você acha especial em seu livro?  

Eduardo Cardoso: (...), “Mas a morte é o fim de todas as peças. É a música que encerra o ato. Ou, em outros termos, uma música que pode terminar, como nos antigos bolações (mais conhecidos como discos de vinil), quando a música vai diminuindo até ficar somente o chiado da agulha. Em outras palavras, a morte é a música que encerra a vida. Ora, então a morte é a metáfora da vida e não o contrário?’


Conexão Literatura: Como o leitor interessado deverá proceder para adquirir o seu livro e saber um pouco mais sobre você e o seu trabalho literário? 

Eduardo Cardoso: O meu romance Corpo-Luto pode ser adquirido no site da Editora Todas As Musas pelo link: https://www.todasasmusas.com.br/livro_corpo.html 
Minha rede social é: Facebook/Eduardo Cardoso e a minha página é: Eduardo Cardoso Escritor 
e-mail para contato: cardoso.edu@gmail.com 

Conexão Literatura: Existem novos projetos em pauta? 

Eduardo Cardoso: Sim. Está em processo de lançamento uma coletânea realizada pela Editora Todas As Musas, intitulada: Histórias do Isolamento – contos, crônicas e desabafos – da qual faço parte como um dos autores.
Em breve, pretendo escrever a continuação de Corpo-Luto, se possível, ainda no ano de 2020

Perguntas rápidas:

Um livro: Sidarta – Hermann Hesse
Um (a) autor (a):  José Luís Peixoto
Um ator ou atriz: Wagner Moura
Um filme: Laranja Mecânica (1971) – Stanley Kubrick 
Um dia especial: Essa resposta é difícil, pois um dia especial, desconsidera todos os outros dias que foram especiais – se me permite, gostaria de destacar um dia que se dividiria em duas partes, o nascimento dos meus filhos: Fernanda e Henrique. 

Conexão Literatura: Deseja encerrar com mais algum comentário? 

Eduardo Cardoso: Gostaria de encerrar, com uma citação do escritor uruguaio Eduardo Galeano - que pode nos ajudar a seguir em frente: “A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.”
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quarta-feira, 27 de maio de 2020

Eduardo Cardoso e o livro Corpo-luto, por Cida Simka e Sérgio Simka

Eduardo Cardoso - Foto divulgação
Fale-nos sobre você.

Eduardo Cardoso é formado em Letras pela Universidade do Grande ABC. É professor de Língua Portuguesa da prefeitura do município de São Paulo. Especialista em Filosofia e Pensamento Político Contemporâneos pelo Centro Universitário Assunção e graduando em Filosofia pela Universidade Paulista, além de pós-graduando em Educação Transformadora pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e psicanalista em formação pela Escola de Psicanálise de São Paulo. Na área literária, participou da “1ª. Antologia Literária do Grupo de Escritores da UniABC” (livro organizado por Adriano Calsone e Sérgio Simka, publicado pela Editora da UniABC, em 2006) e da coletânea “Contos (para Ler) na Universidade” (livro organizado por Sérgio Simka e ítalo Bruno, publicado pela Editora Iglu, em 2009). “Corpo-luto” é o seu romance de estreia (publicado pela Editora Todas as Musas, em 2020).

ENTREVISTA:

Fale-nos sobre o livro. O que o motivou a escrevê-lo?

Um dos motivos que me levaram a escrever a obra Corpo-luto foi a questão de que parte dos jovens e idosos estão desistindo de viver. Por que isto está acontecendo? Por que adolescentes simplesmente não querem mais viver? Por que há uma taxa altíssima de suicídios entre os idosos? Diante destes fatos, passei a fazer leituras sobre o assunto. Além disso, vejo o descaso de parte da sociedade em como trata as pessoas de idade avançada -  um objeto envelhecido, obsoleto que não serve mais para nada. Sendo assim, a escrita de Corpo-luto é social - foi direcionada para as relações de afetos que estão ocorrendo entre as pessoas, cujas amizades ou relacionamentos terminam por apenas um clique - o quanto essas relações no fundo são vazias. E as plataformas digitais? Elas nos dão a ideia de que temos realmente cinco mil amigos - olha que loucura? No máximo, conhecemos umas cinquenta pessoas de forma não virtual -  as relações se tornaram "líquidas”, como escreveu o sociólogo Zygmunt Bauman (infelizmente já falecido). Obviamente, que fiz um recorte, pois não posso escrever ou determinar que todas as pessoas pensam ou agem desta forma. 
A personagem principal Domenico é um acadêmico em idade avançada, com grandes perdas em sua vida, que passa a se questionar "o que é o morrer?". Portanto, o fluxo narrativo ocorre com o processo narrador-personagem que apresentam ao leitor as suas angústias, seus medos, suas ausências e seus amores - e são seus questionamentos que podem levar os leitores e leitoras a refletir um pouco mais sobre suas próprias vidas. 

Como analisa a questão da leitura no país?

Infelizmente o cenário da população brasileira em relação à leitura é caótica, pois as pessoas, em sua maioria, não têm o hábito de ler. É um processo histórico. Se analisarmos o Brasil do século XX, como os jovens eram educados? As famílias mais abastadas mandavam seus filhos estudar fora do país ou o acesso à educação era apenas para as famílias burguesas. Depois, tivemos o rádio no Brasil a partir dos anos 20 -  como meio de entretenimento e a partir dos anos 50 a tevê Tupi com Assis Chateaubriand. Sendo assim, se algum dia, tivemos uma cultura de leitores, logo foi substituída pela cultura dos telespectadores. Então, "ser" leitor ou leitura tornou-se coisa de intelectuais - a massa passou a não ter mais tempo para isso (se é que algum dia teve). A indústria cultural deu um jeito de entreter as pessoas com seus filmes hollywoodianos, ou suas as novelas brasileiras. A leitura, como se sabe, inicia-se em grande parte por modelos que as crianças têm ou tiveram das figuras paternas e maternas, ou educadores. Entretanto, a questão é que os responsáveis por esses menores de idade estão fora o dia inteiro, pois precisam trabalhar, e indiretamente, não têm tempo ou disposição para ler alguma coisa (há as exceções, obviamente) - porém, para algumas pessoas, o ato de ligar a televisão quando chega em casa é automático. Ou se quiserem ler um livro, o cansaço é tanto, que alguns decidem parar a leitura ou acabam dormindo com o livro na mão. Sem falar dos educadores que exigem leituras de seus educandos, mas não leem ao menos um livro por ano. Faço o que eu digo e não o que faço? Então, logicamente, teremos adultos que não terão o hábito de leitura - tudo é proposital, quanto menos leitores tivermos, mais pessoas dispostas a seguir comandos teremos. Pois a leitura leva a um processo de reflexão. Portanto, vejo com muita tristeza o cenário brasileiro, porque a média do leitor ou leitora brasileiro(a) é de dois ou três livros por ano. Como pode? A quem interessa a produção de analfabetos funcionais? Fica esta pergunta.

O que tem lido ultimamente?

Sobre minhas leituras, bem, sou um leitor assíduo que consigo ler vários livros concomitantemente, em outras palavras, um dia estou lendo um romance e em outro, um livro filosófico -  um processo de ir e vir. Porém, para delimitar, estou lendo ultimamente os livros dos filósofos Gilles Deleuze e Felix Guattari (Mil Platôs) e a obra de Freud, especificamente O Futuro de Uma Ilusão - essas leituras estão me ajudando a entender um pouco os processos existenciais de minha vida e as possíveis "linhas de fuga" ou sublimações (em termos psicanalíticos), que podem me ajudar a ter uma vida melhor. 

Quais são os seus próximos projetos?

Ainda não parei para pensar... Acabei de lançar um livro. Estou aproveitando esse momento feliz, mas espero que o livro tenha uma boa receptividade e que, em breve, eu possa escrever outra obra. 

Uma pergunta que gostaria de responder: Por que as massas aceitam ser exploradas passivamente? 

Porque, no fundo, essas pessoas desejam fazer parte de uma engrenagem capitalista – que, em suma, envolve o "desejo” ou a ideia de que "somos donos da nossa própria vida”, e isto realmente é sedutor. 

Link para o livro:

CIDA SIMKA
É licenciada em Letras pelas Faculdades Integradas de Ribeirão Pires (FIRP). Autora, dentre outros, dos livros O enigma da velha casa (Editora Uirapuru, 2016), Prática de escrita: atividades para pensar e escrever (Wak Editora, 2019) e O enigma da biblioteca (Editora Verlidelas, 2020). Organizadora dos livros: Uma noite no castelo (Editora Selo Jovem, 2019), Contos para um mundo melhor (Editora Xeque-Matte, 2019), Aquela casa (Editora Verlidelas, 2020) e Um fantasma ronda o campus (Editora Verlidelas, 2020). Colunista da Revista Conexão Literatura.

SÉRGIO SIMKA
É professor universitário desde 1999. Autor de mais de seis dezenas de livros publicados nas áreas de gramática, literatura, produção textual, literatura infantil e infantojuvenil. Idealizou, com Cida Simka, a série Mistério, publicada pela Editora Uirapuru. Membro do Conselho Editorial da Editora Pumpkin e colunista da Revista Conexão Literatura. Seu mais novo livro se intitula Pedagogia do encantamento: por um ensino eficaz de escrita (Editora Mercado de Letras, 2020).

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sexta-feira, 10 de abril de 2020

Seleção para a publicação na coletânea “História do Isolamento” da Editora Todas as Musas, por Cida Simka e Sérgio Simka


A Editora e Revista Acadêmica Todas as Musas convida os PROFESSORES, PROFESSORAS, PESQUISADORES E PESQUISADORAS (alunos e alunas de pós-graduação em nível de especialização, mestrado ou doutorado) a participarem de sua COLETÂNEA DE HISTÓRIAS DO ISOLAMENTO, dedicada exclusivamente a trabalhos ficcionais (contos ou crônicas, podendo ser baseados em experiências reais ou não) que relatem eventos passados durante situações de isolamento social.

Os trabalhos selecionados serão publicados em e-book e em livro impresso pela Editora Todas as Musas. Todos os autores terão acesso GRATUITO AO E-BOOK e os livros impressos serão vendidos pelo site da editora a preços acessíveis.

A publicação da Coletânea tem como objetivo incentivar o registro das experiências assim como o seu compartilhamento, além de divulgar a escrita e a produção literária dos profissionais de educação do Brasil.

Para esclarecer qualquer dúvida, escreva para todasasmusas@gmail.com Regulamento
Será permitida a participação do processo de seleção para a Coletânea de Histórias do Isolamento, a ser publicada pela Editora Todas as Musas, apenas a PROFESSORES e PROFESSORAS da rede pública ou particular de todos os níveis de ensino, PESQUISADORES E PESQUISADORAS (alunos e alunas de pós-graduação em nível de especialização, mestrado ou doutorado).

O texto deve obrigatoriamente seguir o tema proposto para a Coletânea, ou seja, deverá tratar de uma situação de isolamento social. Não há restrição sobre a forma de abordagem do assunto, podendo ser irônica, humorística, dramática etc., a escolha do autor

Cada autor poderá inscrever apenas UM trabalho. A inscrição é gratuita.

1. O trabalho deverá ser digitado em folha tamanho A4, em espaço 1,15, fonte Times New Roman 12, com o limite máximo de duas páginas (todas as margens 2,0).

III.2 O trabalho inscrito deve ser inédito. A publicação prévia, em livro ou meio eletrônico, desclassificará automaticamente o trabalho.

III.3. Os participantes do processo de seleção concordam automaticamente em ceder os direitos para publicação do seu texto para a Editora Todas as Musas na Coletânea de Histórias do Isolamento, sem ônus, pelo período de 3 (três) anos, sendo que será sempre preservada a menção de crédito, de acordo com a legislação que trata especificamente de direitos autorais no país.

III.4 Os autores terão acesso gratuito ao e-book, mas não serão cedidos exemplares gratuitos do livro impresso aos autores selecionados. Porém, a editora se compromete a comercializar os exemplares com o preço de capa o mais baixo o possível.

A inscrição no processo de seleção deve ser feita por e-mail (todasasmusas@gmail.com) com o seguinte conteúdo em DOCUMENTOS ANEXOS:
UMA cópia de documento que comprove que o autor ou autora faz parte dos grupos descritos no item I deste regulamento;
UM documento Word com o trabalho, que deve ter obrigatoriamente um título, e trazer o nome do autor ou autora (não será aceita a inscrição com pseudônimos). É obrigatória a observação da formatação conforme indicação do item III.1 deste regulamento;
UM OUTRO documento contendo: nome do autor ou autora, telefone e e-mail para contato e título do trabalho inscrito.

IV1. O ASSUNTO (SUBJECT) do e-mail enviado para todasasmusas@gmail.com deve trazer apenas: COLETÂNEA-SELEÇÃO

As inscrições serão aceitas até 20 DE ABRIL

V.1 Os trabalhos enviados após esta data ou que não estiverem de acordo com o regulamento, não serão considerados participantes e como os demais, não serão devolvidos.

A divulgação dos trabalhos selecionados será feita em 01 de maio pelo site ou BLOG da Editora Todas as Musas e a publicação do livro se dará o mais rápido o possível, dependendo da agenda de trabalho da editora.

O número de trabalhos selecionados não será prefixado e dependerá da comissão julgadora e da direção da editora.

A Comissão Julgadora será constituída por convidados da editora e suas decisões são soberanas, não cabendo recurso.

O envio dos documentos para a participação da seleção implica a aceitação plena desse regulamento.

Os casos omissos neste regulamento serão resolvidos pela Comissão Organizadora da Seleção.

A Comissão Organizadora São Paulo, 9 de abril de 2020

Site da editora:

Leia também a entrevista com Flavio Botton, editor da Editora Todas as Musas:


CIDA SIMKA
É licenciada em Letras pelas Faculdades Integradas de Ribeirão Pires (FIRP). Autora, dentre outros, dos livros O enigma da velha casa (Editora Uirapuru, 2016), Prática de escrita: atividades para pensar e escrever (Wak Editora, 2019) e O enigma da biblioteca (Editora Verlidelas, 2020). Organizadora dos livros: Uma noite no castelo (Editora Selo Jovem, 2019), Contos para um mundo melhor (Editora Xeque-Matte, 2019), Aquela casa (Editora Verlidelas, 2020) e Um fantasma ronda o campus (Editora Verlidelas, 2020). Integrante do Núcleo de Escritores do Grande ABC e colunista da Revista Conexão Literatura.

SÉRGIO SIMKA
É professor universitário desde 1999. Autor de mais de seis dezenas de livros publicados nas áreas de gramática, literatura, produção textual, literatura infantil e infantojuvenil. Idealizou, com Cida Simka, a série Mistério, publicada pela Editora Uirapuru. Membro do Conselho Editorial da Editora Pumpkin, integrante do Núcleo de Escritores do Grande ABC e colunista da Revista Conexão Literatura.

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quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

Ennio Botton e o livro Duas Histórias, por Cida Simka e Sérgio Simka

Ennio Botton - Divulgação
Fale-nos sobre você.

Sou aposentado após 35 anos de serviço como assistente social, professor e orientador educacional. Minha experiência de trabalho se prende principalmente à área industrial, mas trabalhei um bom tempo na área de saúde e, para minha felicidade, fui professor e alfabetizei por cinco anos no ensino municipal de São Paulo. Curioso é que até hoje me lembro do nome de alguns alunos que tive naquela época.
Nasci no interior de São Paulo, Itapuí, uma pequena cidade às margens do rio Tietê. Ali passei boa parte de minha juventude pescando e convivendo com pessoas humildes, mas com uma história de vida muito rica.
Tenho certeza de que este convívio me deu os moldes com os quais desenho minhas histórias agora.

ENTREVISTA:

Fale-nos sobre seus livros. o que o levou a escrevê-los?

Meus livros são lúdicos. Um portal para o mundo onírico maravilhoso. Não têm a pretensão de mudar as pessoas, apenas uma fuga, um sonho (quase uma poesia), mas acredito que ninguém permanece igual após ler um livro, por mais singelo que seja.

Como analisa a questão da leitura no país?

Hoje o acesso aos bons autores é muito fácil, as edições estão disponíveis em qualquer livraria. Quando estudante eu era assinante do Clube do Livro e da Coleção Saraiva, as únicas vias de acesso a bons livros.
Hoje vejo jovens lendo no metrô e nos ônibus os mais variados assuntos, isso é muito gratificante e o caminho para a liberdade do espírito.

Como o leitor interessado deverá proceder para adquirir seu livro e saber um pouco mais sobre seu trabalho?

A Editora Todas as Musas, muito bem dirigida pelos doutores Flavio e Fernanda, tem como atender uma possível demanda.

Qual expectativa com esta entrevista?

Que alguém que não me conhece se interesse por meus livros e diga quais emoções a leitura despertou.

Link para o site da editora:


Cida Simka é licenciada em Letras pelas Faculdades Integradas de Ribeirão Pires (FIRP). Coautora do livro Ética como substantivo concreto (Wak Editora, 2014) e autora dos livros O acordo ortográfico da língua portuguesa na prática (Wak Editora, 2016), O enigma da velha casa (Editora Uirapuru, 2016), “Nóis sabe português” (Wak Editora, 2017) e Prática de escrita: atividades para pensar e escrever (Wak Editora, 2019). Organizadora dos livros Uma noite no castelo (Editora Selo Jovem, 2019) e Contos para um mundo melhor (Editora Xeque-Matte, 2019). Integrante do Núcleo de Escritores do Grande ABC.

Sérgio Simka é professor universitário desde 1999. Autor de mais de cinco dezenas de livros publicados nas áreas de gramática, literatura, produção textual, literatura infantil e infantojuvenil. Idealizou, com Cida Simka, a série Mistério, publicada pela Editora Uirapuru. Organizador dos livros Uma noite no castelo (Editora Selo Jovem, 2019) e Contos para um mundo melhor (Editora Xeque-Matte, 2019). Autor, dentre outros, do livro Prática de escrita: atividades para pensar e escrever (Wak Editora, 2019). Membro do Conselho Editorial da Editora Pumpkin e integrante do Núcleo de Escritores do Grande ABC.

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quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Crisley Ladeia e a sua participação na antologia O feminino na poesia: antologia poética de professoras poetas, por Cida Simka e Sérgio Simka

Fale-nos sobre você.

Sou formada em Letras, curso o 8º semestre de Pedagogia e trabalho como professora na escola Jucaris Faria em Santo André (SP) lecionando para crianças da Educação Infantil. Gosto de fazer artesanato e desenhar, especialmente pessoas. Escrevo desde criança. Participo do Núcleo de Escritores do Grande ABC e gosto de escrever contos e poesias.

ENTREVISTA:

Conte-nos sobre a sensação de ter um texto publicado na antologia. Como se deu tal participação?


Quando fiquei sabendo da antologia achei que tinha tudo a ver comigo, porém achei muita pretensão da minha parte me arriscar na escrita de uma poesia para a antologia para professoras poetas. Mas a inquietação passou ao saber da temática. A maior parte do que escrevo é voltada para as mulheres. Gosto de escrever um conto com uma personagem feminina forte, que sobressai e quando escrevo uma poesia gosto de falar dos olhos, dos cabelos, dos gestos. Fiquei muito feliz com a publicação, pois me identifiquei em muitas delas no livro.

Para você, o que é ser escritor?

Ser escritor para mim é juntar os pedaços das coisas que a gente viveu e ir remendando numa poesia, num conto. É observar pessoas reais nas ruas, no trabalho, na vida e dar outra vida a elas, um nome diferente, um final feliz ou não. Ser escritor é sempre andar com papel e caneta na bolsa, pois a inspiração surge em diversas situações. Já fiz uma poesia linda numa noite de insônia, mas por não tê-la escrito perdeu-se nos 40 minutos de cochilo.

O que tem lido ultimamente?

Leio todos os dias, quando o tempo está escasso, pego um livro infantil, com letras grandes, que posso ler no ônibus ou no banheiro. Mas nunca fico sem ler nada. Estou terminando de ler pela segunda vez: “Para viver um grande amor” de Vinícius de Moraes, uma junção de crônicas e poesias incrível.  Gosto do misticismo de suas poesias, o modo como o poetinha fala das mulheres. Gosto da linguagem em que foram escritas suas crônicas. Na fila me aguarda Fernando Pessoa na intimidade de Isabel Murteira Franca, que também já li, mas faz dez anos e merece ser lido novamente.

Quais os seus próximos projetos?

Publicação do livro O Mistério do Recanto das Palmeiras, escrito em parceria com Sérgio Simka.

Link para o livro:
https://www.todasasmusas.com.br/livro_antologia.html


Cida Simka é licenciada em Letras pelas Faculdades Integradas de Ribeirão Pires (FIRP). Coautora do livro Ética como substantivo concreto (Wak Editora, 2014) e autora dos livros O acordo ortográfico da língua portuguesa na prática (Wak Editora, 2016), O enigma da velha casa (Editora Uirapuru, 2016), “Nóis sabe português” (Wak Editora, 2017) e Prática de escrita: atividades para pensar e escrever (Wak Editora, 2019). Organizadora dos livros Uma noite no castelo (Editora Selo Jovem, 2019) e Contos para um mundo melhor (Editora Xeque-Matte, 2019). Integrante do Núcleo de Escritores do Grande ABC.

Sérgio Simka é professor universitário desde 1999. Autor de mais de cinco dezenas de livros publicados nas áreas de gramática, literatura, produção textual, literatura infantil e infantojuvenil. Idealizou, com Cida Simka, a série Mistério, publicada pela Editora Uirapuru. Organizador dos livros Uma noite no castelo (Editora Selo Jovem, 2019) e Contos para um mundo melhor (Editora Xeque-Matte, 2019). Autor, dentre outros, do livro Prática de escrita: atividades para pensar e escrever (Wak Editora, 2019). Membro do Conselho Editorial da Editora Pumpkin e integrante do Núcleo de Escritores do Grande ABC.
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quinta-feira, 30 de maio de 2019

Evelyn Mello e o livro O degrau, por Cida Simka e Sérgio Simka

Evelyn Mello - Foto divulgação
Fale-nos sobre você.

Sou professora da ETEC Paulino Botelho de São Carlos há 11 anos, onde comecei minha carreira como docente de língua espanhola, atuei em projetos ligados à Sociologia e Filosofia, em parceria com a The World Children’s Prize Foundation, uma organização sueca, que atua especificamente na defesa aos direitos da criança e do adolescente. Atualmente, sou professora de língua portuguesa e literatura.
Tenho graduação em Letras – Licenciatura Plena em Português e Espanhol – pela Universidade Federal de São Carlos.
Em 2011, concluí meu mestrado na UNESP, na Faculdade de Ciências e Letras de Araraquara. Logo em seguida, dei sequência ao doutorado, concluído no ano passado, igualmente na FCLAr. Atualmente, sou estudante de pós-doc na Universidade Federal de São Carlos.

ENTREVISTA:

Fale-nos sobre o livro O degrau. O que a motivou a escrevê-lo?

A escrita de O degrau nasceu de uma reflexão muito particular sobre o estilo de vida que adotamos atualmente. Explico-me melhor: quantas vezes nos damos conta de que sequer observamos o caminho que percorremos com nosso carro, ou mesmo a pé, não importa como nos deslocamos, mas a verdade é que não faz diferença se no percurso há árvores, pessoas, prédios ou casas.
Simplesmente traçamos uma reta e quando vemos, lá estamos nós em nosso destino. Mas não sabemos muito bem o porquê de corrermos tanto, qual a razão de escolhermos um dado objetivo ou outro; suamos para alcançar metas: para quem?
Nossas metas são realmente escolhidas? Existe escolha? Ou negligenciamos nossas vontades da mesma forma que apagamos paisagens porque estamos sempre apressados demais, ocupados demais?
Por isso a obra traça uma única personagem, cuja principal preocupação é subir uma escada, único espaço presente na obra. Sua preocupação também é uma só: vencer degrau por degrau para atingir o último, o que lhe garantiria o topo e, por conseguinte, o fim de uma jornada. Mas e este fim? O que ele garante? O que fazer depois do fim?
Creio que O degrau foi um grito contra imposições, formas e fôrmas, um desafio à pressa e às imposições. Ele não tem forma; pode ser encarado como poesia, como romance experimental, como nada... Ele nasceu do nada, se inspirou por causa do nada, ou seja, é fruto do vazio de todo aquele que segue o comportamento de manada, um sintoma bem específico destes tempos tão robotizados que temos vivenciado. Nós não temos a medida do que somos, também não enxergamos os outros. Somos irremediavelmente cegos e falsamente crentes de que dominamos nossa caminhada.
Eu penso que O degrau é realmente muito irracional, mas duramente sóbrio; é sensível para se opor ao excesso de racionalidade da sociedade, mas também é realidade crua contra a irracionalidade que predomina em sociedade. Em suma, ele condensa e expõe questões existenciais que nos são caras, mas nem sempre estamos prontos a confrontar. 

Fale-nos sobre sua obra anterior.

Minha obra anterior, Femiversomulti, igualmente publicada pela editora Todas as Musas, foi minha primeira experiência com ficção. Aliás, eu realmente nunca havia considerado enveredar por este caminho. Entretanto, as crônicas ali presentes foram frutos de muita observação, mais precisamente ao longo de 14 anos; são fatos que acompanhei na pele de diferentes mulheres, cada uma delas com uma vivência absolutamente diferente, mas todas muito ansiosas e necessitadas de um ouvido que pudesse captar, principalmente, suas dores, opiniões, sonhos e experiências. Trabalhei no comércio durante quatro anos e meio, o que me garantiu um grande laboratório literário.
Depois, realizei um curso de direitos humanos no Memorial da Resistência, ocasião em que pude conhecer a cracolândia e toda sua miséria, visitei as esquinas de São Paulo e sorvi cada gota do que ela poderia me proporcionar quanto ao material humano, tão desumanizado, ali presente.
Comecei a prestar atenção nas conversas em pontos de ônibus e nos corredores de supermercados e me peguei a pensar, como mulher, quantas outras mulheres havia com experiências tão diferentes das minhas e o quanto seria rico dar voz a elas, posto que nem sempre essas pessoas encontravam locutores verdadeiramente interessados em suas histórias.
Também comecei a pensar o quanto nossa noção de mulher e de “coisas de mulher” ou “feminilidade” é limitada. Toda mulher, individualmente, é um universo, absolutamente complexo, o que implica dizer que há diversas formas de ser mulher e seus problemas são tão múltiplos e diversos que encapsulá-los no rótulo feminino é absolutamente redutor.
Foi dessa percepção que a obra Femiversomulti nasceu. Uma obra composta por 8 crônicas, número que, uma vez invertido, assume o símbolo do infinito. Cada uma das crônicas, portanto, dá voz e espaço para mulheres diferentes, em situações diversas, conferindo liberdade para que cada uma delas se expresse como bem entender e adquiram a notoriedade que as cidades, tão gulosamente, devoram em seu cotidiano.

Como analisa a questão da leitura no país?

É angustiante para alguém que cresceu entre livros, meu caso, e teve seu primeiro compromisso e único com a Literatura, igualmente meu caso, conviver com a realidade de viver em um país onde por volta de 40% da população nunca comprou um livro. Mais sufocante ainda é ser escritora numa sociedade que passou a perseguir abertamente os intelectuais porque estão muito distantes de ter condições de perceber a grande miséria em que se encontram.
Entretanto, obviamente, sabemos que há um plano muito bem orquestrado para manter a população neste estado de transe, distante da leitura e inimiga declarada das causas culturais: um povo que não lê, não conhece, não delibera, será para sempre refém de políticos sem talento, mas oportunistas o suficiente para mantê-los em sua cegueira e analfabetismo funcional.
Contudo, como intelectual, produtora de cultura e professora encaro com muita coragem o meu papel de formadora de opinião e assumo minha posição de batalha contra este sistema. Formo rodas literárias, faço leitura conjunta com meus alunos, escrevo livros, ainda que seja para que ninguém leia. Aquela velha história de quem planta árvores, mesmo sabendo que não se beneficiará de sua sombra. 

O que tem lido atualmente?

Eu tenho um ritmo bem curioso de leitura, pois leio bibliografias pertinentes ao pós-doc e, ao mesmo tempo, tenho meus livros de descanso para as horas de lazer. Ou seja, para trabalho, estou lendo A noite dentro da noite de Joca Reiners Terron; para descanso, o livro de Contos Completos de Clarice Lispector e Villete de Charlote Bronte. Isto significa que leio no mínimo três livros por semana.

Quais são os seus próximos projetos?

Como próximos projetos, tenho a reescrita de meu primeiro livro, resultado de minha dissertação de mestrado, pois gostaria de adequá-lo aos resultados obtidos em meu doutorado, em outras palavras, atualizá-lo à luz da pesquisa de doutorado. Também pretendo escrever um romance, já iniciado, e um livro de contos (engavetado, mas em processo de formação).
Ou seja, a única certeza é continuar trilhando os caminhos da literatura, à contramão, sempre, deste desprestígio cultural, desse baixo-astral institucionalizado pela política vigente. Se eles querem silêncio, nós oferecemos a balbúrdia.

Link para a compra do livro: https://todasasmusas.com.br/livro_degrau.html
   

Cida Simka é licenciada em Letras pelas Faculdades Integradas de Ribeirão Pires (FIRP). Coautora do livro Ética como substantivo concreto (Wak, 2014) e autora dos livros O acordo ortográfico da língua portuguesa na prática (Wak, 2016), O enigma da velha casa (Uirapuru, 2016) e “Nóis sabe português” (Wak, 2017). Organizadora dos livros Uma noite no castelo (Selo Jovem, 2019) e Contos para um mundo melhor (Xeque-Matte, 2019). Integrante do Núcleo de Escritores do Grande ABC.

Sérgio Simka é professor universitário desde 1999. Autor de cinco dezenas de livros publicados nas áreas de gramática, literatura, produção textual, literatura infantil e infantojuvenil. Idealizou, com Cida Simka, a Série Mistério, publicada pela Editora Uirapuru. Organizador dos livros Uma noite no castelo (Selo Jovem, 2019) e Contos para um mundo melhor (Xeque-Matte, 2019). Membro do Conselho Editorial da Editora Pumpkin e integrante do Núcleo de Escritores do Grande ABC.
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segunda-feira, 7 de maio de 2018

Flavio Botton, o livro O motim e a Editora Todas as Musas, por Sérgio Simka e Cida Simka

Flavio Botton - Foto divulgação
Flavio Botton, editor-chefe da Editora e Revista Acadêmica Todas as Musas,  é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo, professor de Literatura Portuguesa, Teoria Literária e História da Arte. É autor de Que Enigma Havia em Teu Seio: Ensaios sobre artes plásticas e literatura e de Um homem sem medo não morre: O Motim, de Miguel Franco, além dos prefácios dos títulos Mãe, de José de Alencar; Gonzaga ou A Revolução de Minas, de Castro Alves e de O Motim, de Miguel Franco para a Série “Teatro em Língua Portuguesa” da Editora Todas as Musas. Organizou, junto com Fernanda Verdasca Botton, a coletânea O Teatro de Bernardo Santareno, que reuniu trabalhos de pesquisadores do Brasil e de Portugal sobre as peças do dramaturgo português.

ENTREVISTA:

Você é o editor da Editora Todas as Musas. Fale-nos sobre ela. Como é o seu trabalho? Quem quiser publicar por sua editora quais os procedimentos a serem adotados?


Sou editor-chefe da Editora e Revista Acadêmica Todas as Musas há 10 anos e professor de Literatura Portuguesa e História da Arte há 15.
A Editora Todas as Musas nasceu da revista acadêmica com o intuito de dar vazão a dois tipos de produções realizadas por professores: a acadêmica e a ficcional. A única restrição de nossa linha editorial é que o autor precisa ser professor ou pesquisador e ter o desejo de publicar seu trabalho de pesquisa, de mestrado, doutorado, especialização etc., ou trabalhos ficcionais, como poesia, conto ou romance. Quem se identificar com esse perfil, pode enviar o material para o e-mail todasasmusas@gmail.com.
A nossa revista acadêmica já está indo para o seu vigésimo volume e tem todo o conteúdo gratuito na internet pelo endereço www.todasasmusas.org.

A sua editora irá lançar um livro de um dramaturgo português chamado Miguel Franco, O Motim, cuja peça foi objeto de seu doutorado.  Fale-nos sobre a peça e o autor.

Conhecia Miguel Franco dos livros de história do teatro português e, por um feliz acaso, tomei contato com a filha dele, a artista plástica Maria João Franco, há alguns anos. Nessa época, interessei-me muito em estudar as obras do dramaturgo, que atuou em um contexto extremamente difícil para todos os artistas, mas em especial para os que trabalhavam com teatro.
Miguel Franco teve uma peça representada em um dos principais teatros de Lisboa na época da ditadura salazarista. A peça tratava dos eventos históricos ocorridos após o levante do povo da cidade do Porto contra a criação da Companhia dos Vinhos do Alto Douro, criada pelo ministro de D. José, o Marquês de Pombal em 1756.
Após 4 dias de apresentações, a polícia política invadiu o teatro, confiscou e rasgou os cartazes, além de intimar os bilheteiros a suspenderem as vendas.
Apesar de tratar de um evento de um passado muito distante, a peça causou grande impacto nos homens da ditadura e sua proibição foi extremamente sentida pela sociedade portuguesa, que encaminhou ao Ministro da Educação um abaixo-assinado com o nome de mais de cem autores e intelectuais pedindo a abolição das restrições que pesavam sobre o teatro. A proibição da peça acabou sendo mais um motivo de união da resistência ao totalitarismo salazarista.
Podemos dizer ainda, não sem certa tristeza, que o entrecho da peça é extremamente atual, dados os panoramas políticos do Brasil e de outras nações.

Como analisa a questão dos e-books?

Parece-me que o e-book passará pelos mesmos estágios que outras tecnologias já passaram. A princípio, vive-se um momento alarmista que diz, por exemplo, que, com a chegada da televisão, o rádio morrerá. Porém, todos continuamos convivendo com o rádio até hoje. Entendo que está se passando o mesmo quando ouvimos dizer que o e-book acabará com o livro impresso. Passado esse primeiro momento, começamos a perceber que há espaço para os dois tipos de livros e que eles podem conviver pacificamente.
Talvez o e-book, ou fabricantes de aparelhos, ainda tenham que responder sobre a sua viabilidade ecológica, ou seja, se não estamos produzindo lixo eletrônico em demasia e o que estamos fazendo com as baterias descartadas desses aparelhos.

Quais são suas leituras preferidas?


Quando me faço essa pergunta, tenho dado a mesma resposta há mais de 30 anos. As duas leituras que mais me impressionaram até hoje foram A demanda do Santo Graal (recomendo a edição do meu professor, Heitor Megale) e Grande Sertão: Veredas, livro que reli há pouco para acompanhar a minha primeira visita a cidade de Cordisburgo, terra natal de Rosa.
Por outro lado, tenho encontrado, no trabalho da editora, professores que são grandes escritores em vários gêneros e estilos. Estou muito envolvido pela poesia de MDG Ferraz, que já publicou 4 livros conosco, sendo o mais recente o Poemas in Azulis e pelos romances do Prof. Dr.  Milan Trsic, em especial, pelo surpreendente Doze Anos de Solidão. Além do gênero que tem nos dado muito prazer que é o conto. Recomendo muito a leitura dos Escritos do Sobrado Morto, do Prof. Dr. Manoel Guaranha, trazendo contos que fazem um intertexto realmente brilhante com textos bíblicos e ainda a leitura do gênero que sempre agrada a muitos leitores, o conto de suspense, de Laura Figueiredo, que estará lançando muito em breve O Mistério de D. Amélia e Outros contos. O conto me fez descobrir em meu pai um grande contador de histórias e, há alguns anos, editamos o primeiro livro dele, O Caso do Pacu Voador, cuja publicação foi de especial alegria.
Recomendo muito a leitura desses títulos divertidíssimos para todos os leitores.

Que conselho pode dar a um escritor principiante?

Não há muito de novo a dizer, escritores precisam ser leitores vorazes e precisam exercitar muito a escrita.  Recentemente, soube de uma pesquisa na área de artes plásticas que dizia ser saudável para um artista copiar os trabalhos de outros artistas. Os pintores já sabiam disso desde sempre (Rubens e Rafael copiaram Leonardo da Vinci). Talvez seja um bom exercício para escritores também. Saber identificar a escrita de seus ídolos e copiá-los (como exercício, não como finalidade). Uma ideia muito boa é acompanhar as oficinas de escrita criativa do professor Sérgio Simka!

Quais os próximos projetos da editora?

Temos excelentes títulos em preparação. Há uma coletânea de estudos sobre os X-Men, grupo de heróis da Marvel, realizada por um grupo de pesquisadores de várias áreas, como História, Comunicação, Ciências Sociais e outras. Há um dicionário da obra de Paulina Chiziane, escritora moçambicana imperdível. Há mais um trabalho sobre o dramaturgo Miguel Franco em fase final de editoração. Estamos preparando também novos títulos para a nossa Série Teatro em Língua Portuguesa, que publica peças teatrais precedidas de textos explicativos de professores pesquisadores da literatura. Quem desejar acompanhar os próximos lançamentos da editora, pode nos seguir no Facebook (procure por Editora e Revista Acadêmica Todas as Musas) ou no Instagram (Editora Todas as Musas). Por algum desses canais ou fazendo parte de nossa mailing list, basta escrever para todasasmusas@gmail.com.

*Sérgio Simka é professor universitário desde 1999. Autor de cinco dezenas de livros publicados nas áreas de gramática, literatura, produção textual, literatura infantil e infantojuvenil. Idealizou, com Cida Simka, a coleção Mistério, publicada pela Editora Uirapuru.

Cida Simka é licenciada em Letras pelas Faculdades Integradas de Ribeirão Pires (FIRP). Coautora do livro Ética como substantivo concreto (Wak, 2014) e autora dos livros O acordo ortográfico da língua portuguesa na prática (Wak, 2016), O enigma da velha casa (Uirapuru, 2016) e “Nóis sabe português” (Wak, 2017).
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