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quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

ENTREVISTA COM ESCRITOR: Marilda Soares e os livros Etnicidade Afrodescendente, por Cida Simka e Sérgio Simka

Marilda Soares - Foto divulgação

Fale-nos sobre você.
 

Marilda Soares é bacharel e licenciada em História, com mestrado e doutorado em História Social; pedagoga, com especialização e Psicopedagogia e Neurociência; MBA em Administração Pública e Gerência de Cidades.

Foi professora na Educação Básica e no Ensino Superior durante 25 anos.

Atualmente é coordenadora geral da Educação Básica, na Secretaria de Educação do Município de Piracicaba, e professora associada profissional do Pecege-Esalq-Usp (Programa de Educação Continuada em Economia e Gestão de Empresas), orientando os trabalhos de conclusão de curso de Especialização em Gestão Escolar.

Integra a Rede de Atendimento e Proteção à Mulher, é membro do Conselho da Comunidade Negra e vice-presidente do Centro de Documentação, Cultura e Política Negra de Piracicaba. 

ENTREVISTA: 

Fale-nos sobre os livros. O que motivou a escrevê-los? 

Creio que a intenção inicial foi de responder a inúmeras perguntas que eu fazia a mim mesma, como pesquisadora da história e como cidadã, mulher negra, no contexto da sociedade brasileira. Especialmente por não ver a história dos afrodescendentes representada nas narrativas históricas oficiais.

Assim, “Etnicidade Afrodescendente” surgiu da necessidade de repensar a História do Brasil considerando a africanidade como elemento constitutivo da nossa nacionalidade. Durante a coleta de dados, o tema foi se desvendando e motivando a busca de novos métodos, recortes, fontes e interpretações.

O primeiro volume é destinado ao registro de passagens da História da África, com referências a povos, etnias, culturas e nações africanas, e o segundo volume é dedicado a passagens da História do Brasil, especialmente à presença negra na formação histórico-social do país.

A presença africana e afrodescendente no Brasil, geralmente, é apresentada de forma esparsa e superficial, com o destaque para algumas passagens relacionadas à história da expansão portuguesa e europeia na África, o início da colonização do Brasil, a produção açucareira, o ciclo da mineração, a produção cafeeira, o movimento abolicionista e a Lei Áurea. Isso significa dizer que o conhecimento histórico, desde que se definiu um modelo curricular para o ensino da História no Brasil, a exaltação ao passado europeu da população e da nacionalidade brasileira pode ser identificada na ênfase ao modelo curricular de ensino da História Universal definido pela elite local, que reivindicava para si a ascendência europeia, desprezando o processo de miscigenação, inicialmente com africanos e indígenas e, posteriormente, com outros povos de origem asiática e árabe.

Até recentemente a educação escolar e, na mesma medida, as pesquisas acadêmicas que lhes dão suporte teórico, não contemplavam a abordagem histórica dos povos africanos e afrodescendentes do Brasil, o que provocou grande desconhecimento dessa parcela da História. O mesmo ocorreu com a História dos povos Indígenas, cujos currículos priorizaram as passagens históricas dos Incas, Maias e Astecas, como parte do processo de expansão colonizadora e predomínio dos espanhóis na América Central. Não obstante, são conhecimentos fundamentais para a formação da nossa identidade. 

Como analisa a questão da leitura no país? 

Vivemos um momento interessante, em que muito se lê, especialmente as publicações que circulam pelas redes sociais. Porém, temos que salientar a distância entre a quantidade e a qualidade do conteúdo lido.

Os textos clássicos e mesmo outros atuais, que apresentam repertórios mais densos, não estão incluídos entre os mais acessados.

A leitura compõe a base do desenvolvimento do indivíduo desde a infância. Temos que aprender a ler o mundo de diversas formas, entender seus símbolos e códigos para nos constituirmos como pessoas. Mas, mesmo compondo a rotina de aprendizagem no ambiente escolar, a leitura precisa ser estimulada fora dos muros das escolas, especialmente no ambiente familiar, que é a base da formação de valores.

Família e Escola devem atuar juntas para incentivar o desenvolvimento dessa competência leitora – que é acompanhada do desenvolvimento de habilidades socioemocionais –, se apoiando mutuamente, estimulando o prazer de ler e, ao mesmo tempo, uma postura de investigação, de desejo de conhecer mais sobre o mundo e suas possibilidades de interpretação. 

O que tem lido ultimamente? 

Tenho lido bastante a obra de Cheikh Anta Diop, pesquisador senegalês, já falecido, destacado por sua ampla formação como físico, historiador, sociólogo, antropólogo e linguista. Ele é considerado um importante intelectual africanista do século XX por suas pesquisas referentes às origens africanas da civilização.

Diop utilizou conceitos extraídos das investigações linguísticas, arqueológicas, antropológicas e históricas que produziram conhecimentos acerca dos povos subsaarianos e seus legados, desde a Pré-história, para demonstrar que os grupos humanos originados na área central da África, devido às necessidades de sobrevivência, busca dos recursos naturais e mudanças climáticas, foram alcançando outros espaços, nos territórios do Egito, Mesopotâmia, Oriente, Europa e, em processos migratórios de milhares e milhares de anos, ultrapassaram o Estreito de Bering e alcançaram as Américas.

Um dos objetivos alcançados por Anta Diop foi desconstruir a imagem criada pela Egiptologia e outras linhas da investigação que buscaram subjugar as etnias africanas e distanciar a História do Egito da História da África.

Diop esclarece que parte significativa das referências históricas sobre a África foi calcada no racismo. Segundo ele, os apontamentos científicos eram usados para justificar a exploração colonialista ao afirmar a “inferioridade” dos povos africanos, atribuindo um caráter “natural” ao processo de dominação econômica e política exercida pelas “superiores” nações europeias. E como o Egito foi a mais proeminente civilização da Antiguidade, superior em riqueza e sofisticação cultural a muitos povos antigos de outras partes do mundo, realizou-se um esforço para dissociá-lo do restante do Continente, mormente da África negra.

Ao investigar uma rica documentação, Cheikh Anta Diop concluiu que os egípcios tinham originalmente a pele escura, ou seja, com grande concentração de melanina, que caracteriza as etnias da África negra. Com os processos de sucessivas migrações e invasões, parte da população passou a apresentar variações na pigmentação, o que não significa que a população egípcia fosse asiática em origem, pois se registra, em todo o arcabouço documental, a anterioridade daquela civilização em relação às demais. E, desse modo, Diop contrariou as tradicionais pesquisas eurocêntricas e fundamentou teoricamente a origem africana do Egito e da própria civilização. 

Como você avalia a relação das temáticas propostas nos livros e o contexto histórico atual? 

Em uma perspectiva positiva, podemos apontar que a temática da igualdade e dos direitos ganhou maior espaço nos estudos acadêmicos e embates políticos, estimulando uma revisão dos conceitos, preconceitos e estereótipos, buscando novos caminhos para a valorização da cultura e história dos povos africanos e afrodescendentes do Brasil e de toda parte onde a Diáspora desconstruiu as sociedades tradicionais da África e gerou novos processos históricos. 

Por outro lado, do início do trabalho, há alguns anos, até o momento em que encerramos a escrita, foi possível presenciar debates e lutas incansáveis de militantes dos direitos humanos e de ativistas negros, com a perspectiva de novas conquistas e avanços.

Propostas políticas dissonantes com os preceitos democráticos têm surgido, lamentavelmente, descontruindo as conquistas de diversos segmentos historicamente excluídos. Em tempos mais recentes, também tem sido possível presenciar, com perplexidade, o recrudescimento de linhas político-ideológicas avessas ao Estado Democrático de Direito, tão caro à esperança de um futuro igualitário e de uma sociedade mais justa e equilibrada.

Por essas razões, dentre os objetivos principais dessas publicações, apresentamos algumas passagens da História da África e da História do Brasil a partir da análise da temática étnico-racial e com o propósito de contribuir para as discussões, trazendo uma linguagem simples e acessível a todos os interessados. 

Links para os livros: 

Passagens da História da África - Etnicidade Afrodescendente I

https://clubedeautores.com.br/livro/passagens-da-historia-da-africa 

Passagens da História do Brasil - Etnicidade Afrodescendente II

https://clubedeautores.com.br/livro/passagens-da-historia-do-brasil 

 

CIDA SIMKA

É licenciada em Letras pelas Faculdades Integradas de Ribeirão Pires (FIRP). Autora, dentre outros, dos livros O enigma da velha casa (Editora Uirapuru, 2016), Prática de escrita: atividades para pensar e escrever (Wak Editora, 2019), O enigma da biblioteca (Editora Verlidelas, 2020), Horror na biblioteca (Editora Verlidelas, 2021) e O quarto número 2 (Editora Uirapuru, 2021). Organizadora dos livros Uma noite no castelo (Editora Selo Jovem, 2019), Contos para um mundo melhor (Editora Xeque-Matte, 2019), Aquela casa (Editora Verlidelas, 2020), Um fantasma ronda o campus (Editora Verlidelas, 2020), O medo que nos envolve (Editora Verlidelas, 2021) e Queimem as bruxas: contos sobre intolerância (Editora Verlidelas, 2021). Colunista da revista Conexão Literatura.

SÉRGIO SIMKA

É professor universitário desde 1999. Autor de mais de seis dezenas de livros publicados nas áreas de gramática, literatura, produção textual, literatura infantil e infantojuvenil. Idealizou, com Cida Simka, a série Mistério, publicada pela editora Uirapuru. Colunista da revista Conexão Literatura. Seu mais recente trabalho acadêmico se intitula Pedagogia do encantamento: por um ensino eficaz de escrita (Editora Mercado de Letras, 2020) e seu mais novo livro juvenil se denomina O quarto número 2 (Editora Uirapuru, 2021).

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