Arthur Machen - O mestre da dark fantasy, no Catarse

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domingo, 4 de agosto de 2019

O Mistério do Cinco Estrelas - Marcos Rey

Leo trabalha como mensageiro no Emperor Park Hotel. No segundo andar, no apartamento 222 está hospedado Barão, que pede para que Leo compre um jornal. Nessa ocasião o mensageiro vê um homem no quarto: "um homem pequeno, com pinta de índio, vestindo roupas civilizadas" e que "lavava concentradamente as mãos na pia do banheiro". Uma cena aparentemente corriqueira, mas que chama a atenção do jovem, dado que o hóspede daquele quarto o habitava sozinho. A presença daquele homem, por si só, já ensejaria certo mistério para o novo funcionário do hotel.

Depois, quando Leo volta ao quarto para entregar o jornal que fora solicitado, ele vê dois pés sob a cama. Notou ainda que havia uma mancha vermelha no robe do conhecido benemérito e protetor de instituições sociais, Barão - o hóspede do quarto 222. Temos então o início de uma trama de investigação.

"O Barão muito pálido, como um doente, teimava em sorrir, mas não devia estar bem porque suas mãos trêmulas, deixaram cair os jornais. Leo abaixou-se para apanhá-los quando viu, sob a cama, dois pés calçados, apontando para a porta."

Leo, para provar que não está enganado em relação ao fato de ter visto o corpo de um homem no quarto do hotel, sob a cama, passa a investigar o caso com apoio de seu primo e de Guima - também funcionário do hotel em que acontece o sinistro episódio.

A trama da obra se concentra na investigação do caso. Os personagens criados por Marcos Rey são bem delineados. Veja-se o exemplo de Leo, que apesar de jovem e de se lançar numa investigação sobre um crime (pelo menos é o que se supõe), mantém as características de sua idade (ingenuidade e certa ousadia em não prever riscos, por exemplo). Leo não aparece como um adulto, mas como o jovem que é.

Outro ponto que vale a pena mencionarmos é que antes de escritores passarem a  abordar personagens inclusivos, Marcos Rey, já o fazia. Gino, primo de Leo, que o auxilia na investigação do caso, é cadeirante em decorrência de uma paraplegia. Tal característica do personagem, contudo, não aparece de forma panfletária, mas com naturalidade dentro da trama, fazendo de Gino um personagem como outro qualquer.

Interessante notar o descrédito que Leo tem pela maioria dos personagens, exceto aqueles que o auxiliam na investigação. Muitos não acreditam que ele possa ter visto de fato um cadáver. O que de fato é uma situação incomum e que despertaria a descrença e a curiosidade de quem ouvisse tal história.

Aqueles a quem ele atribui a prática do crime são ricos e poderosos. Temos aqui, de pano de fundo, uma luta baseada no poder aquisitivo. Leo é o pobre funcionário, desacreditado, sem recursos, que se torna o lado mais frágil dessa relação, sendo contestado e tendo que fazer um trabalho hercúleo para ser ouvido. Do outro lado, temos gente com dinheiro e posição social abastada. Alguma similaridade com a realidade vivida pelos jovens da periferia? Marcos Rey sabe fazer a leitura da sociedade de seu tempo e, ainda, podemos dizer que os temas que trata em sua obra, embora estejam em camadas secundárias - como é o caso desse livro - se tornam atemporais.

Além de embarcar na jornada de desvendar o crime, Leo se depara com uma série de situações. Se vê apaixonado por uma menina que não é de sua classe social - o que gera desconforto, se depara com um homem rico e respeitado pela sua conta bancária e ainda tem que lidar com a desconfiança que a polícia tem sobre ele. A jornada do personagem durante a investigação é instigante e não há como não querer ler mais e saber mais sobre cada passo dado pelo personagem até que tenhamos a elucidação do problema que ele tem de resolver.

Ler O Mistério do 5 Estrelas traz um gosto de saudade para quem já teve a oportunidade de ler o livro em edição que outrora fora publicada pela Coleção Vaga-Lume. O direitos de publicação do autor agora são da Global Editora, que lançou essa nova edição. 

Trata-se de um livro voltado para o público infantojuvenil, mas que tem todos os elementos que não podem faltar numa boa trama policial: a ocorrência de um crime, alguém que investigue o caso, pistas que vão sendo deixadas ao longo da história, motivação para o crime e a revelação do criminoso; tudo isso com aquele gosto de aventura que Marcos Rey sabe imprimir nos seus livros.

O Mistério do 5 Estrelas é um livro excelente, de narrativa fluída, fácil de ler e que ainda conta com ilustrações de Alê Abreu. A obra de Marcos Rey pode parecer inicialmente uma história policial despretensiosa, mas revela-se uma trama bem arquitetada e que surpreende pela trajetória do protagonista e pelo caso que se propõe a solucionar, além das subcamadas que aparecem tênues, mas que podem reverberar pela interpretação e olhar aguçado do leitor.

Sobre o autor:


Marcos Rey, pseudônimo de Edmundo Donato, nasceu em São Paulo em 1925, cidade que sempre foi o cenário de seus contos e romances. Estreou em 1953 com a novela Um Gato no Triângulo. O Mistério do 5 Estrelas, O Rapto do Garoto de Ouro e Dinheiro do Céu, entre outros, além de toda a produção voltada ao público adulto, estão sendo reeditados pela Global Editora.

Ficha Técnica:

Título: O Mistério do 5 Estrelas
Escritor: Marcos Rey
Ilustrações: Alê Abreu
Editora: Global
Edição: 21ª
Ano: 2005
ISBN: 978-85-260-0998-1
Número de Páginas: 125
Assunto: Literatura infantojuvenil
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segunda-feira, 25 de março de 2019

Resenha | Livro(s) do Desassossego – Fernando Pessoa

Livro(s) do Desassossego,  de Fernando Pessoa é o livro objeto da resenha. A obra lida foi publicada pela Global Editora e a edição foi realizada por Teresa Rita Lopes, que organizou os textos do autor português, separando os três livros que compõe a publicação. Convém mencionar, portanto, que aqui temos os textos de três semi-heterônimos (expressão utilizada pelo próprio Fernando Pessoa): Vicente Guedes, Barão de Teive e Bernardo Soares. Cada um deles tem a sua própria identidade, que será notada pelo leitor ao ter contato com os escritos. Mas, juntos, eles dão a grandeza do que é o Livro do Desassossego.

Fernando Pessoa foi um poeta e escritor português fascinante. Seus heterônimos demonstram a versatilidade de um grande escritor e, além disso, criou sobre ele uma mística. Os três heterônimos, Alberto Caieiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis nos fascinam.

O primeiro livro dessa obra é escritor por Fernando pessoa que depois nomeou Vicente Guedes como seu representante. Segundo informação da editora “não sabemos ao certo quando Pessoa atribuiu a Vicente Gudes a autoria desse livro”. No entanto, fato é, que o estilo empregado continuou o mesmo como que vinha sendo escrito antes, por Pessoa propriamente dito.

“Que sonhos tenho? Não sei. Forcei-me por chegar a um ponto onde nem saiba já em que penso, com que sonho, o que visiono. Parece-me que sonho cada vez mais de longe, que cada e vez mais sonho o vago, o impreciso, o invisionável.”

Guedes se demonstra um autor bastante sonhador, uma pessoa que transparece em seus textos o olhar para as sensações, para os sentimentos, e a tudo que nos rodeia ele dá uma interpretação mais sensitiva, tanto as coisas quanto as pessoas, como se pode observar no texto denominado O Amante Visual: “o meu destino de contemplador indefinido e apaixonado da aparência e da manifestação das coisas – objetivista do sonhos, amante visual das formas e dos aspectos da natureza...”

Vicente Guedes é um semi-heterônimo que fala muito sobre o sonhar em seus textos. Tema recorrente que rivaliza, une-se e distancia-se da vida quotidiana. Em certa passagem do livro ele diz que afastou-se para o cargo do pensamento, local em que vive o seu conhecimento emotivo da vida. Daí termos que suas reflexões soam no campo do pensamento em relação a algo mais abstrato do que concreto.

O livro de Barão de Teive é o segundo presente na publicação. Esse autor é ainda pouco conhecido no universo de quem estuda Fernando Pessoa. Os escritos de tal semi-heterônimo aparecem como uma espécie de testamento em que o autor, ao se aproximar do suicídio, resolve escrever os textos para se definir.

Seus temas principais trafegam entre filosofar sobre seu pessimismo, relatar a necessidade do suicídio (que dá o caráter testamentário aos textos que produziu) e fala ainda sobre sexualidade.

Ao contrário de Vicente Guedes, o Barão de Teive, tem repugnância pelo sonho, um dos temas principais do primeiro autor. O livro do Barão é o mais curto entre os três que formam o Livro do Desassossego.

Passamos para o terceiro autor presente na obra: Bernardo Soares. Esse escritor começa a atuar nos idos de 1929. Desse ano até 1935 Fernando Pessoa teria trabalhado a escrita através de Bernardo Soares e de Álvaro de Campos. Soares é amante da vida, se define como um decadente e busca se distanciar dos românticos.

É um escritor bastante analítico, que se propõe a falar sobre tudo com seu aguçado olhar fotográfico, no entanto, além de descrever analiticamente, não deixa de refletir sobre o que escreve ou descreve. Notadamente, é um escritor que vê a vida em movimento e observa o movimento que a vida faz: “Toda a vida da alma humana é um movimento na penumbra”. Ainda que algo da vida não seja visto com tamanha facilidade ou se tenha certeza sobre ela, a vida continua, se movimenta. Por isso, ele também fala sobre viagens e descrições sobre o próprio ato de escrever.

“Para mim, escrever é prezar-me; mas não posso deixar de escrever” – relata o autor em certa passagem. E, sobre o uso das palavras Bernardo Soares diz: “...gosto das palavras. As palavras são para mim corpos tocáveis, sereis visíveis, sensualidades incorporadas”.

Ao leitor caberá apreciar os três livros que formam a publicação e que nos colocam em contato com a diversidade trabalhada por Fernando Pessoa. Cada autor tem seu estilo, sua personalidade, seu próprio olhar diante dos acontecimentos e das pessoas. Embora sejam todos textos fragmentados que versam sobre assuntos diversos, o leitor conseguirá diferenciar cada um dos autores, justamente pela composição extremamente detalhada que Pessoa fazia de suas vozes. 

Ora eles se revelam ligados aos sentimentos e suas impressões sobre a vida, ora os textos nos fazem refletir sobre sentimentos e fatos, ora descrevem cenas e passam pela filosofia dos acontecimentos, ora revelam as inquietações de quem escreve. Os textos tem palavras rebuscadas, uma forma estrutural de certo modo distante do jeito como se escreve na contemporaneidade, no entanto é extremamente acessível e facilmente inteligível. Não se assuste, caro leitor. As 472 páginas do livro publicado pela Global Editora passarão e você nem perceberá, tamanha é a fluidez com que somos conduzidos. Mesmo, como dito anteriormente, sendo textos fragmentados, o arranjo feito por Teresa Rita Lopes nos permite contemplar a obra como um todo.

Fernando Pessoa foi um escritor admirável e que permanece capaz de despertar fascínio nos leitores que tem contato com sua vida e obra. Livro(s) do Desassossego é um obra para ter, ler e reler.

Ficha Técnica

Título: Livro(s) Do Desassossego
Escritor: Fernando Pessoa
Editora: Global
Edição: 1ª
Número de Páginas: 472
ISBN: 978-85-260-2206-5
Ano: 2015
Assunto: Literatura portuguesa



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quinta-feira, 15 de novembro de 2018

O Homem Rouco – Rubem Braga


O Homem Rouco, de Rubem Braga, foi publicado pela Global Editora em 2018 (5ª edição). Rubem é considerado o mestre da crônica no Brasil e o livro reúne quarenta textos que foram escritos entre abril de 1948 e julho de 1949. São textos que foram publicados originalmente no Diário de Notícias, Folha da Noite, Folha da Tarde, Diário da Noite, Diário Carioca, Correio Paulistano, Revista da Globo e Jornal do Comércio.


“Naufragamos a todo instante no mar bobo do tempo e do espaço, entre as ondas de coisas e sentimentos de todo dia.”

A crônica que abre a obra é O Ausente de Bogotá. Em Sobre o Inferno, o inferno é o tema. Aquele inferno que, segundo o autor “Dante e outros espalharam muitas notícias falsas a respeito”. O inferno é apenas aqui e o cronista o vive no cotidiano.

Sobre o Amor, Etc fala sobre esse sentimento humano e a vida de que ama e de quem passou por uma relação. Até mesmo uma amendoeira ou algumas delas, fizeram com que Rubem Braga nos desse uma história. Ou ainda, a “Lembrança de um braço direito”. 

Sempre me chama a atenção na crônica o olhar aguçado do cronista sobre tudo que vê ao seu redor. Coisas simples, corriqueiras, inusitadas, mas também a complexidade de fatos e acontecimentos, a complexidade da própria percepção humana sobre o que vê.

Biribuva, uma gatinha, recebe o texto que traz seu nome. É da revelação do cronista com essa gatinha e do pensamento que surge sobre possibilidade de não tê-la que extrai a essência do texto, que comove quem gosta de animais. Ainda que o leitor, segundo ele, não queria saber de Biribuva (a condessinha). Mas, ele nos conta sobre ela.

Em O Plano de Itamaracá fala sobre pessoas que morreram na ilha e a própria ilha, bem como aspirações para o que desejaria que a ilha se tornasse, com ironia.

Para Rubem Braga um menino que usa seu teatro de marionetes, vindo de uma caixa de Praga, poderia usar e organizar outras “Marionetes” (título da crônica). “Tenho vontade de ir lá dentro chamar o menino, entregar-lhe o Brasil e o Mundo, pedir-lhe para organizar, com todos esses bonecos terríveis e gaiatos, uma história mais coerente e mais divertida”. Uma crônica que faz uma crítica política no fim de 1948 e que se revela tão atual como se tivesse sido escrita exatamente hoje.

Conto de Natal, cuja história muito se aparenta a do casal que deu a luz à Jesus Cristo termina de modo triste. Uma analogia do autor ou um questionamento para quem o lê? Já em Irritação da Vida, por meio de um livro que recebe, Rubem faz a sua visão sobre o ato de escrever e sobre a necessidade do escritor em ter seu livro.

“Ah, um dia terei coragem de escrever um livro assim florido, onde o leitor entre como em jardim de afetos, e tome comigo o cafezinho da maior cordialidade, batendo uma boa prosa.”

Pedaços de cartas de nordestinos que migraram para a Amazônia também viraram um bom texto do autor. O Homem Rouco tem outras crônicas, tais como Nascem Varões, O Jabuti, O Morador, O Funileiro, Dos Brotos e O Motorista do 8-100 (essa última apontada por Otto Lara Resende como uma das melhores de Rubem Braga). Rubem, por sua vez, em entrevistas destaca o livro O Homem Rouco como um de seus melhores.

É no passeio pelas palavras do autor que nos traz seus ambientes, personagens e observações que o leitor vai ler e se deleitar com ótimas crônicas. A palavra bem posta, um estilo que por vez fala do autor para o leitor, reflexões, observações puras e simples, e humor aparecem nos textos do autor. Mergulhar nas crônicas de Rubem Braga é uma viagem daquelas que fascinam e que ficam gravadas na memória.

Para saber o nome de todas as crônicas que estão presentes no livro, deixo o registro aqui: O ausente de Bogotá, Sobre o amor et, Sobre o inferno, Jardim fechado, Justiça seja feita, Essas amendoeiras, Lembrança de um braço direito, Biribuva, O plano Itamaracá, O suicida, O homem rouco, Procura-se, Histórias de Zig, Do temperamento dos canários, Aconteceu com Orestes, Que venha o verão, Marionetes, Agradecimento, Conto de Natal, A secretária, Uma lembrança, Os romanos, Regência, Imitação da vida, Pedaços de cartas, Sobre a morte, Da vulgaridade das mulheres, Os olhos de Isabel, O barco Juparanã, O motorista do 8-100, Dos brotos, O vassoureiro, Vem uma pessoa, A visita do casal, O morador, Visitação a São Paulo, Os saltimbancos, O funileiro, O jabuti e Nascem varões.

Mais do que falar sobre as crônicas que serão lidas, é preciso que elas sejam lidas, pois a cada um a singularidade do olhar do autor vai reverberar de um modo diferente. Recomendo a leitura.

Sobre o autor:

Rubem Braga nasceu em 12 de janeiro de 1913, em Cachoeiro do Itapemirim, no Espírito Santo, e passou a dedicar-se precocemente ao jornalismo, em 1928, no Correio do Sul, fundado por seus irmãos. Apesar de graduado em Direito, nunca exerceu a profissão e dedicou-se por toda a vida ao jornalismo e à crônica, passado por diversos jornais brasileiros. Atuou também como embaixador no Marrocos, chefe do Escritório Comercial do Brasil no Chile, editor, contista e poeta, experiências que influenciaram suas crônicas, além de ter sido correspondente do Diário Carioca durante a Segunda Guerra Mundial. Seu primeiro livro, O Conde e o Passarinho, foi pulicado em 1936. A este se seguiram diversos outros títulos que lhe garantiram prestígio incomum junto ao público leitor e à crítica ao longo das últimas décadas. Obras como Ai de Ti, Copacabana! alçaram a crônica, gênero comumente considerado “menor”, a uma patamar jamais alcançado na literatura brasileira. O autor faleceu em 19 de dezembro de 1990 e suas cinzas foram jogadas no rio Itapemirim.

Ficha Técnica

Título: O Homem Rouco
Escritor: Rubem Braga
Editora: Global
Edição: 5ª
Número de Páginas: 152
ISBN: 978-85-260-2441-0
Ano: 2018
Assunto: Crônica brasileira



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sábado, 10 de novembro de 2018

Antologia do Cordel Brasileiro – Marco Haurélio

Manifestação literária popular da cultura brasileira, o cordel encanta. Aqui pelas terras brasileiras tal corrente literária ganhou destaque no século XIX. Grandes nomes da nossa literatura se inspiraram em cordéis, como João Cabral de Melo Neto, Guimarães Rosa e Ariano Suassuna. Os folhetos, forma usual de apresentação do cordel, tem xilogravura em sua capa e ficam pendurados em cordões ou barbantes. É daí que vem o nome Literatura de Cordel.

O Soldado Jogador é a história de cordel que abre o livro publicado pela Global Editora. De autoria de Leandro Gomes de Barros, conta sobre um soldado que resolve abrir um baralho na igreja e, em função disso, é levado até a prisão. Sagaz que é ele consegue convencer o comandante de que ele faz a leitura de orações por meio das cartas do baralho, o que surpreende o homem e faz com que ele consiga dar uma reviravolta na trama.

Depois temos um cordel de José Pacheco, chamado História do Caçador Que Foi ao Inferno, em que a Virgem Maria intercede pelo homem que é levado ao inferno. Já em A Guerra dos Passarinhos, de Manoel D’Almeida Filho temos um juazeiro alto, bonito e frondoso que fica no quintal do narrador. Tal árvore abriga uma série de pássaros e ele nota que acabam por travar uma luta incansável para afastar de lá um inimigo que se aproximou do juazeiro.

Na sequência vem a história escrita por Antônio Teodoro do Santos, em que um cavalo é o auxiliar mágico. Joãozinho é obrigado por um rei déspota a procurar por uma série de coisas, incluindo uma sereia que ele quer desposar. Para confundir o rei o protagonista vale-se da máxima de que a palavra de um rei não volta atrás.

Nas quatro primeiras histórias da Antologia do Cordel Brasileiro, que tem organização de Marco Haurélio, já temos uma noção da grandiosidade da obra. Nessas histórias iniciais vemos um pouco de tudo aquilo que há contido na literatura de cordel: seres fantásticos, ícones religiosos, lendas e personagens que representam o povo. Essa é a mística da literatura de cordel que nos traz uma representação de brasilidade, sobretudo por ser uma literatura que tem forte ligação com o povo nordestino. Marco Haurélio, o organizador, é poeta, cordelista e pesquisador da cultura popular brasileira.

Nessa antologia temos uma gama variada de cordéis que compreendem a produção de um longo período, cujo espaço temporal entre a primeira e a última história contida no livro é de mais de um século.

Os Três Irmãos Caçadores e o Macaco da Montaha, de Francisco Sales Arêda é a história que segue narrando sobre três filhos de um caçador. Gaudêncio, Januário e Gerimário, com um macaco, tem de enfrentar o gigante Tropeço.

Manoel Pereira Sobrinho brinda o leitor com No Tempo Em Que os Bichos Falavam, que apresenta um antagonismo entre um caçador e uma cobra. Abaixo destaco um trecho do cordel.

“Oh! Deus Pai e grande autor
Das forças celestiais,
Dai-me forte pensamento
E potências autorais
Para descrever a vida
E a fala dos animais”

Interessante observar o trecho acima, pois notará o leitor que em muitos momentos, no cordel, o narrador que confunde-se com o próprio autor escreve de modo a se referir a outra pessoa, fora da história. Ora pede a Deus, como no caso acima, ora também pede atenção do próprio leitor ou de um personagem que esteja contido na história.

De Severino Borges Silva temos O Valente Felisberto e o Reino dos Encantos. Claramente inspirado em contos de fadas a história do valente que dá nome ao cordel traz encantos, princesas, príncipes, gigante e anão.

Temos ainda na antologia o cordel O Feiticeiro do Reino do Monte Branco, de autoria de Minelvino Francisco Silva, em que um feiticeiro apadrinha um menino que aprende a arte da bruxaria por meio dos livros de feitiçaria. Uma princesa surge na história.

Uma das coisas que encanta na literatura de cordel é o fantástico aparecendo nos versos. A mescla de realidade e fantasia, a pluralidade de acontecimentos que cercam os personagens e a conexão que algumas histórias trazem para falar sobre o povo, com suas crenças, suas necessidades e suas buscas pessoais; mesmo que haja uma tinta forte para nos contar, torna o gênero bastante rico. Sem contar que temos personagens que na sua simplicidade, conseguem tocar o leitor pelo modo sábio que conduzem os entraves que surgem em suas vidas.

A rima dá cadência à leitura e quando menos o leitor espera já terá passado da metade do livro, já terá embarcado no universo descrito nos cordéis e estará “cantando” mentalmente os versos que lê. As capas dos cordéis também são um show a parte, e no livro, temos as ilustrações de Erivaldo Ferreira da Silva, nascido no Rio de Janeiro e que é considerado um dos artistas mais representativos da xilogravura brasileira.

No cordel seguinte ninguém pode olhar para a princesa, senão será condenado à forca. João Sem Destino no Reino dos Enforcados, de Antônio Alves da Silva, fala sobre esse personagem que dá nome ao cordel e que chega no reino e se depara com dez homens pendurados. Ele é levado ao Tribunal, acusado de olhar para a filha do monarca. Com sagacidade João faz um pedido inusitado.

A história que segue é João Grilo, Um Presepeiro no Palácio, de Pedro Monteiro. O que João fará no palácio? Adivinhação. Pelo título dá para o leitor pressupor o que há de ocorrer na aventura contada pelo autor. E, depois, temos O Reino da Torre de Outro, em que Rouxinol Rinaré, nos apresenta versos inspirados em um conto que leu em Sílvio Romero.

Já em O Rico Preguiçoso e o Pobre Abestalhado, de Arievaldo Viana, temos um rico sovina que viveu em Pernambuco que tinha um compadre camponês, tido como simples e abestalhado. Nesse cordel, temos também a aparição da Virgem, uma referência à Deus, valores religiosos expostos. É uma história que trata de ganância e cobiça levando à injustiça.

Em O Conde Mendigo e a Princesa Orgulhosa, de autoria de Evaristo Geraldo da Silva, temos Sidônia, uma princesa não muito bem quista pelo seu comportamento. Ela não aceita nenhum pretendente até que seu pai faz uma promessa e um mendigo a pede em casamento.

De Klévisson Viana temos Pedro Malasartes e o Urubu Adivinhão, o penúltimo cordel presente na antologia que se encerra com As Três Folhas da Serpente, de Marco Haurélio.

“Traíste um guerreiro que
Queria morrer contigo,
Fizeste o que não se faz
Com o pior inimigo.
Teu e este cão tereis
A morte como castigo!”

A literatura de cordel é, sem dúvida, um grande legado do Nordeste. Foi reconhecida como patrimônio imaterial brasileiro em setembro de 2018. Temos na antologia um gênero literário que sobrevive para além dos best-sellers literários e que ocupa sim o seu lugar, e que se renova com novos autores. Cordel continua conquistando leitores, traz uma brasilidade que mexe com nossos laços afetivos, nos conecta com o imaginário e o fantástico.

A cultura popular mescla-se com o erudito, posto que há inspiração em mitos, passa pela religiosidade, flerta com a fantasia, tem referências a outras grandes histórias criadas pelos homens ao longo do tempo, atinge a realidade e se lança para o absurdo. Nas páginas dos cordéis temos muita oralidade nos versos, a ironia, o sarcasmo e o humor. A literatura de cordel é rica e a Antologia do Cordel Brasileiro nos dá essa visão. A Global Editora acertou em cheio com os textos que refletem momentos distintos do cordel. Leitura mais que recomendada.

Sobre o organizador:

Marco Aurélio é poeta popular, professor, folclorista e editor, é um dos nomes de maior destaque na literatura de cordel da atualidade. Ministra oficinas e profere palestras sobre literatura de cordel e cultura popular em todo o Brasil. Autor de Contos Folclóricos Brasileiros e Fábulas do Brasil e Breve História da Literatura de Corde, e dos livros infantis O Príncipe que Via Defeito em Tudo, A Lenda do Saci-Pererê e Os Três Porquinhos em Cordel. Publicou os cordéis Presepadas de Chicó e Astúcias de João Grilo, História da Moura Torta, Nordeste – Terra de Bravos, Belisfronte, o Filho do Pescador e  O Herói da Montanha Negra. Pela Global Editora publicou Meus Romances de Cordel, uma antologia de suas melhores composições.

Ficha Técnica

Título: Antologia do Cordel Brasileiro
Escritor: Marco Haurélio
Editora: Global
Edição: 1ª
ISBN: 978-85-260-1599-9
Número de Páginas: 253
Ano: 2012
Assunto: Cordel brasileiro


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quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Resenha: Clarice, de Roger Mello

Os livros são arremessados ao rio presos a pedras. O ato do lançamento carrega mais do que o simples significado de arremesso.  Afundados no rio os livros tem abafados o conteúdo, o que pode fazer pensar e sentir as pessoas que os leram. O rio, metaforicamente, pode ser encarado como um monstro com uma enorme boca que os devora. Eles afundam e com eles afunda também a história de quem os leu. Livros, portanto, parecem objetos perigosos.

Clarice, a menina que protagoniza o livro, fala sobre E.L.E.S. Quem são? Para ela “as coisas ficam assim sem muita explicação no mundo dos livros afundados.” No decorrer da história contada pela garota, nós, leitores, somos apresentados a fatos que permeiam a vida dela (narrada em primeira pessoa) e detectamos o olhar singelo de duas crianças que viveram o período da ditadura militar. Duas crianças, pois temos ainda Tarso, que a acompanha na trama.

Além de livros, filmes considerados subversivos são cortados, como explica Tarso. Mesmo sem saber o significado da palavra que ouve, Clarice a repete pela sonoridade, algo que desperta nela o fato de que quem corta os filmes trabalha para E.L.E.S., assim como seu pai trabalhava.

A menina recebeu o nome em homenagem à escritora Clarice Lispector, admirada por sua mãe e cujo pai escondia os livros para que ela pudesse ler. O paradeiro de seus pais é desconhecido. Nos relatos feitos pela menina fica encoberto o entendimento se teriam fugido ou desaparecido. Suas deduções são coletadas pelas conversas que ouve de sua tia (Zilah) e a mãe de Tarso, ou pelas lembranças que tem de tempos passados em que o pai e a mãe estiveram presentes, ou ainda por meio das notícias que Primo lê para ela semanalmente. As ações dos personagens que permeiam a história de Clarice é que vão dando a ela a colcha de retalhos que vai se unindo, pelo seu olhar infantil, sobre um regime opressor.

A história elaborada por Roger Mello, contudo, não entrega fatos históricos ou faz relatos sobre o período militar, mas traz fragmentos sobre a opressão, sobre a necessidade de fuga de adultos, sobre o desparecimento de pessoas, sobre a arte sendo censurada, sobre a necessidade de esconder o que se pensa e ter medo sobre o que se fala.

Um livro de capa vermelha com letras coreanas na capa tem papel de personagem na obra. Guarda pensamentos e ideias que podem subverter o sistema vigente. De certo modo, como é narrado em uma determinada passagem sobre os livros: “as pessoas ainda não estão prontas pra eles”.

É inegável também que há na trama um certo suspense, como um contorno daqueles tempos que deixam no ar a impressão de um mistério que ronda os personagens, com suas angústias, seus medos, suas incertezas. Coisas que estão o tempo todo sondando-os.

Clarice, com os fragmentos e lacunas de um tempo, vai apresentando-nos sua história e as suas impressões. Surgem questões por meio do que ela viu, ouviu, viveu e até pelo que imaginou. E, antes que a história percorra uma trajetória para responder a questões como: onde está a mãe de Clarice?; o que aconteceu com o pai de Clarice?; ou o que E.L.E.S. querem?, faz o percurso de demonstrar a visão da menina, o seu olhar inocente sobre fatos conturbados, ensejando em nós, leitores, a reflexão sobre o que se apresenta.

Como o livro não se revela uma obra de respostas, fica a analogia com o regime militar no país. Não foi assim no período ditatorial que o Brasil viveu? Não há ainda lacunas que precisam ser preenchidas? Não há perguntas que precisam ser respondidas? 

Os livros que representam perigo, mas que também são uma grande paixão para Clarice, tornam-se o elo entre o medo e a coragem, entre o saber e a necessidade de esconder o conhecimento, entre a curiosidade aguçada e o pensamento tolhido.

Na linguagem usada pelo autor, nós teremos a objetividade de uma criança, mas também a dureza do que vivencia. E pelo olhar dela, da sagaz menina criada pela tia, nós também temos momentos de despertar para consciência que advém do conflito entre a realidade e o imaginário.

É por meio da vivência dos personagens que vamos traçando a nossa visão desse mundo. E, não podemos deixar de falar que as páginas são recheadas de ilustrações de Felipe Cavalvante. Ilustrações estas que nos levam pelo lúdico que Clarice usa para compreender o seu mundo.

Publicado pela Global Editora em 2018, Clarice, de Roger Mello, tem 124 páginas. Páginas nas quais o leitor vai mergulhar numa história que merece ser lida e relida, que tem espaços e mistérios a serem preenchidos pelo seu olhar – baseado nos apontamentos de Clarice.

Se na história os livros precisam ser escondidos, a editora usou a mesma ideia para fazer com o próprio “Clarice”, cuja capa original é coberta.

Foi um livro pelo qual me encantei lendo e ratifiquei o meu encantamento ao resenha-lo.

Sobre o autor:

Roger Mello nasceu em Brasília, em 1965. É ilustrador, escritor e diretor de teatro. Vencedor do Prêmio Hans Christian Andersen na categoria Ilustrador, concedido pelo International Board on Books for Young People (IBBY) e considerado o Prêmio Nobel de Literatura Infantil e Juvenil, é hors-concours dos prêmios da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) e vencedor de dez Prêmios Jabuti. Roger recebeu o Chen Bochui International Children’s Literature Award como melhor autor estrangeiro na China.

Sobre o ilustrador:

Felipe Cavalcante nasceu em Brasília, em 1985. É ilustrador e designer. Mestre em poéticas contemporâneas pela Universidade de Brasília, já teve seu trabalho exposto em diversas mostras nacionais e internacionais, como o London Design Festival e o TrimarchiDG, na Argentina. Professor do Departamento de Design da UnN, ministrou disciplinas em tipografia, ilustração e materiais e processos de impressão.

Ficha Técnica

Título: Clarice
Escritor: Roger Mello
Editora: Global
Edição: 1ª
ISBN: 978-85-260-2402-1
Número de Páginas: 124
Ano: 2018
Assunto: Ficção brasileira

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quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Vintém de Cobre – Cora Coralina


“Seu Vintém de Cobre é, para mim, moeda de ouro, e de um ouro que não sofre as oscilações do mercado. É poesia das mais diretas e comunicativas que já tenho lido e amado. Que riqueza de experiência humana, que sensibilidade especial e que lirismo identificado com as fontes da vida! Aninha hoje não se pertence. É patrimônio de nós todos, que nascemos no Brasil e amamos a poesia (...)”

Carlos Drummond de Andrade – Rio de Janeiro, 7 de outubro de 1983


Vintém de Cobre – Meias Confissões de Aninha, de Cora Coralina, foi publicado pela Global Editora em 2013 (10ª edição).

A Ana do subtítulo é a própria autora, cujo nome de batismo é Ana Lins dos Guimarães Peixoto. Na obra ela nos conta casos que se passaram na cidade de Goiás – uma cidade que nasceu no ciclo do ouro e teve seu auge no século XVIII. Ali já acontecia a tradição de contar casos.  Tradição que ganhava ainda mais força com as lendas que permeavam as construções do local. Os mais velhos contavam casos para as crianças e isso, decerto, ajudou na formação dos pequenos que aprenderam a contar histórias. Cora Coralina traz em sua obra muito dessa oralidade que era transmitida nessas contações. Vale também dizer que a obra da autora traz em seu cerne a questão da tradição passada, fixando-a no presente e deixando-a registrada para o futuro. 

Em Vintém de Cobre, Cora Coralina nos leva a conhecer personagens que fizeram parte de sua vida e reconstrói (ou melhor, reconta) a história de sua cidade, de sua infância, de seus sentimentos, das vivências na Fazenda Paraíso e traz ao leitor uma gama enorme de hábitos interioranos e da vida de gente simples, mas com grandes ensinamentos. 

Estão expressos também em seus poemas a visão sobre determinados hábitos, como a forma com que os adultos tratavam as crianças, a forma com que os viajantes eram recebidos, os traumas de uma infância cheia de percalços. Aninha, a pequena menina, não era tida como inteligente por sua professora, inclusive chegando a ter sua capacidade de escrever questionada. Então, o livro passa por momentos felizes, mas também demonstra aqueles momentos tristes e emocionantes que ficaram marcados na infância de Cora Coralina e como ela conseguiu superá-los.

“... saborosa me pareceu sempre a linguagem dos simples.”

Em seus poemas há muito de uma simplicidade que nos toca, que mexe com memórias e imaginários. Clarice Lispector dizia: “Que ninguém se engane, só se consegue a simplicidade através de muito trabalho”. E, Cora Coralina, é assim. Suas palavras traçadas uma a uma nos levam para um caminhar na literatura que parece simples, mas é muito bem contado, costurado, engendrado. E a força de sua poesia está, creio eu, na simplicidade que consegue alcançar o leitor de um jeito único.

“Detesto os que escrevem mal e publicam livros.
A maior dificuldade para mim sempre foi escrever bem.
A minha maior angústia foi superar a minha ignorância.
Confesso com humildade essas verdades simples e grandes.”

O livro percorre “da infância longínqua à ancianidade presente”, como diz um verso de O Cântico de Aninha. Divide-se em três partes: Livro I – Meias-Confissões de Aninha; Livro II – Ainda Aninha...; Livro III – Nos Reinos de Goiás e Outros.

Cora Coralina, ao mesmo tempo que nos conta algumas passagens de sua vida, expressa observações tenazes que deixam um sabor de reflexão. Ela mesma o faz em seus poemas. As palavras ganham ritmo pelas frases que soam cantadas, com aquela oralidade de quem conta casos sem, no entanto, ser um conjugado de rimas.

Alguns vocábulos que usa estão em desuso, foram próprios de um tempo e de uma região, mas foram por ela herdados da avó. Reflete-se, pois a tradição de um passado que toma nota de nostalgia nas lembranças de quem escreve e ressoa, para quem lê, como uma viagem para o passado.

Cora fala do nascer antes do tempo, de gente antiga (“sábia, sagaz e dominante”), do seu melhor livro de leitura, do peão e seus deveres, da Fazenda Paraíso,  da escrita, das práticas do povo da roça, das pessoas da família, dos sonhos de infância, dos medos, das normas de educação, de presidiários, de  carreiros, de lavadeiras, de moços e de homens, da vida.

Muitas pessoas devem ter tido algum encontro casual com Cora Coralina, em frases que são espalhadas pelas redes sociais. Mas, adentrar o universo literário da autora, dá outra sensação. Uma sensação de estar imerso em boas e bem traçadas palavras. A simplicidade a que me referi antes dá um toque especial, pois é um livro que pode ser lido e compreendido por qualquer pessoa. Seus poemas tornam-se aqueles que gostamos de ler e reler. Com Vintém de Cobre essa foi a minha experiência. 

Mesmo depois de concluir a leitura, voltei algumas vezes para reler alguns poemas. E cada mergulho novo na leitura conseguimos detectar mais do que está ali implícito, da mensagem que ela transmite, da singela forma com que constrói seus versos e toca o leitor.

“... nós temos medo de ser originais. Sermos os primeiros.
Preferimos a estrada palmilhada, a retaguarda cômoda.
Temos medo de conquistas novas no campo do idealismo.
Vamos chanfrando, rotineiros.”

Ler Cora Coralina é uma experiência rica, uma lição de vida. É também um querer mais e dá vontade de mergulhar fundo em toda sua obra.

Sobre a autora:


Cora Coralina é o pseudônimo de Ana Lins dos Guimarães Peixoto (1889-1985). Nasceu na cidade de Goiás, antiga Villa Boa de Goyaz. Filha de Francisco de Paula Lins dos Guimarães Peixoto, desembargador nomeado por D. Pedro II, e de Jacinta Luísa do Couto Brandão. Foi criada às margens do rio Vermelho, em casa comprada por sua família no século XIX, quando seu avô ainda era uma criança. Estima-se que essa casa foi construída em meados do século XVIII, sendo uma das primeiras construções da antiga Vila Boa de Goiás. Aos 15 anos de idade, Ana vira Cora, derivativo de coração. Coralina veio depois, como uma soma de sonoridade e tradução literária.

Poeta e contista brasileira de prestígio, tornou-se um dos marcos da literatura brasileira. Cora Coralina iniciou sua carreira literária aos 14 anos com o conto “Tragédia na Roça” publicado no “Anuário Histórico e Geográfico do Estado de Goiás”.

Casou-se com o advogado Cantídio Tolentino de Figueiredo Brêtas e teve seis filhos. O casamento a afastou de Goiás por 45 anos. Ao voltar às suas origens, viúva, Cora Coralina iniciou uma nova atividade, a de doceira (conheça a obra Doceira e Poeta). Além de fazer seus doces, nas horas vagas ou entre panelas e fogão, Aninha, como também era chamada, escreveu a maioria de seus versos.

Publicou o seu primeiro livro aos 76 anos de idade e despontou na literatura brasileira como uma de suas maiores expressões na poesia moderna. Em 1982 – mesmo tendo estudado somente até o equivalente ao 2º ano do Ensino Fundamental – Cora Coralina recebeu o título de doutora Honoris Causa pela Universidade Federal de Goiás e o Prêmio Intelectual do Ano, sendo, então, a primeira mulher a receber o troféu Juca Pato. No ano seguinte foi reconhecida como Símbolo Brasileiro do Ano Internacional da Mulher Trabalhadora pela FAO. Morreu em Goiânia, aos 95 anos, em 1985.

Após a morte da poetisa, amigos e parentes se reuniram e criaram a Associação Casa de Cora Coralina em 27 de setembro de 1985, mantenedora do Museu Casa de Cora Coralina. Entidade de direito privado, sem fins lucrativos, regido por um Estatuto, que tem como finalidade: “ projetar, executar, colaborar e incentivar atividades culturais, artísticas, educacionais, ambientais, visando, sobretudo, a valorização da identidade sociocultural do povo goiano, bem como preservar a memória e divulgar a vida e a obra de Cora Coralina.

Ficha Técnica

Título: Vintém de Cobre – Meias Confissões de Aninha
Escritor: Cora Coralina
Editora: Global Editora
Edição: 10ª
ISBN: 978-85-260-1888-4
Número de Páginas: 240
Ano: 2013
Assunto: Poesia Brasileira


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