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segunda-feira, 4 de abril de 2022

[BEST-SELLER INTERNACIONAL] Autobiografia de centenária ex-combatente da II Guerra Mundial chega ao Brasil


 "Meu Nome é Selma" conta a trajetória de luta e sobrevivência da holandesa Selma Van de Perre

Há, na atualidade, poucos sobreviventes do Holocausto ainda vivos para relatar as atrocidades pelas quais passaram durante a Segunda Guerra. Poucos ainda podem nos contar com as próprias palavras, o medo que sentiram, a coragem que encontraram e as experiências de resiliência, criatividade e esperança em meio ao desespero. Selma Van de Perre é uma delas. Prestes a completar 100 anos em junho, a holandesa que vive em Londres, revela em Meu Nome é Selma (lançamento da Editora Seoman) como sobreviveu a um dos campos de concentração mais cruéis da história: Ravensbruck, no qual os nazistas aprisionavam somente mulheres.

Nesta autobiografia aclamada internacionalmente, Selma conta a dificuldade em ser judia na Holanda, como a guerra chegou e levou toda a sua família, como assumiu uma identidade ariana falsa, entrou para a resistência como courier, além de relatar detalhes incríveis de sua luta pela sobrevivência e libertação como presa política. 

“Dormimos no chão de madeira do vagão. Era desconfortável, mas devia ser muito pior para minhas amigas nos outros vagões – com cinquenta ou sessenta mulheres amontoadas em seu interior, elas não teriam condições nem de se sentar. E também não dispunham de alimentos. Embora não tivesse me dado conta na época, tive sorte. “ – Trecho do livro 

Nascida em 7 de junho de 1922, Selma foi combatente da Resistência holandesa-britânica até 1947, quando rumou para trabalhar na embaixada holandesa em Londres. Mas até lá, teve de sobreviver como a guerra lhe permitia. Usando o nome “Marga”, Selma fez “o que foi preciso” para combater o regime nazista até ser levada, em 1944, para o campo de concentração feminino de Ravensbrück. Foi libertada de lá no final da guerra graças a sua identidade falsa – que a fez não relevar a quase ninguém, detalhes de sua vida (nem aos amigos que fez fora e dentro do campo ao longo do conflito), por medo de ser delatada e morta.

A autora revela não ter sucumbido pois pensava no presente, no dia a enfrentar, nas atividades que deveria realizar, como comer um pão duro e uma sopa rala e ruim para sobreviver. Sabe-se que muitas pessoas não só adoeceram fisicamente nos campos de concentração (e quem adoecia era executado), como caíram em profunda depressão. Selma Van Perre resistiu, contrariando o destino da maioria, e está ativa até hoje com uma força inacreditável.

Escrito com notável leveza, apesar de todos os duros desafios experimentados por Selma, o livro mescla acontecimentos históricos conhecidos e relatos únicos vividos por sua autora. Uma história de esperança e coragem inspiradora que releva, com precisão e por meio de exemplos próprios, como milhões de judeus lutaram para sobreviver a uma das piores barbáries de todos os tempos. 

Elogios ao livro: 

“Um verdadeiro thriller pessoal. ” – The Jewish Chronicle 

“Uma história extraordinária. ” – James Holland, autor e locutor inglês especializado em história da Segunda Guerra Mundial 

“Meu Nome é Selma nos mostra como encontrar esperança em meio à desesperança, luz em meio à escuridão. ” – Edith Eger, autora de The Choice e The Gift 

“Hoje, mais do que nunca, todos nós precisamos dar ouvidos à voz e às experiências de Selma. ” – Ariana Newmann, autora de When Time Stopped 

Sobre a autora:

Selma van de Perre-Velleman (nascida em 7 de junho de 1922, em Amsterdã) é ex-combatente da Resistência holandesa-britânica. Durante a Segunda Guerra Mundial, atuou como courier, termo que na época adquiriu a conotação específica de “mensageira da Resistência”. Em 1947, conseguiu um emprego na Embaixada holandesa em Londres. Passou a estudar Antropologia e Sociologia e, depois de se formar, tornou-se professora de Sociologia e Matemática na Sacred Heart High School, em Hammersmith, Londres. Posteriormente, começou a trabalhar como jornalista na BBC Radio Netherlands, onde conheceu seu marido, Hugo van de Perre, um jornalista belga. Em 1983, foi condecorada com a Cruz Comemorativa da Resistência, medalha concedida na Holanda aos membros da Resistência holandesa durante a Segunda Guerra Mundial. Em 2021, foi agraciada com a Ordem de Orange-Nassau pelo governo holandês. 

Sobre o Grupo Editorial Pensamento:

Desde 1907, o Grupo Editorial Pensamento publica livros para um mundo em constante transformação e aposta em obras reflexivas e pioneiras. Na busca desse objetivo, construímos uma das maiores e mais tradicionais empresas editoriais do Brasil. Hoje, o Grupo é formado por quatro selos: Pensamento, Cultrix, Seoman e Jangada, e possui em catálogo aproximadamente 2 mil títulos, publicando cerca de 80 lançamentos ao ano. Ao longo de sua trajetória, o Grupo Editorial Pensamento aposta em mensagens que procuram expandir o corpo, a mente e o espírito. Mensagens que emanam energia positiva e bem-estar. Mensagens que equilibram o ser. Mensagens que transformam o mundo.

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quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

A história do cinema para quem tem pressa

 


Contar toda a história do cinema em menos de 200 páginas. Esse é o desafio do livro A história do cinema para quem tem pressa, de Celso Sabadin, da editora Valentina.

Parece um projeto destinado ao fracasso, mas Sabadin dá conta do serviço.  Autor de livros como “Vocês ainda não ouviram nada – a barulhenta história do cinema” e sócio fundador da Associação Brasileira de Críticos de Cinema, o autor consegue equilibrar a obra entre a profundidade e a rapidez, abordando desde o surgimento da sétima arte até os dias atuais em uma linguagem fácil e agradável.

O livro se destaca principalmente pelas curiosidades que ajudam a contar a história. Por exemplo, em 1872 o fotógrafo inglês Eadwear Muybridge foi contratado pelo governador da Califórnia para ajudar a elucidar uma questão. O governador havia apostado com um amigo que os cavalos tiram as quatro patas do chão enquanto correm. Muybridge espalhou pela pista 24 câmeras munidas de disparadores automáticos, que permitiram detectar minunciosamente os movimentos do equino. Ao ver as fotos ele percebeu que se elas fossem exibidas rapidamente em sequencia conseguiriam criar a ilusão de movimento, o que seria a base da câmera cinematográfica. A propósito: o governador ganhou a aposta.

Embora oficialmente o cinema tenha surgido na França, foi nos EUA que ele mais se difundiu, principalmente graças aos poeiras (niclelodeons), locais de exibição de limpeza precária, que vendiam aproximadamente 340 mil ingressos diários.

Foram os poeiras que enriqueceram Thomas Edson e o ajudaram a criar um verdadeiro truste que dominava completamente a produção cinematográfica no início do século XX.

Mas foram donos de poeiras (na maioria imigrantes que investiram todas as suas economias para montar as salas de exibição e ficaram ricos) que criaram os pequenos estúdios, que conseguiram vencer a guerra contra Edson. Esses pequenos estúdios se estabeleceram em Hollywood, na Califórnia porque o preço das terras era barato e porque dava para filmar o ano inteiro (ao contrário de cidades como Nova York, que sofre com nevascas, tempestades etc).

Universal, Warner, Fox, Colúmbia e MGM são alguns exemplos, empresas que até hoje, mais e um século depois, ainda dominam a produção de cinema norte-americano.

Entre essas empresas que surgiram nos poeirões estava a Warner Bros. Eram 11 irmãos Warner que haviam deixado a Polônia em busca de melhores oportunidades. Um deles, Sam, encantou-se com o cinema ao trabalhar como projecionista e convenceu o pai a investir todas as economias na compra de um projetor e aluguel de uma pequena sala.

O cineminha deu certo e logo se tornou produtora, mas estava a anos luz das maiores do ramo.

A aposta dos irmãos Warner passou a ser o cinema falado. Começaram com Dom Juan, que tinha apenas efeitos sonoros sincronizados, o que não despertou interesse da plateia nem da imprensa e gerou um belo prejuízo. A sorte da empresa viria com O cantor de jazz, em 1927. Apesar de ter poucas falas, os números musicais sincronizados encantaram a plateia.

Logo todo mundo só queria saber de filmes falados e os estúdios tiveram que se adaptar. Mas o equipamento de captação de som era rudimentar e os microfones enormes, do tamanho de um ralador de queijo. O jeito era escondê-los no cenário. Mesmo assim, os atores tinham que falar num tom mais alto que o normal. Assim era comum nos filmes da época os atores praticamente gritando ao lado de um vaso de flores no qual estava escondido o microfone.

São curiosidades e detalhes como esses que deixam o livro interessante. Mas a história do cinema para quem tem pressa também consegue analisar e explicar os movimentos cinematográficos, como o expressionismo alemão, o impressionismo francês, o realismo soviético e o neorrealismo italiano. E ainda dar uma passada de olhos sobre os dois países que mais produzem filmes no mundo, a Índia e a Nigéria.

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segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

FICÇÃO HISTÓRIA - Livro inspirada na história de médico que salvou milhares de vidas durante a Segunda Guerra chega ao Brasil

Escritora inglesa traz enredo comovente baseado em fatos e personagens reais de heróis silenciosos, como o Dr. Janusz Korczak

O Bom Doutor de Varsóvia (Editora Jangada) prende o leitor do primeiro ao último parágrafo. Baseado na inspiradora história do médico e escritor Dr. Janusz Korczak (pseudônimo de Henryk Goldszmit),  responsável por salvar centenas de vidas de crianças na cidade de Varsóvia, durante a Segunda Guerra Mundial, e nos relatos de Misha e Sophia, aprendizes do médico, este romance é fruto de pesquisas e do “amor” que a autora nutriu pela tocante história de Korczack e seu método de relacionamento com as crianças.

A autora Elisabeth Gifford, ainda uma jovem mãe, deparou-se certo dia com suas ideias em um seminário sobre Educação. Segundo ela, o médico defendia um relacionamento com a criança que implica conhecê-la a fundo e respeitá-la enquanto indivíduo. Foi esta visão que a fez pesquisar a vida deste homem pouco conhecido e transformá-la em um livro de ficção. Para isso, ela fez diversas pesquisas, viagens e entrevistas. E chegou, inclusive, a colher informações e obter importantes materiais com Roman Wroblewski-Wasserman, filho de Misha e de Sophia, o casal que protagoniza este livro, ao lado de Korczak. Misha e Sophia são um dos pouquíssimos sobreviventes do gueto de Varsóvia. Ambos trabalharam com Korczak antes e durante a segunda guerra.

Este é o terceiro livro escrito por Gifford, que se tornou escritora justamente para poder contar a história de Korczak. Para chegar ao resultado final, Gifford trabalhou ao longo de dez anos, fez um curso de escrita criativa e publicou outros dois livros.  O Bom Doutor de Varsóvia é romance denso, porém sensível, sobre um dos períodos mais difíceis da história. A autora recria a época da ocupação alemã na Polônia, mesclando personagens reais e fictícios, destacando com perspicácia momentos importantes da vida durante o Holocausto.

Na trama, Misha e Sophia, um jovem casal de estudantes apaixonados são postos à prova durante os horrores do controle nazista em Varsóvia, assim como o Dr. Korczak luta para proteger as cerca de duzentas crianças de seu orfanato. O Bom Doutor de Varsóvia recria os fatos narrados pelo médico em seus escritos. Korczak abriu mão de salvar a própria vida para cuidar de centena de órfãos e dar-lhes esperança. “Ele foi pioneiro no campo da psicologia e bem-estar da criança e ensinou crianças e adultos a tratar uns aos outros com empatia”, diz a autora.  

O Bom Doutor de Varsóvia ganhou ares de romance, segundo Gifford, para que certa leveza caísse sobre as páginas e pudessem, assim, serem lidas pelas pessoas. “Decidi respeitar todos os fatos documentados sobre Korczak e os anos de guerra e preencher as lacunas culturais, como a comida e os meios de transporte, com dados de pesquisa. Permiti-me a mesma liberdade criativa de um roteirista de cinema que recria uma época histórica”, conta a autora.

Trecho do livro:

“Com uma dor no peito, Misha lembrou-se da última vez que vira o médico e as crianças, no orfanato da Rua Sienna, dentro dos muros do gueto. Tinha passado o dia todo fora do gueto com uma equipe de trabalho destacada pelos alemães, varrendo cacos de vidro no quartel de Praga, sob o olhar entediado do guarda que os vigiava, empunhando o rifle de forma displicente.

Quando voltou ao orfanato no fim da tarde, as crianças tinham sido levadas. Os copos de leite pela metade e o pão estavam esquecidos sobre as mesas; as cadeiras, tombadas ou empurradas para trás. Saqueadores já tinham invadido o prédio, os travesseiros rasgados, o conteúdo dos armários com as lembranças das crianças espalhado pelo pequeno salão de baile do clube de empresários, que durante um ano e meio servira de dormitório, sala de aulas e refeitório para duzentas crianças.”

Elogios ao livro:

“Uma história que deve ser contada e recontada. De leitura agradável e extremamente poderosa. ” —The Times (Londres) 

“Fui totalmente cativado por esta história maravilhosa. ” – Christopher Booker, escritor premiado 

Sobre a autora:

Elisabeth Gifford nasceu em Midlands, Inglaterra, e estudou Francês e Religiões do Mundo na Universidade de Leeds. Trabalhou como especialista em dislexia e, depois de obter o diploma em Escrita Criativa pela Oxford OUDCE, e o mestrado em Escrita Criativa pela Royal Holloway College, deu início a uma prolífica carreira de escritora, dedicando-se sobretudo a romances inspirados em momentos históricos relevantes. Ela é casada, tem três filhos e mora em Kingston upon Thames, na Inglaterra. 

Sobre o Grupo Editorial Pensamento:

Mais que livros, inspiração!

Desde 1907, o Grupo Editorial Pensamento publica livros para um mundo em constante transformação e aposta em obras reflexivas e pioneiras. Na busca desse objetivo, construímos uma das maiores e mais tradicionais empresas editoriais do Brasil. Hoje, o Grupo é formado por quatro selos: Pensamento, Cultrix, Seoman e Jangada e possui em catálogo aproximadamente 2 mil títulos, publicando cerca de 80 lançamentos ao ano. Ao longo de sua trajetória, o Grupo Editorial Pensamento aposta em mensagens que procuram expandir o corpo, a mente e o espírito. Mensagens que emanam energia positiva e bem-estar. Mensagens que equilibram o ser. Mensagens que transformam o mundo.

Serviço:

Livro:  O Bom Doutor de Varsóvia

Autor: Elisabeth Gifford

Editora: Jangada

Páginas: 376

Preço: R$ 56,90

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sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

Conto "Novo Golpe no Submundo do Crime", por Roberto Fiori


À beira da charneca, o castelo parecia aguardar com expectativa pela chegada de novos visitantes. Era uma ideia absurda, mas acreditava-se que aquilo que o erigira tinha aparência humana, mas a construção do edifício fora perpetrada por horrores cósmicos, jamais compreendidos por completo. As torres e casarios que as sustentavam eram tão antigos, que ninguém podia adivinhar o que de fato acontecera dentro dos muros do palácio obscuro, em mais de três mil anos de existência.

Crimes podiam passar em branco, naquela região pantanosa, eles eram cometidos de tempos em tempos, mas nunca foram elucidados. O que acontecia, como e por que, isso era tarefa para adivinhos e senhores das trevas.

Naquela manhã de brumas e terrores da imaginação, Leon se encontrava a quinhentos metros do portão principal, carregando com os braços, atrás da nuca, sua espingarda de dois canos para caçar patos. Na propriedade, o silêncio era completo. Leon era um rapaz loiro forte e socado, tinha maxilares reforçados, ombros maciços e membros avantajados. Seu tórax amplo o tornava capaz de corridas de vinte quilômetros, sem grande esforço. Em uma luta, o previsível era a vitória para Leon. Sua família tinha imenso orgulho dele. Consideravam-no apto para qualquer prova esportiva ou mesmo, alguma disputa física, por uma questão de ataque de assaltantes às terras da família ou de defesa de sua escolhida.

O problema era que faziam dois anos que o rapaz deixara de se interessar por alguma moça. Lord Denison, pai de Leon, aventara a hipótese de o filho ter caído em depressão. Também, com aquela gente mesquinha de Audrey, nem ele queria desposar alguma mulher. Nem em sonhos encontraria uma alma gêmea naquela charneca, o que acontecia era que todas as mulheres estavam com ambições que envolviam seu dinheiro e suas posses.

Leon começou a caminhar, aproximando-se da entrada do castelo, um passeio de cascalho e areia. Gostava desse tipo de solo, seus passos eram reconfortantes quando ele os ouvia à medida que avançava. Chegando ao portão aberto, duas portas foram abertas na fachada do castelo. Eram homens armados. O rapaz queria conversar, mas a fisionomia dos homens, mais os fuzis de combate que traziam atravessados à frente dos corpos, deixaram-no de mau humor.

— O que quer aqui, rapazinho? — perguntou o homem, uma cabeça mais alta do que todos.

— Sabe — disse, sem concentrar-se de todo no altão, e sim, mantendo os dois em sua vista —, acho que estou perdido. Tão perdido quanto um peixe fora-d’água. E vocês me parecem com ursos, querendo apanhar uma carpa. Não que eu me preocupe com isso, mas vocês estão em vantagem. Trazem duas, duas verdadeiras matadoras de gente. É, estou falando do poder de fogo que vocês têm. Dois fuzis automáticos que eu nem conheço a marca, mas são fuzis, o que é bem mais do que o que eu trago. Minha espingarda tem pouco alcance, trava com facilidade, usa munição de chumbo, ao invés de projéteis de aço, como os que vocês usam. E, também acho que este castelo não deve ser tão acolhedor quanto suas torres davam a impressão, enquanto eu vinha andando por essa trilha de horríveis seixos e areia. Por Deus, vai entrar areia nos meus sapatos novos...

— Tudo bem! Diga o que quer e dê o fora daqui. Chega de papo furado.

Leon era mais encorpado que os dois homens, que deviam ser os seguranças do castelo. Sabia que, se quisesse acertá-los usando a munição de chumbo de cada cano para cada homem, matá-los-ia. Olhou-os com desprezo e os humilhou com a expressão morta de seu rosto, os olhos semicerrados, a boca meio curvada para baixo e seu aspecto desleixado.

— Por que não me mostram a casa? — o rapaz perguntou, a entonação de sua voz sugerindo que, ou os homens o deixavam entrar, ou haveria encrenca. O homem mais baixo e franzino passou os dedos pelo nariz, riu e apontou o fuzil para Leon. Disparou uma salva de três tiros, que teriam esfacelado a ponta do pé do visitante, se ele tivesse continuado a demonstrar desleixo, ao invés de pular para trás.

— Quer ver a casa, ele disse — o baixote riu, olhando para o altão. Este disparou duas rajadas, que acertaram o chão pelos lados do rapaz.

— Quer... ver... a casa... — o homem alto disse, gargalhando. — Ele quer vê-la, Berkley, ele quer!

Os dois aproximaram-se de Leon, os fuzis apontados para ele. O baixote agarrou seu braço esquerdo e o mais alto, o braço direito de Leon. Ele poderia desarmá-los a hora que quisesse, desprendendo-se dos braços deles e os golpeando, a fim de tirar suas armas.

— Venha conosco, temos algo para lhe mostrar — o grandalhão falou.

— Ótimo — retrucou Leon.

Entraram na sala principal do castelo, um salão, para falar a verdade. Móveis de madeira negra e estantes com livros compunham a mobília.

— Sente-se aí! — disse o baixote, soltando o braço do jovem. — E não saia, até voltarmos.

— Do contrário, o quê?

— Verá o que lhe acontecerá, então!

Os dois homens deveriam ter achado que Leon tinha pouca importância, porque saíram batendo os pés com displicência, calçados com botas pesadas. O rapaz levantou-se e foi ver que tipo de livros havia no salão. Qualquer um poderia ficar desconfiado das intenções de quem morava no castelo, mas Leon achou aqueles livros muito interessantes. No mesmo momento em que começava a folhear um deles, os dois homens voltaram.

— Não mexa no que não lhe diz respeito!

Leon ergueu a espingarda que trazia. Os dois homens abriram a boca, não estavam preparados para um conflito mortal. Achavam que haviam assustado o rapaz e ele não usaria uma arma contra os dois.

— Algum problema... — Leon colocou o dedo indicador no gatilho e apontou a arma para o baixote, que se pusera de quatro e tentava mirar nos pés do jovem. O rapaz atirou com um dos canos da espingarda, esfacelando a mão colocada no gatilho do fuzil. O altão reagiu o mais rápido que pôde, apontando seu fuzil militar para Leon e disparando. Errou. Leon virou sua espingarda para o outro e atirou, acertando-o no braço que sustentava o fuzil. O grandalhão berrou de dor e largou o fuzil. Caiu no chão, a seguir, segurando o braço ferido com a outra mão.

O rapaz correu castelo adentro, deixando os atacantes. Encontrou um senhor idoso e perguntou-lhe onde estava o telefone. Ele abriu a boca e disse:

— Por aqui, por aqui!

Chegaram a uma saleta repleta de peles e cabeças de animais. Haviam sido empalhados e compunham uma verdadeira cena de horror, nas paredes, chão e teto do aposento. Leon apanhou o telefone sem fio e digitou o número do hospital. Chamou uma ambulância e desligou o aparelho.

— Quem é o senhor?

— Sou o dono do castelo. Por que atirou em meus guarda-costas?

Leon sabia que haveria de contar a verdade, uma hora ou outra. Falou:

— Queriam me matar com seus fuzis de guerra. Eu estava apenas dando uma olhadinha nos livros do salão.

— Tenho uma câmera de segurança, instalada no salão do castelo. Ela dirá a verdade.

Quatro horas se passaram e a polícia chegou. Examinou tudo, o térreo, as torres e os aposentos de visitas e do homem idoso. Fergusson, o chefe de polícia, algemou o rapaz e levaram-no à delegacia.

— O que estava fazendo no castelo, senhor Leon?

— Estava querendo visitá-lo.

— Armado com uma caçadeira calibre doze?

— É minha arma de caça.

Fergusson coçou a cabeça. Leon era o mais novo membro dos Greenwald, e isso significava encrenca para ele. Se o prendesse, um juiz o soltaria, e se o soltasse, teria Armand nos seus calcanhares. Mesmo sendo um policial tarimbado, Fergusson tinha medo de que fosse alvo de um atentado, mais cedo ou mais tarde.

— Certo, Leon. A câmera de vigilância do castelo mostrou o que iria acontecer a você. Um tiro de fuzil o deixaria inválido ou se acabando em uma poça de sangue. Vá para casa. Pensarei no assunto.

Eram duas horas da madrugada, quando Fergusson foi vítima de um assalto à delegacia. Estava falando com Armand pelo telefone, quando a porta do distrito policial foi atravessada por um caminhão tanque, que destruiu os poucos móveis que existiam na casa. O chefe de polícia disparou, mas os para brisas do caminhão eram blindados. A porta se abriu e um cano de metralhadora despejou por cima dela uma rajada ininterrupta de projéteis. Em cinco minutos, a arma havia feito um grande estrago. O caminhão deu marcha à ré e saiu pela rodovia que levava a população da Inglaterra à cidadezinha de Audrey.

--//--

— O que acha, pai?

— O mesmo que você, Leon. O velho Armand soube que você havia sido libertado e foi atrás do Fergusson.

— Temos que avisar as autoridades...

— Já devem saber. Armand compra todos com o dinheiro sujo do tráfico de heroína, você e eu sabemos. Mas o que me intriga, Leon, é como você foi parar nos portões de entrada do castelo de Saint-Joseph, depois que eu avisei a você que não se aproximasse da propriedade.

— Eu queria ver...

— Ver o quê? Ver a produção de heroína? Está louco, Leon? Você quase matou os dois guarda-costas do Armand. Um deles saiu hoje do coma. Quer que nos eliminem? Esta gangue é do crime organizado! Vamos ser mortos, como quase o foi o Fergusson...

— E se agirmos antes?

— Com que armas você pensa em lutar, filho?

— Conheço um armeiro, em Londres. Teremos armas à vontade. Vou para lá, agora mesmo — Lord Denison apertou a mão de Leon e disse:

— Volte são e salvo. Leve o caminhão que tenho, para entregas de madeira.

Leon subiu no caminhão e falou:

— Ninguém vai nos matar, pai.

— Assim espero.

Cinco horas depois, doze homens armados com fuzis e granadas devastaram a casa de Lord Denison. Não houve sobreviventes, entre sua família. A mãe, muito idosa, os irmãos e irmãs, a irmã menor de Leon, os empregados... a casa ardia em chamas, quando o rapaz voltou de Londres. 

Ficou ao lado do carro, olhando para o incêndio, e nada lhe passava pela cabeça, a não ser invadir o castelo de Saint-Joseph e destruir cada pedra, cada livro maldito de satanismo e barbarismo e cada pessoa que estivesse lá.

Preparou-se.

--//--

Na noite de São Bartolomeu, logo após os bombeiros apagarem o fogo e Leon ter enterrado os restos mortais dos parentes, ele dirigiu o caminhão para a região do pântano e atravessou os portões fechados do castelo dos malfeitores. O caminhão aguentou o impacto, mas não parou. Continuou em desabalada carreira, até atingir a parede de pedra da frente do castelo. Esmagou um segurança, que começou a disparar com seu fuzil-metralhadora contra o caminhão no momento em que viu a silhueta do veículo atravessando os portões, a cinquenta metros de distância do castelo. 

O caminhão destruiu a mobília e as estantes de livros. Armado com uma escopeta, granadas de mão e um fuzil automático, Leon saltou do caminhão. Uma velha, a esposa de Armand, surgiu caminhando com o auxílio de uma bengala e Leon disparou contra ela. Com o pescoço estraçalhado, caiu segurando uma granada, que rolou pelo chão. O loiro se jogou para dentro do caminhão e a explosão arrancou a porta do veículo, sem atingir Leon.

Pulando para fora do caminhão, ele empunhou a escopeta de vinte tiros e foi direto para o aposento ao lado do salão. Era um corredor, com várias salas laterais. Em uma delas, um homem saiu de trás de um sofá e disparou uma pistola até esgotar a munição. O tiro de Leon lançou-o contra o sofá, de onde foi jogado para o chão, deixando uma mancha de sangue no encosto.

Leon arrombou porta após porta, liquidando cerca de trinta integrantes da quadrilha. Em uma das salas, um sargento trocou tiros, ele, portando uma metralhadora, e o loiro, dando um tiro por vez e se escondendo por trás do batente da porta. 

— Que se dane! — gritou o rapaz. — Vou trucidar você!

Leon jogou uma das granadas de fragmentação que trazia no cinturão e, com a explosão, veio o berro do sargento. Foi desse modo, sala após sala, salão após salão, cozinha após cozinha, que o loiro liquidou cem traficantes ou mais. Quando achou o laboratório de produção de heroína, deixou sete granadas sobre cilindros de vinte metros cúbicos de oxigênio, dispostos na parede do laboratório.

A explosão causada pelas granadas, ativadas por outra que Leon deixou rolar pelo chão até encostar nos cilindros, quase apanhou o rapaz loiro. Ele escapou com um braço queimado, mas conseguiu chegar aos portões da propriedade do castelo. Explosões sucediam-se nos subterrâneos, onde havia grande quantidade de produtos químicos utilizados para a produção da droga.

A polícia, que contava com dez viaturas, todas fora da delegacia arruinada, chegou. Leon contou tudo o que havia feito, nos mínimos detalhes. Os bombeiros chegaram em meia hora e, quando as chamas foram dominadas, foi possível ver o que havia sido feito da quadrilha que agia na cidade de Audrey.

Encontraram na torre principal do castelo um computador que dava acesso a informações extensas e preciosas. Havia o endereço de outros laboratórios de produção de heroína, refino de cocaína e quantidades absurdas, em galpões, de metanfetamina e LSD-25 e LSD-75. Fizeram-se prisões em massa. Quem resistia ao encarceramento era morto. A polícia manteve as execuções em sigilo e destruiu todas as propriedades dos traficantes com explosivos e, nos centros urbanos, à força de martelo e picareta.

— Estamos orgulhosos de si, Leon. Sabemos que é o único de sua família, portanto, o Estado gostaria de fazer uma pequena doação a você. 

O novo chefe de polícia de Audrey era um homem digno. Entregou a Leon uma valise contendo cem mil libras esterlinas e um cheque de um milhão de dólares.

Aquela manhã era brumosa como todas, mas o rapaz sentia-se livre para recomeçar uma nova família. Seus sentimentos para com uma certa jovem foram despertados e ele planejou fazer uma visita a ela, assim que adquirisse uma casa confortável. Ele pediu carona a um policial para ir com segurança ao banco. Na viagem, observou com prazer a rotina que começava, no centro de Audrey.

Nada mais será como antes, pensou o loiro. Nunca mais.



SOBRE  O AUTOR:
Roberto Fiori é um escritor de Literatura Fantástica. Natural de São Paulo, reside atualmente em Vargem Grande Paulista, no Estado de São Paulo. Graduou-se na FATEC – SP e trabalhou por anos como free-lancer em Informática. Estudou pintura a óleo. Hoje, dedica-se somente à literatura, tendo como hobby sua guitarra elétrica. Estudou literatura com o escritor, poeta, cineasta e pintor André Carneiro, na Oficina da Palavra, em São Paulo. Mas Roberto não é somente aficionado por Ficção Científica, Fantasia e Horror. Admira toda forma de arte, arte que, segundo o escritor, quando realizada com bom gosto e técnica apurada, torna-se uma manifestação do espírito elevada e extremamente valiosa.

Roberto Fiori sempre foi uma pessoa que teve aptidão para escrever. Desde o ginásio, passando pelo antigo 2º Grau, suas notas na matéria de redação eram altas, muito acima da média. O que o motivava a escrever eram suas leituras, principalmente Ficção Científica e Fantasia. Descobriu cedo, pelo mestre da Fantasia Ray Bradbury, que era a Literatura Fantástica que admirava acima de qualquer outro gênero literário.

Em 1989, sob a indicação de uma grande amiga sua, Loreta, que o escritor conheceu a Oficina da Palavra, na Barra Funda, em São Paulo. E fez uma boa amizade com o maior professor de literatura que já tive, André Carneiro. Sem dúvida alguma, se não fosse pelo André, Roberto nos diz que jamais saberia o que sabe hoje, sobre a arte da escrita. Nos cursos que ele ministrava, o autor aprendeu na prática a escrever, as bases de como tornar uma mera história de ficção em uma obra que atraísse a atenção das pessoas.

“Futuro! – Contos fantásticos de outros lugares e outros tempos” é uma obra parte Fantasia, parte Ficção Científica, parte Horror, e que poderá vir a se tornar realidade, quer em outra época, no futuro, quer em outra dimensão paralela à nossa. Vivemos em um Cosmos que não é o único, nessa teia multidimensional chamada Multiverso. Ele existe, segundo as mais avançadas teorias da cosmologia. São Universos Paralelos, interligados por caminhos ou “wormholes” – buracos de minhoca. Um “wormhole” conecta dois buracos negros, ou singularidades, em que a gravidade é tão elevada que nada pode escapar de sua atração gravitacional, nem mesmo a luz. Em tais “wormholes”, o tempo e o espaço perdem suas características, tornam-se algo que somente pode-se especular e deduzir matematicamente.

“Futuro! – Contos fantásticos de outros lugares e outros tempos” é uma coletânea de treze contos e noveletas. Invasões alienígenas por seres implacáveis, ameaças vindas dos confins da Via Láctea por entidades invencíveis, a luta do Homem contra uma raça peculiar e destrutiva ao extremo, terrível e que odeia o ser humano sem motivo algum. Esses são exemplos de contos em que o leitor poderá não enxergar qualquer possibilidade de sobrevivência para o Homem. Mas, ao lado de relatos de pesadelo, surgem contos que nos falam de emoções. Uma máquina pode apresentar emoções? Ela poderia sentir, se emocionar? Nosso povo já esteve à beira da catástrofe nuclear, em 1962. Isso é realidade. Mas e se nossa sobrevivência tivesse sido conseguida com uma pequena ajuda de uma raça semelhante à nossa em tudo, na aparência, na língua, nos costumes? E que desejaria viver na Terra, ao lado de seus irmãos humanos? Há histórias neste livro que trazem ao leitor uma guerra milenar, que poderá bem ser interrompida por um casal, cada indivíduo situado em cada lado da contenda. E há histórias de terror, como uma presença, não mais que uma forma, que mata, destrói e não deixa rastros. 
Enfim, é uma obra de ficção, mas que poderá vir a se revelar algo palpável para o Homem, como na narrativa profética da destruição de um planeta inteiro.

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sexta-feira, 5 de novembro de 2021

Conto "A Longa, Longa Viagem Terra Afora", por Roberto Fiori


Anita podia ser chamada de princesa, mas sua lascívia para com os rapazes — e algumas garotas — a impediria de ser reconhecida como herdeira do trono. Isso se houvesse reino para governar. Leslie, como líder do grupo, era forte e resistente, mas seria sua inteligência suficiente para uma posição de liderança? Eu tinha minhas dúvidas. Alex era maciço como uma árvore. Sua ansiedade latente lembrava a de um animal em extinção que, devido às condições adversas do meio ambiente, tentava, mas não conseguia encontrar um modo de sobreviver. Ainda, sua teimosia e ignorância lembravam também a história do macaco que, querendo apanhar um doce dentro de um frasco de plástico, enfiara o braço dentro, apanhara a sobremesa, mas, como com a mão fechada não conseguia tirá-la da botija, carregava o jarro para lá e para cá, sem possuir a lucidez de largá-la e procurar outro tipo de alimento.

O que dizer dos gêmeos? Ginastas olímpicos, tinham o que de melhor os qualificaria para uma competição, força, agilidade, resistência, elasticidade. Mas a única forma de fazê-los se mexer de verdade era colocando-os um contra o outro, numa disputa. Amigável ou não. Vera seria a nossa primeira-dama, e para isso ela era hábil. Em excesso, porém. Sabia-se que viera da costa Oeste e matara umas três dúzias de drogados e traficantes, além de um bando inteiro de motoqueiros fora-da-lei. Quem me contara isso tivera a garganta estraçalhada por uma arma que abrira um corte de lado a lado do pescoço, e afundara até dividir a cabeça do corpo. Eu vira um objeto que podia fazer esse tipo de estrago nas mãos do último namorado de Vera. Um estilete elétrico.

Eu? Eu queria me manter fora dessa competição de lobos. Entrara no grupo porque sabia lutar. Meus dotes como faixa preta de caratê de décimo grau me faziam ser um homem fora do contato com a realidade, sem dividir minha solidariedade com os demais. Sem confiar em ninguém, passava o dia procurando comida e me exercitando. Uma vez por dia chegava ao ponto de quebrar alguns galhos secos de árvore com a parte lateral da mão e punha tudo para queimar, numa fogueira pequena, à noite.

Um dia, em que saíramos do percurso por um desvio feito pelas forças de ocupação, para longe de uma cratera radioativa, chegamos a uma grande cabana. Sabíamos que poderia haver perigo e eu estava disposto a me ocupar com outros assuntos, que não fosse lutar.

— Ichi, por que não arromba a porta? — perguntou-me Vera, sorrindo. Sorrindo como um lobo traiçoeiro.

— Alex pode fazer o trabalho melhor do que eu. Prefiro dar a volta na casa, explorá-la — a mulher alta fitou-me sem expressão. Todos sabiam o que significava, mas eu sabia me defender melhor que os outros. Medo? Nenhum.

Alex, dois metros de altura, ansioso por uma luta, se adiantou. Enquanto eu caminhava abaixado, esgueirando-me pelos parapeitos das janelas, ouvia os murros do grandalhão, que destroçavam a pesada porta de madeira. Espiei os cômodos da habitação térrea, mas era óbvio que ninguém morava na cabana. Primeiro, porque ninguém nos recebera, por bem ou por mal, e, em segundo lugar, porque os golpes de Alex teriam atraído possíveis moradores do interior.

Dei a volta, retornando ao grupo, que se sentara para descansar. Alex fora o único a ficar de pé e estava prestes a dar um passo para o interior da casa. Gritei:

— Pare! — Todos me olharam, em dúvida. Um fio delgadíssimo, tão leve e fino como o filamento de uma teia de aranha, unia as laterais da entrada, na altura dos tornozelos do gigante. — Vejam, afastem-se uns quinze metros. Se a casa explodir ou minas forem acionadas, aqui fora, somente eu serei vítima.

Caí sobre os braços e examinei o filete, que brilhava à luz do Sol. Não poderíamos entrar, se houvesse uma proteção eletromagnética na entrada. Era impossível distinguir uma fonte de energia dessa natureza, sem um amperímetro ou um voltímetro.

O filete estava esvoaçando à brisa, mas havia outros meios de detonar um artefato da natureza que eu achava que estava instalado em alguma parte da casa. Levantei-me e caminhei sem pressa para a esquerda da entrada. Encontrei uma paineira e saltei, sem perder tempo. Atingi uma altura de dois metros, despedaçando um galho que eu havia avistado quando explorava a casa.

Era um pouco fino, mas serviria. Qualquer galho daria conta do recado. Quando me encontrava a quinze metros da porta, avisei para todos se abaixarem. Levantei o galho e, concentrando-me por dois segundos, lancei-o. Ele caiu sobre o filamento e o Inferno caiu sobre a área na qual estivéramos. Três rajadas de metralhadora varreram o espaço vazio defronte à parede da frente da morada, através das duas janelas abertas e pela entrada aberta, vindo do interior.

— Tivemos sorte — falou alto Leslie, sacando de sua capa uma minimetralhadora calibre .22 de cano serrado e coronha retrátil, e avançando pelo lado da casa. — E temos sorte de você se juntar a nós, Ichi. Diga-me, o que acha de entrarmos pelas janelas?

— Você sabe muito, chefe. Eu sou um servidor, somente.

— E os outros, quero a opinião de cada um!

Os gêmeos disseram que eu poderia entrar sem ser atingido. Isso me soou estranho. Como eu poderia dar conta de armadilhas que minha presença de espírito era capaz de não dar conta? Fora intuição, o que tivera, mas não contaria isso para ninguém. Por enquanto. Alex falou que pelos fundos era provável termos mais sorte. Vera concordou com ele, mas fiquei pensando se ela teria coragem suficiente de tentar a sorte.

Anita disse para criarmos coragem e entramos de uma vez. Eu já dormira com ela. Sentia que fingia orgasmos e me parecia que era um peso quase inútil em nossa jornada. É verdade que não havia se metido em combates conosco, mas mesmo servindo para pouca coisa, nisso era eficiente. Leslie decidiu.

—Ichi, não sou melhor que você, em situações como esta. Fale a verdade, como sabia que havia uma armadilha mortal na entrada?

— Aprendi na Guerra, chefe. Minha casa foi usada como meio de destruição, as forças de ocupação nos expulsaram dela e instalaram esse tipo de armadilha. Em uma semana, ouvíamos, perto de meu lar, disparos de metralhadoras. Eu observei quando os soldados inimigos retiravam os mortos, desativando as armas na casa por controle remoto. Depois, reativavam-nas e esperavam quem aparecesse que tentasse entrar na casa. Isso era diversão, para os militares — cuspi no chão, ao terminar o relato.

— Pode descobrir outras armadilhas? — Leslie avançou dois passos em minha direção.

— Poderíamos estar mortos, a essa hora, chefe. Por pura sorte, Alex não disparou o dispositivo, ao quebrar a porta em pedaços. Precisamos de um lugar para passar a noite. Verei o que posso fazer.

— Deik, Semian, acompanhem Ichi. Vera, Anita, preparem uma fogueira, a noite será fria. Muito.

Cheguei, com os irmãos gêmeos, à janela da traseira da cabana. Estava escancarada, nos convidando para entrar.

— Procurem linhas, fios, coisas finas e alongadas, que possam ser detonadores. Vocês sabem, qualquer coisa suspeita — havíamos servido no octogésimo batalhão da Marinha, mas, no último confronto, nosso cruzador havia sido atingido por mísseis e naufragara. Tubarões devoraram todos os membros da tripulação, mas uma ilhota, um simples atol, salvara nós três. O modo como nos juntamos com os outros é desinteressante. Aconteceu por acidente. Aos poucos, sentimos que nossas habilidades eram semelhantes e complementares. Como com relação a Anita.

Havia duas linhas de pesca, na parte inferior e superior da janela traseira, de lado a lado da abertura. Falei para abrirem os olhos e encontrei o que queria, hibiscos. Arranquei quatro galhos e dei dois para os gêmeos. Mirei em cima e disse para atirarem seus galhos na parte de baixo da janela.

Houve uma série de cinco explosões no solo, uma à esquerda da construção, três sob a janela e outra à direita da casa. Aproximei-me das crateras.

“Explosivos plásticos, pelo cheiro. De alto poder de penetração”, pensei.

Entramos no aposento, eu, liderando o grupo. Havia uma cama, um criado-mudo, um lustre. Armários, pedindo para serem abertos, instalados na parede lateral.

— Não — falei com veemência para Deik, o mais encorpado dos irmãos. — Os armários são armadilhas, com certeza.

Examinei centímetro a centímetro as paredes do recinto e percebi que era possível que houvesse detonadores somente nas janelas e portas externas da casa. Um corredor dividia a habitação em quartos e saletas. Sem sinal de fios ou portas armadas com explosivos.

— Está tudo em ordem, chefe — afirmei, cruzando a entrada, em que os pedaços da porta dependurados pelos caixilhos haviam sido arrancados por Alex e atirados para longe, fora da casa.

— Vamos passar a noite na cabana. Temos armas e somos organizados. Faremos três turnos na sala, de quatro horas cada. Eu começarei com o primeiro. Os gêmeos se revezarão no segundo e terceiro. Amanhã, mudarei de vigias, caso continuemos aqui.

Com a noite, vieram saqueadores. Em quatro levas. Leslie estava vigiando, quando um tiro soou à distância. O chefe deixara um alarme da época de antes da Guerra com cada um de seus parceiros e eu acordei com uma vibração forte no bolso da calça. Dormia sozinho, em um dos quartos. Pulei da cama e me encontrei com os outros, nos quartos.

Leslie mirava com a minimetralhadora o mato defronte à casa. Cheguei à sala da casa, onde ele montava guarda, no momento em que o veterano disparava uma rajada de três balas. Alguém gritou, o som abafado. Um ruído de riscar alto, denunciou o próximo ataque. A dinamite caiu no exterior, a dois metros da casa. Uma flecha, foi o que meu corpo se tornou. Saltei, rolei no chão e apanhei o aglomerado de bananas de dinamite. Atirei-as e voltei para a segurança da sala. Uma explosão colossal e uma bola de fogo vieram do lugar que haviam atirado a dinamite.

Gritos se ouviram. Leslie fez sinal aos outros para saírem pelas janelas e explorassem o terreno. Os gêmeos mergulharam em um salto pela janela do primeiro quarto, à direita de quem se dirigia da sala para a traseira da casa. Eu saí por outro quarto e os demais nos seguiram.

A noite estava escura e uma Lua minguante se escondia entre nuvens esfarrapadas de Inverno. Corri, ladeado pelos gêmeos. Saquei uma pistola que usara nos combates nas ruas de Legalis, cidade pequena a cinco quilômetros de onde estávamos. Trazia comigo sempre a pistola e munição para matar dez dúzias de combatentes. Mas esperava serem desnecessárias. Tinha as pernas, os pés, as mãos, os braços e a cabeça para servirem de armas.

Vera e Anita, eu vira quando saíam pela janela do quarto dos fundos, elas foram para o outro lado da casa, armadas com fuzis automáticos. Deixei de me preocupar com elas. No caminho em que seguimos, havia corpos de dez homens, despedaçados pela dinamite. Chegamos a uma clareira, em dez minutos de corrida acelerada. Vinte a trinta homens estavam ao redor de uma fogueira. Abaixamo-nos atrás de uma fileira de arbustos e esperamos.

Eles estavam bem armados, tinham o uniforme das forças de ocupação. Azulados e brancos. Isso me lembrava... a Guerra de Secessão? Nesse caso, quem levaria a melhor, nós ou os invasores? Poderíamos dar cabo daquele grupo, mas eu temia que o barulho atraísse outras tropas inimigas. Fiz movimentos de mímica para os gêmeos e indiquei que os reproduzissem para Alex, meio afastado de Deik e Semian. Em seguida, quando estávamos prontos, cochichei no ouvido de um dos irmãos que procurasse as mulheres e falasse a elas que atacassem, com o barulho de um tiro de minha arma. E que voltasse, depois que encontrasse Vera e Anita.

Quando ele saiu, aguardei, um joelho sobre a terra dura. O líder dos inimigos levantou. Foi até a lareira e aqueceu-se. Virou-se e começou a falar em voz alta:

— Em dez minutos, atacaremos. Quero a cabana em condições para uma revista minha em meio dia. Nada de sujeira, poeira, teias de aranha ou qualquer outro indício de que tenha sido usada por vagabundos deste lado do rio. Entenderam? Agora ouçam, os homens que estão na cabana devem ser mortos. Não quero sinal deles, nada! Eles lutaram contra nossas forças, deste lado do rio, e correram de nós! Correram como coelhos — o líder uniu as mãos dobradas e deu pulinhos ridículos ao redor da fogueira.

Os homens riram, bem na hora em que Semian voltava. Ele fez sinal de “okay” e eu apontei a pistola para o líder dos camisas azuis. Com o tiro, ele caiu no fogo. Levantou-se a seguir, em chamas, enquanto eu quebrava o pescoço do soldado próximo aos arbustos em que eu tinha me ocultado. Alex enterrou sua faca nas costas de outro e o arrastou, usando-o como proteção. Tiros se seguiram. Alguns eram das nossas mulheres, outros dos gêmeos, mas eu matava sempre quebrando o pescoço dos inimigos. Era o modo mais rápido e silencioso que eu conhecia, embora silêncio fosse no momento um dos menores problemas.

Matamos, matamos, e, quando tínhamos todos em nossas miras, tendo as duas mulheres entrado na clareira, do outro lado de onde tínhamos vindo, tivemos de completar o serviço. Três soldados sacaram seus revólveres dos cinturões e atiraram. Erraram, porém. Gritei “Atirem!”, com toda a força dos pulmões. Com golpes mortais na têmpora, na nuca, no pomo-de-adão, fui pondo por terra todo o grupo de inimigos. Alex usava sua “Smith Weston” calibre .45 e os gêmeos, pistolas “Sig Sauer” 9 mm. Os fuzis acabaram com a festa, por fim. Vera era boa de mira, mas Anita revelou-se uma atiradora de elite. Dez homens foram derrubados, com as rajadas que elas dispararam.

Vi a forma carbonizada que fora o tenente daquele grupo e me dei conta que estávamos atirando em cadáveres, a partir de certo momento. Gritei:

— Cessar fogo! Cessar fogo!

O silêncio de um lago sem vida tomou conta da mata.

Um silêncio ouvido nos cemitérios e nos necrotérios.

Fui até junto do corpo fumegante do tenente. Fechei os olhos e os abri. Eu o tinha morto, portanto era minha obrigação que o enterrasse. Duas horas se passaram e tínhamos enterrado todos os soldados azuis e brancos. Voltamos a passos curtos para a cabana. Leslie estava ausente, pelo silêncio que tomara conta do lugar.

Entrei primeiro e abaixei-me, por reflexo. Fiquei surdo por um minuto, com o estrondo da espingarda de dois canos. Lancei-a longe e furei os olhos de meu agressor. Era um sujeito troncudo, mais largo que Alex e tão alto quanto. Mas urrava, dizendo que não enxergava. Tateava e conseguiu pôr as mãos em meu pescoço. Com um chute nos testículos, o pus de joelhos.

— Onde está o nosso chefe, imbecil? — ele respondeu que o procurassem nos fundos, mas que lhe dessem algo para os olhos.

Na traseira da casa, havia um corpo. Os olhos haviam sido arrancados, a face esfolada, mas o corpo era de Leslie. Estava no chão, amarrado a quatro estacas, os braços e pernas esticados. Anita, assim que veio, tive de segurá-la.

— Ele está morto, querida. Não posso fazer nada.

— Me deixe! Me deixe a sós com o cretino!

— Isso é crime de guerra, Anita, nós cuidaremos disso — falei em voz baixa, e a abracei.

A execução do miserável foi feita na frente da cabana. Alex quebrou seus braços e pernas. Depois, o executamos, com quatro tiros, um para cada homem. Anita chorava e ajoelhou-se.

Sentei-me ao seu lado, colocando sua cabeça em meu peito. Acariciei-a e cantei “hai-kais” de histórias de luta do Japão feudal para ela. Ela agarrou-se ao meu uniforme e falava baixinho “Quero morrer... leve-me para o Paraíso, onde Leslie agora se encontra...”

Foi assim a noite inteira. Lágrimas, desespero. Os outros homens e Vera cavaram uma sepultura para Leslie descansar. Quando Anita dormiu em meu colo, carreguei-a para seu quarto. Fechei a porta e disse para os outros:

— Deixem-na dormir. Vamos ao túmulo de Leslie.

Dei com um amontoado de pedras, sobre a sepultura. Apanhei uma pedra de uns trinta quilos e a trouxe, arrastando-a como se pesasse um grama. Levantei-a nos ombros e a depositei no topo da pilha. Fiquei olhando por um tempo a sepultura e fechei os olhos. Entoei cânticos budistas, xintoístas e taoístas. Era o máximo que podia fazer por um bom amigo morto de forma tão dolorosa.

No dia seguinte, decidimos sair da zona da invasão. Passamos por cinco cidades, onde nos abastecemos. Sem sinal dos azuis e brancos.

“E assim fomos, de cidade em cidade, travando combates esporádicos, sempre avançando rumo ao Sul. Rumo a terras mais quentes. Onde a Guerra ainda não havia chegado. Fizemos amigos leais e valorosos. Somos gratos a quem nos deixa viver. Assim como quem diz, “É desse jeito, garoto, é desse jeito que você conquista amigos e aliados. Isso, é assim mesmo”. E, cruzando o Grande Canal, que divide o Mundo em Norte e Sul, chegamos ao próximo continente. Onde as flores dão uma seiva revigorante e as árvores crescem livres como os homens. Onde não há sofrimento. Onde está a fonte de nossas emoções cristalinas”.


*Sobre Roberto Fiori:

Escritor de Literatura Fantástica. Natural de São Paulo, reside atualmente em Vargem Grande Paulista, no Estado de São Paulo. Graduou-se na FATEC – SP e trabalhou por anos como free-lancer em Informática. Estudou pintura a óleo. Hoje, dedica-se somente à literatura, tendo como hobby sua guitarra elétrica. Estudou literatura com o escritor, poeta, cineasta e pintor André Carneiro, na Oficina da Palavra, em São Paulo. Mas Roberto não é somente aficionado por Ficção Científica, Fantasia e Horror. Admira toda forma de arte, arte que, segundo o escritor, quando realizada com bom gosto e técnica apurada, torna-se uma manifestação do espírito elevada e extremamente valiosa.

Sobre o livro Cedrik - Espada & Sangue:

“Em uma época perdida no Tempo,

onde a Escuridão ameaçava todos,

surgiu um líder.

Destruição, morte, tudo conspirava contra.

Mas era um Homem de extremos, audacioso.

Era um Homem sem medo”. 

Dos Relatos e das Crônicas da Velha Terra.  


Em sua obra “Cedrik – Espada & Sangue”, o escritor Roberto Fiori coloca sua imaginação e força de vontade à prova, para escrever seu primeiro romance. Um livro de Fantasia Heroica, no gênero Espada & Feitiçaria, em que, em uma realidade paralela, a Terra da Idade do Ferro torna-se campo de lutas, bravura, magia e paixão.

Cedrik é um Guerreiro capaz de levantar 75 kg em cada braço e, ao mesmo tempo, de escalar uma parede vertical de mais de 20 metros de altura facilmente. Em meio a ameaças poderosas, parte para o Leste, em missão de vingança. Acompanham-no a bela princesa Vivian, vinda do Extremo Leste, e o fiel amigo Sandial, o Ancião, grande arqueiro e amigo a toda prova.

Os amigos enfrentam demônios, monstros, piratas e bandidos sanguinários. Usam de magia para se tornarem fisicamente invencíveis. Combatem demônios vindos do Inferno, no Grande Mar. Vivian é guardiã e protetora do Necrofilium, livro que contém maldições, feitiços e encantamentos em suas páginas.

A intenção do autor é continuar por anos as aventuras de Cedrik, escrevendo sobre todo um Universo Fantástico, em que bárbaros e guerreiros travam lutas ferozes e feitiçaria não é uma questão somente de “se acreditar” em seu poder, mas de realmente utilizá-lo para a batalha, como uma arma.

A obra pode ser adquirida com o autor, pelo e-mail spbras2000@gmail.com,  no site da Editora Livros Ilimitados, em livrarias virtuais e no formato de e-book, na Amazon. Os links para acessar o livro são:

1.     Americanas.com:

https://www.americanas.com.br/produto/3200481831?pfm_carac=cedrik-espada-e-sangue&pfm_index=2&pfm_page=search&pfm_pos=grid&pfm_type=search_page

2.     Submarino.com:

https://www.submarino.com.br/produto/3200481831/cedrik-espada-e-sangue?pfm_carac=cedrik-espada-e-sangue&pfm_index=2&pfm_page=search&pfm_pos=grid&pfm_type=search_page

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4.     Site da Editora Livros Ilimitados:

https://www.livrosilimitados.com/product-page/cedrik-espada-e-sangue

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segunda-feira, 16 de agosto de 2021

Conto, “A Luta”, por Roberto Fiori


— Logo virão dias frios, Manfreya.

— Sei disso, meu senhor — a moça respondeu, os cabelos longos cobrindo o rosto e a cabeça baixa.

— Aqui, em Islandir, possuímos tudo — Lord Valleys esperou pela resposta, sua paciência era ilimitada. Mas, cinco minutos de espera foram o bastante para convencê-lo de que a mulher esperava por sua palavra. — Menos calor. Vá para o Norte, onde as terras são boas para constituir uma família. É hora.

O homenzarrão levantou-se de seu trono de madeira pesada de lei e agachou-se junto a sua protegida. 

— Não quero que acabe como os rapazes dessa cidade, ou como qualquer moça que viva em minhas terras. Os garotos estão, ou no Exército, ou nos navios da Marinha, e as jovens são meras donas-de-casa. Esperando por seu marido morto em uma luta que se aproxima.

— Não, meu Lord. Não quero desposar um homem de Islandir. Quero aprender o uso da espada e da lança, do machado e do arco, me defender com um escudo e fortalecer-me como o senhor.

— Quer entrar para as forças armadas, então...?

— Quero ser a melhor, entre as mais fortes. Não desejo ficar e me tornar soldado. Quero ser livre para usar minha força onde os fracos são humilhados e vencidos, onde as mulheres e crianças correm perigo. Mas preciso de um guia, de um Mestre, que me faça adquirir força e coragem.

— Conheço uma tribo de guerreiros, a Leste. Encontre Sibarand, seu chefe. Diga que Lord Valleys a enviou. — O gigante enfiou a mão no bolso e tirou uma medalha. Buscou em outro bolso das calças e atou uma corrente à medalha de ouro. — Os meus mais valentes homens já visitaram tal lugar. Aprenderam muito. Você descobrirá formas de se defender e de matar como jamais imaginaria. Se quer ser uma mercenária, ainda que por bons motivos, correr o mundo, afastada de Islandir, é livre para isso. Mas os perigos são muitos, e muitas são as maneiras de iludir o inimigo. Tome.

Ele estendeu a medalha dourada com sua efígie e, pela primeira vez em que se encontraram na casa real, Manfreya descobriu seu rosto, afastando seus cabelos rebeldes, e sorriu. Apanhou a moeda e disse:

— Obrigada — estava claro para ambos qual seria o destino de Manfreya, vagar pelo mundo mau e áspero e travar sua luta contra inimigos sem coração.

--//--

Ela era bela, mas sua aparência pouco importava. Tinha energia para derrotar muitos, inata, e pretendia ir além. Sabia que a aldeia de Sibarand localizava-se em uma região inóspita, onde bandidos e saqueadores ficavam à espreita de quem se aproximasse. Uma ou outra incursão, os guerreiros do povoado faziam nos arredores, matando e afugentando os meliantes, mas isso durava pouco. Em pouco tempo, os ladrões voltavam a rondar os arredores da aldeia.

Manfreya encontrou-se com três deles, na estrada que levava ao seu destino.

— Deixem-me passar! Sou protegida de Lord Valleys, tenho o direito de atravessar!

Eles se aproximaram do cavalo da mulher, a pé. Conheciam Valleys de nome, o que era o bastante para tentarem roubar a mulher. Quando seguraram as rédeas da montaria, Manfreya puxou-as, fez o cavalo empinar e suas patas dianteiras atingiram o homem à esquerda, que caiu. O cavalo negro pisoteou-o na cabeça, esmagando-a. O ladrão que segurara as rédeas pela direita foi jogado à distância. 

A mulher viu quando o terceiro armava um arco, preparando-se. Ela retirou do cinto uma adaga, que arremessou, enterrando-a na testa do bandido. Com os calcanhares, Manfreya fez seu alazão disparar. O último malfeitor arrastou-se e tomou o arco do terceiro homem, armou-o e disparou. A flecha teria atingido as costas da jovem, mas ela estava fora de alcance.

Uma floresta estendia-se até o horizonte, pelos dois lados da estrada de terra. Manfreya desmontou e continuou a viagem a pé por uma trilha que se embrenhava à direita da estrada, conduzindo o animal pelas rédeas. Ouviu uma algazarra e amarrou o cavalo em um arbusto. Queria ver quem eram seus adversários, em vez de lutar e tentar vencê-los em luta que poderia ser fatal.

Eram cem a cento e cinquenta homens e mulheres, ao redor das cinzas de cinco fogueiras acesas na noite anterior. Bebiam, comiam, alguns amavam-se nas cercanias do acampamento, entre as moitas. Dois homens começaram uma briga. Sacaram facas. O duelo seria até a morte, isso era bem-vindo entre os grupos de vagabundos e assaltantes. A comida seria melhor distribuída, iria diminuir o número dos pretendentes ao dinheiro e ouro roubado em pilhagens. Inúmeras vantagens eram conseguidas, com essas lutas. Manfreya apurou a visão. 

Um dos lutadores era alto e forte, musculoso, enquanto que o outro era ágil e franzino. Lançou-se contra o maior, cortando-o no rosto. O homem forte segurou o pequeno e o levantou do chão com um braço. Sua faca cortou a barriga do homenzinho do pescoço à pélvis, fundo. Suas entranhas escorreram para o chão e o grandalhão enterrou a arma na nuca do corpo sem vida, retirando-a e limpando-a nas vestes do outro.

Largou-o. Houve uma salva de palmas e Manfreya decidiu passar ao largo do acampamento. Voltou a seu cavalo e, puxando-o, passou para o outro lado da estrada, olhando para todas as direções, em busca de perigo.

Em meio dia de caminhada, escondida pelas árvores e vegetação da floresta, a amazona atingiu um lugar em que podia ver os muros da aldeia de Sibarand. Havia uma largo portão aberto em meio a uma muralha alta de quinze metros de altura, de pedra e argamassa. A mulher vasculhou as redondezas da floresta, caminhando sem ruído por algumas centenas de metros de raio. Sem encontrar vivalma, voltou aonde tinha deixado seu cavalo e montou. Trotou, ansiosa, até o portão, e foi cercada por jovens barbados, que a deixaram sem ação, encostando em seu corpo lâminas de espadas e apontando arbaletas contra ela.

— Estou à procura de Sibarand.

— Quem? — responderam, alertas.

— O seu chefe. Lord Valleys me enviou, para aprender as artes da luta e da guerra. Vejam — os homens ameaçaram cortá-la, pressionando as espadas contra seu corpo, e aproximando as bestas de sua cabeça. Com vagar, ela segurou a corrente de seu pescoço e tirou o medalhão. — Esta é uma medalha de boa sorte, que Lord Valleys me deu, antes de eu vir para esta aldeia. Seu líder a reconhecerá. 

A princípio, os jovens ignoraram o medalhão. Mas um deles estendeu, por fim, sua mão e passou os dedos na superfície do círculo dourado.

— É ouro legítimo, Sargard. A figura incrustada é a de Sibarand, isso é mais que certo. 

— Leas, tem bom tato. Levemos a jovem até Sibarand — e, olhando firme para Manfreya, falou: — Tem sorte, minha jovem. Se é luta e guerra que procura, nós as temos em quantidade! Qual o seu nome?

— Manfreya — ela sorriu e disse baixinho um “obrigada”. A aldeia constituía-se de casas de pedra e madeira, dispostas em ruas que se entrecruzavam na perpendicular. No centro exato desse diagrama, situava-se uma casa de bom tamanho, onde um telhado de doze águas abrigava torreões de vigília e por onde se poderia defender com eficiência a propriedade. Manfreya apeou do cavalo, quando chegaram à entrada do terreno, nu e de terra batida. Ela pensou que seria uma ótima fortaleza, a construção. Um dos jovens, o que chamavam de Sargard, passou com o corpanzil pelo grande portão, destrancado, e bateu com a arbaleta em uma placa de metal fixada na cerca que rodeava a área sem o mínimo traço de vegetação. Esperaram dez minutos. Da porta da frente, surgiram aldeões armados e trajando armaduras. 

— O que quer, Sargard? — o homem mais alto perguntou, alto.

— É da parte de Lord Valleys. Uma mulher quer ver Sibarand, em pessoa. Quer aprender as artes ocultas da luta e da guerra.

— Hoje, meu chefe não está para ninguém, Sargard. Volte amanhã.

— Tenho uma prova de que ela está falando a verdade.

Silêncio. Espera.

— Que prova?

— Um medalhão de ouro, com a efígie de Sibarand gravada. Leas pode confirmar isso. Ele é a pessoa com as maiores capacidades sensitivas que existem no povoado. Você o conhece.

— Ele é cego.

— Reconhece melhor que você uma arte feita em baixo-relevo. Conhece metais, distingue o ouro da prata, o ouro do estanho, o ouro do ferro e bronze.

O homem na porta da fortaleza disse que queria ver o medalhão, mas Sargard abanou a cabeça. 

— Vou entregar o medalhão para Sibarand, eu mesmo — e completou, com delicadeza, curvando a cabeça: — Se não se importar, claro.

O guarda com armadura cuspiu e falou para vir com ele. O medalhão estava no bolso da camisa de Sargard.

— Hoje não, Gand, hoje não. Estou febril — falou Sibarand para o guarda, que havia deixado Sargard esperando na parte da frente da casa, e entrara no quarto do chefe.

— Ela diz ser enviada de Lord Valleys, chefe.

— Por que ela veio? — arquejou Sibarand, transpirando como se houvesse acabado de terminar uma batalha.

— A mulher diz querer ser sua discípula na arte da luta, do combate, da guerra e tudo o que pede é uma palavra com o senhor.

— Se Lord Valleys a enviou, o motivo é bem sério, Gand. Deixe-a entrar em meus aposentos — falou o homem, tossindo em convulsões. Gand esperou. Sabia que as palavras de seu senhor haviam sido interrompidas pela febre. — Diga-lhe que eu a ouvirei, mas falarei o necessário. O necessário.

Gand fez uma mesura e retirou-se. Na sala da frente da casa, fez sinal para Sargard se aproximar e disse:

— Ele está com a respiração difícil, falar é um esforço grande para Sibarand. Mas concordou em ouvir o que a jovem tem a dizer. Diga-me, tem cem por cento de certeza que ela possui o Medalhão de Valleys?

— Se Leas afirma possuir o rosto de Valleys na cara da moeda e esta é feita de ouro, não duvido de Manfreya.

O rosto de Gand iluminou-se. Manfreya, a mais hábil nas facas! A que brigava como um leão! A que derrotara cinco homens fortes, meliantes que invadiram sua casa! Esta era Manfreya! O guarda sorriu e saiu pela porta, seguido do jovem Sargard.

— Você é Manfreya, portanto. Pode me seguir, minha jovem. Se eu soubesse de seu nome desde o começo, tempo seria poupado. Venha.

A mulher seguiu Gand pelo portão aberto e entrou na casa. O guarda fez sinal para ela esperar um pouco e falou:

— Meu senhor está fraco e doente. Fale tudo o que tem a dizer, não omita nada. Fale de seu passado, de suas lutas e suas habilidades com armas. Convença-o de que vale seu peso em ouro, tal como o Medalhão de Valleys. Somente assim poderá convencer Sibarand de que é apta a ser treinada por mim.

Ela murmurou “Sim, senhor” e avançou, seguindo o guarda.

Nos aposentos de Sibarand, este estava dormindo. Gand olhou para a jovem e pôs o indicador nos lábios. Aproximou-se da cama de seu senhor. O tórax volumoso do doente subia e descia com ritmo e força. Remexeu-se, abrindo os olhos. Viu Manfreya e a reconheceu. Fez sinal para Gand se aproximar. A jovem mulher manteve-se em silêncio, até que o segurança abanou a cabeça para Sibarand e endireitou-se. Ele esperou alguns segundos e voltou-se, saindo do aposento.

Manfreya contou sua vida, suas brigas quando criança, a possibilidade que, quando crescera, de matar e se recusar a fazê-lo, deixando seus inimigos partirem. Falou das condições que tinha em Islandir como lutadora, podendo entrar nas fileiras do Exército ou da Marinha de Lord Valleys. Porém, a liberdade de se realizar além das forças armadas surgia com cada vez maior intensidade. Desejava ser a número um em lutas, combates corpo-a-corpo e uso de todo e qualquer tipo de arma. Queria ser a mais forte, a mais sagaz, de corpo e mente. Mas precisava de um mestre que a qualificasse para tal. Desejava lutar em prol dos mais fracos. Desejava fazer Justiça, a verdadeira Justiça não corrompida, não vilanizada. E via no chefe Sibarand o meio de alcançar tal objetivo.

Ela ficou em silêncio, por alguns minutos, esperando. O chefe do povoado fechara os olhos e começou a mover os lábios, sussurrando algo. Manfreya se aproximou e pôde distinguir as palavras, ditas de modo baixo, mas nítidas. 

— Mostre-me o medalhão, Manfreya. Quero rever meu amigo Valleys antes de morrer.

Ela tirou o medalhão do bolso de sua camisa, sob o manto que a mantinha aquecida naquele Inverno, e colocou-o sobre o peito de Sibarand. Ele fechou os olhos mais-que-cansados e os abriu, com um novo brilho, ao ver a moeda. Arrastou a mão direita das cobertas e seus dedos enclavinharam-se com força em volta do medalhão. Levantou o braço enfraquecido e viu o que mais desejava, naquele momento, o rosto de seu amigo querido.

Fitou a figura gravada na moeda por mais de um minuto. Virou a cabeça para Manfreya e abanou a cabeça.

— Fique aqui, se quiser aprender a matar. Volte então para Islandir e mostre do que é capaz. Corra o mundo em busca da Justiça, se assim lhe apetece. Busque os valores, não as vitórias. Impeça o sofrimento e a matança indiscriminada. E acabe com os ladrões que enxameiam perto de minha aldeia. Liberte Vanhorn dessa praga de uma vez por todas — ele fechou os olhos, a jovem percebendo ser o momento de sair.

Manfreya deixou seu medalhão com Sibarand. Pensou que seria um alívio para as dores que estivesse sentindo, na cama. Gand a esperava, na ampla sala da frente da casa. Perguntou:

— E?

— Ele me deu permissão para ficar e aprender a lutar, a matar, a guerrear. Deu-me ordens de destruir os saqueadores que enxameiam as terras perto de Vanhorn. Deu-me permissão para sair e correr o mundo, ao fim do treinamento.

Gand sorriu e disse:

— Mostre-me do que é capaz, no centro de treinamentos. Se me derrubar, uma única vez, será capaz de derrotar a maioria dos soldados e mercenários que habitam este continente, em luta corpo-a-corpo.

O primeiro golpe a atingiu no estômago, dado com o lado do pé de Gand. Em seguida, uma cutilada com força a teria quase matado, se a atingisse na nuca. Mas Manfreya estava alerta e seus reflexos eram rápidos. Aparou o golpe.

Ela acertou um soco entre as pernas de Gand, que pareceu não sentir nada. O homem alto jogou suas pernas contra o pescoço da jovem, que se desviou e levantou a perna direita, atingindo-o na nuca. Ele caiu de costas, arfando.

— Você luta bem — disse o guarda, passando a mão na nuca. — Sabe de uma coisa? Será bom treinar com cada um dos outros soldados, com tudo o que tivermos em alcance. Você sabe, arcos, arbaletas, catapultas, bastões, lanças, facas. Adagas. Espadas, escudos, machados, correntes, com tudo o que tivermos à mão, em todas as situações imaginárias. Com as mãos contra adversários armados até os dentes. Daqui a um ano estará em boa forma. Ora, está doendo, minha nuca! Deu tudo, nesse pontapé, Manfreya?

— Não, Gand, não usei nem a metade de minha força total.

Ele levantou o braço e pediu para que ela o ajudasse a se levantar. Ela o puxou, cento e dez quilos de músculo em um metro e noventa e nove centímetros de altura, sem esforço.

--//--

Quatorze horas diárias de treinos com facas, a especialidade dela. Era o que fizeram por três meses. Usaram facas de corte reto, serrilhadas, de trinchar peixes, punhais, atiraram adagas a distância até se cansarem. Manfreya gostou da sensação de estar entre homens rústicos, mas que a deixavam segura de que era uma lutadora de primeiro escalão. Todos eram fortes, todos queriam competir com a jovem. Ela se tornara famosa, desde que começara o treinamento e desarmara um Capitão com uma faca serrilhada. Edvard era uma das principais autoridades no exército de Sibarand, no que se referia a combates corpo-a-corpo. 

Manfreya lutou com as mãos nuas contra Gand, primeiro, e foi derrubada. Uma rasteira e uma cotovelada em seu ventre a jogou contra o chão. Ela saltou, afastando-se do segurança de Sibarand, que era o Comandante do Exército, ao mesmo tempo. Com Edvard, este era um tanto bruto. Deixou-a tonta, com um soco contra seu nariz. Sangue começou a correr, mas Manfreya disse para a luta continuar. Trocou golpes fracos com seu oponente, até sentir os reflexos do capitão. Então, encontrou uma brecha nas defesas de seu adversário e desferiu um pontapé com todas as forças entre as pernas do outro, que ficou paralisado. E acabou a luta com um rodopio de seu corpo esbelto e ágil, acertando o maxilar de Edvard com o calcanhar. Ele tombou, caindo de lado, desfalecido.

— Você usou toda a sua força, Manfreya? — disse Gand, examinando o corpo estirado no chão. 

— Acho que ele não será capaz de andar por algum tempo, Comandante. Eu não o acertei com força na cabeça. Ele estaria morto, então.

Os dias se passaram sem que ninguém, a não ser Gand, a pusesse de costas no solo. Mas a mulher começava a sentir-se forte. Com as espadas, tornou-se perita. Poderia matar qualquer um, menos o Capitão Edvard e o Comandante. Os soldados a respeitavam, como se ela fosse um soldado homem, e não uma dona-de-casa, ou uma mulher fútil e sem valor.

Os treinos com todos os tipos de armas foram executados. Defendida com uma faca de cozinha, usada de propósito para tornar as lutas mais difíceis, Manfreya desarmou até o Capitão Edvard e o golpeou no estômago com o lado da faca. Ponto para a jovem. 

Mas Gand observara a luta com atenção redobrada. E, quando a luta entre a mulher e o Capitão se encerrou, a penúltima entre todos os membros do Exército, Gand disse, em voz alta:

— Se quer derrotar qualquer um, deve triplicar seus esforços, Manfreya. Deve fazer seu corpo e sua arma se tornarem uma única coisa, um único instrumento mortal — o Comandante sacou sua espada e foi até o mostruário das armas, de onde retirou um machado. 

— Você está cansada e não me venceu em qualquer luta, até hoje. Apenas me atingiu na nuca, no começo dos combates que travamos. Vamos ver como você se sai contra essas duas belezinhas — Gand girou no ar seu machado e desferiu, ao mesmo tempo, golpes fortes com sua espada.

Manfreya concentrou-se. Desviava-se das estocadas e golpes dados ao mesmo tempo com as duas armas de Gand, rolando no chão e pondo-se fora do alcance dele. Seus reflexos revelaram-se fora do comum, ela atingindo mais e mais o Comandante, com sua faca de cozinha nos ombros, braços e pernas. Transcorrida meia hora de exercícios, nem ela, nem Gand se encontravam cansados. O segurança real sorriu. 

— Eu já estaria morto, caso sua faca fosse afiada e você me acertasse para valer no estômago, pescoço, nos olhos, ou entre as pernas. Concedo a você esta vitória — ele andou em direção de Manfreya, largou o machado e a espada e a abraçou. — Continuando com essa rotina de lutas, você me ultrapassará em todos os treinos em menos de um mês.

Ela sorriu de volta, feliz. Passou o braço em volta das costas do homem alto e riu.

--//--

Os bandidos que tinham se instalado a alguns quilômetros de Vanhorn, na altura em que Manfreya vira uma luta mortal ser travada em seu acampamento, na vinda até a aldeia, haviam reunido centenas de meliantes, em seis meses. Precisavam de outros, para o que o chefe, Ishmal, havia concebido.

— Vanhorn possui armas, ouro, prata e muita comida — disse ele a dez outros saqueadores, sentados em um círculo ao redor de uma fogueira. Eram seus melhores lutadores — Surpreendo-me com minha astúcia. Temos setecentos homens e mulheres, na floresta, reunidos sob minhas ordens, prontos para invadir o povoado. Não vamos poupar ninguém, quero sair vitorioso!

— E depois, Ishmal? Como vai se haver com Lord Valleys? Ele é amigo de Sibarand.

— Nos armaremos e rumaremos para Islandir, com milhares de combatentes!

Quem fizera a pergunta ao chefe dos assaltantes era Liam. Conhecia-se sua inteligência, ele era descendente direto de vikings e um perito em combates e batalhas. 

— Valleys é forte. Nos liquidaria, assim como quem mata uma serpente moribunda — Ishmal deu a volta pelo lado exterior do círculo formado pelos homens sentados e pôs a mão no ombro de Liam. Agachou-se e falou, baixinho:

— Está livre para ir, amigo. Nada te impede de ficar — o descendente de vikings sentiu a ponta da faca pressionar com força suas costelas. Disse:

— Está certo, Ishmal, não quis desrespeitá-lo ou ir contra sua vontade — a lâmina foi afastada de seu corpo.

— Atacaremos amanhã, à noite. Quando a Lua estiver escondida entre nuvens. De acordo? — Diante do silêncio de seus comandados, o chefe sorriu e deu por encerrada a reunião: — Está certo, rapazes. Preparem-se.

Quando Ishmal se retirou, todos começaram a falar ao mesmo tempo. Uma batalha, para variar! Teriam oportunidade de gastar suas energias e demonstrar que eram verdadeiros lutadores!

De todos, Liam foi o único a permanecer em silêncio. O que poderiam fazer mil salteadores e corta-gargantas contra uma aldeia inteira de lutadores de elite, o Exército de um nobre poderoso, como Sibarand? E as vezes em que os saqueadores haviam sido mortos, nas incursões que Sibarand fazia nos arredores dos muros do povoado? Isso era de se levar em consideração, pensava Liam.

A noite ia ser fria, hoje. E teriam névoa pela manhã, e um dia e uma noite nublados, como durante todo o mês de Janeiro. Ele esperou todos irem dormir e pensou.

--//--

Liam desaparecera, ao que os lutadores de Ishmal puderam constatar, no decorrer de todo o dia seguinte. Isso fez o chefe dos bandidos concluir que ele poderia ter desertado, mas seria possível até mesmo que ele tivesse se bandeado para o lado dos aldeões.

— Se encontrarem Liam, matem-no. É hora de tomarmos a aldeia — disse para seus homens de confiança, quando a Lua foi obscurecida pelas nuvens. Avançaram em silêncio, por dentro da floresta, escolhendo caminhos fáceis e trilhas em que podiam correr sem pressa. Silêncio era vital e, quando chegaram à distância de quinhentos metros dos muros de Vanhorn, Ishmal murmurou para seu melhor lutador:

— Passe para os outros a informação de que temos de parar. Esperem minhas ordens.

A mensagem foi comunicada ao resto do grande bando. Todos sentaram-se nas trilhas e esperaram. O chefe falou para Persegs, seu combatente mais valoroso e de confiança absoluta, que iria rastejar até o portão da muralha e ver o que poderia ser feito, pois ele se encontrava aberto.

O chefe dos atacantes sabia que a entrada estava sendo vigiada por homens de Sibarand. De bruços, a vinte metros dos muros, conseguiu uma posição estratégica, que lhe possibilitava ver o interior da aldeia, sem ser visto. Havia uma avenida, margeada por casas, e Ishmal viu que dela partiam ruas para ambos os lados. Uma vez, enviara um homem para espionar e descobrir onde Sibarand vivia. Ele lhe contara com exatidão como a aldeia fora erguida, com as ruas entrecruzando-se e casas construídas a intervalos de dez metros uma das outras, entre as ruas.

Era isso o que Ishmal via no momento, e estava decidido a fazer o que deveria ter feito, anos atrás: juntar um grupo de assalto e tomar o povoado. Seria seu quartel-general.

O chefe dos assassinos e ladrões rastejou, afastando-se da entrada e, chegando onde Persegs estava, deu ordem de atacar. Mas atacar em silêncio, com cuidado, todos esgueirando-se entre as árvores e arbustos.

Quando o bando se posicionou nos limites da floresta, atacaram. Correram, gritando ao transpor a entrada do povoado, e foram rechaçados. Flechas disparadas de torreões nos telhados das casas perfuraram seus corpos sem armadura ou proteção de qualquer tipo. Ishmal protegeu-se, entre a muralha e uma casa. Usava uma arbaleta, trazia uma espada curva, um punhal e uma faca de assalto. Nem todos foram mortos, devido às flechas. Espalharam-se, como o fizera Ishmal, por entre as casas e ruas.

Manfreya veio com um arco e três dezenas de flechas guardadas em uma aljava que carregava às costas, para cima dos primeiros que passaram pela chuva de flechas. Disparou seu arco o mais rápido e preciso que conseguiu. Quando esteve sem flechas, havia usado uma para cada bandido que se aventurara pela aldeia.

Sacou sua espada e tirou uma machadinha da cintura. A seu lado, juntaram-se o Capitão Edvard e o Comandante Gand. Uma fileira de soldados de elite avançou pelas ruas a partir dos quartéis perto do centro de treinamento e a luta de verdade começou. Uma tropa de quinhentos soldados armados até os dentes para proteger suas famílias de setecentos bandidos da pior espécie, que estavam dispostos a morrer, em combate.

Manfreya viu quando cinco inimigos invadiram uma casa, enfrentando dois soldados e uma família. Uma família de combatentes, sim, e que, armada, enfrentou os bandidos com coragem. Um rapaz de vinte anos, usando uma lança, empalou um dos oponentes, recuando para ter espaço para lutar. Os soldados foram mortos, trespassados e cortados pelos bandidos por espadas. Manfreya viu que a situação fugia ao controle, mas correu, saltando contra as costas do último saqueador e o cortando de lado a lado na altura do pescoço. Usando a machadinha, despachou três dos atacantes e o último viu que teria pouca chance de luta. Arriscou-se com o rapaz. Usando um machado, arremeteu para a sala de estar, destruindo os móveis e encurralando o jovem. Ele dava estocadas com a lança, mas um golpe do machado desarmou-o e outro o atingiu no pescoço. Ao mesmo tempo em que o rapaz caía, Manfreya cravou a machadinha e a espada nas costas do outro, que caiu de joelhos e de bruços.

Havia pouco a fazer. O jovem estava morto e Manfreya saiu da casa entristecida. Alcançou a rua e foi cercada por sete bandidos. Ela arreganhou os dentes e desferiu uma machadada no que estava à sua esquerda, com um golpe lateral. O crânio foi cortado na altura da testa e o homem foi lançado contra a cerca da casa, quebrando duas tábuas e caindo no chão. Dois meliantes atiraram flechas contra Manfreya com arbaletas. Ela estava armada com um colete resistente e sentiu pouco o impacto das flechas. Atirou a machadinha contra um dos adversários, sua arma penetrando fundo em seu estômago. Saltou. Com a espada, cortou os dois braços, em sucessão, do outro que a flechara. Os demais recuaram. Um deles conseguiu apanhar a machadinha presa no ventre do bandido morto por Manfreya e a atirou contra ela. 

Ela teve o ombro cortado de raspão pelo gume da arma, que atingiu um nervo importante. Perdeu, assim, a sensibilidade do braço armado com a espada, que pendia frouxo. Apanhou a arma com a outra mão e continuou a matar. Desfez o inimigo que a acertara, enterrando a lâmina em sua perna e fazendo uma série de cortes em seus braços. Enfiou a ponta da espada em sua boca, atravessando sua garganta até a espada sair pela nuca. 

Os três homens restantes atacaram ao mesmo tempo. Manfreya esgrimiu contra um, desviou-se dos outros dois, que tentaram trespassá-la e, como um raio, posicionou-se por trás deles. Matou-os, enterrando a arma em suas costas.

Ela estava cansada de tanta matança. Mas viu Edvard e um pelotão de dez homens lutar com espadas e machados contra um grupo de vinte salteadores. A jovem juntou-se ao grupo do Capitão e, desferindo golpes com o braço bom, foi matando um a um os assaltantes. Ela era melhor que qualquer outro espadachim, com ambos os braços, mas sabia que só poderia usar um deles. E era provável que teria de se acostumar a usar um, para o resto da vida.

A luta continuou, bandos de assassinos aqui e ali lutando em número maior contra forças bem armadas de Sibarand. Manfreya perdeu a conta dos que matou. Ao fim do dia, as ruas enxameavam de moscas, atraídas pelo sangue derramado.

Foi numa dessas lutas que Gand, acompanhado por dois soldados, encontrou Liam, lutando em desespero contra Ishmal e Persegs. O desertor havia alertado as forças de Sibarand, na noite passada. O chefe dos bandidos atravessara seu bíceps esquerdo com a espada, enquanto Persegs o cortara na altura das costelas. Gand rangeu os dentes e agarrou Persegs pelas costas, sufocando-o e quebrando seu pescoço. Ishmal deu um golpe final com a espada contra Liam, aparado por ele, e, a seguir, os soldados de Gand o liquidaram com duas flechadas na cabeça.

Gand arrastou o corpo de Ishmal pelas ruas, correndo, e, gritando para os grupos que lutavam que, se os atacantes quisessem ter o mesmo destino de seu chefe, poderiam continuar a lutar. Na avenida principal, bandos invasores haviam-na tomado, em combates corpo-a-corpo com aldeões e soldados. O Comandante do Exército entrou na avenida, vindo de uma rua perpendicular, e arremessou o corpo inerte de Ishmal sobre um grupo de bandidos, que se preparava para entrar em uma casa e liquidar uma família de um dos soldados. 

Eles viram o corpo sem vida e entreolharam-se. A seguir, avançaram contra Gand, fúria assassina estampada em seus rostos de feras humanas. O Comandante fez sinal para os dois soldados que o acompanhavam. Seus arcos vibraram várias vezes e seis malfeitores caíram.

— Agora, meus senhores, ajudem outros a vencer. Vou sozinho! — exclamou Gand. Ele desferiu golpes com sua espada a torto e a direito, aniquilando o grupo que enfrentara ele e seus dois soldados. Lutou sem descanso por cinco horas, mandando para o Inferno seus inimigos. 

Ao fim desse tempo, a avenida estava coberta por corpos de soldados e ladrões. Manfreya surgiu de uma rua e viu Gand. Gritou:

— A batalha terminou! Vencemos! — O Comandante caminhou apressado em sua direção. Disse:

— Vou até a casa de Sibarand. Quero ver se está bem.

— Certo! Eu irei organizar uma equipe para enterrar os corpos. As moscas vão tomar conta da aldeia — Gand sorriu. Sabia que ela cumpriria o que falara.

Sibarand permanecera dormindo durante todo o ataque. Sua casa, trancada, fora vigiada por soldados nos torreões dos telhados, mas eles sabiam que nem Ishmal, nem qualquer um dos vagabundos, conheciam o lugar em que Sibarand vivia. E nem suspeitavam, por um momento que fosse, que ele se encontrava doente.

--//--

— Retornarei a Islandir, Gand.

— Viverá com conforto, ao lado de seu protetor, Manfreya.

Ela refletiu, à entrada do povoado, e falou:

— Substitua os soldados mortos. Eles eram os melhores.

— A elite do Norte, os melhores, sim. Mas será difícil encontrar outros como você.

Ela abriu um sorriso largo e abraçou o amigo querido. Recusara um cavalo, para voltar a Islandir. Sabia que os aldeões sentiriam falta de uma montaria. Separou-se de Gand e voltou-se para o exterior da aldeia. No lado de fora, virou a cabeça e acenou, o mesmo fazendo o segurança real.

— Vai voltar?

— Se não morrer antes, sim! 

De fato, seu braço paralisado pelo golpe com a machadinha se encontrava seguro por uma tipoia. Era impossível que o usasse para lutar e seria demorada a recuperação. Porém, seria um repouso merecido, o que precisava.

Ela entrou na floresta, do lado direito da estrada traiçoeira, e sumiu na vegetação entre os eucaliptos. Gand pensou em como fora útil treiná-la. 

Sim, tornara-se a melhor das melhores, entre a elite dos soldados que se supunha serem os de mais alto nível conhecido, em todo o Norte. 

O Comandante ficou olhando a figura da mulher diminuir à distância e coçou o cabelo. Voltando-se, mandou que fechassem o portão e caminhou até a casa-fortaleza de Sibarand.


*Sobre Roberto Fiori:

Escritor de Literatura Fantástica. Natural de São Paulo, reside atualmente em Vargem Grande Paulista, no Estado de São Paulo. Graduou-se na FATEC – SP e trabalhou por anos como free-lancer em Informática. Estudou pintura a óleo. Hoje, dedica-se somente à literatura, tendo como hobby sua guitarra elétrica. Estudou literatura com o escritor, poeta, cineasta e pintor André Carneiro, na Oficina da Palavra, em São Paulo. Mas Roberto não é somente aficionado por Ficção Científica, Fantasia e Horror. Admira toda forma de arte, arte que, segundo o escritor, quando realizada com bom gosto e técnica apurada, torna-se uma manifestação do espírito elevada e extremamente valiosa.

Sobre o livro Cedrik - Espada & Sangue:

“Em uma época perdida no Tempo,

onde a Escuridão ameaçava todos,

surgiu um líder.

Destruição, morte, tudo conspirava contra.

Mas era um Homem de extremos, audacioso.

Era um Homem sem medo”. 

Dos Relatos e das Crônicas da Velha Terra.  


Em sua obra “Cedrik – Espada & Sangue”, o escritor Roberto Fiori coloca sua imaginação e força de vontade à prova, para escrever seu primeiro romance. Um livro de Fantasia Heroica, no gênero Espada & Feitiçaria, em que, em uma realidade paralela, a Terra da Idade do Ferro torna-se campo de lutas, bravura, magia e paixão.

Cedrik é um Guerreiro capaz de levantar 75 kg em cada braço e, ao mesmo tempo, de escalar uma parede vertical de mais de 20 metros de altura facilmente. Em meio a ameaças poderosas, parte para o Leste, em missão de vingança. Acompanham-no a bela princesa Vivian, vinda do Extremo Leste, e o fiel amigo Sandial, o Ancião, grande arqueiro e amigo a toda prova.

Os amigos enfrentam demônios, monstros, piratas e bandidos sanguinários. Usam de magia para se tornarem fisicamente invencíveis. Combatem demônios vindos do Inferno, no Grande Mar. Vivian é guardiã e protetora do Necrofilium, livro que contém maldições, feitiços e encantamentos em suas páginas.

A intenção do autor é continuar por anos as aventuras de Cedrik, escrevendo sobre todo um Universo Fantástico, em que bárbaros e guerreiros travam lutas ferozes e feitiçaria não é uma questão somente de “se acreditar” em seu poder, mas de realmente utilizá-lo para a batalha, como uma arma.

A obra pode ser adquirida com o autor, pelo e-mail spbras2000@gmail.com,  no site da Editora Livros Ilimitados, em livrarias virtuais e no formato de e-book, na Amazon. Os links para acessar o livro são:

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4.     Site da Editora Livros Ilimitados:

https://www.livrosilimitados.com/product-page/cedrik-espada-e-sangue

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