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sexta-feira, 9 de abril de 2021

Livro retrata a força do povo brasileiro frente às adversidades

 


Em tempos de isolamento social e solidão, romance histórico aquece o coração do leitor ao tratar de estreitamento familiar e luta pelos sonhos

A escritora maranhense Lenita Estrela de Sá está lançando seu mais novo livro pela Editora Penalux. Trata-se do romance “Os anéis de Maria”, cuja trama é ambientada em São Luís do Maranhão, entre as décadas de 1940 e 1980, tendo como pano de fundo a realidade do proletariado nesse período. 

A obra retrata a história do casal Maria e Inácio e os problemas que enfrentam por conta de sua situação social e financeira, expondo principalmente as circunstâncias precárias que o mercado de trabalho da época oferecia para mulheres. 

Outro aspecto muito importante que pode ser observado na obra é o vínculo familiar fortalecido ao buscar atingir os objetivos, especialmente entre Maria e os filhos.

“É uma história que basicamente fala de superação”, diz Lenita à nossa equipe. “O tema central consiste na força do amor entre uma mulher humilde e seus filhos, que buscam superar por meio da educação a barreira das classes sociais”.

O romance parte de um episódio real e daí segue pelos caminhos da imaginação da autora. “O leitor certamente se emocionará ao conhecer essa história”, continua a escritora. “É uma narrativa representativa para nós, brasileiros, que lutamos contra as adversidades em busca de nossos objetivos e uma melhor condição para nossa família”. 

Como dito, a obra retrata a história do casal Maria e Inácio, que batalha para melhorar de vida, tentando conciliar trabalho exaustivo, estudos, ambições e, é claro, o próprio casamento. 

“Tudo se passa em 1940”, relata Lenita. “A história se desenvolve até os anos 80, passando por um Brasil explorador e machista, ao qual os personagens tentam resistir com força e perseverança”, finaliza. 

No prefácio, o editor e revisor Daniel Zanella destaca que “Os Anéis de Maria” apresenta o panorama de um Brasil proletário, imerso nas contradições das forças de trabalho e das divisões de classe. “Ao acompanhar a trajetória sofrida de Maria, filha não assumida de um juiz, e de seu marido Inácio, abnegado e envolvido com montagens teatrais, Lenita Estrela de Sá nos oferece um retrato das dificuldades de ser pobre e, sobretudo, de ser mulher, no precarizado mercado de trabalho da época (ou de sempre)”, escreve. 

A escritora Maria Valéria Rezende, que assina o texto de orelha, complementa da seguinte forma: “Nem sei como agradecer [à autora] por ter me trazido, de modo tão vivo, o mundo em que nasci e vivi as primeiras décadas de minha vida, decorridas à margem de um porto, minhas lembranças dos tempos da II Grande Guerra e do Pós-guerra, dos anos “dourados” de esperanças e lutas, de nosso povo escalando caminhos íngremes, mas superáveis pelo amor e pela coragem de quem só conta com sua própria força, sua capacidade de trabalho e criatividade e a solidariedade entre iguais! Sua protagonista Maria e suas companheiras fizeram-me reencontrar vivamente minha mãe, minhas avós, minhas tias e tantas conhecidas que, com enorme resiliência e sensatez, com conhecimentos e práticas quase esquecidas hoje em dia, à custa de muito sacrifício, foram capazes de fazer viver grandes famílias, cheias também de artistas sonhadores”.

Trecho:

Que hora seria? Tinha serviço pesado de manhã. Convocara os dois aprendizes que o ajudavam para chegarem cedo à marcenaria, não tivessem os folgados gastado horas ouvindo sambas-canção na rádio Educadora! Mas, ao se ver na escuridão, sem demora dispensou essa suposição; cumpriria sim o compromisso de armar a estante do Dr. Hermínio, que o procurara por indicação de outro cliente, um conceituado escriturário do Banco do Brasil cujo nome lhe fugia, agoniado como estava. Felizmente, ao aumento da prole correspondia a expansão da clientela, uma vez que, a despeito da alma de artista, não negligenciava as obrigações impostas pela luta diária com a manutenção da casa. Logo o silêncio se restabeleceu. Guilhermina talvez estivesse novamente de olhos arregalados à espreita da proteção do pai, que, após nova inspiração profunda, tateou o ambiente às escuras até tocar o puxador metálico da gaveta da petisqueira, onde encontrou uma caixa de fósforos. Exausto, sentou-se na ponta do sofá de palhinha, para tomar fôlego. Em seguida, maquinalmente, forçou o olhar na direção do relógio de parede, sim, ainda faltava um bocado para a meia-noite! A cidade em silêncio. Ele não conseguiria dormir – e alguém conseguia com aquele clima de medo?

Sobre a autora:

Lenita Estrela de Sá é graduada em Letras e Direito. Tem quinze livros publicados, Exprime-se em diversos gêneros literários: poesia, conto, literatura infantil, teatro, roteiro de cinema e televisão. Recebeu, entre outros, o Prêmio Literário Cidade de São Luís, em 2010, com o livro “Pincelada de Dalí e outros poemas”. Foi incluída por Nelly Novaes Coêlho no “Dicionário de Escritoras Brasileiras” (Escrituras, 2002). Participa das revistas literárias “O Casulo – jornal de poesia contemporânea” (Ed. Patuá, 2016), “Germina – revista de Literatura & Arte”, “InComunidade” (Portugal) e “Mallarmagens”. Participa das antologias “Mulherio das Letras 2017” (conto e poesia), “Do Desejo – as literaturas que desejamos” (Ed. Patuá, FLIP 2018), “A mulher na literatura latino-americana” (EDUFPI/Avant Garde Edições, 2018) e “Antologia do Sarau da Paulista” (2019). Foi incluída por Rubens Jardim na série “As Mulheres Poetas na Literatura Brasileira” (2016), publicada no blog do autor e no e-book de mesmo título, v.2 (2018). Os “Anéis de Maria” é seu primeiro romance.

Gênero: Romance | Formato:14x21 | Ano: 2020 | Páginas: 202 | Valor: R$40,00

https://www.editorapenalux.com.br/loja/os-aneis-de-maria

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quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

Os cantos e encantos de Anna, resenha de "Ella - Repertório do amor", por Luiza Cantanhêde


OS CANTOS E ENCANTOS DE ANNA

Feliz e honrada com o convite para dissertar sobre este “repertório amoroso”, começo com uma citação do dramaturgo francês Henri Lenormand: “Cada um tira prazer do instrumento que manejar melhor”. E, auscultando esta obra de Anna, sinto a veracidade desse excerto. A tessitura de Anna é o amor. Amor que se derrama pelo corpo, mente e alma de todas as mulheres que ella (re)visita e encarna em seus “corpus poéticos”. E qual amor e qual mulher e qual ser não traz em suas trilhas o “repertório da perda” do amor infinito e da existência? Sobre “perdas”, a poeta diz: (...) Até quando ganhamos/ perdemos, pois para ganhar/ há de se perder. Sim, a poesia nos permite abraçar nossas perdas e ganhos. Na segunda seção, intitulada Repertório do amor infinito, há uma entrega total da poeta para este amor que tanto buscamos: O amor que acolhe, o amor que abraça, o amor que beija… Em Repertório da existência nos deparamos com as angústias, o vazio, a solidão, tão inerentes aos nossos eus: “É noite, o quarto está escuro, como escura estou” (Do poema Realidade Bukowskiana). Mas, a exemplo de Adélia Prado, põe o amor no pilão, “com cinza e grão de roxo” macera, faz dele cataplasma e põe sobre as feridas. “Eu não sou fria, nem dura, sou uma fogueira implosiva, sou inflamável, sou sonho e amor” (Do poema Sou…) Saudando a grande poeta Anna e encantada com este repertório D'ella, me despeço com Herberto Helder: “Por vezes tudo se ilumina, por vezes canta e sangra”. Agora entrem e também se encantem!

Luiza Cantanhêde


BIOGRAFIA RESUMIDA DE ANNA LIZ

Anna Elizandra Ribeiro ou simplesmente Anna Liz é de Santa Luzia, Maranhão. Poetisa, cronista, escritora e professora. Tem participação em mais de 50 antologias lançadas no Brasil e em diversos outros países, além de já ter publicado sete livros solo, um dueto poético com o poeta Gil Betto Barros, “Quatro mãos: todas com poesia”. Ao longo de sua trajetória recebeu alguns prêmios de Literatura de entidades relevantes no campo literário no Brasil e em outros países. Faz parte de algumas Academias e Núcleos Acadêmicos de Letras e Artes no Brasil, Chile, Argentina e Portugal. Atualmente, é presidente/coordenadora da Associação de Jornalistas e Escritoras Brasileiras, coordenadoria Maranhão/AJEB-MA.

Links: www.anaelizandra.prosaeverso.net
www.penalux.com.br
instagram: @anna_elizandra; @ella.cronicaepoesia

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terça-feira, 19 de janeiro de 2021

Anna Liz e seus livros


Anna Liz é de Santa Luzia, Maranhão. Poeta, cronista e professora. Tem participação em mais de 50 antologias lançadas no Brasil e em diversos outros países, além de já ter publicado seis livros solo, um dueto poético com o poeta Gil Betto Barros. Ao longo de sua trajetória recebeu alguns prêmios de Literatura de entidades relevantes no campo literário no Brasil e em outros países. Faz parte de algumas Academias e Núcleos Acadêmicos de Letras e Artes no Brasil, Chile, Argentina e Portugal. Atualmente, é presidente/coordenadora da Associação de Jornalistas e Escritoras Brasileiras, coordenadoria Maranhão/AJEB-MA.

ENTREVISTA:

Conexão Literatura: Poderia contar para os nossos leitores como foi o seu início no meio literário?

Anna Liz: Comecei a gostar de literatura desde a infância, por meio dos cordéis que eu lia para minha avó a pedido dela. Sempre fui muito recolhida (tímida), então a leitura e a escrita eram (são) minhas companheiras. Aos 14 anos de idade, escrevi o meu primeiro poema “Desalento”, que está publicado no meu primeiro livro.  Em 2007, comecei a reunir os poemas escritos, procurei uma editora e lancei-me no mundo da literatura, como quem produz também. De lá para cá publiquei 06 livros solo (Conversa de Alguém que sente – Scortecci, 2008; Disperso em verso – Scortecci, 2015; Retalhos de Liz - Penalux, 2018; Sob(re) a pena escondida, Penalux, 2018; Ella – repertório amoroso, Penalux, 2020; Ella – repertório do cotidiano, Lucel, 2020; e o dueto Quatro mãos: todas com poesia, com Gil Betto Barros – Scortecci, 2010. Participei (ainda participo) de várias antologias publicadas no Brasil e em vários outros países.

Conexão Literatura: Você é autora dos livros "Ella - Repertório Amoroso" e "Ella - Cotidiano". Poderia comentar?

Anna Liz: Ella – repertório amoroso é um livro de poesia sobre e para a mulher e dividido em três repertórios: 1. Repertório da perda – aborda sobre a relação da mulher com as perdas “amorosas” e outras, como “ em um momento de fragilidade/nos damos conta das perdas/ mas por toda vida perdemos...(poema p.12); 2.Repertório do amor – sobre a mulher e suas relações com outros (as), “teu corpo é todo/meu suspiro/escutar a tua voz/ver teu tímido sorriso/queima-me veia/a veia e toda/minha carne/ um espesso brasido...(poema da p. 45; 3.Repertório da existência – sobre a relação da mulher consigo mesma, com o tempo e com a escrita, “Há um profundo silêncio/dentro de mim/e é neste silêncio/que encontro a essência/ da palavra que não digo/e no silêncio derramo/ toda minhalma/e não me esvazio:/ - a alma é infinita...(poema p.58), .
Ella – repertório do cotidiano – é um livro de minicrônicas, em que o universo feminino está intrinsecamente ligado às dores e superações. Parte 1 – Ella por ela – aborda sobre o fazer literário, o dia a dia da mulher que escreve, trabalha, cuida da casa, cuida dos outros, cuida de si mesma e supera as dores e desilusões; a primeira minicrônica resume: “Faz de conta que é poeta para não sucumbir às desilusões”; Parte 2 – Ella e o cotidiano amoroso – as traições, as desilusões amorosas, “A luz da lua banhava a rua e a sua face, era mais uma noite em que esperava o marido, agora sem expectativas...”  . Parte 3 – Ella e as viagens – sobre as viagens reais e imaginárias – “ Voar é uma das metáforas mais antigas para a liberdade. Mas, hoje, peço permissão para dizer que voar é ir ao encontro daqueles que mais amamos...”
Os dois livros são ilustrados por mim, com line draw – traços femininos, retratando (tentando retratar) cada sentimento. 


Conexão Literatura: Como foram as suas pesquisas e quanto tempo levou para concluir seus livros?

Anna Liz: Eu sempre leio bastante, falar sobre a mulher e seu universo sempre foi muito necessário, lendo outras escritoras, como Chimamanda Adichie, Conceição Evaristo, Lindevania Martins, Luiza Cantanhêde, Sharlene Serra, Heloisa Sousa e tantas outras, senti a necessidade e o desejo também de escrever sobre o protagonismo feminino. O tempo para escrever um livro é muito variável. Eu já escrevi um livro em um mês, como foi o caso de “Ella – repertório amoroso” e já passei cinco anos para organizar um livro, como foi o caso de “Disperso em verso”. Depende muito da dedicação e da inspiração. Há momentos da vida em que é mais necessário escrever para não sufocar. Nos momentos angustiantes, costumo escrever mais.

Conexão Literatura: Poderia destacar um trecho que você acha especial em um dos seus livros?  

Anna Liz: Cada livro tem um poema que marca muito. No livro Retalhos de Liz, há o poema “Escrever e penar”, as duas últimas estrofes traduzem um pouco do meu fazer: “ Quando peno, escrevo/e a pena me alivia/a pena de viver/no escrever/ Quando escrevo, peno/ e a pena comigo pena/na lida de fazer/da dor um poema.

Conexão Literatura: Você também participou de várias antologias. Poderia comentar?

Anna Liz: A primeira antologia internacional que participei foi “Do Brasil para Frankfurt” da Literarte, participo todos os anos das antologias da Rede Sem Fronteiras e de diversos outras coletâneas. Em 2020, organizei a antologia “Toda forma de ser mulher”, escrita por 23 escritoras maranhenses. Este ano, estarei em várias antologias, principalmente, organizadas por mulheres – Mulherio das Letras, Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil, etc.  

Conexão Literatura: Como o leitor interessado deverá proceder para adquirir os seus livros e saber um pouco mais sobre você e o seu trabalho literário?

Anna Liz: Os meus livros estão à venda no meu site: www.anaelizandra.prosaeverso.net
Nos sites das editoras: www.penalux.com.br/ www.scortecci.com.br/
Na livraria AMEI em São Luis. Encontram-se na Estante Virtual.

Conexão Literatura: Existem novos projetos em pauta?

Anna Liz: Sim. Organização de antologias, publicação de outro livro solo em 2021, participação em Concursos Literários e outras atividades literárias, organização de Saraus e um evento em março em São Luís- MA, em homenagem ao dia da Mulher Maranhense (11 de março – aniversário de Maria Firmina dos Reis)

Perguntas rápidas:

Um livro: Ilusões
Um (a) autor (a):  Richard Bach
Um ator ou atriz: Fernanda Montenegro
Um filme:  Sociedade dos poetas mortos/ O carteiro e o poeta
Um dia especial: Todos os dias são especiais. Os melhores são aqueles em que estou com meu filho e meu esposo.

Conexão Literatura: Deseja encerrar com mais algum comentário?

Anna Liz: Finalizo com um poema premiado do Concurso Literário da AMEI (Associação Maranhense de Escritores Independentes)

CONTRADITÓRIOS
   (Anna Liz)

Não sei se é na poesia
que se vive ou
que se morre;
não sei se a poesia
me salva ou
me condena
me esgota ou
me transborda
não sei se na poesia
me edifico ou
desmorono
não sei se ela
me exorciza ou
me possui
Não sei se ela
é mistério
é sobrevivência
é morte
é ressurreição
...
Viver é divino
Escrever é mais divino ainda

Instagram: @anna_elizandra; @ella.cronicaepoesia
Facebook: anna liz ribeiro
Site: www.anaelizandra.prosaeverso.net
Whatsapp: (98) 98109-3893  

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quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

Hibridizando polaridades no romance Tocaia do Norte, de Sandra Godinho


Por Alexandra Vieira de Almeida 

O livro Tocaia do Norte (Penalux, 2020), de Sandra Godinho, foi vencedor do Prêmio Manaus de Literatura, como melhor romance do ano de 2020, na categoria Nacional. A obra é dividida em três partes: O Seminarista, O Relato e O Caminho, com um prólogo. Há uma nota da autora, onde ela explica quanto às fontes utilizadas para o seu processo de reconstrução literária com relação a um fato verídico, a expedição do padre Giovanni Calleri. Tocaia do Norte é ainda enriquecido por um belo prefácio de Marcelo Adifa, jornalista e escritor, onde ele disseca o jogo de interesses militares na época da ditadura, e as orelhas de Mário Baggio, poeta e escritor, que soube explorar o componente epifânico na obra de Godinho. A obra é extensa, com 318 páginas, dividida em 69 subcapítulos dispostos ao longo das três seções. A epígrafe utilizada por Sandra, de Altino Berthier Brasil, já nos revela a tristeza, o gemido e a melancolia dos índios, que apesar de serem fortes, mostram toda a fragilidade frente à desumanidade dos seres. 

Logo no prólogo, somos levados por uma narrativa em primeira pessoa de voz masculina, iniciando as palavras com letras maiúsculas, para enfatizar a grandiosidade do relato. Temos a junção entre o poético e o mais ordinário. Há uma meticulosidade e delicadeza do silêncio da região com a corporeidade de modo mais popular, se valendo de expressões típicas daquela região específica da Amazônia, como “empachada”, que significa “cheia”. O narrador descreve um local, onde se apresenta a pobreza do lugar, com um “rio escuro”, em que a precariedade dá o tom maior. Há o embate no narrador, entre a via religiosa (os pais o queriam padre) e a vida mundana (seu desejo não era esse). Usando uma partícula de adversidade, o narrador contradiz o que a maioria, o senso comum pensa: “Era muito novo para ter arrependimento, mas tinha”. Há todo um retrato medonho do mundo animal com sua violência. Na natureza não há só harmonia e beleza, mas a crueldade, como no mundo humano, como veremos ao longo do enredo.

Godinho descreve com detalhes os animais regionais, inserindo-se na sua realidade circundante e dando verossimilhança à história.  No prólogo, o narrador não começa a história desde seu início, nos leva a um clímax, o que acontecerá no desfecho da obra, com a fuga do rapaz pela “picada”, seminarista de apenas dezessete anos, que deveria cumprir a promessa dos pais em ser santo, pois ele se salva da morte com o fervor religioso de seu pai e mãe. Godinho nos dá um retrato aterrorizante do perigo do narrador João de Deus na mata, que traz ao mesmo tempo a maciez do céu a acolhê-lo. A descrição da natureza pela escritora amazonense, nos faz lembrar de Guimarães Rosa, que nos mostrou uma natureza ambígua, onde o bem e o mal se equacionam. Depois, há um relato hiperbólico na comilança do padre italiano Chiarelli, com a fartura de comida, para adentrarmos nas hipóteses na mente do seminarista sobre as ações do padre. Quando a mente está em seu trabalho de deduções, há um ato inesperado. Há uma tensão na narrativa, fazendo o leitor pensar sobre o que seria aquilo, quem disparou aquele instrumento de guerra, logo no prólogo do livro. Ficamos sabendo de antemão que houve um ataque ligeiro, mas ainda não sabemos o motivo, dando um movimento de expectativa no leitor. Assim, o narrador não apresenta logo de cara o motor dos acontecimentos. Dá um tom ainda não definido, o que vamos descobrir depois no transcorrer da história. Encontramos uma imagem cru e seca da fuga, refletindo sobre seu próprio eu, pois considera-se inapto para as coisas do mundo. Há todo um conflito entre o pensamento e o corpo, dando dramaticidade à trama. O seminarista se caracteriza como frágil em contraponto ao padre Chiarelli, que revela virilidade e força. Temos um relato do abjeto, do sujo e do nojo, com o “mijo” e a “merda” do seminarista, onde se vê os opostos num mesmo ato. Portanto, o prólogo é um elemento crucial para se entender todo o enredo, pois não conta ou explica o resumo ou o início de tudo, mas o clímax dos acontecimentos, o que ocorre depois, retroagindo na primeira parte, o tempo, onde a memória serve como resgate dos momentos mais aterrorizantes na vida daqueles seres para que não caiam no esquecimento.

Em cada subcapítulo da primeira parte, Sandra Godinho coloca um poema antes de iniciar a narrativa, unindo os gêneros da prosa e da poesia. Essa introdução serve como criadora do clima que o leitor se enveredará por uma floresta de símbolos. Na parte I, Godinho faz o percurso da vida de João de Deus num Seminário. Lá, há todo um ritual rígido de regras de vivência e respeito. Utiliza recursos estilísticos na enumeração de regras que deveriam ser seguidas à risca, com a partícula “ou” nessa sequência de atos sistematizados. A caracterização do narrador para aquela vida na igreja se dá pela via negativa, mesclando o puro e o impuro, a santidade e profanação. Em meio à seriedade de suas reflexões, nos deparamos com o tom jocoso. Há frases entre parênteses, quebrando certos galhos textuais, e nos revelando o pensamento de João de Deus. O menino desde pequeno no seminário nos apresenta o jogo contraditório, entre o interdito (o que se considera sagrado) e a transgressão (o que subverte a ordem a partir das travessuras). A repetição da palavra “rotina” nos atos que ele pratica lá dá ênfase ao enfadonho. E no meio disso tudo, a veste é algo transformador. Há a descrição da batina e seu aspecto de pureza, cobrindo com o hábito a corrupção do corpo (espiritual). A linguagem de Sandra Godinho é realista, mas cheia de símbolos e metáforas que envolvem o leitor. Cita o nome do Seminário, São José, localizado temporal e espacialmente no centro da cidade de Manaus. 

O narrador, já com 17 anos, vai para a casa dos pais, indo para a nova moradia deles em Raiz. Godinho faz aqui um jogo linguístico fascinante com o nome da nova rua dos pais de João de Deus: “raiz, tudo que não queria ter”. Assim, há o conflito entre liberdade e prisão, não só na vida monástica, como na casa de seus progenitores. E os governantes do local seguiam a cartilha dos militares, varrendo da região os locais flutuantes. Godinho coloca o ano de saída de João de Deus do Seminário para a sua casa, em 1968. Mas, estrategicamente, a escritora não coloca em forma de numeral. Por meio das palavras “Mil novecentos e sessenta e oito”, põe ênfase na datação fatídica se prolongando no tempo e na narrativa. No trânsito, na passagem no ônibus, o narrador faz uma verdadeira viagem na mente, revelando suas memórias. Mas, há uma parada, uma interrupção, pois o ônibus, com estrutura precária de madeira, não vai muito longe, tendo João de Deus, que seguir sua “via-crúcis”, o restante a pé. Nessa dificuldade inicial, que serve como preâmbulo para seus obstáculos em todo o enredo, temos a lama, a terra, o cascalho, o mato. E ele caminha, paradoxalmente, com uma bagagem pouca, leve, em meio à proliferação de imagens do lugar. Além disso, Godinho realiza comparações originais, entre o orgânico e inorgânico. Há também uma tensão entre diálogo e silêncio, perfazendo a mescla de elementos que são contraditórios. O narrador tem olhos de águia, narrando e descrevendo tudo com minúcias, prescrutando o interior e exterior das personagens. Assim, para além de um romance histórico, ressignificado, literariamente, pelo seu teor ficcional, encontramos um livro de alto teor psicológico, se adensando no viés existencial dos caracteres expostos pela lente lúcida de João de Deus no tempo presente, já amadurecido, 17 anos depois, já com 34 anos. E o narrador revela que a mãe não reconhecia por trás dos gestos, os atos e palavras implícitos, que o seminarista enxerga plenamente. Os leitores se inserem nas visões conflitantes da mãe e de João de Deus, com relação aos seus amigos de infância, que para ela, perderam a inocência. Mas que para ela, ganharam experiência. Um dos amigos, Vivaldo, ele reencontra já mais velho com o amor da juventude de João de Deus, Lívia, que o desconcerta, ao vê-la agora mais com seu amigo. Com seus vícios, vivendo num local precário, o narrador o considera um verdadeiro homem, diferente da sua imagem de purificação e santidade. A frieza de Vivaldo o decepciona. 

Na ida à igreja do padre Charles (onde ele foi coroinha), temos o momento chave da história. É lá, que ele é apresentado ao padre Chiarelli. Ele trabalhou com os indígenas em missões importantes. E João de Deus logo se identifica com o jeito nada convencional do padre italiano. Já logo no primeiro contato, a impressão de espontaneidade de Chiarelli, utilizando um vocabulário em que temos expressões como “cáspira” e palavras pouco mais nobres, atrai o narrador, se identificando com ele. Ele vê vitalidade em Chiarelli, diferente do espaço frio e soturno de um Seminário. Temos expressões em italiano do padre em meio aos diálogos em português. Chiarelli o surpreende, com sua comilança e interesse por cervejas. Somos introduzidos na culinária típica do local, com riqueza de detalhes, exposta por Godinho. O padre é a metáfora mesmo do excesso, do exagero, em contraponto com a imagem da igreja rígida. Mas há algo que se afasta desse excesso corpóreo e sensorial, pois o padre tem um ideal, o que o seminarista João de Deus irá perseguir. Ou seja, o choque entre a carne e o espírito, pois o padre tinha íntima e intensa fé em Jesus. A igreja, assim como o campo político, seriam a figuração da hierarquia, o que o padre tenta ultrapassar. Chiarelli é transferido da Itália por seu comportamento impróprio e subversivo, vindo para o Brasil e começando sua missão de evangelizar os povos indígenas, iniciando por Roraima. Há todo um vislumbre na narração, com imagens belas e literárias em tom bíblico para falar sobre o padre Chiarelli. O padre italiano quer evangelizar os índios, mas sem aculturá-los. Existe todo um processo de aprendizagem entre o padre e o seminarista ao longo do romance, mesclando o sonho e o real, o ideal e a realidade crua e estúpida que se descortinará e apagará a chama da utopia. Um romance distópico, em certo sentido. 

E no transcurso na narrativa, temos os interesses dos militares durante a época da ditadura, que juntamente com o engenheiro Altamiro, seria a construção de uma estrada, a BR-174, nas terras indígenas dos Waimiri-Atroiaris. O coronel Carimbó, principal opositor de Chiarelli, com quem ele tem rusgas e brigas ferrenhas, estava a frente da missão de construção dessa estrada. No meio disso tudo, há o choque da evangelização dos católicos com relação à missão dos americanos protestantes, que queriam afastar os índios para a construção da rodovia. Assim, há o embate também entre católicos e evangélicos. E o seminarista, com frases repetidas, enfatizando o medo e a confusão entre seguir ou não o padre, em tê-lo como mentor, revela uma carga de tensão psicológica formidável. Godinho aproveita a sonoridade das palavras, fazendo jogos estilísticos perfeitos, onde “rodou” (confusão em círculos na cabeça de João de Deus) e “rodovia” se interpõem. Chiarelli era um homem de extremos, entre o choro e o riso, mudando de humor constantemente no transcorrer da história. Com interesses em choque, Chiarelli parte em missão para afastar os indígenas da região, pacificamente, para a construção posterior da rodovia. E João de Deus dá um novo rumo a sua vida, seguindo o padre e os expedicionários nessa missão. O romance é híbrido, mesclando o sociopolítico ao existencial e psicológico, o interno e o externo, o real e ficcional, o histórico-documental e o literário. Um verdadeiro amálgama, onde os extremos e os conflitos se adensam numa simbiose perfeita. Com tudo isso, ainda temos o papel da Funai, naquela época, e os interesses da mídia nessa expedição, cheia de tensões e conflitos de posicionamentos. Os métodos de Chiarelli se chocam com os dos políticos e ele tem de seguir a cartilha e a hierarquia. Ele não queria que sua expedição parecesse uma invasão. E, assim, ele acaba tendo que avançar pelo Abonari, a seu contragosto. O padre obedece a ordem dos superiores. A zona seria de guerra e não neutra. O seminarista se vê, se olha por dentro, num processo de autorreflexão e autoconhecimento: “Era uma sombra, pequena e desconhecedora do mundo”. O bíblico, o literário e o social se conjugam num abraço múltiplo e diversificado. 

E, ao longo do romance, Godinho vai introduzindo novas personagens, trazendo complexidade e variedade ao enredo. Temos, por exemplo, a Irmã Helena, que era a madre superiora do Jardim da Infância e internato Adalberto Valle, que nutre um amor pelo padre Chiarelli. Todo o local em que ela atuava é descrito com ordem e zelo pelo narrador. Há significados ocultos nos gestos, ações e palavras das personagens que o narrador não consegue captar naquele passado, onde ainda era uma planta tenra, mostrando que não era onisciente. Tanto que a narrativa é em primeira pessoa, seguindo sua versão pessoal dos fatos. Alguns deles, que só outras pessoas poderiam saber, ele explica na segunda parte que teve depoimentos de outras tribos e pessoas, para dar verossimilhança a sua história ficcionalizada, mas que aponta para uma experiência vivida, recolhida por si e pelos outros, na sua perspectiva amadurecida na sua época atual, que retroage no tempo, para o resgate de memórias que não podem ser dissolvidas, mas solidificadas pela escrita e pela construção de um romance. O aprendizado é progressivo, gradativo. Há coisas que ele sabe, percebe e não sabe. Há uma contradição em sua narrativa, entre o tom lírico e delicado com a crueldade atroz de certas cenas a provocarem o pavor no leitor. A narrativa dá a ideia de fluxo contínuo, como o rio que irão percorrer, zona neutra, mas que serve como metáfora para o prolongamento da história. Assim, a sua linguagem oscila entre o realismo cru com palavrões e expressões rascantes com a beleza do lirismo e metáforas. 

Dando continuidade à narrativa, somos introduzidos na personagem Paulo Dias, um mateiro, que se opõe à visão de Chiarelli (que quer os direitos dos índios). Paulo os vê como selvagens e sem cultura, querendo explorá-los. Há diferentes temperamentos em jogo neste caldeirão imaginário e reflexivo. Pela primeira vez, João de Deus viajará num avião no subcapítulo 20, em que presentes serão lançados para os índios, como moeda de troca e pacificação, como se eles estivessem à venda. Mas o discurso de Paulo Dias é preconceituoso. E esse personagem conta para o narrador seu passado, relatando suas memórias. Dessa forma, vemos histórias paralelas dentro da história principal, fazendo o narrador oscilar entre a crença e a descrença, achando que poderiam ser fatos reais ou inventados, brincando com os espaços tênues entre o real e o imaginário. E no meio desse terreno inóspito, com escassez, os expedicionários vão desbravando. Há também, em oposição a isso, o mistério e o lirismo na área dos Abonari. Um verdadeiro cântico à natureza. No curso do romance, temos as duas vias de percepção sobre os indígenas, a via positiva, que acolhe, de Chiarelli, e a via negativa, do opressor, o mateiro Paulo Dias, que mostra a superioridade do homem civilizado. No final da primeira parte, temos a mistura de gêneros literários e estilos diversos, como uma mensagem e recado em tom informativo sobre as ações do local para serem transmitidas pela rádio para a sede, os jogos de adivinhação, a partir dos gestos dos indígenas, tentando compreender o outro, nas suas línguas variadas. Mas Sandra Godinho apresenta uma história sem maniqueísmos, revelando que o bem e o mal existem em ambos os lados, pois Paulo Dias percebe a vaidade de Chiarelli nessa missão, em ser reconhecido publicamente pela mídia.

Na segunda parte do romance, não há poemas iniciando cada subcapítulo, retornando a usar esse recurso na terceira parte, mesclando, assim, os tons e formas de como narrar. Na Parte II, “O Relato”, encontramos o processo de escrita no narrador João de Deus, a elucidação de seu lastro inventivo. E um dos motivos, “o ideal”, que o padre Chiarelli lhe dá, é central na trama. Tudo se deveu a sua maturidade, onde ele se enxerga pelo verso e pelo reverso de si, vasculhando todos os seus meandros e se desnudando para os leitores. É a busca por sua própria identidade, sua individualidade que ele se refere, criticamente: “Resolvi relatar tudo o que se passou no Abonari com a ajuda da Irmã Helena e do padre Sartori, que saiu atrás dos testemunhos de índios (que lançaram luz a esse túnel assombrado que só clareou muito tempo depois”. 

E é nessa parte na narrativa, que deixo aos leitores descortinarem, que se revelam os interesses reais nas terras indígenas dos Waimiris-Atroiaris. E a hierarquia tem um papel importante na trama, mostrando como as sociedades se comportam. Há todo um processo de distinção e individuação das personagens, ressaltando cada um em seu comportamento próprio. Mas, além disso, temos os atos de fingir dos caracteres, unindo essência e aparência, o ser e a máscara. No capítulo 37 repete o mesmo texto do prólogo com uma ligeira diferença. Não coloca o último parágrafo. Isso demonstra uma circularidade, uma ideia de dèjá-vu do eterno retorno nietzschiano, que já podemos perceber em outros livros da autora. Além do recado, aqui, nessa seção, vemos o gênero epistolar a partir de uma carta de Chiarelli à Irmã Helena, assim como na Parte III, onde teremos outra carta comovente e bela. Têm-se aqui, também, a reprodução de uma fala de um repórter da Rádio, mesclando o literário e o informativo-jornalístico. Ao mesmo tempo, nessa parte, nos deparamos com cenas violentas e chocantes com sangue e tripas e outras de intensa delicadeza e poeticidade, revelando-nos uma linguagem de extremos. Há a busca da FAB pelas informações e versões e mentiras sobre os fatos. Há contradições nas notícias de jornais, aqui, introduzindo o leitor numa outra espécie de narrativa, a da investigação. Temos o Serviço Secreto do Exército da região, com interrogatórios. Dessa forma, temos uma via de mão dupla, o que os leitores sabem e o que as personagens não sabem, num jogo textual e inventivo brilhante. Finalizando essa parte, nos deparamos com os interesses dos militares, a “Aliança para o progresso”.

Na parte III, “O caminho”, encontramos a seção mais curta e experimental de Sandra Godinho. No subcapítulo 61, há um trecho da tradição indígena, escrita na língua nativa e sua versão em língua portuguesa, num plurilinguismo da escritora. Há nesse subcapítulo várias letras “X” em sequência de seis linhas e depois a palavra “Merda” três vezes com exclamações, colocando o visual, a imagem e o popular em ação. Uma escrita de vanguarda e experimentalismo. Depois segue em outra parte um parágrafo inteiro quase em pontuação num caminhar vertiginoso, utilizando a partícula “e”, substituindo a vírgula num alongamento do choque entre palavras. No final do texto, há uma sequência de palavras com vírgula, alternando o longo e o ligeiro, o alongamento e agilidade das palavras. E, no final, algo assustador e apavorante, de uma crueldade sem limites, o massacre desumano dos militares, que cometem uma “chacina”, revelando sua cartilha demoníaca, subvertendo uma suposta ordem e inteireza. Mas, unido a este tom de perversidade, ainda temos um lastro de esperança na figura de um sobrevivente, o narrador João de Deus, que terá um desfecho inusitado na trama. 

Portanto, o novo romance de Sandra Godinho, aplaudido e premiado, é uma verdadeira peça literária, onde se conjugam os pares opostos, revelando grande conhecimento da língua, dos recursos estilísticos, dos estilos e gêneros literários, do contexto e história da sociedade e da realidade. Hibridizando polaridades, temos a sutileza do silêncio poético com a dureza e petrificação de cenas sangrentas e viscerais. Um livro que realmente está dando o que falar e que será um tesouro para futuras gerações.

Disponível em:

https://www.editorapenalux.com.br/loja/tocaia-do-norte

E-mail: vendas@editorapenalux.com.br

A resenhista

Alexandra Vieira de Almeida é Doutora em Literatura Comparada pela UERJ. Também é poeta, contista, cronista, crítica literária e ensaísta. Publicou os primeiros livros de poemas em 2011, pela editora Multifoco: “40 poemas” e “Painel”. “Oferta” é seu terceiro livro de poemas, pela editora Scortecci. Ganhou alguns prêmios literários. Publica suas poesias em revistas, jornais e alternativos por todo o Brasil. Em 2016 publicou o livro “Dormindo no Verbo”, pela Editora Penalux. 

Contato: alealmeida76@gmail.com

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“Voz Mulher”: o feminino em tempos de pandemia


No ano de 2020, em pleno surto de Covid-19, surge para o ser humano questões que vão além da saúde física e segurança. Em meio às situações cotidianas ‒ que se tornaram estranhas na quarentena ‒ manifesta-se a necessidade de se expressar, de se conhecer, de se fazer ouvido, em especial para as mulheres, que fazem parte de um dos grupos de pessoas mais silenciados no Brasil atualmente. Letícia Palmeira vem para sanar um pouco dessa dor e calar esse silêncio que repercute ao redor da existência feminina.

Em Voz Mulher, a autora celebra o feminino abrindo as portas do subconsciente e das questões relacionadas ao feminino em meio à pandemia de Covid-19. A autora realiza uma revisitação e ressignificação do passado, conduzindo o leitor, com sua escrita garbosa, a questões de igualdade entre os gêneros em relação ao sentir-se no contexto atual. 

Sua obra é uma ficção com viés autobiográfico que apresenta, em sua intensa narrativa ensaística, reflexões sobre o hoje, as relações entre a vida e a morte e os caminhos tortuosos do feminino. Nas ruas quase desertas, se ouve a Voz Mulher se escorando nas construções, passando pelas frestas, escalando os edifícios e se infiltrando em suas rotinas, salas de jantar e quartos de estar, ecoando pelo mundo seu grito harmônico do sentir-se mulher.

Segue abaixo um trecho da obra:

Ouça a Voz Mulher que emana das ladeiras, edifícios, das janelas e das sacadas onde vasos floridos se equilibram sob o forte vento das cidades que aglomeram desejos, anseios e passos fortes nas calçadas que correm pela vida na força motriz do relógio de corda antigo pendurado sobre o porta-retrato feliz.  

Sobre a autora:

Letícia Palmeira é graduada em Letras pela Universidade Federal da Paraíba. Nasceu em São Paulo. Reside em João Pessoa. Autora de diversos livros nos gêneros romance, contos e crônicas. Publicou Artesã de Ilusórios (EDUFPB, 2009), Sinfônica Adulterada (Multifoco, 2011) e Diário Bordô e Outras Pequenas Vastidões (Multifoco, 2013). Seu primeiro romance, Sol e Névoa, veio a público em 2015. Publicou também A Obscena Necessidade do Verbo (Penalux, 2016), O Porta-Retrato (Penalux, 2017), é uma das organizadoras da coletânea Ventre Urbano (Penalux, 2016), que trouxe à tona a prosa de algumas autoras paraibanas, como também foi organizadora do livro coletivo Não Temos Wi-Fi (Penalux, 2017). Buscando ampliar sua experiência, Letícia publicou, em 2018, A Química entre Nós, romance disponível somente em e-book. Em 2019, a autora publicou Mostruário Persa, um livro bordado de lirismo em prosa poética. Voz Mulher é seu mais recente trabalho, escrito no atordoado ano de 2020.  

Serviços:

Voz Mulher, novela (90 p., 38 reais). Letícia Palmeira ‒ Editora Penalux.

Disponível em:

https://www.editorapenalux.com.br/loja/voz-mulher

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quinta-feira, 5 de novembro de 2020

Romance flerta com o realismo fantástico e apresenta uma narrativa fragmentada, mesclando passado, presente e futuro


O escritor Emmanuel Mirdad, coordenador geral e criador da Flica, está lançando pela Penalux o livro “oroboro baobá”, seu primeiro romance.

Da sua origem até desembocar numa foz literária, este romance finalista de dois prêmios nacionais em 2017 (Prêmio Sesc de Literatura e Prêmio Cepe Nacional de Literatura), levou mais de oito anos para ser concluído, acumulando vinte versões de si mesmo.

Assim, parte-se da simbologia de uma árvore sagrada engolindo as próprias raízes para conceber um universo peculiar: nada existe em consciência; tudo existe em herança antepassada. O insondável habita personagens impelidos a cumprir suas jornadas sem ter acesso à regência de suas vidas, dedicando-se ao destino que acreditam ter escolhido, porém alheios à ilusão do livre-arbítrio.

Em contínua transposição metafísica entre a costa africana e cidades interioranas da Bahia, uma ancestralidade intocável realiza um feito extraordinário em um simples campeonato de futebol amador. Entretanto, é nesse ambiente de aparente frivolidade que se expõe, em alta voltagem, as entranhas da natureza humana: disputas por território, narrativas e micropoderes que remontam à formação da identidade brasileira e à origem da riqueza das elites que exalam hipocrisia. Além disso, há o vigor feminino em confronto com estruturas arcaicas que insistem em inviabilizá-lo.

Contudo, trata-se de um livro cuja segunda leitura talvez permita a exploração de sutilezas que flertam com a epifania. Para só então compreender-se a óbvia onipresença do sagrado, por mais que tenha permanecido oculto.

O protagonista é o movimento

“oroboro baobá” apresenta uma narrativa fragmentada: passado, presente e futuro são narrados no tempo presente, e vários personagens seguem as suas jornadas, sem o conhecimento da conexão que os envolve. Não há um protagonista; o importante é o movimento, as pequenas sagas que acontecem, orientadas pela premissa: “ontem é hoje, amanhã é hoje, tudo o que nos forma é hoje”.

É um romance de realismo fantástico, com a presença da divindade Mutujikaka, a guardiã, e as suas entidades africanas, como a transportadora Mensawaggo, a mensageira Makonga e a dançarina Mokamassoulé, regendo a aplicação do destino, o que está previamente definido, a verdade que os humanos (e elas) não têm acesso.

A seleção de Porto Seguro é favorita para ganhar o campeonato Amadô, graças às defesas sobrenaturais do goleiro negro Montanha, fenômeno que não toma gol, ídolo que não fala, evita relações, não dá entrevista nem permite ser tocado. Ninguém conhece o seu passado intrigante, que talvez seja ligado à jovem Miwa, encontrada no mangue de Mucuri após visões fantásticas com entidades africanas, adotada e criada por três mulheres negras que são descendentes de um mesmo ancestral africano, que foi escravizado e prosperou como um rico senhor fidalgo.

Há o empresário e chefe do tráfico que é o artilheiro do time, que busca a sua redenção através do futebol. Há o jornalista investigativo que se empenha em descobrir os mistérios do goleiro imbatível. Há a educadora Maxakali que têm de se separar da tribo por ameaças de bandidos e precisa descobrir onde está o seu filho, que é adotado e negro como Miwa. Um romance com muitos personagens e muitas locações, como Caraíva, Mucuri, Nanuque, Aldeia Verde e a mágica Avenida dos Baobás, em Madagascar.

Oroboro de baobá

O oroboro é o símbolo da conexão da boca com a cauda, da cabeça com o pé, dos galhos com as raízes, o início com o fim e/ou o fim com o início. É o círculo que se consome, que gira em eterno movimento, em continuidade incessante, a ida e a volta, morte-vida & vida-morte. O tempo como roda e não lança. Tudo ao mesmo tempo agora; futuro e passado, tudo é presente.

Dizem que o símbolo tem origem no Egito Antigo, representado pela cobra que come o próprio rabo. Tradicionalmente, o oroboro é uma serpente, mas há versões como dragão. Sempre um animal. Daí, a inovação do romance: um oroboro vegetal, um oroboro de baobá, em homenagem à Renala (Adansonia grandidieri), endêmica de Madagascar, a “Mãe da Floresta”, segundo os malgaxes, o baobá presente no livro.

SERVIÇOS

Orobora baobá, Emmanuel Mirdad – romance (324 p.), R$ 48 (Penalux, 2020). 

Link para compra:

https://www.editorapenalux.com.br/loja/oroboro-baoba

Sobre o autor

Baiano de Salvador, de outubro de 1980, formado em Jornalismo pela Facom – Ufba, Emmanuel Mirdad é autor do romance “oroboro baobá” (2020), de “O limbo dos clichês imperdoáveis” (2018), reunindo os 60 contos que escreveu entre 2000 e 2018, e “Quem se habilita a colorir o vazio” (2017), reunindo os 200 poemas que escreveu entre 1996 e 2017. É autor, também, das antologias de poemas “Ontem nada, amanhã silêncio” (2017) e “Yesterday, Nothing; Tomorrow, Silence” (2018), com tradução de Sabrina Gledhill. Todos os livros estão disponíveis para leitura e download no seu blog.

É um dos criadores, donos da marca e coordenadores gerais da Flica (Festa Literária Internacional de Cachoeira), e atuou como curador de quatro edições da festa (de 2012 a 2014, em parceria, e 2016, sozinho). Sócio-diretor da produtora Cali, que realiza a Flica ao lado da produtora Icontent/Rede Bahia. Produtor cultural com mais de 20 anos de carreira, realizou diversos projetos com patrocínio público-privado, como festivais, shows, premiações e gravações de álbuns, e foi sócio da produtora Putzgrillo Cultura (2008 a 2012).

Compositor, possui mais de quarenta músicas gravadas, entre rock e reggae progressivo e psicodélico, blues, groove, pop rock e experimental, em inglês e português, e mais de dez trabalhos lançados, entre EP’s e álbuns. Foi produtor fonográfico, artístico e executivo da banda de rock psicodélico progressivo The Orange Poem (2000 a 2014), e do projeto de psy-prog-reggae Orange Roots (2015 a 2019).

Mantém o blog “O lampião e a peneira do mestiço”: www.elmirdad.blogspot.com

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segunda-feira, 26 de outubro de 2020

Editora paulista chega aos 1.000 títulos publicados e se destaca nas principais premiações literárias do país

 


A Penalux acaba de alcançar a marca de 1.000 títulos publicados. 

Fundada em 2012 pelos autores Tonho França e Wilson Gorj, a editora com foco em literatura nacional contemporânea vem se projetando progressivamente no mercado editorial. Além de publicações representativas, de autores premiados e renomados, a Penalux tem atraído a atenção por conta de sua boa atuação nos prêmios dedicados à Literatura. Com títulos inscritos nos principais concursos, a casa editorial comandada por França e Gorj tem obtido boas atuações em 2020, emplacando seus livros nos principais certames do meio literário. 

Boas novas no primeiro semestre

Logo no começo do ano, a Penalux festejou a boa nova vinda de Portugal: o livro “A depressão tem sete andares e um elevador”, da paulistana Isabela Sanches, ficou entre os finalistas do Prêmio Glória de Sant’Anna 2020, afamada premiação internacional destinada a livros de poesia. 

Depois, foi a vez do livro “Casa de boneca para elefantes”, coletânea poética da autora Patrícia Porto (RJ), entrar na relação dos semifinalistas do maior prêmio de Língua Portuguesa, o Oceanos, aberto a participações de editoras do Brasil, Portugal, Moçambique, Angola e de outras nações lusófonas (neste ano concorreram mais de 1872 obras, inscritas por 450 editoras, tendo participações vindas de 10 países). Vale frisar que é o terceiro ano seguido que a Penalux coloca um dos seus títulos entre os semifinalistas. 

Mais prêmios 

Passado o primeiro semestre, os destaques nas premiações continuaram acontecendo. 

O livro “Toda a janela é um tipo de saída”, da poeta Marina Rima (SP), venceu a fase semifinal do Prêmio Guarulhos de Literatura e disputa agora entre os finalistas o prêmio de Escritor do Ano, cujo resultado deve sair em breve. 

O livro “Canto escuro”, romance do escritor Daniel Barros (DF), também se destacou em 2020. Foi finalista do International Latino Book Awards, na categoria literatura ficção em língua portuguesa. Em tempo: tal feito colocou o autor em evidência, fazendo com que ele participasse em matérias de grandes veículos de comunicação, como as TV’s Record, SBT e Globo. 

O livro “Apenas por nós choramos”, da autora Anna Mariano (RS), também se tornou finalista e disputa a posição de melhor Livro do Ano, categoria Poesia, no Prêmio AGES 2020.

Surpresa também no Prêmio Literário Cidade de Manaus. Sandra Godinho e Myriam Scotti (AM), autoras da Penalux, consagraram-se vencedoras com os romances “Tocaia do Norte” (Sandra), categoria nacional – obra recentemente publicada pela editora –, e “Terra úmida” (Myriam), categoria regional, romance que em breve também será publicado pela mesma casa editorial.

Enfim, 1000 títulos! E mais um prêmio!

Chegou outubro e, junto com a expectativa de mais prêmios, veio outra boa notícia: a editora alcançou a marca de mil títulos publicados. 

E não parou por aí. 

A Penalux conseguiu habilitar no Prêmio Biblioteca Nacional mais de 30 obras que concorrerão à fase classificatória, cujo resultado será comunicado em novembro. 

Também em outubro chegou a notícia de que o livro de crônicas “Leque aberto”, da escritora Raquel Naveira (MS), foi vencedor do Prêmio Mário de Andrade pela UBE/RJ. 

Mas a surpresa maior ainda estava por vir. 

O mais disputado prêmio literário do país

Semana passada foi divulgada a lista dos finalistas do prêmio literário mais tradicional do país: o Jabuti. 

A Penalux teve três obras entre os finalistas: duas de poesia e um romance (na categoria entretenimento). São eles: “Vida aberta: tratado poético-filosófico”, poesia, do autor Waldemar José Solha (PB); “Poemas de última geração”, do autor Samuel Marinho (MA); e o romance “Olhos bruxos”, do escritor Eliezer Moreira (RJ). É também o terceiro ano consecutivo que a editora aparece entre os finalistas do prêmio. 

O que vem pela frente

Ainda faltam sair mais resultados, tanto desses prêmios já citados quanto de outros, como o Prêmio São Paulo de Literatura, no qual a editora também já conseguiu colocar um finalista em 2018. 

Apesar de ser um ano difícil sob vários aspectos, 2020 reservou para Penalux mais destaque e credibilidade ao trabalho desenvolvido por sua equipe e seus autores. 

É esperado que a editora encerre o cronograma deste ano com quase 180 obras publicadas. Conforme relatado pelos editores, a equipe segue já trabalhando nos títulos que serão lançados em 2021. Quiçá, ganhadores de mais prêmios. Ficaremos na torcida. 

Por Carlos Mancur Saldanha, redator.


Fontes:

https://gloriadesantanna.files.wordpress.com/2020/04/listafinal2020-fotosautores.png

https://www.publishnews.com.br/materias/2020/08/26/oceanos-anuncia-seus-semifinalistas-de-2020

https://www.clickguarulhos.com.br/2020/10/12/veja-quem-sao-os-finalistas-do-premio-guarulhos-de-literatura/

https://www.correiobraziliense.com.br/cidades-df/2020/08/4870112-policial-civil-do-df-e-finalista-em-premio-americano-de-literatura.html

[vídeos: SBT: https://youtu.be/YCVCNIphpdQ | Globo: https://youtu.be/TUkFUQnGDcg | Record: https://youtu.be/VVmKCLeT9aQ?list=PLlKfXFBM4nBj_BORmEL78PH3bEtKCvDdl ]

https://literaturars.com.br/2020/09/29/saiba-quem-sao-os-finalistas-do-premio-ages-2020/

[p. 18]: 

http://dom.manaus.am.gov.br/pdf/2020/outubro/DOM%204948%2016.10.2020%20CAD%201.pdf 

https://www.bn.gov.br/acontece/noticias/2020/10/fundacao-biblioteca-nacional-divulga-resultado-final

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=390407252137364&set=a.103276610850431&type=3&theater

https://www.premiojabuti.com.br/finalistas/

* O título da matéria faz referência ao famoso poema de Castro Alves: Oh! Bendito o que semeia / Livros à mão cheia

/ E manda o povo pensar! / O livro, caindo n'alma / É germe – que faz a palma, / É chuva – que faz o mar!











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sexta-feira, 21 de agosto de 2020

Fronteira Eterna e Outros Contos Imaginados


Em livro de estreia escritor aborda vários temas em histórias surpreendentes

Quem conta um conto aumenta um ponto. Já dizia um velho ditado. Aliás, Machado de Assis, um dos nossos maiores escritores, mais conhecido pelos seus romances (destacadamente, “Dom Casmurro” e “Memórias Póstumas de Brás Cubas”) do que pelos seus contos (excelentes, bom frisar), possui uma história hilária cujo título é exatamente este: “Quem conta um conto”.
O gênero, no Brasil, tem outros cultores de igual calibre, como João Guimarães Rosa e Lygia Fagundes Telles, para citarmos apenas dois dos mais conhecidos. 
O conto, para usarmos uma definição simplista, é uma narrativa curta que, em geral, apresenta apenas um conflito. Existem definições também separando o conto em categorias, como os contos de fantasia, de suspense, de terror, de ficção científica, etc.
Fronteira Eterna e outros contos imaginados, como o próprio título já revela – livro do estreante Guilherme Furlan, que o assina com o pseudônimo de Dantas Guerra (obra que acaba de ser lançada pela Editora Penalux) – é uma reunião de histórias curtas que têm como material principal a imaginação.
O livro possui quinze contos com temática variada, passando pelo terror, suspense e amor, não faltando ainda poesia, intriga política, questionamentos filosóficos, entre outros assuntos.
“A economia narrativa, a unidade de efeito e a brevidade apa­recem, mas não são únicos princípios norteadores da obra”, releva o autor. “Busquei usar o máximo de elementos que estivessem à minha disposição”, conta.
Percebem-se no mix dessas histórias as influências de outros contistas consagrados, como Poe, Cortázar, Quiro­ga, Tchekhov e Hemingway.
Sendo a literatura também um fingimento, como já assinalou Fernando Pessoa, o autor defende que a criação literária deva ser um “fingimento sincero, pois quando o escritor olha para dentro de si mesmo, ele enxerga a humanidade inteira”.
Para Guerra (Furlan), quando se trata de ficção, faz-se necessário também um pouco de divertimento. “Uma breve distração da vida cotidiana, mas que possa ensinar algo também”, completa o escritor. “O livro vem de uma época ideal da minha vida”, continua ele. “Escrevi quando eu tinha vinte e sete anos e morava em Portugal. De certa forma, ele representa meu primeiro grande esforço literário. Está carregado de um ideal próprio de literatura e talvez seja até um pouco pretensioso com epígrafes em espanhol e italiano, personagens que falam um pouco de francês e mesmo algumas falas em inglês, tudo sem tradução ou notas de rodapé. Não sei se ele possui algum valor literário, mas posso afirmar que ele foi concebido com enorme dedicação”, conclui.
Fronteira eterna e outros contos imaginados privilegia a criação livre, apresentando uma diversidade temática, pela qual cada conto tem sua própria independência e completude.
Uma ótima dica para o leitor que quer se aventurar em múltiplas e intensas histórias, com personagens envolvidos em conflitos, vingança, egoísmos, vivenciando problemas e dificuldades, enfim, replicando aquilo que nós carregamos como sociedade, isto é, como humanidade. O leitor há de se encantar com esses contos repletos de imaginação e surpresas.
   
TRECHO: “Monrruá viu os corpos de outros como ele. Estavam espalhados pelo chão, queimados. Alguns tinham as vestes quase intactas e lembravam os lagartos. As chamas iam alto, o céu era uma mistura de vermelho e negro. Não havia mais ninguém para alertá-lo sobre o perigo. Mas tudo havia de ter uma razão. Além do fogo que cortava o céu, algo existiria. Se assim não fosse, haveria algo além do nada e assim por diante. O fim é uma invenção humana.”

SERVIÇOS
Fronteira eterna, Dantas Guerras (Guilherme Furlan) – contos (182 p.), R$ 40 (Penalux, 2020).
Link para compra:
https://www.editorapenalux.com.br/loja/fronteira-eterna



AUTOR
Dantas Guerra é Guilherme Furlan — ou seria o contrário? Este nasceu em Bento Gonçalves, Rio Grande do Sul, em 1990, é bancário e bacharel em Comércio Internacional pela Universidade de Caxias do Sul (UCS). Já o outro nasceu da imaginação, é apaixonado por literatura e autor do livro Fronteira eterna e outros contos imaginados.

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segunda-feira, 17 de agosto de 2020

André Galvão e o livro Depois do Sonho

André Galvão - Foto divulgação
Doutor em Ciências da Educação (Universidade do Minho). Autor dos livros de poemas A Travessia das Eras (Penalux, 2018) e Depois do Sonho (Penalux, 2020) e do livro O Coronelismo na Literatura: Espaços de Poder (UFRB, 2018). Coautor do livro Redescobrir-se: poesias de fim de século (Selo Editorial Letras da Bahia, 1998) e do livro Crítico Intrépido! Filósofo Tímido? Sílvio Romero e o ensino secundário de Filosofia no Brasil (CRV, 2018). Participou de antologias literárias no Brasil e em Portugal. Associado ao NALAP – Núcleo de Artes e Letras de Portugal e membro da Associação Nacional de Escritores (Brasil) e da Academia Independente de Letras (Brasil).

ENTREVISTA:

Conexão Literatura: Poderia contar para os nossos leitores como foi o seu início no meio literário?

André Galvão: Creio que começou como a maioria das pessoas, escrevendo alguns textos na adolescência, e guardando na gaveta, com um sonho de um dia publicar, mas sem coragem pra mostrar... Até que um dia, junto com alguns amigos, tomei coragem de submeter alguns poemas em edital e deu certo. Aí tudo começou...

Conexão Literatura: Você é autor do livro “Depois do sonho”. Poderia comentar? 

André Galvão: Depois do sonho, o meu segundo livro solo de poemas, trata do sonho, da esperança, mas acima de tudo do contato com a realidade. Porque escrever, pra mim, sempre foi um exercício de reflexão sobre o mundo que me cerca. Logo, a minha poesia tem a realidade, o cotidiano, as reflexões sobre a vida e o mundo como matérias-primas. Assim, é uma obra em que a poesia desvela um olhar inquieto sobre a realidade, sem perder a esperança em tempos melhores.

Conexão Literatura: Como foram as suas pesquisas e quanto tempo levou para concluir seu livro?

André Galvão: Esse livro teve uma maturação relativamente pequena, cerca de um ano, ou pouco mais. Reuní poemas anteriores ao meu último livro, A Travessia das Eras, e, pensando em muitas análises desse livro que tive a oportunidade de ler, organizei textos novos para consolidar esse novo projeto. 

Conexão Literatura: Poderia destacar um trecho do seu livro especialmente para os nossos leitores?  

André Galvão: Trata-se de um livro de poemas, então, trarei uns versos apenas: “Hoje o que sou / É um resumo estendido / Do balanço entre sonhos / E derrotas que tenho sofrido / Eis o que essa lida construiu: / Em volta de meus erros constantes
Insculpiram-se em mim / As lições mais importantes” (Todas as batalhas).

Conexão Literatura: Como o leitor interessado deverá proceder para saber mais sobre o seu livro e um pouco mais sobre você? 

André Galvão: O meu novo livro, assim como o anterior, A Travessia das Eras, ambos publicados pela Editora Penalux, estão à venda no site da editora e de grandes lojas virtuais. Quanto a mim, o leitor pode me seguir nas redes sociais @andregalvao77 (Instagram) ou facebook.com/andregalvao077 (Facebook).

Conexão Literatura: Quais dicas daria aos autores em início de carreira?

André Galvão: Escrevam, publiquem! Aproveitem o universo das redes sociais, que são uma ótima oportunidade para mostrar seu trabalho. E escutem sempre, ouçam as críticas e aprendam com elas. Humildade é tudo.

Conexão Literatura: Existem novos projetos em pauta? 

André Galvão: Sempre. Há um novo livro quase pronto, de poesia, com uma temática mais específica, cuja publicação deve ser em 2021. 

Perguntas rápidas:

Um livro: Cem anos de solidão (Gabriel García Márquez)
Um (a) autor (a): Paulo Leminski
Um ator ou atriz: Denzel Washington
Um filme: O clube do Imperador
Um dia especial: O nascimento de meus filhos

Conexão Literatura: Deseja encerrar com mais algum comentário? 

André Galvão: Quero lembrar a todos da importância da leitura, principalmente em tempos difíceis, como o que vivemos. A leitura é sempre o melhor caminho para preencher nossa mente de boas reflexões e criatividade. E a Literatura, nesse contexto, é o universo em que podemos reinventar nossas experiências e a nossa liberdade.
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quinta-feira, 18 de junho de 2020

Ágil, intenso, envolvente: um suspense em que nada é o que parecer ser


Romance de estreia envolve o leitor numa trama de intrigas em busca da verdade por trás de um plano ambicioso e sinistro.

Os dias atuais têm sido marcados pelo protagonismo dos agentes políticos em meio a esse tempo de conturbações e incertezas. Governantes ganham o plano das nossas atenções, ante nossa insegurança diante de um presente cheio de desafios (pandemia, crise econômica) e um futuro cada vez menos promissor.
É agora, nesse cenário pandêmico, que aparece o livro O Plano, romance da estreante Agda Theisen, escritora gaúcha radicada em São Paulo.
O romance traz como enredo um plano fatídico elaborado por Arno Ramos, um pretenso filantropo que dirige uma fundação beneficente. Zeca, seu assistente recém-contratado, descobre que nada ali é o que parece ser e, pouco a pouco, vai se inteirando dos fatos escusos que envolvem a organização. De posse da verdade, terá que decidir o que fazer.
“A ideia é o leitor ir descobrindo junto com o protagonista a verdade sobre a Fundação de Ramos e sobre que tipo de plano o título trata”, adianta a escritora.
Para Alex Ferraz, que assina a orelha do livro, o livro é uma “teia genialmente construída e que envolve o leitor na mesma intensidade bem calculada com que o personagem principal também se enreda numa história assustadora, revelando as forças e fraquezas que compõem o jogo do poder. Este romance de suspense vai muito além da trama de mistério, pois abre uma janela através da qual enxergamos a alma dos personagens. Tendo como cenário a cidade de São Paulo, a história gira em torno de um sinistro ardil que, por pouco, não chega ao Poder principal do país. Isto é, se em algum momento da nossa história recente realmente não chegou ou poderá chegar. Esta é a dúvida que permanece pairando no leitor após encerrar a eletrizante leitura.”
A escritora chama a atenção para o que se classifica romance de entretenimento:
“Não temos aqui no Brasil a tradição de apreço que os romances comerciais e populares, os chamados best-sellers, possuem nos EUA”, observa a escritora. “Minha ambição foi, e é, produzir uma narrativa rápida, fluida, que prenda o interesse do leitor e o divirta. Entretanto, é possível, mesmo assim, tecer reflexões importantes com base na história e no perfil dos personagens”, pondera. “A escolha é de cada um”.
Vale destacar que na edição deste ano do Prêmio Jabuti, certame literário mais famoso do país, criaram uma categoria dedicada especialmente ao romance de entretenimento. O que demonstra um começo de mudança em relação à apreciação de obras desse gênero.
O Plano não concorre nesta edição porque é uma publicação recente, mas seguramente poderá se destacar no prêmio em 2021, se a curadoria mantiver a nova categoria. Veremos. 
O bom é que agora o leitor tem o privilégio de lê-lo antes dos jurados.
Aproveite!

TRECHO
“Sua mente registrou uma coincidência e a lembrança causou desconforto. O mendigo moribundo com quem se batera noutro dia falara apenas cinco palavras, duas delas eram as então incompreensíveis “fio” e “líbero”. Apoiou as costas no suporte da placa de identificação da rua Líbero Badaró e fechou os olhos, repassando mentalmente a cena. Quando abriu os olhos novamente, deparou-se com o luminoso que identificava a Fundação de Arno Ramos a poucos metros dali.
Respirou fundo. Estranhamente, naquele local convergiam quatro fatores ligados ao mendigo morto: a instituição que o acolhera, a vítima que ele tentara assassinar e duas das suas últimas palavras...”

SERVIÇOS
O Plano, Agda Theisen – romance (396 p.), R$ 45 (Penalux, 2020).





AUTORA
Agda Theisen é gaúcha de Porto Alegre, viveu muitos anos na Bahia e hoje mora em São Paulo com seu marido e dois filhos. O Plano é o seu primeiro romance publicado. Acredita na força das histórias para entreter, emocionar e refletir e descobriu que escrever é tão prazeroso quanto ler.
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domingo, 22 de março de 2020

As Paisagens de Paulo Williams


Itinerário entre paisagens convida o leitor a inverter a olhar para dentro

O diretor de Teatro Paulo Williams, que há anos atua na capital paulista, está para lançar seu primeiro livro: uma coletânea de poemas cuja proposta do autor é fazer o leitor sentir e enxergar as coisas de outra maneira, sob outros ângulos. 
Paisagens invertidas, obra que sairá pela Editora Penalux, é constituída por 70 poemas, divididos em 7 partes, pelas quais perpassam as paisagens poéticas que o autor costura em seus versos. 
“A ideia é levar o leitor a experimentar uma vertigem causada pelo assombro da poesia diante da vida e do amor”, diz o poeta. 
Para Williams o valor de uma obra de poética consiste em criar para o leitor “uma ponte de atravessamentos e afetos”. “Por outro lado”, continua ele, “produzir poesia é também resistir. Não devemos nos calar, principalmente em tempos sombrios como o nosso”, adverte.
Nas palavras da escritora Aline Bei, que assina o prefácio do livro, “a precisão na escolha das palavras é notável, além da delicadeza e da sofisticação”. Ela ainda diz: “Fiquei pensando, depois de ler o seu livro, no quanto nos misturamos com as Paisagens que miramos... Não é possível olhar algo sem a lente do eu”. 
O livro também traz forte o  tema do amor. “Amor como busca, amor como desejo, amor como devaneio, loucura”, complementa Willians. 
Segundo Alexandra Vieira de Almeida, crítica e poeta que apresenta a obra na orelha do livro, a poesia de Paulo Williams começa pelo meio selvagem e natural até chegar à cidade com seus revezes. O poeta produz uma poesia que transforma o ambiente, revelando-nos uma íntima relação entre o interior e o exterior, o dentro e o fora. “Com relação à estruturação poética”, destaca a crítica, “Paulo Williams consegue com grande proeza unir a poesia à prosa, rompendo com o purismo dos gêneros. Além disso, o jogo com as palavras e suas combinações é inventivo, revelando-se na sua poesia a criação do verbo em êxtase estrutural e imaginário”.
O evento de lançamento ainda não tem dada marcada, tendo em vista as recomendações do Ministério da Saúde de se evitar aglomerações durante esse período de pandemia. Mas a obra já se encontra em pré-venda pelo site da editora. 

O AUTOR
PAULO WILLIAMS
Nascido em Salvador BA em 1977, hoje vive em São Paulo. Formou-se em Filosofia e Artes Cênicas, estudou Dramaturgia na Escola SP de Teatro. O interesse pela poesia e filosofia vem desde cedo, resultou em inúmeras experimentações no teatro, tendo a literatura como foco de criação.  Fundador do Grupo Tecelagem de Teatro, com o qual ganhou diversos prêmios como ator, dramaturgo e diretor. 
É autor das peças Monóculo, Onoff, A Maçã, entre outras. Atualmente desenvolve a ideia original dos roteiros das séries: Insólitas; Desaparecidos e Estranho modo de andar no meio fio. 

SERVIÇOS
Paisagens invertidas, Paulo Williams – poesia (132p.), R$ 38 (Penalux, 2020). 
Link para compra:
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quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

Ontem é um futuro que ainda irá acontecer: o passado como divisão de afetos em A memória é um cavalo selvagem


Sete considerações sobre a obra poético-genealógica de Pedro Pérez

Por Daniel Zanella

1. Em Vida da razão, o filósofo espanhol George Santayana vaticina: “Os que são incapazes de recordar o passado são condenados a repeti-lo”. Em tempos onde é preciso provar que maçãs existem e que chamar Jesus de Genésio é apenas expressão popular, A memória é um cavalo selvagem, de Pedro Pérez, nos apresenta uma descida singular e poética a um passado que não apenas quer ser recordado, como também analisado, verificado, reconhecido e não idealizado: a literatura como única manifestação terapêutica possível, um divã de parágrafos onde o circum-navegador nos orienta a uma ilha de estranhas atrações. E o que é escrever, afinal, senão uma forma de nos despertar da ilha, de recuperar um passado continuamente vívido num mar caudaloso, o sono da razão de Goya produzindo monstros?

2. “Os biógrafos, esses seres absurdos, são violadores de intimidades, reveladores de pequenas frestas ocultas dos dias de alguém normalmente já morto. Os biógrafos são essencialmente perigosos quando trabalham, suam diante de fatos empoeirados, alegram-se ao descobrir segredos que o biografado não gostaria jamais que se tornassem coisas públicas, ficam insones diante de pegadas imaginárias e lidam com a lógica assustadora da construção de um indivíduo” (PÉREZ, 2020, p. 204). Não interessa a Pedro Pérez a suposta matemática dos fatos, as veias abertas das grandes notícias objetivadas. É o pequeno, é o mínimo. Diante de um mundo que acelera o indivíduo em prol de estabilidades que não se sustentam nem até a página 2, defender minuciosamente o passado em quase 300 páginas é uma forma de protesto, de oferecer um outro tipo de velocímetro. Bartleby da memória, Perez defende a subjetividade como quem luta dentro de um castelo prestes a ser tomado pelas tropas inimigas — e as memórias ali, prontas para entrar em combate e nos recordar que ter vivido é a única morte que podemos presenciar. 

3. A tessitura do passado nunca se encerra e, no território literário, exige um pacto entre autor e leitor. Ao buscar entender o campo do pacto autobiográfico, Phillipe Lejeune pretende evidenciar como a proposta pode ser uma via de mão dupla, com características internas próprias e recepções específicas. É justamente neste terreno do pacto autobiográfico e de elementos de semelhança e identificação que a memória se alimenta e a obra de Pedro Pérez mais se solidifica. Wolfgang Iser parte na direção do texto ficcional ser uma realidade que não somente deve ser identificável como realidade social, mas que também pode ser de ordem sentimental e emocional. “Estas realidades por certo diversas não são ficções, nem tampouco se transformam em tais pelo fato de entrarem na apresentação de textos ficcionais” (ISER, 2013, p. 32). E como isso se aproxima de A memória é um cavalo selvagem? Acompanhamos a jornada de Pérez pelas entranhas de seu passado como se aprendêssemos a vivê-lo juntamente, o Eu que é um Outro. Leitores convencidos a jogar o jogo, criamos uma ficção somente nossa e somos conduzidos a um tempo anterior que pode também ser o nosso, não o passado conveniente-clichê das memórias do que não foi vivido. Pérez quer ensinar o seu passado como um passado de todo mundo — característica comum entre as grandes obras literárias: “Amar é um tanto constrangedor” (PÉREZ, 2020, p. 130).

4. Convém observar aquilo que Paula Sibilia chama de acervo de significações: “A experiência de si como um eu se deve, portanto, à condição de narrador do sujeito: alguém que é capaz de organizar sua experiência na primeira pessoa do singular. Mas este não se expressa unívoca e linearmente através de suas palavras, traduzindo em texto alguma entidade que precederia o relato e seria mais real do que a mera narração. Em vez disso, a subjetividade se constitui na vertigem desse córrego discursivo, é nele que o eu de fato se realiza” (SIBILIA, 2008, p. 31). É bem isso: a vertigem de um córrego discursivo. Em cada página de A memória é um cavalo selvagem somos apresentados a um catálogo de belezas, de sustos, de ligações únicas e universais de palavras: “a infância já contém todas as maldades” (PÉREZ, 2020, p. 99), “Eu continuo sofrendo, nada mais do que isso” (PÉREZ, 2020, p. 65) e “sou um ser da chuva, um batráquio tranquilo em seu ambiente” (PÉREZ, 2020, p. 121). São pequenos retratos de um percurso interior repleto de mentiras plenas, de cores explodindo no olhar do leitor, o rio de Heráclito banhando-nos nessa vertigem também chamada mundo contemporâneo.

5. Em diversos momentos, Pedro Pérez reitera o caráter de verdade da mentira de sua narrativa. Se também jogarmos nesse tabuleiro de fingir, podemos encontrar uma estratégia de aproximação, um contrato de leitura mais afetivo do que reiterativo. Sem a fábula, sem o devaneio, sem editar o passado, como é possível conviver com nossas falhas? Como sobreviver a um passado de ausências, más escolhas, indigências emocionais? Neste passado de leão feito de cordeiros assimilados, Pérez nos propõe uma recoleção de amores, uma experencialidade por meio de uma palavra conectada na outra com precisão. Se do breu foi feito a luz, da linguagem se fará o fim.

6. Como em todo escritor, a vontade de escrever de Pérez denota a existência de uma pulsão pública de contar e de falhar. Lejeune assevera que um autor não exatamente uma pessoa: “É uma pessoa que escreve e publica. Inscrita, a um tempo, no texto e no extratexto, ele é a linha de contato entre eles (LEJEUNE, 2008. p. 17). Leitor de um livro em progressão, leitor de nós mesmos, somos impelidos a um interior de dores, de sofrimentos, de escuridões mediadas pela beleza de contar de um narrador localizado em um tempo somente dele. Possivelmente, não exista melhor forma de sofrer.

7. Ensaísta ou poeta ou filósofo ou geógrafo de apegos ou estrategista de corações. O narrador de A memória é um cavalo selvagem nos puxa pela mão e nos reconecta: “Todas as coisas flutuam sobre a Terra, e considero arrogante todo aquele que explica essa flutuação com argumentos científicos. Aprecio as informações dos artistas, que não explicam nada. Talvez sejam mais leves, hesitem, oscilem entre vontades igualmente potentes e que não levam a um mesmo lugar. Um cientista é pesado e tem pouco pudor, quer exterminar a ilusão como um policial que mata em nome da lei” (p. 16). E o que é um livro senão uma troca silenciosa de afetos entre autores e leitores?

BIBLIOGRAFIA
ISER, Wolfgang. O fictício e o imaginário. Rio de Janeiro: EDUERJ, 2013.
LEJEUNE, Philippe. O pacto autobiográfico. Belo Horizonte: Editora UFMP, 2008.
PÉREZ, Pedro. A memória é um cavalo selvagem. Guaratinguetá: Editora Penalux, 2020.
SIBILIA, Paula. O show do eu: a intimidade como espetáculo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.

Daniel Zanella é jornalista, cronista e editor responsável pelo jornal literário RelevO.
Contato: contato@jornalrelevo.com

A memória é um cavalo selvagem, romance (Editora Penalux). R$45 (294 p., 16x23).
Autor: Pedro Pérez.
Disponível em:
https://www.editorapenalux.com.br/loja/a-memoria-e-um-cavalo-selvagem
E-mail: vendas@editorapenalux.com.br
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sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

Poemas na medida do nosso tempo

Samuel Marinho - Foto divulgação
Livro incorpora linguagem contemporânea em poemas com múltiplas referências culturais e tecnológicas 

Nestes tempos conturbados, no qual a sociedade prima pela velocidade e liquidez, é natural que isso também se reflita nas artes e, destacadamente, na literatura. Na poesia, principalmente. Reflexo disso é o livro Poemas de Última Geração, do poeta Samuel Marinho, que acaba de ser lançado pela Editora Penalux.
“Uma construção poética baseada no uso de termos recorrentes”, define o autor a respeito do livro. “Termos conhecidos do cotidiano atual, que podem ser um convite à renovação da expressão poética pelas novas gerações, sem perder de vista o diálogo com a tradição poética de nossa literatura”, pondera. 
Para Edson Farias, cientista social que fez a apresentação do livro, vê-se na escrita de Samuel Marinho uma obsessão pela forma, da melhor forma, de apresentar o tempo do qual é reflexo, fato e voz. “Dessa maneira, tece uma sofisticada poesia confessional”, continua o autor do texto, “onde a linguagem se revela numa densidade tão arguta quanto aflita, com clara ciência de sua própria voracidade. Os poemas desse livro são vocalizações das possibilidades, limitações e mazelas inerentes ao tempo mais atual. Sobressai espécie de compaixão para com todos nós que, mais que acomodados aos protocolos do idioma da digitalidade, empenhamo-nos em aprender escrever com essa língua, a ponto de podermos – quem sabe? – um dia assinar a nossa vida como uma obra e alcançar a condição de sujeito, de autor das nossas próprias existências”, conclui.
Como destacado no prefácio pelo professor e escritor Marcelo Frota, além do lado político e social, a obra traz também uma construção em cima de referências poéticas e da cultura pop em geral, explorando de forma delicada e atual o conhecimento do leitor, seja através de citações a poetas e personalidades contemporâneas ou não (Augusto dos Anjos, Cecília Meireles, Fernando Pessoa, Frida Kahlo, Caio Fernando Abreu, Belchior, Tiago Iorc, Marília Garcia, dentre outros); de referências a antigos desenhos animados e filmes (Os Jetsons, Os Flintstones, De Volta para o Futuro) que até hoje habitam o imaginário daqueles com trinta e poucos anos ou mais; ou de alusões a títulos mais atuais (Game of Thrones, Black Mirror, Velozes e Furiosos), onde se faz presente o diálogo com a geração mais recente.
Poemas de Última Geração traz uma proposta de linguagem poética que alia forma a conteúdo. Sobressai na forma o uso de termos tecnológicos, de “última geração”, advindos no século XXI (fake news, post, selfie, Google, autocompletes, celulares, touch screen, etc.), mesclando formas tradicionais e clássicas da poesia (soneto, limerick, haicai, poema-piada) a formas contemporâneas de expressão poética (versos espacializados, “poemas-correntes”, “poema-meme”, poemas atribuídos a outrem e versos elaborados a partir do autocomplete do Google). O eixo temático do livro trata de certa distopia antevendo o uso desenfreado das tecnologias digitais, mas ao mesmo tempo, assuntos caros à poesia desde sempre, como amor, solidão, morte e saudade estão presentes.
“Ao enfatizar desde a capa do livro (um smarthphone rachado) as mazelas advindas com o uso das tecnologias digitais e seu impacto na sociedade”, comenta Marinho, “o livro pretende convidar o leitor, através da construção poética proposta, a uma reflexão sobre os rumos da contemporaneidade em diversos aspectos: filosóficos, éticos, psicológicos, políticos e sociais”, finaliza.
Uma poesia ágil, transparente, clara, sutilmente debochada, é o que ofertam esses Poemas da Última Geração. Poesia reflexiva, sem ser pedante nem pesada, uma poesia comoventemente interessada pela vida comum, atual, presente, mas sem se bastar com o fácil ou apelativo, o superficial.

AMOSTRA:

Poesia por todos os séculos amém

que seja o post a poesia mais direta
que o deslize das mãos alcance vida mais concreta
o que será a selfie senão o autorretrato do poeta?

O evento do lançamento está marcado para o dia 06 (quinta-feira) de fevereiro, a partir das 10h. Ocorrerá no Centro Cultural da Justiça Eleitoral do Pará (Rua João Diogo, nº 254 – Campina, Belém/PA).

SOBRE O AUTOR:
Samuel Marinho (São Luís/MA, 1979) é autor do e-book Pequenos Poemas Sobre Grandes Amores (Edição Independente, 2001), Poemas In Outdoors (Editora Penalux, 2018) e Poemas de Última Geração (Editora Penalux, 2019).

SERVIÇOS
Poemas de Última Geração, Samuel Marinho – poesia (126 p.), R$ 38 (Penalux, 2020).
Link para compra:
www.editorapenalux.com.br/loja/poemas-de-ultima-geracao
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