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sexta-feira, 23 de outubro de 2020

Conto "Pronto! Acabou-se!", por Roberto Fiori

 


— Saiam! Saiam do meu quintal! Já! — o dono do hotel bradou, querendo ver se os intrusos eram tão valentes como aparentavam. É verdade que o homem, armado, tinha enorme vantagem sobre os invasores, mas eles tinham o dobro da largura do corpo do humano e eram mais altos. — Vou repetir uma vez, só: saiam, ou serei obrigado a partir para a violência!

Ele levantou a metralhadora-laser e disparou para o céu estrelado. “Flashes” cegantes de luz branca iluminaram a noite, mostrando com clareza os corpos maciços e os rostos toscos, olhos em forma de losango piscando em frenesi. Porém, permaneceram imóveis, as faces em permanente estupefação.

Por sorte, aqueles eram tempos intermediários, entre uma guerra e outra, como acontecia desde o século retrasado. Era a eterna batalha dos homens contra os seres de barro. Ninguém vencia, ninguém perdia. Uma contenda que duraria milhares de anos, ou além. Havia um estado de alerta constante, mas o momento era de uma época de relativa paz.

O dono do hotel podia prever o que aconteceria. Os feixes de laser, sem assustar os inimigos, tinham deixado de funcionar como arma de dissuasão, de uma hora para a outra. E isso era bastante ruim. 

— Ora, seus trogloditas emplumados travestidos de montes de barro! Estou farto de vocês. Vou trazer minha arma de nêutrons e verão que reduzirei a lama de que são feitos a poeira!

O homem brandiu sua arma laser, entrou no chalé principal no parque, onde situavam-se as casas que abrigavam os hóspedes e um “flash” foi visto do lado de dentro. Os alienígenas tinham se espalhado e tentavam entrar nos chalés. Em vários deles, mulheres e homens espreitaram pelas janelas, afastando as cortinas, e fechavam-nas, as mulheres soltando gritinhos e os homens berrando palavrões.

— Vão ver, vão ver, seus vândalos vindos de Alpha Centauri! Vou cozinhar o barro de que são feitos e fazer tigelas de cerâmica com eles — aparentemente, o hoteleiro estava cada vez mais alterado. Ele abriu com força a porta de seu chalé e disparou.

— Viemos... em paz... Viemos em paz... Viemos em paz...

Não era o que se esperaria que as criaturas de barro fizessem, falar com tanta energia, ao se considerar o estrago que uma arma desintegradora de nêutrons podia fazer. O dono do hotel, boquiaberto, ficou vendo enquanto vários seres se aproximavam, devagar, da entrada da casa. Um deles estendeu sua mão disforme e tocou na arma de nêutrons, moldando o barro para envolver o cano do desintegrador. Tirou-o das mãos do homem e dobrou o aço temperado da arma, convertendo-a em um pedaço de metal em forma de “U”.

— O... quê, qu... que significa isso? — o nome do homem era George e pensava como alguma coisa poderia dobrar um artefato feito de aço especial, projetado para suportar pressões de planetas como Júpiter e o calor do centro do Sol.

— Viemos em paz... Viemos em paz... Viemos em paz... Viemos em paz... — era óbvio que George não estava nem aí para o que as coisas queriam dizer. Ele desatou a correr pelo gramado, enquanto as criaturas entraram no chalé, a ladainha acompanhando-os por onde se embrenhavam.

George alcançou seu carro, estacionado em frente ao amplo parque do hotel e ligou o motor. Mal tocou com o pé no acelerador e o automóvel foi projetado dezenas de metros à frente. Pelo espelho retrovisor, o dono do hotel viu quando duas espécies alienígenas se endireitavam, os braços maciços esticados à frente. 

O homem tratou de acelerar seu Ford, que, de resto, estava bastante amassado nas laterais. Comprara-o usado, e, com o tempo, parecia que ficava cada vez mais parecido com uma forma velha para assar pizzas, pães e bolos em uma padaria que funcionasse 24 horas por dia.

George dirigiu o carro, que chacoalhava de modo atroz, até uma bifurcação entre a avenida do hotel e uma rua vicinal. Virou à esquerda e o Ford soltou fumaça negra, parando. O homem apertou repetidas vezes o acelerador e o motor engasgou três vezes, o escapamento estourando alto. George abriu a porta e ela soltou-se da carroceria, ficando dependurada pela mão do humano.

Ele empurrou a porta e ela caiu no asfalto, ao mesmo tempo que, com um som de ranger e quebrar, a carroceria do automóvel se desfez, o porta-malas abrindo, a outra porta do coupé se soltando e se desmanchando no chão e os pneus estourando e se esparramando de lado na avenida. O carro chocou-se contra o asfalto, o capô se abrindo e o motor todo se soltando, o carburador rachando, o radiador estourando, como se fosse feito de papel ou borracha. As janelas se partiram, os bancos se soltando da estrutura e rasgando. 

George olhou estupefato, quando o volante saltou contra o banco estraçalhado e rolou para fora do carro, se equilibrando por um segundo contra sua perna e rodopiando, até que pousou sobre seu pé. Um ruído de borbulhar se ouviu e a tampa do depósito de combustível amassou, dobrou-se, até que foi lançada centenas de metros no ar, acompanhada pela gasolina, jorrando como uma fonte.

--//--

— Cavalo do Rei toma peão do bispo da Dama e... Xeque-Mate!

— Ah! Esta semana você fez esse tipo de cheque contra meu Rei por três vezes! Que droga, cara! — o cabo falou para o sargento da delegacia, os dois jogando enquanto havia uma guerra potencial em andamento, em algum canto do Sistema Solar.

— Leia “A Arte da Guerra”, do Sun Tzu. Vai aguçar seus instintos assassinos.

— Sargento, você é a única pessoa na polícia que joga melhor que eu. O que me diz disso aqui? — o cabo Taylor levantou-se, seu corpanzil ágil alcançando a mochila de trabalho. Tirou “Aprenda a Jogar Xadrez com Bobby Fischer”, um livro de capa dura. 

— Já passei dessa fase, Taylor. Agora leio “Aberturas Clássicas de Xadrez”, de Lizenski. Tome, estude ele e me dê a chance de vê-lo me derrotar.

Um ruído na entrada da delegacia se ouviu. George estava sem fôlego, viera correndo por cinco quarteirões, desde o local onde o Ford se desmantelara. Entrou de supetão na sala onde os dois policiais jogavam xadrez e o sargento se levantou.

— Chegaram! Os seres de lama voltaram e estão em meu hotel. Dobraram o cano de minha arma de nêutrons em um “U”! Não sentiram nada com o disparo da arma contra eles!

— Taylor, chame as Forças Especiais, tem o número na agenda de telefone. George, conte-me em pormenores o que aconteceu, vamos...

Houve um barulho enorme, no terreno baldio ao lado da delegacia, e o Sargento pediu desculpas a George. No exterior da construção, o policial viu-se em meio a escuridão, quando as luzes dos postes e das residências se apagaram. Formas se moviam, eram difusas, de um marrom-claro. O Sargento sacou sua pistola de raios e disparou para todos os lados. Voltou para a delegacia.

— São dúzias deles! Taylor, temos coisa melhor que isso — ele apontou para sua pistola, enfiando-a no coldre. — Vá até a sala de armas e traga o canhão portátil.

George sentara-se em um banco de madeira, onde as visitas dos presos ficavam, antes de serem acompanhadas ao subsolo, onde ficavam as celas. Seu olhar era de dar pena, parecia o desses cachorros abandonados, pedindo comida a quem passasse perto deles. O Sargento Stuart bateu em seu ombro, antes de trancar a delegacia e observar a passagem dos homens de lama pela rua.

O cabo trouxe com dificuldade um aparato que teria deixado qualquer homem comum com uma hérnia de disco nas vértebras. Mas conseguiu, os músculos de seus bíceps se avolumando e as costas encurvadas de modo alarmante.

— Stuart, está aqui!

O Sargento virou a cabeça de onde estava olhando a rua, pela janela da delegacia. 

— Vamos dissolver esses torrões de argila fresca, enquanto podemos. Ligue na tomada, sim, Taylor? 

Este desenrolou um cabo blindado grosso e plugou-o em uma entrada de energia. A máquina, em forma de solenoide, começou a zumbir de modo alarmante, pois o volume aumentava com o passar do tempo. O Sargento ajudou o cabo a levar o canhão até a porta, onde destrancou-a e passaram a arma pela entrada.

— Atenção, Taylor — sussurrou o Sargento. — Depois de ativada, temos um minuto para nos escondermos na delegacia. O canhão destruirá tudo o que se move em um raio de quinhentos metros, para a frente e para os lados. Então, atenção!

O Sargento ativou uma série de chaves e interruptores na base retangular onde o solenoide estava instalado e o zumbido aumentou de intensidade. O solenoide se iluminou. O Sargento ajustou o canhão portátil para “Destruição Total” e saiu correndo em direção ao interior da delegacia, acompanhado pelo Cabo.

Trancaram a porta, fecharam as cortinas da janela e se abaixaram. George se enfiou debaixo do banco de visitas.

O canhão zumbia alto, numa frequência que teria estourado o tímpano dos três homens, mas o ruído atingiu um pico e desceu, desceu, até que parou. O Sargento saiu da construção, viu que o canhão havia enegrecido. Estava frio, o homem constatou, colocando as mãos perto do solenoide. Nas ruas, o silêncio da ausência de qualquer forma de vida.

— Conseguimos?

— Taylor, você tem certeza de que este era o canhão de antimatéria?

— Até onde sei, sim.

— Então me explique porque as luzes estão acesas na rua e não nas casas. E porque metade das casas da rua estão à esquerda da delegacia, quando estavam há pouco à direita. E vice-versa.

O Cabo verificou a máquina e descobriu que ela não era um canhão de antimatéria, mas uma máquina que era usada para teletransportar o que quer que estivesse à sua frente e a seu lado para qualquer outro lugar, num perímetro de quinhentos metros.

Taylor, quando disse isso ao Sargento, pensou que algo estava errado. Mas foi com um espanto de tal modo inacreditável que ouviu o Sargento falar em “Armistício”. O Cabo olhou para Stuart e viu com estupefação, quando seu superior sorriu e piscou o olho direito para ele. 

Afinal, se os alienígenas haviam conseguido vir até o hotel de George, sem que fossem detectados, o que mais seria possível que fizessem?


*Sobre Roberto Fiori:
Escritor de Literatura Fantástica. Natural de São Paulo, reside atualmente em Vargem Grande Paulista, no Estado de São Paulo. Graduou-se na FATEC – SP e trabalhou por anos como free-lancer em Informática. Estudou pintura a óleo. Hoje, dedica-se somente à literatura, tendo como hobby sua guitarra elétrica. Estudou literatura com o escritor, poeta, cineasta e pintor André Carneiro, na Oficina da Palavra, em São Paulo. Mas Roberto não é somente aficionado por Ficção Científica, Fantasia e Horror. Admira toda forma de arte, arte que, segundo o escritor, quando realizada com bom gosto e técnica apurada, torna-se uma manifestação do espírito elevada e extremamente valiosa.

Sobre o livro “Futuro! – contos fantásticos de outros lugares e outros tempos”, do autor Roberto Fiori:

Sinopse: Contos instigantes, com o poder de tele transporte às mais remotas fronteiras de nosso Universo e diferentes dimensões.
Assim é “Futuro! – contos fantásticos de outros lugares e outros tempos”, uma celebração à humanidade, uma raça que, através de suas conquistas, demonstra que deseja tudo, menos permanecer parada no tempo e espaço.

Dizem que duas pessoas podem fazer a diferença, quando no espaço e na Terra parece não haver mais nenhuma esperança de paz. Histórias de conquistas e derrotas fenomenais. Do avanço inexorável de uma raça exótica que jamais será derrotada... Ou a fantasia que conta a chegada de um povo que, em tempos remotos, ameaçou o Homem e tinha tudo para destruí-lo. Esses são relatos dos tempos em que o futuro do Homem se dispunha em um xadrez interplanetário, onde Marte era uma potência econômica e militar, e a Terra, um mero aprendiz neste jogo de vida e morte... Ou, em outro mundo, permanece o aviso de que um dia o sistema solar não mais existirá, morte e destruição esperando pelos habitantes da Terra.
Através desta obra, será impossível o leitor não lembrar de quando o ser humano enviou o primeiro satélite artificial para a órbita — o Sputnik —, o primeiro cosmonauta a orbitar a Terra — Yuri Alekseievitch Gagarin — e deu-se o primeiro pouso do Homem na Lua, na missão Apollo 11.
O livro traz à tona feitos gloriosos da Humanidade, que conseguirá tudo o que almeja, se o destino e os deuses permitirem.

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