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sexta-feira, 20 de setembro de 2019

Sobre o Conto de Ficção Fantástica “Rondam Tigres”, de Ray Bradbury

Ray Bradbury - Foto divulgação
*Por Roberto Fiori

Chatterton tinha a opinião de que um planeta tinha de ser espoliado, envenenado, suas riquezas extraídas à força, rasgado, vilipendiado, violentado. Caso contrário, o planeta acabaria com você. Um planeta é naturalmente mau, não confiável, esperando a um bilhão de milhas no espaço para agarrá-lo e retorcê-lo até não sobrar nada de você. Deveria ser apanhado e subjugado, antes disso.

O foguete, o milionésimo já lançado da Terra, tinha por objetivo averiguar as condições, favoráveis ou não, de se estabelecer uma colônia para extração de recursos. Chatterton representava a companhia extrativista e queria ganhar dinheiro, custe o que custasse. Apontou para Forester, o capitão, um recanto tão verde como nenhum dos tripulantes jamais vira, desde a infância. Lagos dispunham-se como límpidas gotas-d’água através das colinas e campos verdejantes onde se podia jogar o “crocket” pela Eternidade, pois eram campos que se estendiam por todo o planeta.

Chatterton queria, logo que o foguete aterrissou, que desembarcassem a perfuradora. Forester negou-se, dizendo que teriam de averiguar o perímetro para saberem se havia animais ou habitantes hostis. Chatterton falou que não estava gostando do verde em abundância, do silêncio profundo, era tudo demasiado. Deveriam sair com os fuzis. Forester afirmou que quem dava as ordens era ele, e não Chatterton. Este disse que quem pagava os milhões de dólares pela maquinaria e equipamento que trouxeram ao planeta era a companhia, ou seja, ele...

O ar do planeta 7, do Sistema 84, era excelente. Quando foi a vez de Chatterton colocar os pés no solo, este estremeceu. Um terremoto pequeno. Um aviso de que o planeta não gostava do homem. Não o aprovava. O planeta era belíssimo. Uma real e verdadeira mulher, bela e sentimental. Deixaram um homem de guarda na nave e partiram. Atravessaram colinas e montes, campos verdejantes. Como garotos em excursão no mais belo dia do melhor verão, no mais delicioso ano da história, caminhavam com aquele tempo ideal para o jogo de “croquet”, onde, se se prestasse atenção, podia-se ouvir o sussurro da bola de madeira através da relva, seu estalido na meta, as ondulações suaves das vozes, a ressonância súbita de risos femininos vindos do alpendre coberto de hera, o tilintar do gelo na jarra de chá.
Estavam agora sobre um campo em que a grama fora aparentemente cortada há pouco. Forester afirmou que deveria ser um tipo de grama da espécie “diehondra”, que não crescia mais do que isso. Chatterton disse que não estava gostando disso. Ele falou que alguma coisa não estava certa. Se acontecesse alguma coisa com eles, ninguém na Terra jamais saberia. Deveriam mandar um segundo foguete, atrás do que não voltara.

Forester afirmou que isso era perfeitamente lógico. No universo de milhares de mundos hostis, onde se enviavam naves de exploração, era fútil enviar mais de uma nave para cada mundo. Eles continuavam a visitar somente planetas  pacíficos, como este.

Driscoll era um dos membros mais jovens da tripulação. Falou que muitas vezes se perguntava o que teria ocorrido com as expedições que nunca haviam voltado. Chatterton respondeu que foram fuzilados, apunhalados, assados e comidos num jantar. Como poderia acontecer com eles a qualquer momento. Falou que estava na hora de voltarem ao trabalho.

Driscoll, ao pararem no alto de uma elevação, recordou os tempos em que se pensava que podia-se voar, simplesmente abrindo os braços ao vento, como ele estava fazendo agora. Os homens ficaram recordando. Havia uma fragrância de pólen e de recentes gotas de chuva secando sobre um milhão de hastes de grama. Driscoll deu uma corridinha. E flutuou. E voou. Depois que pousou no chão, ofegante, vibrando de prazer, Chatterton falou que era uma armadilha. Que queriam que voassem para derrubá-los no chão. E disse que voltaria à nave. Mas o capitão redarguiu, dizendo que teria, para isso, de esperar ordens dele. Forester disse que iria se arriscar a voar. Se morresse, os homens tinham ordens de voltar à nave.

Chatterton sacou sua arma. Disse a Forester que ele não podia correr o risco, era o capitão. Ordenou que todos voltassem à nave. O capitão falou para ele guardar a arma, com tranquilidade. Chatterton, os olhos correndo rapidamente de um para outro homem, disse que o planeta era todo ele um organismo vivo. Esperando para matá-los. Chatterton falou que voltaria ao foguete, retiraria amostras e voltaria à Terra. Ele correu e voou.
Quando a noite chegou, todos estavam sentados na colina. Em vez de voltar direto para o foguete, Chatterton tonteara com o voo e pousara. Driscoll havia retornado, voando, de um riacho onde havia água pura. Sabia a vinho branco de alta qualidade. Chatterton afirmou que era veneno, mas bebeu, assim mesmo. Logo, quis voltar à nave. Forester disse que iria com ele. Chatterton dobrou-se em dois e exclamou:

— Estou envenenado! Envenenado!

Ele se recuperou e, titubeando, caminhou para o foguete. Lá, tirou a Perfuradora do depósito e começou a abrir um buraco no solo verde. Não demorou muito e alcatrão subiu pelo buraco. A Perfuradora começou a afundar. Chatterton escapou e a máquina foi tragada. Ele disse:

— Vou dar um jeito nele! — referindo-se ao planeta.

Chatterton havia levado a máquina a um local um pouco afastado do foguete. Um bosque se interpunha entre ele e a nave. Temendo que o homem desesperado chegasse ao foguete e armasse a bomba atômica que haviam trazido, os homens de Forester voaram e chegaram antes de Chatterton à nave. Trancaram o foguete esperaram. Começou a chover. Mas não chovia nos homens, e sim, ao largo deles. Eles ficaram secos, enquanto a torrente varria o resto da paisagem.

Ficaram discutindo se o que seria melhor, voltarem à Terra, onde havia poluição, contas a pagar, impostos, vida estressante, ou permanecerem naquele Jardim do Éden. Forester disse que enlouqueceriam, ao que um dos tripulantes respondeu que era só pensarem “Rondam tigres”. Nisso, ouviram um rosnado baixo, vindo do bosque. Chatterton não havia voltado do bosque.

Um pouco depois, averiguaram que havia marcas de patas de um grande animal e resquícios de sangue. Concluíram que o planeta, ou a mulher que vivia como essência dele, eliminara Chatterton. Ele tentara agredi-la e ela respondera à altura. Forester pensou estava sozinho, lastimando-se. E sons de vozes de mulheres chegou-lhe à mente, ao longe, nas margens de um regato.

Eles todos pensaram o mesmo, que deveriam ficar no planeta e constituir uma família. Mas Forester tinha dúvidas. Tinha um trabalho a fazer e diria à companhia que o planeta era hostil, isso para preservá-lo de outras expedições, que a partir de então nunca viriam. Quando o foguete entrou em órbita, eles puderam ver dinossauros, mamutes, vulcões em erupção na superfície.

Driscoll havia ficado no planeta. Abraçara de bom grado tudo o que o mundo oferecia, aceitando o carinho da mulher que o planeta na verdade era. Como ele não agredira o planeta, Forester pensou que ele dispunha de toda uma vida de alegrias para viver. E concluiu que as coisas que se via do foguete na superfície eram direcionadas apenas aos tripulantes, e que jamais poderiam voltar ao planeta. Mas com Driscoll, as alucinações não existiam. O que ele queria, o que ele desejasse, aquele mundo concederia a ele.

“Rondam Tigres”, conto do mestre da Ficção Científica Fantástica, foi publicada em português no Brasil pelas Edições Ficção Científica GRD — Gumercindo Rocha Dorea —, na coletânea “Amor Dimensão 5”.

Um estilo poético, dramático e corrosivo marca a obra de Bradbury. Ele escreve prosa com requintes de poesia, escolhendo cada palavra de sua obra como se ela fosse um objeto de valor inestimável. Nada é deixado de lado nos contos e romances de Bradbury. Ele sabe exatamente como cativar a atenção do leitor, sem cair em lugares-comuns, repetições exaustivas de palavras, situações que beiram o absurdo. Tudo é lógico, tudo é perfeitamente encaixado para que surja uma história muito bem escrita, em termos de estética. Mas Bradbury é voltado mais à parte Fantástica, da Fantasia em si. A tecnologia está em segundo plano; a parte humana, o drama de situações insólitas, são características suas, ao lado de uma crítica social frente ao porvir que jamais se poderia pensar que se escrevesse.

Assim, em “Rondam Tigres”, um planeta virgem, literalmente um organismo vivo, é ameaçado por um terrestre interessado em ganhar dinheiro, com a exploração dos recursos deste mundo. O planeta reage, eliminando o terrestre, por meio de um tigre, que um dos tripulantes da nave que os trouxe imagina. Nesse ponto fica a questão: a Terra vem sendo dizimada por países em que indústrias, milhões de automóveis, poluição que destrói os oceanos — principal fonte de oxigênio do mundo, devido aos plânctons! — e o mesmo poderá ocorrer, ao colonizarmos mundos habitáveis. Isso se ultrapassarmos a infância do Homem, onde ele está em vias de desaparecer sob uma série de ameaças que ele mesmo criou para si.

“Rondam Tigres”, de certa forma concede ao leitor o benefício da alternativa à destruição de novos e virginais mundos. Apenas é questão de dizer que tal planeta é hostil à vida humana, que os problemas se acabam, não se enviando mais naves de exploração.

“Rondam Tigres” é, decerto, uma volta aos sonhos de infância do Homem, em que ele obtém tudo por livre vontade. E, para isso, para que um membro da tripulação possa permanecer no planeta, os outros tripulantes devem voltar à inóspita Terra, para relatar a suposta hostilidade do planeta idílico.


*Sobre Roberto Fiori:
Escritor de Literatura Fantástica. Natural de São Paulo, reside atualmente em Vargem Grande Paulista, no Estado de São Paulo. Graduou-se na FATEC – SP e trabalhou por anos como free-lancer em Informática. Estudou pintura a óleo. Hoje, dedica-se somente à literatura, tendo como hobby sua guitarra elétrica. Estudou literatura com o escritor, poeta, cineasta e pintor André Carneiro, na Oficina da Palavra, em São Paulo. Mas Roberto não é somente aficionado por Ficção Científica, Fantasia e Horror. Admira toda forma de arte, arte que, segundo o escritor, quando realizada com bom gosto e técnica apurada, torna-se uma manifestação do espírito elevada e extremamente valiosa.

Sobre o livro “Futuro! – contos fantásticos de outros lugares e outros tempos”, do autor Roberto Fiori:

Sinopse: Contos instigantes, com o poder de tele transporte às mais remotas fronteiras de nosso Universo e diferentes dimensões.
Assim é “Futuro! – contos fantásticos de outros lugares e outros tempos”, uma celebração à humanidade, uma raça que, através de suas conquistas, demonstra que deseja tudo, menos permanecer parada no tempo e espaço.

Dizem que duas pessoas podem fazer a diferença, quando no espaço e na Terra parece não haver mais nenhuma esperança de paz. Histórias de conquistas e derrotas fenomenais. Do avanço inexorável de uma raça exótica que jamais será derrotada... Ou a fantasia que conta a chegada de um povo que, em tempos remotos, ameaçou o Homem e tinha tudo para destruí-lo. Esses são relatos dos tempos em que o futuro do Homem se dispunha em um xadrez interplanetário, onde Marte era uma potência econômica e militar, e a Terra, um mero aprendiz neste jogo de vida e morte... Ou, em outro mundo, permanece o aviso de que um dia o sistema solar não mais existirá, morte e destruição esperando pelos habitantes da Terra.
Através desta obra, será impossível o leitor não lembrar de quando o ser humano enviou o primeiro satélite artificial para a órbita — o Sputnik —, o primeiro cosmonauta a orbitar a Terra — Yuri Alekseievitch Gagarin — e deu-se o primeiro pouso do Homem na Lua, na missão Apollo 11.
O livro traz à tona feitos gloriosos da Humanidade, que conseguirá tudo o que almeja, se o destino e os deuses permitirem.

Para adquirir o livro:
Diretamente com o autor: spbras2000@gmail.com
Livro Impresso:
Na editora, pelo link: Clique aqui.
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E-book:
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segunda-feira, 22 de julho de 2019

O mundo perdido dos pulp fiction - por Gian Danton



Há uma ideia generalizada de que os pulp fiction são uma forma menor de literatura. Muitos, inclusive, traduzem o termo como literatura barata. Nada mais falso. Em mais de um século de existência, os pulp publicaram alguns dos grandes autores de sua época e revelaram grandes nomes da literatura.
A história dos pulps começa em 1896, quando o editor Frank Monsey resolveu transformar uma revista para meninos, The Argosy, numa revista de ficção adulta com formato de 17 por 25 cm. O papel, de péssima qualidade e altamente descartável, era feito da polpa da árvore, daí o nome pulp. A publicação custava apenas um centavo. Mais tarde, alguns pulps chegariam a custar até 20 centavos.
Os pulps surgiam como uma opção de leitura e diversão para uma grande massa de trabalhadores que emigrava do campo para a cidade, formando o que seria chamado de sociedade de massas. O salário médio de um operário era de 7 dólares semanais e o preço dos pulps não pesavam no bolso. Em 1907 The Argosy já vendia 500 mil exemplares. Preço baixo e grandes tiragens seriam a receita de sucesso dos pulps até meados do século passado.
O mesmo Munsey iria lançar uma das mais célebres publicações no gênero: All-Story Magazine. Foi nessa revista que Edgar Rice Burroughs lançou em 1912 a história “Sob as luas de Marte”, com o personagem John Carter de Marte. Pouco depois ele criou, para a mesma revista, um personagem que se tornaria uma lenda do século XX: Tarzan.
A partir da década de 20 os pulps entraram em decadência devido à concorrência do rádio e do cinema. A reação dos editores deu origem a uma das eras mais prolíferas do gênero: as revistas passaram a ser temáticas. Surgiram revistas sobre crimes, ficção científica, terror, faroeste e até revistas sobre submarinos e zepelins.
As revistas de crime revelaram um dos maiores escritores norte-americanos: Dashiell Hammett, autor de O Falcão Maltes e criador do romance noir. Esse novo tipo de história mudava a ótica das histórias policiais, tornando-as mais realistas. A linguagem seca e rápida de Hammett teria grande influência sobre escritores badalados, como o brasileiro Ruben Fonseca.
As revistas de ficção-científica revelaram nomes como Isaac Assim e Ray Bradbury. Posteriormente essas revistas passariam por uma reformulação editorial e se tornariam mais elitistas, como o são hoje.
Mas o que ficou marcado na mente das pessoas foram os personagens criados para essas revistas. Além de Tarzan, muitos outros desfilaram pelas páginas dos pulp fictions: O Sombra, Doc Savage, Capitão Futuro, Conan, Buck Rogers, Fu Manchu e muitos outros.
Esses personagens seriam uma virada nos pulps e talvez sem eles esse tipo de revista não teria alcançado tanto sucesso numa época em que a crise econômica arrasava o mundo inteiro.
O Sombra é um bom exemplo dessa nova perspectiva. O personagem surgiu em um programa de rádio. Ele era o apresentador de um programa baseado nas narrativas da revista Histórias de Detetive. No dia 31 de julho os norte-americanos se espantaram com um voz cavernosa que ria e dizia: “Quem sabe o mal que se esconde no coração dos homens? O Sombra sabe”.
O editores esperavam que o programa alavancasse as vendas da revista. Mas as pessoas iam às bancas procurando justamente as aventuras daquele personagem misterioso. Daí para que o personagem se tornasse uma estrela dos pulps foi um pulo. O escritor  Walter Gibson, sob o pseudônimo de Maxwell Grant escreveu nada menos que 283 histórias do personagem, transformando-o num fenômeno mundial. Até no Brasil o Sombra chegou a ter um programa de rádio.
O Sombra daria a tônica do que seriam os heróis dos pulps: um herói destemido e misterioso que combate o mal ajudado por uma equipe de especialistas.
Esse seria o mesmo mote de Doc Savage. Desde sua infância Savage cultivou o corpo e o intelecto, tornando-se um gênio e ao mesmo tempo um atleta. Além disso, sua pele tem uma coloração bronzeada que lhe valeu o apelido de Homem de Bronze. Em suas aventuras ele contava com a ajuda de cinco amigos e juntos combatiam o mal com muita coragem e os mais avançados aparelhos tecnológicos.
Savage migrou para o cinema, e para os quadrinhos, sempre com muito sucesso.
Capitão Futuro, criado por Edmond Hamilton, é outro personagem que fez história, agora num cenário de ficção científica.
A história se passa na década de 1990.
Capitão Futuro é um verdadeiro um super-homem, com visão esplêndida, reflexos super-desenvolvidos e gênio super-desenvolvido. De sua base na Lua ele vive as mais extraordinárias aventuras ao lado de seus três companheiros: Um robô pensante feito à sua própria semelhança; Simon Wright, a enciclopédia viva, um cientista que para se livrar de uma doença fatal, teve seu cérebro transplantado para um tanque e Otho um guerreiro de cristal que muda de forma quando é necessário.       
A primeira história começa com um parágrafo que dá o tom épico do personagem: “O nome e a fama do Capitão Futuro são conhecidos por todo homem e mulher viventes. As incríveis façanhas do mais assombroso aventureiro da história serão narrados enquanto existir a humanidade”.
A mitologia criada pelos pulps é tão forte que impregnou o cinema, os quadrinhos e a imaginação de milhões de pessoas no mundo todo. De Indiana Jones ao Super-homem, a cultura pop deste século deve muito aos pulp fictions.

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sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Dragões, sobre um conto de Ray Bradbury


*Por Roberto Fiori

Dois cavaleiros medievais, numa campina, no meio do nada. Há muitas Eras não mais se criava vida na Terra, e há séculos não se ouvia um piado sequer de uma ave, no céu. Era noite. Um monstro vivia no meio do descampado: um dragão feroz, selvagem, que esmagava as pessoas, queimava a relva seca com jatos de fogo e devorava quem se atrevesse a viajar temerariamente entre as cidades.
Seria melhor, talvez, que os cavaleiros voltassem para seu castelo. Não durariam uma hora sequer, com o dragão à solta. Um único olho amarelado, soltando fumaça e fogo pelas ventas, as garras poderosas...
Mas a tarefa dos dois homens era clara, não havia tempo para fugirem e se esconderem. Um dos cavaleiros não se lembrava mais em que ano estavam, ao que o outro respondeu: “Aquele era o ano 900 após a Natividade”.
Mas o que fizera a pergunta redarguiu, atemorizado: Não, nessa planície desolada e esquecida, o tempo não mais existe. As pedras com que se construíram os castelos estão de volta nas pedreiras, os homens, mulheres e crianças das cidades ainda não nasceram e as próprias vilas e cidades não existem, ainda.
Nisso, ouvem um rugido, vindo da escuridão. Os dois cavaleiros colocam as armaduras e luvas de metal e montam nos cavalos, já selados. Avançam em direção ao monstro, seu único olho amarelado queimando, o rugido fazendo tremer o solo. Rasga a noite, vindo a toda velocidade. Um dos cavaleiros atinge o dragão bem abaixo do olho com a lança, mas é lançado longe pelo ricochete. O dragão esmaga-o, mata-o. O segundo homem atinge o monstro e é arremessado contra rochas.
O dragão continua seu avanço. Um dos maquinistas, dentro dele, comenta que vira dois cavaleiros se lançando em ataque contra a máquina. Não é possível!, comenta outro. Toquei a buzina, sem parar. E não teria freado nem por nada deste mundo, aqui nesse lugar ermo é perigoso parar...
Assim, o comboio segue viagem à toda, enfiando-se no desfiladeiro que se assoma perante os dois maquinistas. A fumaça espessa que lança no ar faz tudo parar, tudo estagnar.

Esta é a sinopse do conto O Dragão (The Dragon), do poeta máximo da Fantasia e Ficção Científica Ray Bradbury. Publicado em Pesadelo Galáctico – Antologia de Histórias Espantosas, uma edição portuguesa da Cidade do Porto, em 1977. Bradbury dizia que sua obra, como um todo, fora fortemente influenciado por Edgar Rice Burroughs, Jules Verne e Edgar Allan Poe.
Seu trabalho na área do fantástico foi excepcional. Escreveu contos, romances, teve um de seus trabalhos — o romance distópico Fahrenheit 451 — adaptado para o cinema, bem como The Illustrated Man, que não teve críticas muito favoráveis. Fahrenheit 451 foi dirigido por François Truffaut, e veio a ser um clássico da Ficção Científica.
Também várias de suas obras vieram a ser adaptadas para o teatro, rádio e televisão. Inclusive, em 1984, Michael McDonough, da Brigham Young University, criou uma adaptação em áudio que incluía 13 histórias de Bradbury bastante famosas, como “Here There Be Tygers”, “A Sound of Thunder” e “The Machineries of Happiness”. Nessa antologia para o áudio, o próprio Bradbury fazia a voz de abertura. O programa ganhou um Prêmio Peabody e dois Prêmios Gold Cindy.
Em 2007, o escritor ganhou o Prêmio Pullitzer.

Os Dragões sempre tiveram enorme importância nas crenças e mitos da Antiguidade: foram adorados em 40.000 anos a.C., por aborígenes pré-históricos australianos. Estes os reverenciavam como deuses, como criadores do mundo, de forma positiva. Nas lendas nórdicas, celtas, germânicas, os Dragões são imagens muito comuns, bem como nas culturas da Antiguidade. Na antiga Mesopotâmia e na Pérsia, eram considerados criaturas do mal. Na Bíblia, fala-se nos Dragões como encarnações de Satanás. Na Polinésia, na Índia e entre os astecas, eram vistos como deuses. Na Grécia Antiga, o escritor Filóstrato, na obra “Vida e Obra de Apolônio de Tiana”, descreve os Dragões da Índia em vários capítulos, pormenorizadamente.
Na Europa, nas lendas e mitos gregos os Dragões eram retratados como adversários de grandes heróis, como Hércules e Perseu. Cuchulain e outros guerreiros celtas lutaram contra Dragões. Serpentes marinhas, como Jormungand, eram temidas pelos vikings. A proa de seus navios apresentava sempre um Dragão entalhado, para afastar tais serpentes. A lenda nórdica de Siegfried e o anão Fafnir fala que Fafnir se transformou em um Dragão para enfrentar Siegfried, e foi derrotado. Siegfried assou e devorou uma parte do coração da criatura e adquiriu a capacidade de se comunicar com os animais.
Na Idade Média, nos bestiários — catálogos da Igreja que descreviam o aspecto e os hábitos de animais reais e fantásticos — aparecia a figura do Dragão. São Jorge teria matado um deles. Na Romênia, dizem ainda que há essas criaturas nas Florestas da região da Transilvânia.
Foi dito, no Século XXI, que os Dragões realmente existem, e seriam a evolução de certos répteis. O fogo expelido pelo seu hálito seria o resultado da queima de gases, como o metano, que o estômago dos Dragões conteria, assim como nós mesmos, humanos, produzimos gases em nosso interior.
No cinema, foi apresentada a ideia de Dragões na obra “O Hobbit”, de J. R. R. Tolkien, na figura do Dragão Smaug. Na série de livros “Crônicas de Gelo e Fogo”, de George R. R. Martin, em filmes como Reino de Fogo, filme apocalíptico no qual a Humanidade foi quase dizimada pelos répteis. Nas Crônicas de Nárnia, há uma passagem que fala de um Dragão e na série de livros Como Treinar Seu Dragão, de Cressida Cowell, fala-se do treinamento de um Dragão, pelo personagem principal. J. K. Rowling introduziu a figura dos Dragões em sua série de livros de Harry Potter, transformada em série cinematográfica.
Os Dragões representam, então, em parte, a ideia da liberdade e do poder que o Homem tenta atingir. Não se explica, porém, como a adoração ou o medo deste ser chegou a lugares tão longínquos, como a China e a Índia.
Mas o que se sabe é que a ideia do Dragão inspirou escritores e cineastas, criadores de jogos de RPG e é visto hoje em dia de modo admirador por quem gosta da Literatura Fantástica e do Cinema Fantástico. É parte integrante de um grande número de romances e contos de Fantasia, em especial quando a cultura no qual o Dragão é inserido está em um nível medieval ou mais antigo.


*Sobre Roberto Fiori:
Escritor de Literatura Fantástica. Natural de São Paulo, reside atualmente em Vargem Grande Paulista, no Estado de São Paulo. Graduou-se na FATEC – SP e trabalhou por anos como free-lancer em Informática. Estudou pintura a óleo. Hoje, dedica-se somente à literatura, tendo como hobby sua guitarra elétrica. Estudou literatura com o escritor, poeta, cineasta e pintor André Carneiro, na Oficina da Palavra, em São Paulo. Mas Roberto não é somente aficionado por Ficção Científica, Fantasia e Horror. Admira toda forma de arte, arte que, segundo o escritor, quando realizada com bom gosto e técnica apurada, torna-se uma manifestação do espírito elevada e extremamente valiosa.

Sobre o livro “Futuro! – contos fantásticos de outros lugares e outros tempos”, do autor Roberto Fiori:

Sinopse: Contos instigantes, com o poder de tele transporte às mais remotas fronteiras de nosso Universo e diferentes dimensões.
Assim é “Futuro! – contos fantásticos de outros lugares e outros tempos”, uma celebração à humanidade, uma raça que, através de suas conquistas, demonstra que deseja tudo, menos permanecer parada no tempo e espaço.

Dizem que duas pessoas podem fazer a diferença, quando no espaço e na Terra parece não haver mais nenhuma esperança de paz. Histórias de conquistas e derrotas fenomenais. Do avanço inexorável de uma raça exótica que jamais será derrotada... Ou a fantasia que conta a chegada de um povo que, em tempos remotos, ameaçou o Homem e tinha tudo para destruí-lo. Esses são relatos dos tempos em que o futuro do Homem se dispunha em um xadrez interplanetário, onde Marte era uma potência econômica e militar, e a Terra, um mero aprendiz neste jogo de vida e morte... Ou, em outro mundo, permanece o aviso de que um dia o sistema solar não mais existirá, morte e destruição esperando pelos habitantes da Terra.
Através desta obra, será impossível o leitor não lembrar de quando o ser humano enviou o primeiro satélite artificial para a órbita — o Sputnik —, o primeiro cosmonauta a orbitar a Terra — Yuri Alekseievitch Gagarin — e deu-se o primeiro pouso do Homem na Lua, na missão Apollo 11.
O livro traz à tona feitos gloriosos da Humanidade, que conseguirá tudo o que almeja, se o destino e os deuses permitirem. 

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segunda-feira, 2 de julho de 2018

Resenha: Fahrenheit 451 de Ray Bradbury

“A magia está apenas no que os livros dizem, no modo como confeccionavam um traje para nós a partir de retalhos do universo.” (trecho de Fahrenheit 451)


Olá leitores! Em meu primeiro post compartilho com vocês, uma obra que considero admirável e instigante: Fahrenheit 451 do autor Ray Bradbury.
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