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sábado, 8 de maio de 2021

Priscila M. Mariano e o livro “Guerra Entre Mundos”


Priscila Marcia Mariano nasceu em 03 de outubro de 1960, em São Paulo. Veio morar no Rio de Janeiro com dez anos, onde iniciou seu amor pelos livros, assim como pela escrita. Seus livros sempre focando em ficção, fantasia, principalmente, para o publico infanto-juvenil e adulto jovem. Sua carreira teve estreia em 2009, com a publicação de dois livros: Rino o Guerreiro Alado e Um mistério na Serra do Mar. Em 2016, A Saga de um Pintor, romance/drama, chegou ao publico através de Inocência Perdida. Participou de várias antologias no decorrer de sua carreira literária. Este ano, 2021, apresenta aos leitores Guerra entre Mundos. Uma fantasia para todas as idades.

ENTREVISTA:

Conexão Literatura: Poderia contar para os nossos leitores como foi o seu início no meio literário?

Priscila M. Mariano: Desde muito jovem, antes mesmo de aprender a ler, contava histórias inventadas na hora. Fui escrever meu primeiro poema aos oito anos e comecei a escrever história, na época, fantasia, depois disso. Aos quinze já tinha várias histórias engavetadas, em papel de caderno e, ou ofício. Só vim a publicar em 2009 meus primeiros livros de ficção fantástica. Aos poucos enveredei para outros gêneros, incluindo contos. 

Conexão Literatura: Você é autora do livro “Guerra Entre Mundos”. Poderia comentar? 

Priscila M. Mariano: É uma história cativante. Sempre quis um tema deste estilo, onde seres humanos poderiam interagir com outras formas de vida. Buscando demonstrar que devemos não ter preconceito das pessoas que são diferentes. A união faz a força de um povo... Imagina qual força surgiria se todos, humanos ou não, lutassem pela salvação da Terra. Este é o tema central da história. Amizade, amor e dedicação para com todos e para consigo mesmo. É uma leitura de tirar o fôlego. 

Conexão Literatura: Como foram as suas pesquisas e quanto tempo levou para concluir seu livro? 

Priscila M. Mariano: Escrevi Guerra Entre Mundos em 2019. Depois de revisado várias vezes, mudado algumas coisas, em 2020 entreguei o original, a Edições Vila Rica. O processo de escrita foi rápido, pois as únicas pesquisas que fiz relacionado ao livro, foram regiões, cidades, ruas e países, e suas características estruturais. O tema central surgiu através do imaginário. Apenas me sentava a frente do computador e escrevia. 

Conexão Literatura: Poderia destacar um trecho que você acha especial em seu livro?  

Priscila M. Mariano: 

Era questão de tempo Kiron invadir a fortaleza e ficar preso nela. Era este o plano. Enquanto as Sentinelas e alguns guerreiros dessem luta contra as Bestas, a armadilha seria acionada e tudo destruído. Apenas os da elite sabiam disso. O risco que haviam passado até então tinha sido sanado. Agora Kiron só sabia o que a resistência queria que ele soubesse. Em seguida, dariam um jeito nos espiões que ainda circulavam entre eles. Isso seria para depois que eles conseguissem o seu intento, escapar do destino que Kiron queria para eles. Anton tremeu nas bases, sabia que desta vez Kiron não iria matá-los com rapidez, provavelmente, utilizaria todos os seus recursos de tortura para fazê-los sofrer. Ele estava com ódio. Pressentia isto. Seguiu Chiva que se deslocava entre os seus e dava ordens sem emitir qualquer som, não havia necessidade, as demais Sentinelas sabiam o que tinham que fazer. E então, quando o alerta de invasão eclodiu pelo complexo, ninguém foi pego de surpresa e todos agiram com calma e discernimento, sem atropelos.

— “Está na hora de você partir.”

Anton concordou e, acompanhado por duas Sentinelas, aventurou-se entre os guerreiros e avançou em direção ao cômodo onde estava o portal. E apesar de sentir-se um covarde, não ousou desobedecer Chiva. Seus irmãos já tinham sido deslocados mais cedo, ele era o único que ousara ficar até o último momento e não se arrependia disso. Estava pronto para abrir o portal e entrar, quando se viu diante de um guerreiro Lobiano que havia simples mente barrado sua passagem e erguido a mão, onde ostentava uma faca curva, já com sangue.

Anton estremeceu e fez a única coisa que pôde naquele momento, gemeu agoniado, em busca da ferida que aquele desgraçado havia lhe feito e viu o sangue escorrer de seu peito. Só então sentiu a dor e começou a desfalecer.

— “Anton?!”

As sentinelas o pegaram antes que ele caísse e, com isto, esqueceram-se do traidor que já escapava entre os guerreiros que não haviam percebido nada.

— “Você deve matá-lo!” — sussurrou Anton para uma das sentinelas que imediatamente se prontificou a fazê-lo.

Conexão Literatura: Como o leitor interessado deverá proceder para adquirir o seu livro e saber um pouco mais sobre você e o seu trabalho literário? 

Priscila M. Mariano: Guerra Entre Mundos pode ser encontrado no Amazon (E-book) e nas Edições Vila Rica (Físico), e com a autora. Assim como neste link: 

Amazon: https://www.amazon.com.br/gp/product/B08SVQD952

Vila Rica: https://www.edicoesvilarica.com.br/guerra-entre-mundos

Links para descobrir um pouco mais sobre eu e meus livros: 

https://www.facebook.com/priscilamarcia.mariano

https://www.instagram.com/priscilamarciamariano/

Conexão Literatura: Existem novos projetos em pauta? 

Priscila M. Mariano: Sim, alguns. Tenho dois livros começados, um romance de época e uma fantasia. 

Perguntas rápidas:

Um livro: Médico de Homens e de Almas.

Um (a) autor (a): Pedro Bandeira.

Um ator ou atriz: Fernanda Torres

Um filme: Filadélfia 

Um dia especial: Natal.

Conexão Literatura: Deseja encerrar com mais algum comentário? 

Priscila M. Mariano: “Leiam os autores nacionais! Há muitas histórias maravilhosas, é só dar a oportunidade a cada um de nós. Vamos prestigiar a literatura nacional”.

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domingo, 2 de maio de 2021

Participe da antologia (e-book) FICÇÃO CIENTÍFICA - CONTOS E POEMAS. Leia o edital


PARTICIPE DA ANTOLOGIA (E-BOOK): FICÇÃO CIENTÍFICA - CONTOS E POEMAS

REGRAS PARA PARTICIPAÇÃO NA ANTOLOGIA DIGITAL "FICÇÃO CIENTÍFICA - CONTOS E POEMAS":

1 - Escrever um poema ou conto de ficção científica (futuro, passado ou presente), sobre qualquer assunto: viagens no tempo, alienígenas, outros mundos, robôs, OVNIs, etc. Aceitaremos até 2 contos ou 2 poemas por autor. Caso sejam aprovados, os 2 textos serão publicados.

2 - SOBRE O CONTO OU POEMA: até 4 páginas, fonte Times ou Arial, tamanho 12, incluindo título. Espaçamento 1,5.
     
3 - Tipo de arquivo aceito: documento do Word (arquivos em PDF serão deletados).

4 - O conto ou poema não precisa ser inédito, desde que os direitos autorais sejam do autor e não da editora ou qualquer outra plataforma de publicação.

5 - Idade mínima do autor para participação na antologia: 18 anos completos. Menores de idade irão precisar de autorização dos pais ou responsável, caso o conto ou poema seja aprovado.

6 - Envie o conto ou poema pré-revisado. Leia e releia antes de enviá-lo.

7 - Data para envio do conto ou poema: do dia 19/04/21 até 19/05/21.

8 - Veja ficha de inscrição no final desse texto. Leia, copie as informações e preencha. Envie as informações da ficha + o conto ou poema para o e-mail: contato@edgarallanpoe.com.br. Escreva no título do e-mail: FICÇÃO CIENTÍFICA - CONTOS E POEMAS

CUSTO PARA O AUTOR:

R$ 50,00 por conto ou poema. Caso o autor envie 2 poemas ou 2 contos e tenha os dois selecionados, o valor será R$ 100,00. As informações para depósito serão informadas ao autor no e-mail que enviaremos caso o conto ou poema seja aprovado.
O valor servirá para cobrir os custos de leitura crítica e revisão, diagramação e divulgação da obra.

A antologia será digital (e-book) e gratuita para os leitores baixarem através de download, ela não será vendida. A antologia será amplamente divulgada nas redes sociais da Revista Conexão Literatura: Fanpage e Grupos do Facebook, Instagram e Twitter, que somam cerca de 200 mil seguidores.

O resultado será divulgado no site www.revistaconexaoliteratura.com.br e na fanpage www.facebook.com/conexaoliteratura, até o dia 21/05/21 (a data poderá ser prorrogada).

OBS: Enviaremos certificado digital de participação para os autores selecionados.


NOSSOS CRITÉRIOS PARA AVALIAÇÃO:

A) - Criatividade;

B) - Textos preconceituosos, homofóbicos, racistas ou que usem palavras de baixo calão, serão desconsiderados;

C) - Seguir todas as regras para participação.

OBS.: Ademir Pascale, idealizador do concurso, disponibilizou para download uma apostila intitulada "Oficina Jovem Escritor", com dicas para quem está iniciando no mundo da escrita. Baixe gratuitamente, leia e pratique: CLIQUE AQUI.


FICHA DE INSCRIÇÃO DO AUTOR(A)

Nome completo do autor(a):

Seu Pseudônimo (caso use), para publicação na antologia:

Idade:

Título do conto ou poesia:

E-mail 1:
E-mail 2 (caso tenha):

Biografia em terceira pessoa (escreva sobre você num máximo de 7 linhas):
 

IMPORTANTE: Envie todas essas informações da ficha de inscrição para o e-mail: contato@edgarallanpoe.com.br. Escreva no título do e-mail: FICÇÃO CIENTÍFICA - CONTOS E POEMAS

O envio da ficha de inscrição + poesia ou conto para o e-mail indicado significa que o autor(a) leu todas as informações e regras dessa página para participação na antologia. Se entrarmos em contato, por favor responda o e-mail.

Não fique fora dessa. O concurso cultural será amplamente divulgado nas redes sociais.

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OBS.: para conhecer e participar de outras de nossas antologias: clique aqui.


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sexta-feira, 30 de abril de 2021

Conto "Fogo na Floresta", por Roberto Fiori


É tarde da noite... ruídos estranhos alcançam-nos... É tarde da noite... seres da Floresta sussurram:

“Ei, vocês, o que estão fazendo?

Larguem esses brinquedinhos de mentira e retirem-se!

Aqui é o Lar das Criancinhas abandonadas...

Fora daqui, fora daqui!

Agora, ou eu os espicaçarei com este pedaço de pau!”

Antiga Cantiga de Assombração, Livro dos Sussurros e Segredos, Século XXII, 11º Volume, Página 505.


Geraldine era uma mulher de rara beleza. Sabia que um dia sofreria as vicissitudes do Tempo, mas, para isso, preparara-se. Tinha suas artimanhas. Um broche de veludo, herança de família, uma rosa nos cabelos, o pó-de-arroz, o ruge e o rímel que sobraram de antes da Guerra, unhas belamente esmaltadas com esmalte fabricado das árvores que se tinha permissão para serem aproveitadas, perfumes extraídos de flores, uma roupa alegre e descontraída. As pernas, braços e o decote deveriam ser nem escandalosos e colocados à mostra, nem cobertos por inteiro com tecidos puritanos.

A mulher seria um dia coroada na passarela do concurso Miss-Universo? Só se isso fosse feito por sua livre vontade, e ela se considerava jovem o bastante para tentar, velha o suficiente para perder, e com um temperamento moderado, o que a fazia uma pessoa não tão extravagante e, ao mesmo tempo, relutante.

Sua tez da cor dourada do feno enrugou-se, quando ela viu o cartaz. Era o anúncio de uma festa que ocorreria nas imediações da Vila de Sommerville, onde morava. Em cinco dias, os moradores do povoado deveriam seguir para a rodovia e caminhar uns dois quilômetros pela trilha entre o bosque, margeando a autoestrada. Ela sentiu-se uma pessoa diferente, belicosa e raivosa, ao cruzar com o cartaz, chegando da feira nos arredores e entrando na cidadezinha.

Era simples a razão. Ninguém ia ao bosque que acompanhava a estrada. Ninguém queria ser chamado na vila de imprudente e estranho. Havia medo. Medo de que o bosque um dia acabasse, com o Fogo que se estenderia por milhares de quilômetros quadrados, estendendo-se do início da rodovia até os confins da Floresta a centenas de quilômetros de distância.

Todos a reverenciavam. Ela regenerava a atmosfera venenosa e era lar dos animais e da vegetação que haviam restado, com a Guerra. Era santificada, era deificada como uma deusa intangível, mas que existia desde a o início da Era pós-Industrial. Ninguém queria ser chamado de irresponsável. O prefeito e o vigário sabiam qual a pena para depredadores e destruidores das matas, e sem dúvida a aplicariam. E o segredo do que seria tal punição era respeitado pelos moradores, que tinham uma pálida ideia do que era.

Para alguns, as crianças, era ficar sem sobremesas e brinquedos por um tempo indeterminado. Sem escola. Sem amigos. Sem a mãe e o pai. Cada um desses castigos era terrível, para elas.

Para os jovens, era ficar sem a namorada, escolher ficar na pequena cidade e perder um dedo, ou ser expulso da vilazinha... para as garotas, podia ser uma operação terrivelmente dolorosa, como a extração de um mamilo a frio. Para os homens adultos, ter uma perna esmagada ou ter uma mão decepada. Tudo era vago, mas sabiam que, uma vez que se cometesse o crime de destruição da fonte da vida que era a Floresta, um sacrifício teria de ser feito.

Geraldine apressou o passo. Ninguém sabia quem o fixara na curva da rua enlameada e esburacada do centro da vila. Era mesmo grande, com grande probabilidade pintado com tintas de fora do povoado, pois a única fábrica de tintas que existia no município estava enferrujando, no limite Leste de Sommerville.

A mulher passou pela oficina de reparação de móveis, em que, da mesma forma como se reformava a madeira, elaborava-se cadeiras, cômodas, mesas e outros objetos feitos de madeira. A madeira vinha de uma parte da Floresta que, tanto o padre como o prefeito, sabiam estar condenada, inútil para que pássaros, esquilos, cervos e marmotas o habitassem, mas que podia abastecer a vila. Um fungo que ninguém sabia de onde surgira atacara as árvores e deixara os animais sem alimento. As frutinhas que cresciam nos galhos em toda a Floresta, nessa parte dela ou já nasciam apodrecidas, ou eram impedidas de se desenvolverem e secavam. Os arbustos de vegetação que alimentavam os veados há mais de cinco anos tinham desaparecido. Nem alimento para outros animais havia, tal a podridão que se apossara dessa parte da vasta mata. 

O que intrigava os moradores era por que ela fora a única parte atingida da Floresta. E por que acontecia de justo a vila se dispor entre a região apodrecida e o bosque e a Floresta saudáveis que se estendiam para o Norte, Oeste e Leste de Sommerville.

Geraldine entrou pela porta simples de madeira da loja e foi direto ao balcão. O padre vivia nos fundos da oficina, que se estendia por centenas de metros para o interior da mata adoecida. Como segunda autoridade da vila, o vigário era dono de metade da parte arruinada da Floresta. A outra metade pertencia ao município e o prefeito a administrava com zelo.

— Geraldine! Como vai a nossa flor de lótus? — o sacerdote perguntou, vindo dos fundos da loja, onde a oficina de móveis situava-se.

— Padre Dyon, estou bem, vim da feira — e a mulher mostrou as cinco sacolas de frutas, verduras e cereal que comprara. — Quero conversar um pouquinho com o senhor. O que significa o cartaz da festa, que fala que foi programada para daqui a cinco dias?

— Aquilo é sinal de que temos de nos precaver, mocinha. Os demônios do Inferno estão entre nós. Querem que nos destruamos. Mas ninguém está autorizado a deixar os limites da vila, em cinco dias. A ordem foi passada de boca em boca, o prefeito não a avisou?

Geraldine estranhou. Sem saber o que falar para se desculpar, disse que ninguém teve a civilidade de comunicar a ela o que se faria. Mas elogiou a atitude do padre Dyon. 

— Dependemos do bosque e da Floresta para respirarmos, Geraldine. Você compreende isso. Se derrubarmos uma única árvore do Norte, Leste ou Oeste, as boas e saudáveis, haverá o início de uma catástrofe que nos afetará de modo fatal. E você sabe que somos os que sobraram, nesse mundo esquecido.

A moça prestava atenção ao vigário e, enquanto ele falava, depositou uma sacola de frutas cítricas que comprara na feira no balcão, ao lado dos dois. Dyon terminou de falar seu discurso que tinha pronto para ocasiões como aquela e abarcou com seu braço magro a loja.

— O que quiser, pode levar.

— Tem outros mantimentos, padre, para mim?

— Sim, claro, tenho batatas e couve na dispensa. Espere.

Geraldine aguardou e, quando o padre trouxe o equivalente de mantimentos às frutas da moça, em peso, ela conversou durante alguns minutos e se retirou, desejando boa sorte. Desejar “boa sorte” significava muito, naqueles dias de dificuldade. Significava serem as pessoas envolvidas nesses votos até mais que meras amigas, Eram irmãos e irmãs de sangue, até o dia de suas mortes.

Geraldine caminhou quinhentos metros, entrando em uma ruazinha empoçada que partia da casa da prefeitura, e andou outro tanto, abrindo o portão de ferro da frente de sua pequena propriedade. Entrou na casinha de madeira que construíra com a ajuda de vizinhos e notou algo, antes de fechar a porta. Estava distraída pela conversa com Dyon, portanto havia deixado de reparar no papel escrito a mão, fixado com um prego em sua porta, do lado de fora.


“Quem não for à festa, perderá os dedos;

Quem não comparecer à comemoração do Dia do Sacrifício, perderá os dentes;

Quem deixar de ir à Congregação dos Fiéis, será condenado ao Inferno das Crianças,

e as menininhas e menininhos saudáveis se tornarão lama e podridão,

como as árvores e o solo inútil do bosque, ao Sul de Sommerville”.


O horror daquelas brutais palavras atingiu a mulher no estômago. Ela se dobrou sobre si e correu para fora. Devolveu o que comera no café-da-manhã em uma touceira verde ao lado da casa. Quando se sentiu em condições de se levantar da grama onde havia se esparramado, sem forças, arrancou a folha de papel da porta e guardou os alimentos no armário da cozinha.

Foi à prefeitura e encontrou todos os funcionários reunidos em um salão. Na mesa de centro, dezenas de panfletos idênticos ao de Geraldine haviam sido depositados pelso moradores da vila. Ela avançou e, sob o olhar de todos, deixou a sua folha cair sobre o tampo, com nojo.

— Você é a última da cidade, que nos traz esse “presente” — era o próprio prefeito que dizia isso, ao seu lado. Ele colocou a mão em seu ombro e continuou: — Temos armas em quantidade, usadas na agricultura local. Foices, facas, forcados, instrumentos para o cultivo afiados e contundentes. Vou pedir ao ferreiro para preparar mais. Até o dia da festa, quero todos armados com facas nos cintos das calças dos homens e por dentro dos vestidos das mulheres. Haverá toque de recolher, e isso vale para todos!

Isso, Quantrell declarou virado para o grupo de trinta pessoas que rodeava a mesa central. Os homens concordaram com a cabeça. Eram as principais autoridades da vila, o chefe e altos oficiais de polícia, os comandantes da guarda do povoado, os principais lojistas e as respectivas esposas dos homens reunidos.

— Não há um modo mais eficaz de combater esse Mal, prefeito? — Geraldine falou. — Distribua armas do depósito da guarda civil pela população, são apenas mil, mil e quinhentas pessoas!

— Farei o possível, moça, para armar todos os moradores, até a data da festa.

Geraldine estava incrédula quanto a essa promessa, mas agradeceu e saiu da prefeitura. No dia seguinte, um policial bateu em sua porta, carregando um grande alforje.

— É para sua proteção, Geraldine. 

Ela sorriu, surpresa com a rapidez da entrega, e fez o guarda entrar. 

— Vamos ver o que você trouxe, Phillips — eram facas, uma arbaleta, flechas, uma lança, uma espada. — Vou ficar preparada, fecharei minha casa no dia maldito da comemoração, do que quer que ande assustando a todos.

— A guarda civil se encarregará de patrulhar as ruas, senhorita. Um bom dia para você.

Choveu, uma chuva fraca, mas que molhava até os ossos, nos quatro dias seguintes. Quando chegou o dia-D, ninguém saiu às ruas. O toque de recolher foi estipulado da uma hora da manhã até à meia-noite.

Geraldine, segurando sua arbaleta armada, aguardou. Mas o tempo passou, as horas passando com lentidão, e coisa alguma aconteceu. Chegando a meia-noite, ela saiu pelo terreno de sua casa com cuidado, segurando uma faca longa serrilhada. 

— As crianças! As crianças sumiram! Socorro! 

Era a voz de sua vizinha, uma revendedora de verduras trazidas da feira. Revendia-as para quem estava doente ou quem estava sem tempo para ir à feira e sem ninguém para trazê-las para a cidade.

— Senhora Margolis, por que diz isso? — correu Geraldine, falando alto e chegando à frente da casa da vizinha.

— Meu bebê, ele não está mais comigo, nem os pequenos sobrinhos meus, ou meus filhos. Eu os tinha debaixo do nariz, na sala, mas... — Margolis correu para abraçar Geraldine, no pátio da frente de seu chalé.

— Aqui! Acudam! Guardas, revistem tudo, temos de encontrar os meninos e as meninas! — os gritos vinham da prefeitura, onde o prefeito ficara armado até os dentes e acompanhado de um destacamento da polícia, com sua família em segurança... até o momento.

— Isso é um absurdo, senhora Margolis, eles têm de estar em algum lugar. Não subiram no forro de madeira, para se esconder? A senhora sabe, as crianças todas conhecem o significado da festa...

— O Demônio os levou, sim! De que adiantou termos nossos filhos e sobrinhos debaixo de nossos olhos, quando eles desaparecem de um segundo para o outro, em pleno ar? — Margolis retornou, os ombros curvados, a cabeça baixa, para sua casa.

Geraldine caminhou a passos rápidos e largos até a sede da prefeitura. Chegando lá, encontrou uma multidão de moradores da vila esperando por alguma decisão do prefeito, da guarda civil e da polícia. O prefeito saiu da grande casa e falou:

— Amigos, meus filhos desapareceram. Também soube da tragédia com suas famílias, através da polícia e da guarda civil. 

Houve pouco tempo para lamentos. Do Norte, uma luz. Uma chama se propagando pelo bosque, perto da autoestrada. 

— Gente, temos de apagar aquele incêndio! Vem da rodovia! — disse um morador, um jovem com a melhor visão que existia em todo o povoado.

A multidão correu, bem como uma parte das autoridades. Os moradores estavam armados com facas e alguns carregavam pás. Levaram cinco minutos para chegar ao local. As chamas devoravam dez árvores, pelo menos, e todos sabiam que a propagação do fogo seria inevitável, caso ninguém fizesse algo. Com as pás, dez pessoas começaram a jogar terra contra o fogo, que se alastrava pela vegetação rasteira. Um pinheiro caiu, com estrondo.

— Vamos, rapazes, temos de abafar esse incêndio! — berrou o prefeito. — Cerquem a área que queima, vamos isolar a parte em chamas do restante da Floresta!

Com tempo e esforço, controlou-se o acidente. Sobraram brasas e cinzas, que a multidão apagava, batendo com as pás no chão, ou enterrando sob a terra.

— O pior passou, mocinha — disse o chefe de polícia para Geraldine, a única mulher do povoado que se pusera a ajudar. Ela viu o suor no rosto dos homens e comentou:

— Se Dimas não houvesse dado o alarme, comandante, receio que teríamos dois problemas insolúveis pela frente.

— Se soubéssemos onde os meninos e as meninas estão... até os bebês desapareceram!

Mas havia uma criança a uns oitocentos metros do limite do incêndio. Era Stuart, um dos filhos da senhora Margolis. Caminhava entre os pinheiros e vinha em direção ao grupo. Geraldine correu e tomou a criança nos braços.

— Você está bem? Onde estão as outras crianças, Stuart? — o menino permaneceu em silêncio, olhou por sobre os ombros e colocou o polegar na boca, enquanto que, com o indicador da outra mão, apontou. Havia uma construção baixa, meio escondida pela vegetação arbustiva e por pinheiros. Geraldine gritou o nome de Quantrell e levou Stuart para junto dos homens. — Há uma casa, em meio à mata. As crianças devem estar nela, ou nas imediações.

Liderados por Geraldine, o prefeito e o chefe de polícia, o grupo adentrou a Floresta. A casa era baixa, térrea, e situava-se em uma depressão do terreno, cercada por árvores em grande quantidade. Era possível que um homem passasse pela muralha florestal, por entre dois pinheiros, em certos lugares. 

— Não querem nos deixar entrar... — disse o chefe de polícia.

— Ou não querem que nada saia — ponderou Geraldine.

— Estão sentindo o cheiro? — falou Quantrell.

Pelas aberturas entre alguns troncos dos pinheiros, o grupo passou para o terreno da casa. O chefe de polícia espreitou pelas janelas e viu. Camas, dezenas de camas e, sobre elas, crianças e restos sangrentos de animais... ou homens e mulheres. 

O prefeito tentou arrombar a porta principal da habitação, mas foi em vão. Os homens da polícia e da guarda civil que tinham vindo pediram licença, entre o grande grupo, e tomaram o lugar do prefeito. A porta era larga o suficiente para que três policiais encorpados pudessem arrombá-la.

O odor a sangue velho, carne em decomposição e morte que sentiram do lado exterior era repugnante, no interior. Geraldine cobriu o nariz com um braço, protegendo-se com o tecido do vestido, e franziu a testa. Constatou, junto com os homens que entraram no ambiente único da casa, que as crianças estavam sem ferimentos. Vestidas, dormiam de modo tranquilo.

— Mas... o que teria feito isso com os corpos?

— Não sei, prefeito, não sei — respondeu Geraldine.

Havia sangue, pele, órgãos abertos e esmagados, as cabeças intactas de homens, mulheres e adolescentes, ao lado das crianças. 

— Vamos tirá-las daqui, chefe, e rápido — disse com uma careta de repugnância Quantrell.

Os homens do povoado levaram as crianças, que permaneceram inconscientes até quando chegaram em seus lares. Geraldine voltou à sua casa em três horas, deixando a polícia retirar os restos mortais dos que estavam junto às crianças. Bebês foram encontrados com saúde.

A jovem caminhou entre as árvores. Quando chegou a outra clareira, tendo caminhado uns cinco quilômetros para o Norte, reprimiu um grito e colocou as mãos no rosto. 

Vinte pessoas estavam dependuradas do topo das árvores mais baixas por arame farpado, os corpos dilacerados e sangue escorrendo. As mãos cortadas, os pés torcidos e a língua esticada. Sem olhos, como se extraídos por uma operação cirúrgica. E todos estavam sem roupas.

--//--

Geraldine levou a polícia até a clareira. Os homens subiram em árvores e cortaram os arames farpados. Constataram haver dez homens, cinco mulheres e cinco adolescentes de ambos os sexos. Os rostos estavam intactos. 

— Nâo são dessas bandas, querida — falou o padre Dyon em sua casa para ela, que continuava sem acreditar em tamanha violência. — São europeus, com traços nórdicos. A polícia encontrou isso, faça segredo desse volume. Eu o tenho, por enquanto, com a desculpa de que precisava dele para tentar encontrar a origem e identidade dessas pessoas. E veja o que achei. 

O vigário abriu um livro antigo, tão antigo que suas páginas se encontravam a ponto de se esfarelar. O homem usava luvas de lã de carneiro, que algumas famílias da cidade criavam e vendiam sua pelagem. Sem elas, o livro teria se desfeito há muito. Dyon levou tempo para chegar à página que queria. Havia desenhos a carvão, lápis e caneta esferográfica vermelha nas páginas.

— É latim. Eu sou a única pessoa nessa vila que compreende essa língua morta. Diz aqui que vivemos dias difíceis, que ficarão realmente duros, à medida que os grupos sobreviventes começarem a se encontrar. Fala na Floresta de Sommerville, no modo como parte dela apodreceu, para que sementes novas fossem levadas pelo vento e outras árvores e plantas nascessem e se desenvolvessem no bosque fronteiriço à rodovia e na Floresta, em si.

— Padre, como é possível que sementes mortas, podres, dessem origem a árvores e vegetação saudável?

— Eu, você, e ninguém sabe. Da mesma forma que as pessoas que você encontrou foram encontradas mortas. Talvez o início de incêndio no bosque não tenha sido acidental, tenha sido causado por forças estranhas... e que os restos que vimos na casa tenham sido de gente má, que tentou o pior que nossas regras, leis e costumes ditam para nós. Algo pior do que devastar a própria mata. Na verdade, acho que na clareira onde você encontrou as pessoas suspensas nas árvores deve ter ocorrido algo como um julgamento. Como se tivesse sido dado um basta, a partir do dia de ontem, nas transgressões que ocorriam em nossas terras, tanto no bosque, como na Floresta, como além da rodovia e, talvez, estivessem ocorrendo até ontem à noite, no mundo inteiro. 

— Seria a Justiça Divina, finalmente, padre? 

— Se as execuções ocorrem dessa forma por todo o planeta, algo se cansou do que se fazia contra as crianças, Geraldine. Deus não intervém dessa maneira, jamais. Para Deus, somos nós que fazemos a justiça, em assuntos dos mortais. Deus é misericordioso em sua grandeza, por todo o seu Reino.

Geraldine foi acompanhada pelo padre até a saída e, na porta, virou-se para ele:

— Como acha que as crianças desapareceram, sob os olhos de suas famílias?

— Algo que não pertence ao nosso mundo, talvez — e o padre Dyon desviou a vista para o teto.

— O que pensa que é isso, o que veio fazer justiça?

— Algo nem bom, nem mal, que aplica castigo contra pecado, destrói os criminosos de forma terrível, mas justa — Dyon ficou na soleira da porta, observando Geraldine desaparecer aos poucos em direção à feira, cinco quilômetros ao Sul do povoado. E, quando sumiu de vista, o padre pensou:

“Tão justa quanto a justiça divina, é a justiça dos homens. E tão justa quanto é a justiça que tivemos na última Grande Guerra, é a justiça do Demônio”.

Pensando nisso, o religioso entrou em sua casa e fechou a porta, suspirando e pensando a respeito de tudo o que havia ocorrido nos dois últimos dias.


*Sobre Roberto Fiori:
Escritor de Literatura Fantástica. Natural de São Paulo, reside atualmente em Vargem Grande Paulista, no Estado de São Paulo. Graduou-se na FATEC – SP e trabalhou por anos como free-lancer em Informática. Estudou pintura a óleo. Hoje, dedica-se somente à literatura, tendo como hobby sua guitarra elétrica. Estudou literatura com o escritor, poeta, cineasta e pintor André Carneiro, na Oficina da Palavra, em São Paulo. Mas Roberto não é somente aficionado por Ficção Científica, Fantasia e Horror. Admira toda forma de arte, arte que, segundo o escritor, quando realizada com bom gosto e técnica apurada, torna-se uma manifestação do espírito elevada e extremamente valiosa.

Sobre o livro “Futuro! – contos fantásticos de outros lugares e outros tempos”, do autor Roberto Fiori:

Sinopse: Contos instigantes, com o poder de tele transporte às mais remotas fronteiras de nosso Universo e diferentes dimensões.
Assim é “Futuro! – contos fantásticos de outros lugares e outros tempos”, uma celebração à humanidade, uma raça que, através de suas conquistas, demonstra que deseja tudo, menos permanecer parada no tempo e espaço.

Dizem que duas pessoas podem fazer a diferença, quando no espaço e na Terra parece não haver mais nenhuma esperança de paz. Histórias de conquistas e derrotas fenomenais. Do avanço inexorável de uma raça exótica que jamais será derrotada... Ou a fantasia que conta a chegada de um povo que, em tempos remotos, ameaçou o Homem e tinha tudo para destruí-lo. Esses são relatos dos tempos em que o futuro do Homem se dispunha em um xadrez interplanetário, onde Marte era uma potência econômica e militar, e a Terra, um mero aprendiz neste jogo de vida e morte... Ou, em outro mundo, permanece o aviso de que um dia o sistema solar não mais existirá, morte e destruição esperando pelos habitantes da Terra.
Através desta obra, será impossível o leitor não lembrar de quando o ser humano enviou o primeiro satélite artificial para a órbita — o Sputnik —, o primeiro cosmonauta a orbitar a Terra — Yuri Alekseievitch Gagarin — e deu-se o primeiro pouso do Homem na Lua, na missão Apollo 11.
O livro traz à tona feitos gloriosos da Humanidade, que conseguirá tudo o que almeja, se o destino e os deuses permitirem.

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sexta-feira, 9 de abril de 2021

Conto "O que diriam se você contasse isso?", por Roberto Fiori


A primeira viagem a Saturno e seus anéis, tripulada. Com a conquista de Marte e suas duas luas, além dos satélites jovianos, o próximo passo era a passagem rápida por Saturno e a permanência de uma base espacial em Titâ, lua principal do gigante gasoso.

A nave encontrava-se em órbita terrestre, onde fora construída em uma doca espacial. Seu combustível, uma combinação de deutério e trítio. A forma de propulsão, fusão nuclear a 20 milhões de graus Kelvin, a temperatura do centro do Sol.

Os astronautas, dois. Evitava-se falar nesse assunto tão delicado. A viagem poderia ser um desastre completo, com a perda de vidas humanas. Em Titâ, somente três cientistas de alto escalão e os pilotos sabiam, detectara-se formas de vida que poderiam ser hostis.

A nave rompeu a barreira da metade da velocidade da luz, “c”, nos limites do Sistema Solar, avançando até chegar a noventa por cento dela, em um mês de uma aceleração progressiva que não matasse os astronautas. Eles deixaram-se ficar em seus assentos, ora acordados, ora dormindo, enquanto a nave viajava sem trepidação ou ruído. 

A partir desse mês, desligaram os motores e a inércia tomou conta da viagem. A noventa por cento de ”c”, havia pouco o que se fazer, além de checar três vezes por dia os instrumentos. E, de fato, as próximas duas semanas seriam entediantes, mas os dois homens eram enxadristas, tão bons enxadristas como o pouco tempo livre deles permitia que treinassem. 

— Escolha — Conway falou, estendendo as mãos, os pulsos cruzados e as mãos, punhos fechados.

Carson apontou para a mão da esquerda. Ficaria com as brancas.

— Eu tenho uma ideia, rapaz — ele disse. Era o capitão, o que significava uma diferença cronológica de cinco anos à frente de Conway e pelo menos dez anos de avanço em conhecimento teórico e prático. O jovem sacudiu a mão, dando permissão para o capitão continuar, à vontade. — Vamos fazer um megacampeonato de xadrez, que termine em duas semanas.

Ótima maneira de passar o tempo, pensou o “velho”. Tinha trinta e cinco anos, mas participara de 82 missões no espaço. Com esta viagem, tornar-se-ia o número um entre os viajantes espaciais. Ele dispôs o tabuleiro portátil, imantado, sobre a mesa de jantar.

Da primeira partida à vigésima daquele dia, os dois empataram. Havia decorrido cerca de três horas e meia. Os instrumentos acusaram choques com meteoritos, mas a nave possuía blindagem tão resistente, que poderia suportar uma explosão nuclear de quinze megatons detonada a cinco quilômetros de distância.

O relógio na parede acusou vinte e duas horas. Era o primeiro turno de Carson, de doze horas. Seria melhor que ele tomasse conta da nave primeiro pois, nos treinos em órbita da Terra fora quem aguentara ao máximo o período de privação de sono. Ficara acordado com os sentidos alertas por trinta e seis horas, até que perdeu a concentração por três vezes em dez minutos, desse momento em diante.

Conway deitou-se no compartimento contíguo ao do módulo de comando, interligado a ele por uma comporta dupla. A cama estava confortável e ele sabia que existiam poucos colchões tão macios e repousantes na Terra como aquele no qual ele dormiria pelo resto da jornada.

Carson ligou o sistema de som na seção de controle e escolheu algo apropriado. A Sétima Sinfonia de Beethoven seria conveniente. Era suave, com momentos épicos e solenes, e ao mesmo tempo atemporal. O capitão possuía o filme “Zardoz”, de John Boorman, em sua holoteca de filmes em três dimensões, com o “Allegretto”, da sinfonia executado ao final do filme. Olhou pela última vez pelo painel de controle construído de tal maneira intuitivo e simples, e constatou que tudo corria bem. Recostando-se na poltrona junto à mesa de jantar, recomeçou a leitura de “2001, Uma Odisseia no Espaço”, de onde havia parado, há dois meses, quando fora chamado para a missão.

O capitão estava chegando na parte em que o supercomputador HAL-9000 mata o colega de voo de Dave Bowman, lançando-o pelo espaço com o tubo de oxigênio de seu traje espacial cortado. Então, com o canto dos olhos, viu o movimento. Uma peça de xadrez estava fora de seu lugar. Eles haviam deixado o jogo preparado para o dia seguinte, mas Carson tinha memória boa, tão boa que conhecia de cor os circuitos e peças que formavam a estrutura vital da nave, bem como sabia como repará-los. E o peão do rei branco avançara duas casas. Disso ele tinha certeza absoluta.

Haviam trazido um pequeno arsenal, para que se armassem quando saíssem para a atmosfera de Titâ. Duas pistolas de raios gama para cada um e duas armas “laser” de alta potência, essas armas podendo fazer estragos consideráveis em objetos os mais densos e resistentes, como quatro esferas de titânio maciço, que nos treinos para autodefesa dissolveram-se perante um disparo de cada arma, um para cada esfera.

Carson, porém, planejava evitar qualquer tiro no interior da nave. O casco aguentaria sem problemas, mas os instrumentos de voo, os controles de suporte de vida e o computador, estes seriam vaporizados, sob os disparos daquelas armas.

Carson abaixou o livro de bolso que segurava, deixou-o na mesa de jantar e fitou o tabuleiro de xadrez. Apanhou o peão que se movera e analisou-o. Era uma peça de xadrez sofisticada, herança de seu pai, esculpida em marfim e plástico, com um pequeno imã circular de ferro na base. O tabuleiro possuía uma tampa de plástico, basculante. 

Queria deixar o jogo intacto, mas sabia como desmontar e montar qualquer dispositivo que as centenárias Nasa e Space X lhe apresentassem para testá-lo. Lembrou-se do computador quântico que haviam mostrado a ele na órbita da Terra e pensou do prazo de cinco horas que lhe tinham concedido, para desmontá-lo. E disseram que teria quatro horas para reconstruí-lo, peça por peça, depois de ser bem-sucedido ao desmontar o aparato.

Ele conhecia computadores quânticos. Uma vez, observara, durante seis horas, uma equipe montar, a partir do zero, de peças pré-fabricadas, um dos computadores quânticos que ele julgara ser um tanto simples, em comparação com o da nave. Ele era de última geração, capaz de executar tantos cálculos simultâneos quanto fossem o número de planetas, estrelas, cometas, asteroides e grãos de areia que existiam nos planetas do Sistema Solar e exoplanetas de fora do Sistema.

Seria fácil desmontar um jogo de xadrez computadorizado de bolso, tendo ele tido êxito completo no teste com o computador da Nasa. Em meia hora, conseguiu desmontar e montar o aparelho. Bateu com o punho na mesa, ao terminar de verificar a última microvoltagem que corria entre dois tensores e pensou:

“Nada! Nem um defeito na miserável placa microcondutora do jogo! Os circuitos de refrigeração estão em ordem e os de Inteligência Artificial estão funcionando”!

Ele foi até o painel de comando e testou todos os dispositivos eletromagnéticos por dentro da carcaça de pilotagem. Havia um perigo maior de a nave passar por um campo magnético de um asteroide desgarrado ou de um cometa eletrificado do que haver uma irregularidade no eletromagnetismo gerado por componentes que formavam seu centro de controle.

Pensou no computador da nave. Poderia ser ele... as flutuações nos “spins” dos elétrons eram improváveis, mas eles tendiam a variar um tanto, por vezes. Levou oito horas para desmontar o computador, tomando o devido cuidado de ativar um dispositivo de “backup” paralelo, antes de desligar as peças e circuitos a serem examinados. 

“Droga! É inexplicável”, pensou ele, vociferando com sua mente prodigiosa.

Conway entrou, nesse momento, na comporta estanque, fechou o acesso do dormitório a ela e premiu um controle, destravando a segunda passagem, que levava ao centro de controle. 

— Sonhei que você fazia uns barulhos metálicos, na nave.

— Estava certo, estou tentando identificar a causa de um fenômeno não explicável pelas leis da física, tal como as conhecemos — Carson respondeu à pergunta feita de modo enfático.

— Qual o problema? — o outro olhava boquiaberto para os aparelhos de medição que se encontravam sobre a mesa de jantar.

— Um peão resolveu passear pelo tabuleiro, há oito horas.

— As peças são imantadas. Poderiam ter se movido, devido a uma flutuação do campo eletromagnético dos instrumentos.

O capitão abanou a cabeça. Fez sinal para ele sentar-se.

— Digamos que desmontei e remontei tudo o que existia nessa nave, o computador, o painel de controle e o jogo de xadrez.

Conway fez um “hummm” bastante prolongado. Apanhou o tabuleiro e disse:

— Onde estamos, capitão? Perto do cinturão de asteroides, acima da eclíptica?

— Acabamos de passar pelo cinturão. Há oito horas, sobrevoávamos Ceres.

— Há uma base nossa em Ceres, Carson. Talvez tenha havido uma descarga de eletricidade colossal ou uma variação magnética de grande intensidade, no asteroide. Não custa nada contatar a base.

Carson olhou para o copiloto com desconfiança. Falou, entredentes:

— O giroscópio termiônico teria enlouquecido, para dizer o menor dos efeitos de tal explosão de energia. O instrumento é sensível, eu teria percebido isso.

— Bom, resta esquecer o incidente, capitão — ele balançou os ombros, concluindo: — Sem explicação!

Mesmo sem haver uma teoria convincente, Carson ficou de olho em todo ambiente, à medida que se afastavam do campo de asteroides e seguiam pelo espaço profundo. Tinha a impressão de que a explicação estava na ponta de seu nariz, mas perdera por uma fração de milímetro a causa. Poderia ser tanto física, como um problema biológico de seus sentidos. E, com relação a este último item, havia sombrias previsões na mente do capitão.

A nave era um mundo à parte. Possuía provisões de alimentos, espaço para até quatro pessoas conviverem por um ou dois anos no espaço, sem virem a apresentar alguma depressão ou psicose devido a um confinamento porventura claustrofóbico que fosse insuportável, ou mesmo havia um perigo zero de que colidissem com um corpo celeste, como um meteoro de boas proporções. A viagem havia sido computada de forma que havia pouca chance de isso ocorrer.

Chegaram em duas semanas a um ponto em que era possível avistar uma mancha cor de areia nas profundezas do espaço. Os anéis estavam invisíveis, daquele ponto em que a nave se encontrava, mas seriam vistos em um dia, no máximo. A tela de grafeno do computador e resolução em 20 K permitia que, na ampliação máxima, conseguissem enxergar Saturno com boa margem de exatidão.

— O que haverá em Titã, Carson?

— “O que nos é dado a saber”. Humpf, isso eu li aos nove anos de idade, de um escritor do século XX, se não me falha a memória.

— Pode ser algo mortal. Não se preocupa com isso?

— Você está falando asneiras, piloto. Como não detectamos algo hostil e belicoso, até o início dos preparativos para esta viagem? Como nossas estações espaciais de observação de Marte fizeram dessa descoberta algo assustador, com tanto atraso? E justo agora?

— Você está suando um pouco, capitão. Não está fazendo calor.

— Isso não é importante, Conway. Transpiro o dia inteiro, tenho propensão a perder líquidos. — o capitão virou a cabeça para o copiloto. — Você sabe disso. Viu meus relatórios médicos, como examinei os seus. Questão de segurança!

— Notei que você está com a gola do traje espacial manchada. 

— É o suor, Conway, tenho de lhe explicar tudo?

— Por que a raiva, capitão? Estamos prestes a descobrir se há vida no Sistema Solar ou se o que há em Titã é só um engano dos computadores astronômicos de Marte e da Terra. É motivo de festa, de alegria! Vamos abrir uma bebida.

Eles tinham algumas garrafas de champagne e de espumante italiano, no freezer. Conway bebeu à vontade, mas Carson conhecia seus limites. Era o de uma garrafa de vinho de sobremesa alemão, de baixa concentração de álcool. Mas o que bebiam provocaria sono irresistível, se eles se aproximassem da metade de uma garrafa de vinho.

— Ahh! Chega, Conway — reclamou o “velho” astronauta, quando o companheiro começava a entornar mais álcool em sua taça.

— Esse é um champagne da Francônia, Carson. A mais sofisticada bebida que nossas vinhas podem dar. O “terroir” é inigualável...

— Quero me manter acordado, Conway. Ei, você vai acabar com a garrafa? — notou o astronauta experiente — Temos de permanecer alertas, quando a nave chegar a cem mil quilômetros de Saturno!

Mas o copiloto de levantou da cadeira acolchoada de copiloto e andou, trôpego, até uma parte da parede, encostou a mão espalmada na reentrância e, do nicho que se abriu, tirou uma das armas de raios gama.

— Não se atreva, homem! Está sob custódia, largue essa arma! — gritou o capitão, pondo-se de pé e saltando. Segurou o punho do outro, no momento em que um disparo acinzentado atingia a poltrona de Carson, desfazendo-a como se fosse feita de areia e água. Um montinho viscoso restou da cadeira projetada para suportar e absorver acelerações de 20 Gs.

— Acabou, Conway, está acabado, tudo, para você! — falou com voz apertada o capitão, batendo o punho armado do companheiro de viagem na parede três vezes, até que ele soltou a pistola.

— Você não vai sobreviver a Titâ, capitão. Há “coisas” maldosas e letais, no satélite, que vivem de metano líquido e vivem de canibalismo entre sua espécie. Eu iria dar-lhe a chance de escapar a este mausoléu voador com dignidade. O que acha que farão conosco?

— Você verá. Agora, venha até o segundo dormitório, você vai passar uma temporada naquele lugar. — Carson empurrou o outro pela primeira comporta, passou pelo dormitório de Conway e entrou no seu próprio dormitório, entre o acesso aos dois dormitórios e a porta blindada de entrada no reator de fusão. Empurrou o homem perturbado para cima da cama, trancou o acesso entre os dois ambientes e voltou ao comando, passando pelo dormitório de Conway, onde dormiria na viagem de volta.

Ocorreu-lhe algo. Voltou ao antigo dormitório do homem tresloucado e revistou a bagagem pessoal do companheiro de viagem. Encontrou um aparelho em formato de ímã circular. Havia um interruptor na parte interna do círculo imantado, que o capitão tinha uma ideia para que servia. No controle, apontou o dispositivo para o jogo de xadrez e pressionou o interruptor. O peão do rei branco moveu-se duas casas à frente. Carson sorriu.  

Sentia calor, mas isso era mais obra da bebida, do que da luta. Ele era forte, aguentaria dez brigas como aquela sem reclamar. Mas tinha de guardar a garrafa e esquecê-la.

Saturno se aproximou a cinquenta mil quilômetros, ao fim de um dia. A nave seguiu a trajetória programada, desviando-se dos anéis por baixo e seguindo para Titâ. Ele é que era importante, o ponto no qual se deveria investir pesado. Era outro Marte, uma etapa extra a se conquistar.

O satélite de Saturno apareceu sob a nave, ao fim de uma aproximação de três horas. Não pareceu grande coisa para Carson, era mais uma rocha plantada na imensidão do Cosmos, que era e continuaria a ser vazio. Entre os espaços vazios, uma galáxia, uma nebulods, coisa de somenos.

Destravou as garras que mantinham a nave auxiliar presa à parte inferior da nave mãe. Colocou o capacete e abriu a comporta lateral entre o comando e o primeiro dormitório, e entrou na nave auxiliar, que permanecia junto ao casco da nave principal, sem encostar nele. 

Era um bólido compacto, mas funcional. Em seu módulo de controle, abriu o acesso ao lado de fora da nave e desligou o sistema de levitação supercondutora que mantinha o pequeno engenho afastado das paredes. A navezinha sacudiu-se, um veículo de exploração leve e ágil, e desceu. O espaço estava iluminado pela luz refletida de Saturno em Titâ. Carson precisava esperar dez minutos ou nem tanto. A programação da nave auxiliar a guiava de modo automático pela órbita da lua e, em minutos, o engenho cruzava a atmosfera do grande satélite.

Pousou em uma elevação, ao lado de um lago de metano líquido, e vasculhou os arredores. Não havia sinal de octópodes ou monstros siberianos que viriam do lago, nem de pterodáctilos de Titâ, atacando pelo ar em uma onda mortal. Carson poderia ter utilizado os instrumentos de detecção da nave mãe, mas uma boa olhada na superfície era adequada, muito mais.

Havia vento, mas pouco, no exterior. Carson abriu a comporta de saída e deu um passo no solo do planeta. Era areia pura, mas havia outros elementos em maior abundância que na Terra e outros em menor concentração. Voltou-se para o lago de metano. Caminhou até as margens e pousou a mão enluvada na superfície. O traje fora elaborado de tal forma que o líquido super-resfriado não afetou a mão do capitão. Ele levantou a vista para a imensidão líquida e voltou a cabeça para a nave auxiliar.

Entrou pela comporta e levantou voo. Não havia nada para se ver no satélite. Ele subiu até a atmosfera superior e entrou em órbita. Entrou na comporta de acesso da nave mãe e fechou-a, com um toque em uma tecla de acionamento do painel da navezinha. Saiu pela comporta, a nave auxiliar se estabilizando em ambiente levitacional, e ele entrou na comporta lateral. Penetrou no comando e acionou os retrofoguetes. Saiu de órbita, deixando Titâ e começando a acelerar a nave até quase a velocidade da luz. 

No satélite de Saturno, um tentáculo tateou as margens do lago de metano. A forma colossal tinha rastreado o visitante, mas o ser maciço era lento. Deixara Carson sair do planeta, ileso, pois fora incapaz de chegar até as margens a tempo. Afundou com lentidão, a superfície se abrindo e fechando com suavidade, bolhas subindo para a superfície.

O que se passava na mente de Conway era um desequilíbrio nas proporções das substâncias químicas que o compunham. O capitão, observando-o dormir no segundo dormitório, pensava como alguém de talento, na engenharia espacial, no posto de piloto e até em jogos de xadrez, seria capaz de matar. 

Isso ele deixaria para os médicos dissecadores de cérebro da Terra tirarem uma conclusão. 

“Assim vai para o Além mais um louco descontrolado... a Terra não precisa deles. Eles é que precisam da Terra”, concluiu Carson, ativando o jogo computadorizado de xadrez. Jogaria contra ele, nos períodos em que ficaria acordado. Olhou para os restos do assento acolchoado de Conway. “Teria sido eu, ou esta poltrona. Pois é, nem tudo sai conforme o previsto”, ocorreu-lhe, e começou a jogar a primeira partida, dessa vez acionando o controle de tempo do computador enxadrista.


*Sobre Roberto Fiori:
Escritor de Literatura Fantástica. Natural de São Paulo, reside atualmente em Vargem Grande Paulista, no Estado de São Paulo. Graduou-se na FATEC – SP e trabalhou por anos como free-lancer em Informática. Estudou pintura a óleo. Hoje, dedica-se somente à literatura, tendo como hobby sua guitarra elétrica. Estudou literatura com o escritor, poeta, cineasta e pintor André Carneiro, na Oficina da Palavra, em São Paulo. Mas Roberto não é somente aficionado por Ficção Científica, Fantasia e Horror. Admira toda forma de arte, arte que, segundo o escritor, quando realizada com bom gosto e técnica apurada, torna-se uma manifestação do espírito elevada e extremamente valiosa.

Sobre o livro “Futuro! – contos fantásticos de outros lugares e outros tempos”, do autor Roberto Fiori:

Sinopse: Contos instigantes, com o poder de tele transporte às mais remotas fronteiras de nosso Universo e diferentes dimensões.
Assim é “Futuro! – contos fantásticos de outros lugares e outros tempos”, uma celebração à humanidade, uma raça que, através de suas conquistas, demonstra que deseja tudo, menos permanecer parada no tempo e espaço.

Dizem que duas pessoas podem fazer a diferença, quando no espaço e na Terra parece não haver mais nenhuma esperança de paz. Histórias de conquistas e derrotas fenomenais. Do avanço inexorável de uma raça exótica que jamais será derrotada... Ou a fantasia que conta a chegada de um povo que, em tempos remotos, ameaçou o Homem e tinha tudo para destruí-lo. Esses são relatos dos tempos em que o futuro do Homem se dispunha em um xadrez interplanetário, onde Marte era uma potência econômica e militar, e a Terra, um mero aprendiz neste jogo de vida e morte... Ou, em outro mundo, permanece o aviso de que um dia o sistema solar não mais existirá, morte e destruição esperando pelos habitantes da Terra.
Através desta obra, será impossível o leitor não lembrar de quando o ser humano enviou o primeiro satélite artificial para a órbita — o Sputnik —, o primeiro cosmonauta a orbitar a Terra — Yuri Alekseievitch Gagarin — e deu-se o primeiro pouso do Homem na Lua, na missão Apollo 11.
O livro traz à tona feitos gloriosos da Humanidade, que conseguirá tudo o que almeja, se o destino e os deuses permitirem.

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segunda-feira, 22 de março de 2021

Conto “Cientistas Perfeccionistas”, por Roberto Fiori

Aglomerado Globular de Ômega Centauri: com milhões de estrelas, é o maior dos aglomerados globulares da Via Láctea

O “Destruidor de Galáxias” se estendia pela frente, avançando em direção do centro maciço da Galáxia, como se quisesse unir-se ao conglomerado que poderia destruí-lo. Mas não se admitia que pudessem aniquilá-lo, visto que fora feito para absorver e não ser absorvido. Na imensidão incalculável do espaço, já tinha percorrido distâncias que não se limitavam ao real. Escapara do paradoxo “viagem além da luz”, limitando-se a escolher os horizontes de evento dos buracos negros rotacionais e emergira várias vezes de uma coordenada a outra do Universo, calculando com precisão os maiores aglomerados de estrelas. Até agora havia engolfado uns doze milhões de sistemas estelares isolados e dois ou três aglomerados globulares de mais de dez bilhões de estrelas e planetas. Mas nunca tinha chegado perto de um centro galáctico, pois uma ressalva em seu impulso primário apontava perigo, mas sem especificar o porquê desse perigo.

O Destruidor continuou seu caminho em velocidade sub-quarkiana, na quadragésima-sétima dimensão em que se movia. Por se tratar de um nível tão alto de dimensionalização, ele não podia controlar a velocidade muito rapidamente, em termos de diminuí-la ou aumentá-la. Ao necessitar de outros lugares em que pudesse atuar, ele tinha de mudar para cinco sectans de dimensão e penetrar no horizonte de eventos do buraco negro escolhido. Nenhuma forma de vida podia detectá-lo, pois o Destruidor de Galáxias situava-se fora do campo de definição sob quaisquer elementos físicos conhecidos. Somente ao se concretizar em um poliedro de duzentas faces na terceira dimensão comum aos planetas e estrelas, então poderia ser contatado. Como ninguém tomara conhecimento do engenho senão tarde demais para ser feito algum contra-ataque, nada se efetuara para detê-lo ou mesmo para explicar o porquê do desaparecimento de uma porção de cada Galáxia por onde ele atuara.

Houvera alguma sensação de expectativa quando o Destruidor passara de uma fase a outra do circuito hipercondutor e descobrira que poderia tomar quaisquer atitudes, até mesmo quando a diretriz impressa incluía uma visita ao desconhecido. Calculara com perfeita exatidão de infinitas séries infinitesimais (pois o Destruidor podia calcular o infinito!) o tempo que levaria para percorrer a distância de onde emergira no espaço até o centro da Galáxia composto de cem trilhões de Sóis. As nuvens de poeira, os meteoritos, as partículas cósmicas e a radiação de estrelas isoladas não o atraíam. Eram presas fáceis e gastaria um tempo que, embora desprezível para o tempo de sua existência, não resultava em ganhos palpáveis de energia quântica para justificar uma parada repentina. Não quando tinha uma quantidade quase incalculável de energia no seu destino imediato.

Não havia perigo de ser desintegrado por supernovas, estrelas-de-nêutron, anãs brancas e buracos negros quando em viagem na quadragésima-sétima dimensão. Sua forma de viagem era até mais eficiente que uma jornada de neutrinos, pois nada o afetava e nunca se desgastava. 

O Destruidor de Galáxias aproximou-se, a doze anos-luz do turbilhão de miríades de estrelas, destituídas de planetas. Mésons e noonons que permaneceram até então inativos no interior do engenho aniquilador tornaram-se energéticos sob uma curva de dimensionalização três e a invisível máquina tornou-se visível em sua forma poliédrica peculiar. 

As cinco milhões de estrelas que absorveu nos primeiros meses o tornaram muito forte. Porém, após alguns anos, quando estava se aproximando do centro geométrico da Galáxia, começou a perder pouco a pouco sua forma visível, pois as sub-partículas que o tornavam observável ficaram cada vez menos energéticas, mesmo após receberem mais e mais radiação das estrelas que o Destruidor consumia. Quando o mais perfeito robô até então construído chegou ao centro da Galáxia, não encontrou mais estrelas. Havia um vazio total, mas não era um buraco negro.

O espaço estava ausente. Não havia partículas ou sub-partículas, muito menos elementos que resultassem em ganhos energéticos. O engenho tentou transfigurar-se e mudar para a dimensão subquarkiana em que viajava, mas não conseguiu. Também não contatou nada que pudesse servir de referência, como quasares ou pulsares, ou mesmo simples estrelas distantes. Estacionário, sem a liberdade que desfrutara por tantos e tantos milênios, vagava pelo espaço e não pôde mais carregar-se de energia. Não percebeu que estava dentro de um buraco branco, aprisionado em uma ponte interdimensional entre este e algum outro Universo paralelo.

Os cientistas da Terra, seres virtualmente imortais, não mais se preocuparam com o Destruidor de Galáxias. Estavam analisando mentalmente, dentro de suas esferas de energia de pensamento, os efeitos da simulação neurônica que acabaram de concretizar. Depois de repassarem as Equações de Delek-Sigmak, de número aproximadamente infinito, descansaram por um intervalo de tempo que lhes pareceu excessivo, mas que na realidade era próximo a zero. A seguir, concluíram que fora fácil defrontar-se com a ameaça quase perfeita, mesmo na segurança de uma simulação. 

Sempre se pensara que, com a imortalidade, os homens regressariam rapidamente à decadência. Isto não aconteceu. Os terrestres imortais não se satisfaziam com a longevidade em si; desejavam ocupar seu tempo com construções matemáticas que fossem mais e mais perfeitas, mais e mais ideais. 

Os cientistas decidiram, então, não mais se ater a hipóteses ou construções matemáticas que tendessem à perfeição, mas a trabalhar o mais seriamente possível para atingir um novo objetivo estipulado: construir não um esquema mental, mas um modelo real de um Destruidor de Galáxias e que fosse absolutamente ideal. Assim, teriam também outro desafio com que se defrontar.

Cuidar para se protegerem dele.


*Sobre Roberto Fiori:
Escritor de Literatura Fantástica. Natural de São Paulo, reside atualmente em Vargem Grande Paulista, no Estado de São Paulo. Graduou-se na FATEC – SP e trabalhou por anos como free-lancer em Informática. Estudou pintura a óleo. Hoje, dedica-se somente à literatura, tendo como hobby sua guitarra elétrica. Estudou literatura com o escritor, poeta, cineasta e pintor André Carneiro, na Oficina da Palavra, em São Paulo. Mas Roberto não é somente aficionado por Ficção Científica, Fantasia e Horror. Admira toda forma de arte, arte que, segundo o escritor, quando realizada com bom gosto e técnica apurada, torna-se uma manifestação do espírito elevada e extremamente valiosa.

Sobre o livro “Futuro! – contos fantásticos de outros lugares e outros tempos”, do autor Roberto Fiori:

Sinopse: Contos instigantes, com o poder de tele transporte às mais remotas fronteiras de nosso Universo e diferentes dimensões.
Assim é “Futuro! – contos fantásticos de outros lugares e outros tempos”, uma celebração à humanidade, uma raça que, através de suas conquistas, demonstra que deseja tudo, menos permanecer parada no tempo e espaço.

Dizem que duas pessoas podem fazer a diferença, quando no espaço e na Terra parece não haver mais nenhuma esperança de paz. Histórias de conquistas e derrotas fenomenais. Do avanço inexorável de uma raça exótica que jamais será derrotada... Ou a fantasia que conta a chegada de um povo que, em tempos remotos, ameaçou o Homem e tinha tudo para destruí-lo. Esses são relatos dos tempos em que o futuro do Homem se dispunha em um xadrez interplanetário, onde Marte era uma potência econômica e militar, e a Terra, um mero aprendiz neste jogo de vida e morte... Ou, em outro mundo, permanece o aviso de que um dia o sistema solar não mais existirá, morte e destruição esperando pelos habitantes da Terra.
Através desta obra, será impossível o leitor não lembrar de quando o ser humano enviou o primeiro satélite artificial para a órbita — o Sputnik —, o primeiro cosmonauta a orbitar a Terra — Yuri Alekseievitch Gagarin — e deu-se o primeiro pouso do Homem na Lua, na missão Apollo 11.
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segunda-feira, 1 de março de 2021

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APOCALIPSE - CONTOS E POEMAS SOBRE O FIM DO MUNDO":

Título: Apocalipse - Contos e poemas sobre o fim do mundo
Organizador: Ademir Pascale
Introdução: Gilmar Duarte Rocha
Coautores:  
Ana Beatriz Franco - Assistindo ao fim do mundo da varanda
André Luiz Martins de Almeida (ALZ2001) - Missão de Fé
Roberto Schima - Pela Raiz
Sid Fontoura - A Centelha da Vida
Marcos Souza - Reunião Derradeira
Lucas Pessô Feniman - O Grande Colapso
Evelyn Mello e Hugo Brasarock - Um dia no limiar do fim do mundo
Roberto Minadeo - O fim do fim
Tatiana Araújo - Não era mais o mesmo, mas estava em seu lugar 
Veronica Stivanim - Apocalipse de mim
Elis Schwanka - Ponto de vista e Por quê?
Cleber Gimenes Freitas e Erica Ribeiro de Almeida - No dia em que o mundo acabou
Henrique Leto - Quatro
Gisele Wommer - Fuga Glacial
Nº de páginas: 72
Tipo: E-book
Ano: 2021

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sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

Conto "Cai a noite", por Roberto Fiori


É caída a noite. Ao Sul da constelação de Pégaso, pode-se ver três manchas esmaecidas. É o que restou de três estrelas da constelação de Aquário, Sadalmelik, Sadalsund e Albali. Batalhas titânicas foram travadas nessa região do espaço e a energia termonuclear de tais sóis foi drenada para se combater um adversário tão poderoso, quanto temido pelos homens. Agora, todos os mortais descansam, após a longa labuta das Três Estrelas, em que, a cada batalha estelar, uma a menos restava para nos aquecer e proteger. Pois o Sol, abandonado há muito, fora extinto pelas Máquinas de Destruição, as Tauser-Borat, e a Humanidade fugira para Albali, estrela semelhante ao Sol, de quinta grandeza. 

É chegado o Fim. Pois, após a última escaramuça, há tanto tempo que nem mesmo se encontra em minha memória, os homens se encontravam enfraquecidos o bastante para continuar a tarefa dura e constante de sobreviver. As Tauser-Borat, mesmo tão imponentes como o seu nome, viriam a sofrer colapsos sucessivos, tal a violência das lutas.

Em um planeta que orbitava Albali, construiu-se a última das cidades humanas, Hectoriadmi. No horizonte sem fim pode-se avistar algumas antigas montanhas, chamadas de Montanhas Dinásticas ou algo assim. Quanto mais o homem retirava energia de Albali, mais gelados se tornaram seus altiplanos, cumes e vertentes, e poucos eram os animais ou os intrépidos habitantes que lá continuavam a viver.

Alguns livros muito antigos, congelados e quebradiços, guardam ainda as palavras de antigos guerreiros: com o uso dos campos de fusão nuclear, poderemos deter as máquinas. Mas o Estado-Maior de toda península de Neme deve estar ciente do poderio de tais inimigos. Sendo...

Desse modo, o último livro dos terrenos descreve a situação, talvez dramática, talvez desesperadora, mas meus interiores têm pouco a discernir em matéria de sentimentos belicosos. Afinal, os humanos que me idealizaram não eram guerreiros.

No céu, negro e coalhado de estrelas, algumas em estágio de supernova, há um lembrete. Havia sido a última tarefa, a última realização que os humanos haviam conseguido concretizar, da queda das estrelas e dos planetas pelos quais eles lutaram por sua posse. Altaneira, entre constelações e aglomerados globulares de um bilhão de estrelas, jaz uma mensagem em transpacial: Não matamos por prazer, não lutamos por emoção, apenas construímos demais e, por elaborar demais, acabamos como os planetas, estéreis e sem nada por que lutar. Apenas construíamos e dominávamos. Não sigam o nosso caminho.

Cogito eu mesmo, invisível em minha própria dimensão em que os terrenos me acolheram, se eles não deixaram a opção da morte em meus vários crânios — ou o equivalente a eles em minha versão maquinal —, mas se até hoje não a descobri, então fui feito para viver - poderá haver propósito mais nobre em meu criador?


*Sobre Roberto Fiori:
Escritor de Literatura Fantástica. Natural de São Paulo, reside atualmente em Vargem Grande Paulista, no Estado de São Paulo. Graduou-se na FATEC – SP e trabalhou por anos como free-lancer em Informática. Estudou pintura a óleo. Hoje, dedica-se somente à literatura, tendo como hobby sua guitarra elétrica. Estudou literatura com o escritor, poeta, cineasta e pintor André Carneiro, na Oficina da Palavra, em São Paulo. Mas Roberto não é somente aficionado por Ficção Científica, Fantasia e Horror. Admira toda forma de arte, arte que, segundo o escritor, quando realizada com bom gosto e técnica apurada, torna-se uma manifestação do espírito elevada e extremamente valiosa.

Sobre o livro “Futuro! – contos fantásticos de outros lugares e outros tempos”, do autor Roberto Fiori:

Sinopse: Contos instigantes, com o poder de tele transporte às mais remotas fronteiras de nosso Universo e diferentes dimensões.
Assim é “Futuro! – contos fantásticos de outros lugares e outros tempos”, uma celebração à humanidade, uma raça que, através de suas conquistas, demonstra que deseja tudo, menos permanecer parada no tempo e espaço.

Dizem que duas pessoas podem fazer a diferença, quando no espaço e na Terra parece não haver mais nenhuma esperança de paz. Histórias de conquistas e derrotas fenomenais. Do avanço inexorável de uma raça exótica que jamais será derrotada... Ou a fantasia que conta a chegada de um povo que, em tempos remotos, ameaçou o Homem e tinha tudo para destruí-lo. Esses são relatos dos tempos em que o futuro do Homem se dispunha em um xadrez interplanetário, onde Marte era uma potência econômica e militar, e a Terra, um mero aprendiz neste jogo de vida e morte... Ou, em outro mundo, permanece o aviso de que um dia o sistema solar não mais existirá, morte e destruição esperando pelos habitantes da Terra.
Através desta obra, será impossível o leitor não lembrar de quando o ser humano enviou o primeiro satélite artificial para a órbita — o Sputnik —, o primeiro cosmonauta a orbitar a Terra — Yuri Alekseievitch Gagarin — e deu-se o primeiro pouso do Homem na Lua, na missão Apollo 11.
O livro traz à tona feitos gloriosos da Humanidade, que conseguirá tudo o que almeja, se o destino e os deuses permitirem.

Para adquirir o livro:
Diretamente com o autor: spbras2000@gmail.com
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sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

Conto "Noite", de Roberto Fiori


Noite. A bruma envolve a terra e as gramíneas, como ser vivo. Os insetos param de esvoaçar, restam os grilos, cujos “cri-cris” começam cedo no cortejo com as fêmeas. Distante, um sinal, um piscar na costa da praia. Um farol, avisando as embarcações dos rochedos traiçoeiros. A areia que circunda o prédio foi raspada há anos, retirada para servir na construção civil, na cidadezinha litorânea próxima.
Mas o farol permanece, automático e atingindo o alto mar, a luz de seu projetor a cinquenta metros de altura. O faroleiro morreu há tempos e sua ex-mulher está idosa, agora. As filhas do casal se mudaram para um grande centro urbano, a oitenta quilômetros de distância.
Dou a volta pelo acesso à praia e encosto o carro junto à construção. De pé, ao lado do automóvel, fico olhando as ondas. Violentas, para essa época do ano. Mas relaxo. A zona de arrebentação está recolhida, a uns cem ou cento e cinquenta metros do farol. Vou até o portão, no térreo. Está aberto, as dobradiças enferrujadas e quebradas. Chego no primeiro andar, pela escada em espiral. Todo o local está encharcado. Alguns ratos correm, quando eu piso no chão de cimento. Sou visitante indesejado, nem os roedores me querem. Mas quem sabe os insetos gostem de picar um intruso...
Vou até a janela frontal do farol. O vidro quebrado é a razão de tanta água existir neste pavimento, a essa altura tão baixa. Desisto de subir até o segundo andar. Sei o que vou encontrar lá. No carro, tiro um relógio onde minha esposa posa com um sorriso encantador. Mas ela faleceu, há tantos e tantos anos.
Dirijo pela praia. Muros de pedra e concreto foram erguidos, afastados dez a doze metros da linha do farol, para o interior. A maré subiria às três da manhã, no máximo, portanto tenho tempo. O local estava próximo, alguns quilômetros para o Norte.
Dou uma guinada, quando umas cinco ou seis gaivotas levantam voo, saindo de uma depressão alagada. A lagoa fora formada pela ação do mar sobe a areia, num ponto avançado da maré, onde as ondas quebravam em marolas. Os pássaros chapinhavam, buscando conchas, mariscos. Acelero até sessenta quilômetros por hora. Desvio-me com facilidade de um monte, que fora deixado pelas máquinas escavadeiras.
Chego em um local cercado por barbantes e linhas de pesca, unindo quatro postes de madeira, fincados formando um quadrado. No centro, uma casa cúbica, as paredes lisas de madeira, sem vegetação ao redor. Desço do carro e passo por baixo das linhas de pesca. Dou a volta na casa. Na parede traseira, descubro um mapa, riscado na madeira negra. Apagado, deixa de revelar o que se encontra no interior da forma cúbica. Ao lado do desenho, uma parte octogonal da parede está retraída para dentro.
Passo a mão pelos contornos da porta, linhas escavadas com profundidade na borda do octógono. Derek me falara sobre isso, prestes a morrer junto a mim, há exato um mês. Volto ao carro e retiro uma furadeira acionada por bateria. Coloco a ponta da broca sobre o centro da porta e abro caminho. A madeira é furada, destroçada, até chegar à base broca, onde é atarraxada no corpo da furadeira. Golpeio a madeira sem dó, perfurando os contornos da porta em vários pontos, abrindo buracos de quarenta centímetros de profundidade.
Eu tinha certeza de que Derek me contara a verdade. Quando acabara de fazer oito perfurações nas linhas do contorno da porta, ouvi um barulho, que se transformou em um longo estouro. Afastei-me. A madeira do octógono vibrou e eu corri, a tempo de escapar da avalanche. Toneladas de terra foram arremessadas através da porta e começaram a se espalhar pela traseira da casa cúbica. Eu cheguei lado do carro, abri a porta e me preparei para partir.
A enxurrada de terra seca parou, em cinco minutos. O estrondo cessou. Corri por cima da terra, para a porta da estrutura. Podia passar, mas agachado. Cheguei ao quadro de luz e acionei os disjuntores. Para minha sorte, a luz sobreveio e revelou formas que fizeram meus olhos cintilarem.
Ouro, pedras preciosas e âmbar, nas paredes, em baús abertos, entre a areia que permanecera no interior da construção! O sonho de um homem simples, como eu. E como Derek. Um amigo que me confidenciou dez valiosíssimos locais que, quem os alcançasse, seria a pessoa com uma fortuna que chegava à altura daquela das antigas Pirâmides de Queóps, Quefren, Micherinos e do interior da enigmática Esfinge, do tempo glorioso dos faraós.
Ouvi um ruído de arrastar, vindo de uma divisória de pedra que atravessava a casa lado a lado, em sua parte frontal. Decidi levar o mais precioso tesouro que existia entre tantos. Havia um diamante gigantesco, que deixaria o Cullinan a ver navios. Mais de dois mil quilates brutos, eu estimei, ao levantar a pedra de uma caixa em forma de ostra gigante. Daria mil quilates líquidos, pelo menos um bilhão de euros, no mercado negro. Tirei a joia de onde estava e o raspar no corredor começou a se aproximar.
Corri, deixando a casa e o que quer que existisse tentando me alcançar, para trás. Liguei o carro, o diamante no banco de passageiros a meu lado, e voltei. Quando cheguei a cem metros de distância, o motor enguiçou, em uma pane seca. Fitei o mostrador da capacidade do tanque de combustível, a zero. Eu tinha a certeza de ter abastecido o automóvel! Agarrei a pedra bruta pesada e comecei a caminhar, em direção ao farol. A praia fora murada por trinta quilômetros e eu tinha cinco a percorrer até o ponto onde havia entrado nas areias.
Caminhei sem dificuldade por vinte minutos, a passos largos. Mas comecei a sentir uma enorme vontade de deixar o diamante a meus pés. Ignorei esse sentimento. A pedra ficou minuto a minuto pesada, mais e mais. Em vinte minutos, minha testa banhava-se de suor. Em trinta, minhas pernas amoleceram. Eu me pus de joelhos, os olhos vidrados, as mãos carregando... o quê?
Arrastei-me por um quilômetro, até meus joelhos sangrarem. Olhei para a esquerda. A maré estava adiantada. Ondas de quinze metros vinham em minha direção. Calculei que me alcançariam em trinta segundos. Debrucei-me sobre meus braços, as mãos apertando algo sem significado.
Quando as ondas desabaram sobre mim, ouvi um som de rastejar. Alguma coisa me dizia que eu tinha de sair dali.

 

*Sobre Roberto Fiori:
Escritor de Literatura Fantástica. Natural de São Paulo, reside atualmente em Vargem Grande Paulista, no Estado de São Paulo. Graduou-se na FATEC – SP e trabalhou por anos como free-lancer em Informática. Estudou pintura a óleo. Hoje, dedica-se somente à literatura, tendo como hobby sua guitarra elétrica. Estudou literatura com o escritor, poeta, cineasta e pintor André Carneiro, na Oficina da Palavra, em São Paulo. Mas Roberto não é somente aficionado por Ficção Científica, Fantasia e Horror. Admira toda forma de arte, arte que, segundo o escritor, quando realizada com bom gosto e técnica apurada, torna-se uma manifestação do espírito elevada e extremamente valiosa.

Sobre o livro “Futuro! – contos fantásticos de outros lugares e outros tempos”, do autor Roberto Fiori:

Sinopse: Contos instigantes, com o poder de tele transporte às mais remotas fronteiras de nosso Universo e diferentes dimensões.
Assim é “Futuro! – contos fantásticos de outros lugares e outros tempos”, uma celebração à humanidade, uma raça que, através de suas conquistas, demonstra que deseja tudo, menos permanecer parada no tempo e espaço.

Dizem que duas pessoas podem fazer a diferença, quando no espaço e na Terra parece não haver mais nenhuma esperança de paz. Histórias de conquistas e derrotas fenomenais. Do avanço inexorável de uma raça exótica que jamais será derrotada... Ou a fantasia que conta a chegada de um povo que, em tempos remotos, ameaçou o Homem e tinha tudo para destruí-lo. Esses são relatos dos tempos em que o futuro do Homem se dispunha em um xadrez interplanetário, onde Marte era uma potência econômica e militar, e a Terra, um mero aprendiz neste jogo de vida e morte... Ou, em outro mundo, permanece o aviso de que um dia o sistema solar não mais existirá, morte e destruição esperando pelos habitantes da Terra.
Através desta obra, será impossível o leitor não lembrar de quando o ser humano enviou o primeiro satélite artificial para a órbita — o Sputnik —, o primeiro cosmonauta a orbitar a Terra — Yuri Alekseievitch Gagarin — e deu-se o primeiro pouso do Homem na Lua, na missão Apollo 11.
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