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sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

Conto "Cai a noite", por Roberto Fiori


É caída a noite. Ao Sul da constelação de Pégaso, pode-se ver três manchas esmaecidas. É o que restou de três estrelas da constelação de Aquário, Sadalmelik, Sadalsund e Albali. Batalhas titânicas foram travadas nessa região do espaço e a energia termonuclear de tais sóis foi drenada para se combater um adversário tão poderoso, quanto temido pelos homens. Agora, todos os mortais descansam, após a longa labuta das Três Estrelas, em que, a cada batalha estelar, uma a menos restava para nos aquecer e proteger. Pois o Sol, abandonado há muito, fora extinto pelas Máquinas de Destruição, as Tauser-Borat, e a Humanidade fugira para Albali, estrela semelhante ao Sol, de quinta grandeza. 

É chegado o Fim. Pois, após a última escaramuça, há tanto tempo que nem mesmo se encontra em minha memória, os homens se encontravam enfraquecidos o bastante para continuar a tarefa dura e constante de sobreviver. As Tauser-Borat, mesmo tão imponentes como o seu nome, viriam a sofrer colapsos sucessivos, tal a violência das lutas.

Em um planeta que orbitava Albali, construiu-se a última das cidades humanas, Hectoriadmi. No horizonte sem fim pode-se avistar algumas antigas montanhas, chamadas de Montanhas Dinásticas ou algo assim. Quanto mais o homem retirava energia de Albali, mais gelados se tornaram seus altiplanos, cumes e vertentes, e poucos eram os animais ou os intrépidos habitantes que lá continuavam a viver.

Alguns livros muito antigos, congelados e quebradiços, guardam ainda as palavras de antigos guerreiros: com o uso dos campos de fusão nuclear, poderemos deter as máquinas. Mas o Estado-Maior de toda península de Neme deve estar ciente do poderio de tais inimigos. Sendo...

Desse modo, o último livro dos terrenos descreve a situação, talvez dramática, talvez desesperadora, mas meus interiores têm pouco a discernir em matéria de sentimentos belicosos. Afinal, os humanos que me idealizaram não eram guerreiros.

No céu, negro e coalhado de estrelas, algumas em estágio de supernova, há um lembrete. Havia sido a última tarefa, a última realização que os humanos haviam conseguido concretizar, da queda das estrelas e dos planetas pelos quais eles lutaram por sua posse. Altaneira, entre constelações e aglomerados globulares de um bilhão de estrelas, jaz uma mensagem em transpacial: Não matamos por prazer, não lutamos por emoção, apenas construímos demais e, por elaborar demais, acabamos como os planetas, estéreis e sem nada por que lutar. Apenas construíamos e dominávamos. Não sigam o nosso caminho.

Cogito eu mesmo, invisível em minha própria dimensão em que os terrenos me acolheram, se eles não deixaram a opção da morte em meus vários crânios — ou o equivalente a eles em minha versão maquinal —, mas se até hoje não a descobri, então fui feito para viver - poderá haver propósito mais nobre em meu criador?


*Sobre Roberto Fiori:
Escritor de Literatura Fantástica. Natural de São Paulo, reside atualmente em Vargem Grande Paulista, no Estado de São Paulo. Graduou-se na FATEC – SP e trabalhou por anos como free-lancer em Informática. Estudou pintura a óleo. Hoje, dedica-se somente à literatura, tendo como hobby sua guitarra elétrica. Estudou literatura com o escritor, poeta, cineasta e pintor André Carneiro, na Oficina da Palavra, em São Paulo. Mas Roberto não é somente aficionado por Ficção Científica, Fantasia e Horror. Admira toda forma de arte, arte que, segundo o escritor, quando realizada com bom gosto e técnica apurada, torna-se uma manifestação do espírito elevada e extremamente valiosa.

Sobre o livro “Futuro! – contos fantásticos de outros lugares e outros tempos”, do autor Roberto Fiori:

Sinopse: Contos instigantes, com o poder de tele transporte às mais remotas fronteiras de nosso Universo e diferentes dimensões.
Assim é “Futuro! – contos fantásticos de outros lugares e outros tempos”, uma celebração à humanidade, uma raça que, através de suas conquistas, demonstra que deseja tudo, menos permanecer parada no tempo e espaço.

Dizem que duas pessoas podem fazer a diferença, quando no espaço e na Terra parece não haver mais nenhuma esperança de paz. Histórias de conquistas e derrotas fenomenais. Do avanço inexorável de uma raça exótica que jamais será derrotada... Ou a fantasia que conta a chegada de um povo que, em tempos remotos, ameaçou o Homem e tinha tudo para destruí-lo. Esses são relatos dos tempos em que o futuro do Homem se dispunha em um xadrez interplanetário, onde Marte era uma potência econômica e militar, e a Terra, um mero aprendiz neste jogo de vida e morte... Ou, em outro mundo, permanece o aviso de que um dia o sistema solar não mais existirá, morte e destruição esperando pelos habitantes da Terra.
Através desta obra, será impossível o leitor não lembrar de quando o ser humano enviou o primeiro satélite artificial para a órbita — o Sputnik —, o primeiro cosmonauta a orbitar a Terra — Yuri Alekseievitch Gagarin — e deu-se o primeiro pouso do Homem na Lua, na missão Apollo 11.
O livro traz à tona feitos gloriosos da Humanidade, que conseguirá tudo o que almeja, se o destino e os deuses permitirem.

Para adquirir o livro:
Diretamente com o autor: spbras2000@gmail.com
Livro Impresso:
Na editora, pelo link: Clique aqui.
No site da Submarino: Clique aqui.
No site das americanas.com: Clique aqui.

E-book:
Pelo site da Saraiva: Clique aqui.
Pelo site da Amazon: Clique aqui.
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sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

Conto "Noite", de Roberto Fiori


Noite. A bruma envolve a terra e as gramíneas, como ser vivo. Os insetos param de esvoaçar, restam os grilos, cujos “cri-cris” começam cedo no cortejo com as fêmeas. Distante, um sinal, um piscar na costa da praia. Um farol, avisando as embarcações dos rochedos traiçoeiros. A areia que circunda o prédio foi raspada há anos, retirada para servir na construção civil, na cidadezinha litorânea próxima.
Mas o farol permanece, automático e atingindo o alto mar, a luz de seu projetor a cinquenta metros de altura. O faroleiro morreu há tempos e sua ex-mulher está idosa, agora. As filhas do casal se mudaram para um grande centro urbano, a oitenta quilômetros de distância.
Dou a volta pelo acesso à praia e encosto o carro junto à construção. De pé, ao lado do automóvel, fico olhando as ondas. Violentas, para essa época do ano. Mas relaxo. A zona de arrebentação está recolhida, a uns cem ou cento e cinquenta metros do farol. Vou até o portão, no térreo. Está aberto, as dobradiças enferrujadas e quebradas. Chego no primeiro andar, pela escada em espiral. Todo o local está encharcado. Alguns ratos correm, quando eu piso no chão de cimento. Sou visitante indesejado, nem os roedores me querem. Mas quem sabe os insetos gostem de picar um intruso...
Vou até a janela frontal do farol. O vidro quebrado é a razão de tanta água existir neste pavimento, a essa altura tão baixa. Desisto de subir até o segundo andar. Sei o que vou encontrar lá. No carro, tiro um relógio onde minha esposa posa com um sorriso encantador. Mas ela faleceu, há tantos e tantos anos.
Dirijo pela praia. Muros de pedra e concreto foram erguidos, afastados dez a doze metros da linha do farol, para o interior. A maré subiria às três da manhã, no máximo, portanto tenho tempo. O local estava próximo, alguns quilômetros para o Norte.
Dou uma guinada, quando umas cinco ou seis gaivotas levantam voo, saindo de uma depressão alagada. A lagoa fora formada pela ação do mar sobe a areia, num ponto avançado da maré, onde as ondas quebravam em marolas. Os pássaros chapinhavam, buscando conchas, mariscos. Acelero até sessenta quilômetros por hora. Desvio-me com facilidade de um monte, que fora deixado pelas máquinas escavadeiras.
Chego em um local cercado por barbantes e linhas de pesca, unindo quatro postes de madeira, fincados formando um quadrado. No centro, uma casa cúbica, as paredes lisas de madeira, sem vegetação ao redor. Desço do carro e passo por baixo das linhas de pesca. Dou a volta na casa. Na parede traseira, descubro um mapa, riscado na madeira negra. Apagado, deixa de revelar o que se encontra no interior da forma cúbica. Ao lado do desenho, uma parte octogonal da parede está retraída para dentro.
Passo a mão pelos contornos da porta, linhas escavadas com profundidade na borda do octógono. Derek me falara sobre isso, prestes a morrer junto a mim, há exato um mês. Volto ao carro e retiro uma furadeira acionada por bateria. Coloco a ponta da broca sobre o centro da porta e abro caminho. A madeira é furada, destroçada, até chegar à base broca, onde é atarraxada no corpo da furadeira. Golpeio a madeira sem dó, perfurando os contornos da porta em vários pontos, abrindo buracos de quarenta centímetros de profundidade.
Eu tinha certeza de que Derek me contara a verdade. Quando acabara de fazer oito perfurações nas linhas do contorno da porta, ouvi um barulho, que se transformou em um longo estouro. Afastei-me. A madeira do octógono vibrou e eu corri, a tempo de escapar da avalanche. Toneladas de terra foram arremessadas através da porta e começaram a se espalhar pela traseira da casa cúbica. Eu cheguei lado do carro, abri a porta e me preparei para partir.
A enxurrada de terra seca parou, em cinco minutos. O estrondo cessou. Corri por cima da terra, para a porta da estrutura. Podia passar, mas agachado. Cheguei ao quadro de luz e acionei os disjuntores. Para minha sorte, a luz sobreveio e revelou formas que fizeram meus olhos cintilarem.
Ouro, pedras preciosas e âmbar, nas paredes, em baús abertos, entre a areia que permanecera no interior da construção! O sonho de um homem simples, como eu. E como Derek. Um amigo que me confidenciou dez valiosíssimos locais que, quem os alcançasse, seria a pessoa com uma fortuna que chegava à altura daquela das antigas Pirâmides de Queóps, Quefren, Micherinos e do interior da enigmática Esfinge, do tempo glorioso dos faraós.
Ouvi um ruído de arrastar, vindo de uma divisória de pedra que atravessava a casa lado a lado, em sua parte frontal. Decidi levar o mais precioso tesouro que existia entre tantos. Havia um diamante gigantesco, que deixaria o Cullinan a ver navios. Mais de dois mil quilates brutos, eu estimei, ao levantar a pedra de uma caixa em forma de ostra gigante. Daria mil quilates líquidos, pelo menos um bilhão de euros, no mercado negro. Tirei a joia de onde estava e o raspar no corredor começou a se aproximar.
Corri, deixando a casa e o que quer que existisse tentando me alcançar, para trás. Liguei o carro, o diamante no banco de passageiros a meu lado, e voltei. Quando cheguei a cem metros de distância, o motor enguiçou, em uma pane seca. Fitei o mostrador da capacidade do tanque de combustível, a zero. Eu tinha a certeza de ter abastecido o automóvel! Agarrei a pedra bruta pesada e comecei a caminhar, em direção ao farol. A praia fora murada por trinta quilômetros e eu tinha cinco a percorrer até o ponto onde havia entrado nas areias.
Caminhei sem dificuldade por vinte minutos, a passos largos. Mas comecei a sentir uma enorme vontade de deixar o diamante a meus pés. Ignorei esse sentimento. A pedra ficou minuto a minuto pesada, mais e mais. Em vinte minutos, minha testa banhava-se de suor. Em trinta, minhas pernas amoleceram. Eu me pus de joelhos, os olhos vidrados, as mãos carregando... o quê?
Arrastei-me por um quilômetro, até meus joelhos sangrarem. Olhei para a esquerda. A maré estava adiantada. Ondas de quinze metros vinham em minha direção. Calculei que me alcançariam em trinta segundos. Debrucei-me sobre meus braços, as mãos apertando algo sem significado.
Quando as ondas desabaram sobre mim, ouvi um som de rastejar. Alguma coisa me dizia que eu tinha de sair dali.

 

*Sobre Roberto Fiori:
Escritor de Literatura Fantástica. Natural de São Paulo, reside atualmente em Vargem Grande Paulista, no Estado de São Paulo. Graduou-se na FATEC – SP e trabalhou por anos como free-lancer em Informática. Estudou pintura a óleo. Hoje, dedica-se somente à literatura, tendo como hobby sua guitarra elétrica. Estudou literatura com o escritor, poeta, cineasta e pintor André Carneiro, na Oficina da Palavra, em São Paulo. Mas Roberto não é somente aficionado por Ficção Científica, Fantasia e Horror. Admira toda forma de arte, arte que, segundo o escritor, quando realizada com bom gosto e técnica apurada, torna-se uma manifestação do espírito elevada e extremamente valiosa.

Sobre o livro “Futuro! – contos fantásticos de outros lugares e outros tempos”, do autor Roberto Fiori:

Sinopse: Contos instigantes, com o poder de tele transporte às mais remotas fronteiras de nosso Universo e diferentes dimensões.
Assim é “Futuro! – contos fantásticos de outros lugares e outros tempos”, uma celebração à humanidade, uma raça que, através de suas conquistas, demonstra que deseja tudo, menos permanecer parada no tempo e espaço.

Dizem que duas pessoas podem fazer a diferença, quando no espaço e na Terra parece não haver mais nenhuma esperança de paz. Histórias de conquistas e derrotas fenomenais. Do avanço inexorável de uma raça exótica que jamais será derrotada... Ou a fantasia que conta a chegada de um povo que, em tempos remotos, ameaçou o Homem e tinha tudo para destruí-lo. Esses são relatos dos tempos em que o futuro do Homem se dispunha em um xadrez interplanetário, onde Marte era uma potência econômica e militar, e a Terra, um mero aprendiz neste jogo de vida e morte... Ou, em outro mundo, permanece o aviso de que um dia o sistema solar não mais existirá, morte e destruição esperando pelos habitantes da Terra.
Através desta obra, será impossível o leitor não lembrar de quando o ser humano enviou o primeiro satélite artificial para a órbita — o Sputnik —, o primeiro cosmonauta a orbitar a Terra — Yuri Alekseievitch Gagarin — e deu-se o primeiro pouso do Homem na Lua, na missão Apollo 11.
O livro traz à tona feitos gloriosos da Humanidade, que conseguirá tudo o que almeja, se o destino e os deuses permitirem.

Para adquirir o livro:
Diretamente com o autor: spbras2000@gmail.com
Livro Impresso:
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quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

Saiu a lista dos selecionados da antologia O LEGADO DE H. P. LOVECRAFT. Confira

 


CONHEÇA OS SELECIONADOS DA ANTOLOGIA "O LEGADO DE H. P. LOVECRAFT"

Sinopse: Apaixonado por poemas e por histórias clássicas do terror gótico, autor que revolucionou o gênero dos contos de terror, com elementos fantásticos e de ficção científica, criador de O Chamado de Cthulhu e de um dos artefatos mais incríveis já criados numa história, o Necronomicon, um livro fictício de invocação de demônios. Agora faz parte da nossa coleção de e-books, sendo o primeiro "O Legado de Edgar Allan Poe". Autores talentosos irão compor o e-book com contos de terror, seguindo o legado do mestre Lovecraft. 

LISTA DOS AUTORES SELECIONADOS DA ANTOLOGIA "O LEGADO DE H. P. LOVECRAFT":

 1 -  Camila de Nazaré Colares da Rocha - "Ranger de Dentes" e "Sonho"
 2 -  Cleber Gimenes Freitas e Erica Ribeiro de Almeida - "Man"
 3 -  Kátia de Souza Nascimento (Kátia Surreal) - "Rosa Negra" e "O vampiro do espelho"
 4 -  Sergio Ricardo Spitaleti (Ricardo Spitaleti) - "Quando abrir meus olhos"
 5 -  Fernando Antonio Prado Gimenez - "Rolando"
 6 -  Sidnei Fontoura Rodrigues (Sid Fontoura) - "O palco do terror"
 7 -  Roberto Schima - "HPL-46 Necronomicon"
 8 -  J.R. Araujo - "Transformação adiabática"
 9 -  Danilo Moura Seraphim (Danilo Seraphim) - "Espírito das Águas"
10 - Marcus Vinícius Silva Hemerly (Marcus Hemerly) - "À sete palmos da realidade"
11 - Dalvilson Donizete Policarpo (Policarpo) - "A Prenda"
12 - Cristiane de Mesquita Alves - "Retorno dos Gatos"
13 - Cida Simka e Sérgio Simka - "O segredo da velha igreja"
14 - Raquel de Castro dos Santos - "Lar" e "Partida"

PARABÉNS. Entraremos em contato via e-mail com os selecionados.

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segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

Neve, por Roberto Fiori


Olhando pela janela do posto, o Primeiro-Tenente Williams pressentia a chegada de um Inverno que seria rigoroso ao extremo. Era como um torvelinho de emoções sem calor humano, enregelando aos poucos o ambiente que cercava a estação onde o homem mantinha guarda.

“Uau!”, pensou ele, observando o horizonte próximo, onde nuvens de cor cinza-chumbo se enovelavam como se ventos de altíssima velocidade as guiassem na atmosfera, enrodilhando-se e espalhando-se em todas as direções.

O oficial se afastou da grande placa de vidro temperado. O termostato do posto de fronteira estava regulado para o automático, elevando a temperatura do interior da construção à medida que o lado de fora atingia um nível insuportável para o homem.

Williams sentia como se todos os contatos com vida inteligente ou primitiva houvessem sido cortados, a barreira do frio cortante isolando seres humanos de criaturas do gelo. Pelo radar, uma miríade de animais diversos estavam se dirigindo em velocidade para terras amenas, em direção ao Equador. Era diferente na Terra. Enquanto que lá existia uma calota polar permanente na região do extremo Sul do planeta, em Sirian eram as terras do Norte que abrigavam uma calota de gelo, enquanto que no Sul, o gelo quebrava-se e se movia em muitos lugares.

Era meio-dia. Em duas semanas, a noite de seis meses viria e inundaria tudo com cerração gélida. “Mas isso vai acontecer mais cedo do que as previsões anuais disseram”, pensou Williams, lembrando-se da cena de pesadelo que vira pela janela. Refletiu que estava em segurança, com as instalações térmicas funcionando e aquela couraça que eram as paredes da Estação Militar Dreadnought, afastando qualquer ameaça que pudesse existir.

“Isso incluía uma explosão termonuclear de quinhentos megatons, a cem metros acima do posto militar”, refletiu o tenente, dirigindo-se para a cozinha do complexo. Entrou no depósito refrigerado e apanhando o que lhe apetecia, para a seguir colocar em duas frigideiras duas costeletas e dois ovos, que partiu. Despejou azeite sobre a comida e ligou os bicos de gás. Lembrando-se das nuvens congelantes ao Norte da Estação, deixou por um minuto a comida sendo frita e voltou à janela de observação. 

“Meu bom Deus!”, arregalou os olhos, ao reparar em como o céu tinha enegrecido. As nuvens pesadas e baixas haviam coberto a Estação, impedindo a passagem da luz solar, exceto por uma área. A escuridão tornou-se total, quando até mesmo essa região de luz foi tomada pelas nuvens e desapareceu. O interior da construção em forma de domo iluminou-se. O homem veio à tela de radar e constatou que toda e qualquer forma de vida havia desaparecido da área ao Norte do Círculo Polar Ártico do planeta. Ampliou o raio de alcance do dispositivo e reparou que, até cinco mil quilômetros ao Sul do Pólo Norte, os seres estranhos que habitavam aquela região estavam ausentes.

Williams passou pela cozinha e sentou-se na sala de comunicações. Emitiu um alerta global. Outras Estações Militares e de Pesquisa haveriam de receber o alarme. Mas, se não, os outros planetas do Sistema Estelar que orbitavam a estrela Procyon, onde o planeta de gelo Sirian situava-se, atenderiam o chamado. O militar se lembrou dos ovos e das costeletas. Pulou do assento, defronte ao painel de controle, e alcançou... dois ovos esturricados e duas costeletas queimadas, não tostadas...

“Bem, posso preparar centenas...”, e dirigiu-se ao depósito, onde tirou outras duas porções de carne e dois ovos, desta vez de tamanho “macro”. As frigideiras eram antiaderentes, seria fácil lavá-las. A comida, ele cuidaria para que não fosse desperdiçada.

Do lado de fora da Estação, a neve começava a cair, vinda dos rolos grossos e mortais de nuvens negras...

Williams terminou o almoço aproveitando cada pedaço de comida, como se fosse uma iguaria rara. Pensou na Terra. Seu planeta natal era o paraíso, diferente de Sirian, onde ele se encontrava isolado e à mercê dos animais do gelo, venenosos e traiçoeiros, e das grandes criaturas semelhantes a ursos, com o dobro da envergadura de um urso pardo terrestre. Na Terra, podia-se deitar ao Sol nas praias de Verão e nadar nos mares e nas piscinas dos clubes de relaxamento e repouso. No mundo seco e gelado, havia o frio. O frio. 

Os homens tinham ampliado suas fronteiras através do espaço profundo, e isso era louvável. A superfície da Terra ressuscitara dos escombros de uma Guerra de dois mil anos, em que, mesmo sem o uso de armas nucleares, provocara uma hecatombe financeira e social. E, quinhentos anos passados desde a assinatura do Pacto de Pacificação, a Terra voltara a ter a aparência de antes da Era Nuclear. Mas havia a força atômica, ainda, levando a civilização terrestre a níveis de conforto e sofisticação extremas.

Um choque. O ruído de gelo caindo sobre a cúpula blindada de captação da luz solar. 

“Ora bolas, a cúpula tem baixa probabilidade de rachar. E tenho energia nuclear!”, irritou-se o tenente, seus pensamentos interrompidos pelo som do impacto, que cresceu. Foi até a escada, situada no lado exterior da sala de comunicações, e subiu ao primeiro andar. Ativou a tela para visualizar a cúpula e avaliou o estrago. O domo fora esmagado, rachando e deixando a neve penetrar, cobrindo a instalação com uma camada branca. 

“Decerto, as células fotovoltaicas estão destruídas. Mas como a cúpula desabou?”

Reparou no número de três dígitos, mostrado no canto direito superior da tela. Cento e quarenta graus abaixo de zero, era a temperatura da cúpula estraçalhada.

“O reator entrará em funcionamento, daqui a alguns segundos”, suspirou Williams. Mesmo assim, desceu a escada. Fechou o nível superior, trancando pelo painel de controle o acesso pela escadaria com a ação de robôs em miniatura munidos de placas de aço blindado, mãos mecânicas e equipamento de reparo. Dirigiu-se às escadas que davam para os subterrâneos. As paredes guardavam, a um lado, a entrada para o núcleo do reator, e, em outro lado, havia o acesso aos veículos da neve.

O oficial entrou no compartimento onde os carros da neve estavam estacionados. Encontrando um deles, entrou na cabine, à prova do frio, dos ursos e animais peçonhentos. Fora construída para enfrentar planetas hostis como aquele. Malignos. Todo Dreadnought era frio, o Equador com temperaturas máximas de cinquenta graus negativos, em época de calor. O mundo orbitava sua estrela na mesma posição que Marte em relação ao Sol, e a estrela do Sistema era uma anã branca, fria.

“Eu nunca soube o que significa a felicidade”, pensou Williams, fitando o painel de instrumentos, escuro e desativado. “Eu nem mesmo sei o que é a alegria, ou como alcançá-la. Por isso me alistei nas Forças Espaciais, para encontrá-las. Mas... quem me garante que nesse exato momento eu me encontro feliz?”

Um ruído de despedaçar distraiu-o, através da porta estanque aberta. Jogou-se para fora do veículo e correu para o nível térreo. Encontrou a fera plantada sobre os monitores de computador e de radar, no centro de comunicações. Ele estava desarmado. Relanceou os olhos para o teto e viu por onde o monstro havia entrado. Abrira caminho pela cúpula destruída e, com seu peso e sua força, arrebentara o teto, no local em que os robôs o fecharam.

A coisa era pegajosa. Mole, a pele engruvinhada como tecido amarrotado, caía em dobras pelo corpo que transpirava. Um ruído constante de fole, sugando o ar e o expelindo, enchia o ambiente. Patas com garras desproporcionais raspavam o metal do monitor do computador, um som agudo e desagradável. O Primeiro-Tenente pensou na arma de energia que mantinha sobre o criado-mudo de seu quarto de dormir. Poderia passar pelo “hall” de distribuição, mas ele desconhecia o potencial de locomoção do inimigo. Pelo tamanho das garras e a grossura das pernas, diria que em um salto o alcançaria.

Seria loucura voltar por onde subira. Teria de descer dois lances de escadas, com a fera em seu encalço. A cabeça da criatura era uma única boca, com uma abertura e dentes pontiagudos em cinco círculos concêntricos, a partir da beirada, que babava um líquido branco. 

Williams decidiu saltar por cima da grade de proteção que levava ao segundo lance inferior da escadaria. Ele era uma pessoa atlética, sem gordura ou ossos pesados. Tinha sido campeão de corrida, na única vez em que se reuniram os militares de todos os postos avançados de Sirian. Eram duzentos e cinquenta soldados e oficiais escolhidos a dedo, entre milhões, para estudarem o planeta. 

O tenente estava no meio da queda para os degraus do nível subterrâneo, quando a grade de aço temperado protetora cedeu. O homem aterrissou de pé e olhou para o alto. Viu a massa cinza-escura do alienígena cair sobre ele. Williams correu o máximo que podia, saindo da escadaria e se dirigindo ao primeiro carro das neves que viu. Abriu a porta blindada com força, sabia o quanto pesava uma porta estanque daquelas. A fera era inteligente. Em vez de atacar sem planejamento, tentou alcançar a divisória, mas o tenente a tinha fechado e trancado, primeiro.

Como medida de segurança, os veículos tinham os motores desativados. Williams acionou algumas teclas sensíveis ao tato. Jatos de ar comprimido elevaram o veículo, o monstro segurando-se com as garras no metal blindado. O jovem tenente pressionou as teclas de direcionamento dos propulsores, situadas nos lados do banco do motorista, e o carro girou cento e oitenta graus para a direita. A criatura desferiu uma patada contra a janela da porta do lado de Williams, sem efeito. Desferiu um golpe contra ela com a boca, os dentes pontiagudos tentando perfurar o vidro.

O tenente ativou uma tecla na parte da frente do bloco de controle do seu lado direito e a porta estanque da garagem começou a subir. O alienígena estava fazendo a janela da porta vibrar, sacudindo a cabeça, e Williams acionou os propulsores principais de ar comprimido. Virou o veículo de transporte de lado, a criatura ficando por cima dele, e fez a coisa aberrante colidir contra a porta semiaberta.

O animal berrou, sugando o ar com um ruído agudo, que alcançou o limite da audição de um ser humano, indo além. Ficou dependurado por uma perna e pela boca. A ausência de braços e mãos era um alívio, para o tenente. “Menos problemas para me preocupar”, ele ruminou. O piloto subiu o transporte e acionou o campo elétrico externo. Quem visse a pequena nave do solo juraria que ela havia explodido.

Mas eram apenas as correntes elétricas de alta tensão que circulavam pelo metal e vidro do transporte, brancas e cegantes. Williams podia jurar que a criatura gritava de dor e desespero, mas isso era o resultado da diminuição na frequência do som de sua voz, que voltou ao nível de audição do ouvido humano. A coisa golpeou a janela com as duas pernas, prendendo-se com a boca no vidro. O choque fez o transporte perder altura e o tenente viu que cairiam com a frente da nave direto contra o solo congelado. 

Ele teria pouca chance de voltar para a Estação, mesmo que saísse vivo da queda. Sabia que, numa queda de sessenta metros, o monstro sobreviveria com facilidade. Mas... havia o mas, sempre.

Percorrendo a parte inferior da aeronave, havia dutos que levavam o ar comprimido das câmaras de armazenagem de dentro do transporte até os propulsores instalados nas partes esquerda e direita da chapa de aço blindado abaixo do chão. Era possível, em tese, disparar toda a carga de cada um dos propulsores na direção que se quisesse, bastando direcionar os tubos de ar comprimido para qualquer lado. Williams agiu como um autômato. Dirigiu o tubo propulsor sob o chão, na altura do lugar do piloto para a esquerda e, esperando que a nave se chocasse com o solo cada vez mais perto, teclou “DESCARGA ESQUERDA” no painel de computador situado acima de suas pernas, entre os braços de descanso de sua poltrona. 

Duas explosões foram ouvidas, a do ar comprimido e a do choque contra o solo. O monstro foi atirado a cem metros de distância, levando consigo a porta blindada. A nave teve os para brisas espatifados. O tenente protegeu seus olhos dos estilhaços de vidro temperado e, quando o casco da aeronave tombou de lado, ele soltou-se das correias de segurança e afastou o painel computadorizado de sua frente. 

Saiu pelo lado superior da nave, que tivera a porta arrancada pela criatura. Saltou e desejou ter morrido na queda. Poderia ser morto de outra forma, a aeronave se incendiando e ele morrendo carbonizado. A neve, se fosse fofa e macia como na Terra, poderia sufocá-lo, quando ele se jogou do alto do casco, mas, em Sirian, as coisas eram diferentes. Neve, quando chegava ao solo, tornava-se tão endurecida quanto granizo. Por isso, Williams poderia caminhar até Dreadnought, sem problemas.

Mas, o frio o mataria, de qualquer modo... porém... voltou ao transporte. Entrou na cabine vazia pelos para brisas destruídos e revolveu no setor de escafandros e roupas, procurando um macacão térmico. Vestiu-o e saiu. Caminhou por quinze minutos e o sensor de temperatura transferiu os dados para seu cérebro, acusando 149 grau Celsius abaixo de zero. Era um recorde de temperatura. O monstro deveria estar se recuperando, ou buscando alguma placa de gelo para cavar e mergulhar, à procura de alimento.

“Essa é a causa de ele ter tentado me atacar”, pensou Williams. “A falta de alimento, os animais e seres vivos marinhos migrando do Norte para o Sul... por que isso?”

O tenente havia mapeado as formas de vida existentes no Círculo Polar Ártico do planeta. E se lembrou que não havia nenhum animal como o monstro, quando continuou com o estudo e terminou o mapeamento das outras criaturas de Sirian.

“Se ele não é desse planeta, pode ter capacidade de sobreviver e matar qualquer outro ser vivo daqui... inclusive a mim!”

O Primeiro-Tenente começou a correr, a Estação a meia hora de caminhada ou a quinze minutos de corrida rápida. O ar foi sugado à sua volta, de forma aguda e desagradável. Ele evitou olhar para os lados ou na direção de onde viera. Continuou a correr, a correr... mesmo quando chegou ao perímetro da Estação, desativando de forma temporária as minas e os lasers, continuou. Ativou-os, ao passar pela zona de perigo, e ouviu, quando o grito e a sucção do ar se tornaram insuportáveis. Até que tudo parou, quando ele entrou pela comporta frontal da Estação e a fechou. 

O ar era bem-vindo, quente, úmido, vaporoso. Na parte externa da Estação Dreadnought, a criatura era uma massa cinza coberta de sangue. 

Williams instalou lasers e sensores térmicos no nível superior aberto pelo monstro. O termostato cuidaria da temperatura da Estação. Levaria uma hora para que uma equipe de soldados chegasse à Estação, vindos da zona equatorial, bem ao Sul de Dreadnought, para refazer a cúpula de células fotovoltaicas e reconstruir a blindagem ao redor. Cinco horas se passaram e Williams terminara de sondar a órbita do planeta, junto com um bom número de cientistas da superfície.

— O caso, capitão, é que há uma nave em órbita. Foi detectada por mim e por outros cinquenta postos avançados, em Sirian — o capitão Phillips, no setor antártico do planeta, disse que resolveria a situação. E desligou a chamada, que atravessava de polo a polo o mundo gelado.

O tenente colocou seu macacão contra o frio e saiu para a zona de perigo. O monstro possuía carne, ossos, músculos, órgãos e um cérebro primitivo, mas a carne enrugada que tinha o protegia de qualquer ataque da fauna de Sirian. Williams percebeu, ao analisar seu corpo, que a criatura fora parada pelos raios laser, mas o que causara sua morte foi a separação da cavidade craniana do restante do corpo. Este, se encontrava chamuscado e queimado, mas de modo superficial. 

Uma massa sangrenta do tamanho de metade do punho fechado do homem jazia à distância, no gelo. As nuvens haviam se separado e o Sol voltara a brilhar. O tenente desativou o perímetro protegido pelos lasers e pelas minas enterradas e avançou. Agarrou o cérebro alienígena e o observou. No interior, corpúsculos se agitavam no líquido encefálico. 

O humano levou o órgão para o interior da Estação, onde armazenou-o em um cofre de segurança, onde no interior um campo de força isolava o cérebro do resto de Dreadnought. Williams, cansado, deixou os sistemas de defesa do perímetro ativados, bem como os lasers que guardavam o primeiro andar, destroçado.

Apagou as luzes e foi dormir. Sabia que o acordaria, o grupo de soldados. Portanto, deixou de se preocupar com qualquer outra coisa, deixando-se levar pelos seus sonhos.


*Sobre Roberto Fiori:
Escritor de Literatura Fantástica. Natural de São Paulo, reside atualmente em Vargem Grande Paulista, no Estado de São Paulo. Graduou-se na FATEC – SP e trabalhou por anos como free-lancer em Informática. Estudou pintura a óleo. Hoje, dedica-se somente à literatura, tendo como hobby sua guitarra elétrica. Estudou literatura com o escritor, poeta, cineasta e pintor André Carneiro, na Oficina da Palavra, em São Paulo. Mas Roberto não é somente aficionado por Ficção Científica, Fantasia e Horror. Admira toda forma de arte, arte que, segundo o escritor, quando realizada com bom gosto e técnica apurada, torna-se uma manifestação do espírito elevada e extremamente valiosa.

Sobre o livro “Futuro! – contos fantásticos de outros lugares e outros tempos”, do autor Roberto Fiori:

Sinopse: Contos instigantes, com o poder de tele transporte às mais remotas fronteiras de nosso Universo e diferentes dimensões.
Assim é “Futuro! – contos fantásticos de outros lugares e outros tempos”, uma celebração à humanidade, uma raça que, através de suas conquistas, demonstra que deseja tudo, menos permanecer parada no tempo e espaço.

Dizem que duas pessoas podem fazer a diferença, quando no espaço e na Terra parece não haver mais nenhuma esperança de paz. Histórias de conquistas e derrotas fenomenais. Do avanço inexorável de uma raça exótica que jamais será derrotada... Ou a fantasia que conta a chegada de um povo que, em tempos remotos, ameaçou o Homem e tinha tudo para destruí-lo. Esses são relatos dos tempos em que o futuro do Homem se dispunha em um xadrez interplanetário, onde Marte era uma potência econômica e militar, e a Terra, um mero aprendiz neste jogo de vida e morte... Ou, em outro mundo, permanece o aviso de que um dia o sistema solar não mais existirá, morte e destruição esperando pelos habitantes da Terra.
Através desta obra, será impossível o leitor não lembrar de quando o ser humano enviou o primeiro satélite artificial para a órbita — o Sputnik —, o primeiro cosmonauta a orbitar a Terra — Yuri Alekseievitch Gagarin — e deu-se o primeiro pouso do Homem na Lua, na missão Apollo 11.
O livro traz à tona feitos gloriosos da Humanidade, que conseguirá tudo o que almeja, se o destino e os deuses permitirem.

Para adquirir o livro:
Diretamente com o autor: spbras2000@gmail.com
Livro Impresso:
Na editora, pelo link: Clique aqui.
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sábado, 5 de dezembro de 2020

Conto "A Descoberta", por Roberto Fiori


Bequalt, tal sonâmbulo, acordou ou pensou ter acordado, na escuridão da noite sem Lua. Piscou os olhos, com o braço peludo tateou ao redor e pousou a mão grande e forte sobre o ventre de sua escolhida. A barriga de Lanut subia e descia com ritmo suave, mas abrigava um feto que ainda se desenvolveria e nasceria em oito meses e meio. 

Bequalt sentiu-se em paz, despertando por completo. Os “cri-cris” dos grilos e os sons do deserto deixaram-no um tanto alerta, mas ele sabia que perigos vindos do solo arenoso, cinquenta metros abaixo, seriam incapazes de escalar a parede lisa e íngreme que era a vertente sobre a qual ele se achava.

Observou o céu noturno, encoberto e, onde as nuvens se abriam, repleto de pontos luminosos. Havia uma mancha brilhante, que iluminava a noite e o dia sem dar trégua. De dia, acompanhava o círculo feérico que era impossível de se olhar além de meio segundo. Mas era suportável observar a mancha, ela tinha duas vezes o tamanho de Iguap, a companheira imutável, sobre a qual Bequalt podia discernir água azul baça.

Ele levantou-se em um movimento fácil de balanço, apoiando-se na parede onde estava recostado. Na escuridão, ele podia ver seus companheiros, deitados no chão ou sentados junto às paredes altas que formavam o ambiente.

Ele estava irrequieto. Mesmo sabendo que tudo corria bem, foi para a plataforma de pedra que se estendia da gruta para o ar livre. Tinha grande conhecimento do mundo, era o líder do grupo de sua tribo. Cuidadoso em evitar pisar em seus companheiros e companheiras, saiu ao relento. A mancha de cor branca evidenciava alguma coisa que Bequalt podia sentir em seus dedos, deixando penetrar, de olhos fechados, em sua mente. Mas era cedo para a criatura conseguir chegar a uma conclusão complexa. Portanto, esqueceu-se da formação no céu e pôs-se a cheirar o ar noturno, deliciando-se com o aroma das areias, das rochas, das touceiras que cresciam onde havia umidade. Estavam no início da estação das chuvas e isso Bequalt comemorou em silêncio, sentindo a brisa fresca soprar do Norte, trazendo uma chuva que seria bem-vinda, após cinco meses de seca e fome.

Sua testa baixa realçava seu aspecto atarracado. Seria necessário um tempo que ninguém naquela Era podia imaginar, até que se formasse um crânio que abrigasse um cérebro de bom tamanho. E precisaria se passar um período menor, contudo, para que se descobrisse o valor de uma pedra, ou de um osso, tanto para a defesa, como para o ataque. A brisa tornou-se fria, agressiva. Mas Bequalt possuía uma camada grossa de pelos. Ignorou o vento. Andou com cuidado até a borda da plataforma e olhou para o solo. Uma luta entre um bando de chimpanzés e cinco ou seis leões se travava e era claro para a criatura que os observava quem venceria quem. E quando. Os leões eram fortes, os melhores lutadores em combate individual. Mas lutavam contra doze a quinze chimpanzés adultos, que usavam os punhos como marretas e alguns atingiam os felinos com galhos grossos de árvores, que cresciam em um oásis, dois quilômetros ao Sul.

Bequalt acocorou-se, acompanhando o decorrer da matança. Os leões estavam encurralados contra a parede de pedra e, sendo feridos com violência, faltava pouco para sucumbirem. A Lua apareceu, nesse momento, em seu esplendor. Estava cheia e era acompanhada da grande mancha branca e cintilante, que para Bequalt comparava-se a algo... ele tentava, mas era impossível criar uma palavra, em um mundo de sensações, aromas, toques e ruídos. Ele desviou a atenção da abóbada celeste e voltou-se para ver o massacre tomar forma.

Os leões caíram, foram esmurrados, espancados com a madeira dos galhos, os macacos cravaram os dentes em suas gargantas. Enquanto matavam os felinos, os macacos urravam. A luz da Lua e da mancha no céu evidenciava o sangue, espirrando das jugulares e de outras partes do corpo, à medida em que os chimpanzés continuavam a atacar. A criatura de nome Bequalt ficou na borda íngreme, agachado por uma hora, até o fim do banquete que se dava e, se alguma vez demonstrou ter detestado presenciá-lo, o fez para si mesmo.


--//--


Na manhã seguinte, os outros o encontraram sentado na plataforma de rocha, as pernas cruzadas e o tronco curvado sobre si. Acercaram-se dele, cheiraram-no, grunhiram e o cutucaram com os dedos em forma de garra. Lanut sentou-se ao seu lado. Bequalt piscou os olhos cansados, ele havia conseguido adormecer de manhã, por meia hora, até os companheiros o acordarem. Olhou para a mancha branca entre as nuvens esfarrapadas. Lembrou-se da forma que um bosque de árvores tomara, certa noite, ao ser atingido por raios, a claridade cegante levando os troncos e galhos a tal estado, que lembrava de alguma forma a mancha no céu, quando as centelhas eram substituídas por madeira que explodia em fogo vermelho e branco.

Aproximou-se no precipício e observou o que restara da carnificina. Madeira esfacelada, restos de carne e ossos. Havia um caminho no interior do monte, que levava ao sopé dele, duzentos metros ao Sul de onde ocorrera a batalha. Como líder do grupo de criaturas, Bequalt passou entre elas e fez sinal para acompanharem-no. Desceram pela escuridão, tateando com os pés e as mãos o chão e as paredes de rocha e terra. Um trovão se ouviu.

O líder estava satisfeito, a chuva chegara. Porém, eles se encontravam tão isolados do exterior, que o som das pancadas de chuva nem chegava até eles. Havia somente o ribombar distante dos trovões.

Três leopardos saltaram das sombras. Traiçoeiros, haviam chegado sem ruído, as patas almofadadas sem deixar ecoar qualquer som. Bequalt gritou, os outros o acompanharam, os berros servindo para confundir os leopardos. O líder agarrou as duas patas dianteiras de uma das feras e manteve suas presas à distância. Os urros dos animais eram ensurdecedores. Um dos membros da tribo atacado tivera o rosto desfigurado pelas presas de um leopardo. A segunda besta abocanhara o estômago de outro. 

Bequalt via o que acontecia com o canto dos olhos. Sabia o que fazer. Entrecruzou as patas de seu inimigo uma contra a outra e as despedaçou. Agarrou o queixo e os pelos do topo da cabeça da fera e, usando sua enorme força, esmagou-a contra a parede de rocha. O leopardo caiu sem vida a seus pés. O líder dos seres esmurrou sem parar o segundo leopardo, imitado por outros três companheiros, que se lançaram contra os dois animais. Os outros faziam como Bequalt o fizera com o primeiro felino, seguraram as patas dianteiras e traseiras, suspenderam os animais e lançaram-nos ao solo. Apertaram as gargantas deles, até sufocarem-nos. O líder procurou sua escolhida. Lanut estava encolhida por trás de uma rocha, afastada no caminho por onde os outros desceram.

Arfando, viram o que sobrara das feras. Os dois companheiros feridos de Bequalt haviam sucumbido, porém. Ele esperou até todos descansarem e recomeçou a descida, os outros o seguindo em fila indiana. Lanut vinha por último, mas era por prudência. Ela tinha medo do deserto, da mancha no céu. Mas dos animais com que lutava e convivia, isso não. E havia seu filho para manter a salvo, seu e de Bequalt. Ele dobrou uma esquina e viram-se ao ar livre. Havia um mastodonte, caminhando sem pressa junto a um riacho, que crescera em volume com a chuva. 

Um clarão foi visto, a Nordeste. O líder correu. Lanut o seguiu, a alguns metros de distância do amado. Os restantes resolveram acompanhá-los. Uma árvore ardia em chamas. Seu tronco havia sido dividido em pedaços, que queimavam no chão. Bequalt bateu com as mãos em um deles, até extinguir o fogo, e agarrou-o. Encostou-o ao restante do tronco, de pé e queimando, e o bastão que segurava se iluminou, em chamas. Foi quando o líder sorriu, o primeiro sorriso que ele e sua tribo davam em milênios. Havia fragmentos de rocha espalhados ao redor da árvore e ele os recolheu. Espalhou-os aos pés dos membros da tribo. A forma era a da mancha, a cor era a de Iguap, o círculo que podia ser visto, tudo isso Bequalt percebeu em sua mente...

— Fogo! — ele pronunciou, sem titubear. — Sílex! Fragmentos de sílex! 

Os outros o entenderam. Agarraram, cada um, dois pedaços de rocha e puseram-se a bater uns contra os outros, até fagulhas saltarem dos fragmentos. Aproximaram-se do tronco e dos galhos partidos que não haviam queimado e puseram-se a experimentar, experimentar... até que, sob uma chuva torrencial, presenciaram o surgimento de chamas amareladas, subindo da madeira que teimava em permanecer de pé...

Naquela noite e nas posteriores não tiveram de passar frio. Puderam assar e cozinhar. Possuíam o dom de fabricar o fogo! Bequalt, Lanut e seis homens caçaram um mastodonte, usando pedras de sílex e lanças que fizeram e atearam fogo. O jantar estava maravilhoso, quente como ninguém jamais havia experimentado.

Bequalt e Lanut passaram a noite em altos brados, no interior do monte. Mas os brados eram de amor, e não de dor.


*Sobre Roberto Fiori:
Escritor de Literatura Fantástica. Natural de São Paulo, reside atualmente em Vargem Grande Paulista, no Estado de São Paulo. Graduou-se na FATEC – SP e trabalhou por anos como free-lancer em Informática. Estudou pintura a óleo. Hoje, dedica-se somente à literatura, tendo como hobby sua guitarra elétrica. Estudou literatura com o escritor, poeta, cineasta e pintor André Carneiro, na Oficina da Palavra, em São Paulo. Mas Roberto não é somente aficionado por Ficção Científica, Fantasia e Horror. Admira toda forma de arte, arte que, segundo o escritor, quando realizada com bom gosto e técnica apurada, torna-se uma manifestação do espírito elevada e extremamente valiosa.

Sobre o livro “Futuro! – contos fantásticos de outros lugares e outros tempos”, do autor Roberto Fiori:

Sinopse: Contos instigantes, com o poder de tele transporte às mais remotas fronteiras de nosso Universo e diferentes dimensões.
Assim é “Futuro! – contos fantásticos de outros lugares e outros tempos”, uma celebração à humanidade, uma raça que, através de suas conquistas, demonstra que deseja tudo, menos permanecer parada no tempo e espaço.

Dizem que duas pessoas podem fazer a diferença, quando no espaço e na Terra parece não haver mais nenhuma esperança de paz. Histórias de conquistas e derrotas fenomenais. Do avanço inexorável de uma raça exótica que jamais será derrotada... Ou a fantasia que conta a chegada de um povo que, em tempos remotos, ameaçou o Homem e tinha tudo para destruí-lo. Esses são relatos dos tempos em que o futuro do Homem se dispunha em um xadrez interplanetário, onde Marte era uma potência econômica e militar, e a Terra, um mero aprendiz neste jogo de vida e morte... Ou, em outro mundo, permanece o aviso de que um dia o sistema solar não mais existirá, morte e destruição esperando pelos habitantes da Terra.
Através desta obra, será impossível o leitor não lembrar de quando o ser humano enviou o primeiro satélite artificial para a órbita — o Sputnik —, o primeiro cosmonauta a orbitar a Terra — Yuri Alekseievitch Gagarin — e deu-se o primeiro pouso do Homem na Lua, na missão Apollo 11.
O livro traz à tona feitos gloriosos da Humanidade, que conseguirá tudo o que almeja, se o destino e os deuses permitirem.

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sexta-feira, 13 de novembro de 2020

Sobre o conto "Era Uma Vez..."


O rei estava morto. Em seu lugar, seu filho Bagmar assumiria, levando o reino de Frontierish a um tempo de fortuna e glória. Mas o irmão de Bagmar, Inrich, pensava de modo diferente.
Inrich crescera ao lado de seu irmão sem se preocupar com sua educação para se tornar um líder. O povo precisava de alguém assim, e via em Bagmar a solução para um problema cada vez mais incontrolável, que o rei, enquanto vivo, não conseguia resolver. Um dragão ameaçava o reino, queimando plantações, casas e atacando o exército, quando este se encontrava a céu aberto, longe das muralhas do imponente castelo do rei.
Até que, um dia, ficou mais audacioso e desceu dos céus para as torres do castelo, célere e ameaçador. A princípio, era um ponto ínfimo no espaço, mas logo mostrou toda sua envergadura. Lançou uma torrente de fogo sobre o telhado da torre mais alta da enorme construção, que explodiu em labaredas cor de sangue. Metade da torre foi derrubada e, com ela, o corpo em chamas do rei e de dezenas de nobres e serviçais, adormecidos na noite que era perturbada pelo clarão do ataque.
Bagmar estava no pátio principal do vasto sistema de casas, celeiros, espaços para treinamento de combate das tropas, cozinhas e torres cercadas por uma muralha de quinze metros de espessura e cinquenta metros de altura. Ouviu quando o esvoaçar das asas do dragão chegou até seus ouvidos e dirigiu-se à muralha. Enquanto subia por uma escada interna, rente ao muro, viu a metade da torre real se desfazer em uma explosão colossal. A seguir, presenciou quando a gente do castelo, nos pátios, era esmagada e queimada com a queda das toneladas de rocha e concreto sobre eles.
O filho do rei sabia o que aquilo significava. Inrich lutaria para se manter no poder, e isso Bagmar devia impedir. Sabia ser a pessoa certa para acabar com a ameaça do monstro, que planava em círculos sobre o complexo real. Assim que atingiu a plataforma na qual soldados armavam uma catapulta múltipla com rochas enormes, Bagmar ordenou a todos que se preparassem, pois o dragão poderia lançar uma chuva de fogo sobre o resto do castelo, a qualquer momento.
O filho do rei esperou. A criatura lançou outro jorro de hálito incandescente sobre o resto da torre do rei, que se desintegrou. Mas os outros moradores do castelo estavam abrigados nos pátios e não sofreram nada com a queda da estrutura. Foi quando o filho mais velho do monarca falecido sacou sua espada e cortou o cordame esticado que mantinha um dos arcos de lançamento da catapulta múltipla engatilhado. A rocha que o armava foi lançada a dezenas de metros, não atingindo o dragão por dois ou três metros.
“Se o monstro tiver visto o disparo... estaremos em maus lençóis...”, pensou Bagmar. Mas, aparentemente, a coisa diabólica estava mais interessada nas torres do castelo. Pousou sobre um telhado, agarrando-se com as garras compridas e aguçadas nos flancos da construção, e um urro agudo ecoou, lançado de sua garganta.
A catapulta múltipla podia girar em círculos. Estava montada sobre a muralha e seu alcance era de duzentos a trezentos metros, em todas as direções. Bagmar viu que o pouso do dragão constituía uma oportunidade única para que o abatesse. Ordenou que fizessem um giro de 45 graus para o Leste, tratando de ajudar os homens que cuidavam da maquinaria, forçando as pesadas manivelas da catapulta.
O dragão expeliu uma nuvem causticante escarlate de sua garganta em direção à torre mais próxima. Dessa vez, certificou-se de espalhar o fogo por toda a construção afilada. Bagmar sentiu quando a segunda lançadeira estava na posição correta e pediu ajuda aos deuses. Abaixou a lâmina que segurava contra as cordas do mecanismo e uma rocha de trinta toneladas foi lançada. Acertou uma asa do dragão, que urrou e alçou voo.
Porém, sem uma asa, ele não podia voar, apenas planar. Fez um voo rasante sobre os pátios e se chocou com a muralha, caindo no pátio principal. Com esforço, urrando sempre, pôs-se de pé, cuspindo fogo e mantendo a população à distância. Realmente, a asa esquerda pendia, parcialmente solta. A criatura olhava para todos os lados e percebia que não havia saída. Os soldados lançavam flechas de arbaletas e arcos, além de usarem outras catapultas, armadas nas muralhas e trazidas de outros pátios.
Enfraquecida pelo choque com a rocha de trinta toneladas, alvo de inúmeras flechas e sendo atingida por pedras menores, o dragão resolveu contra-atacar. Saltando de cinco em cinco metros, com o auxílio da asa ainda boa, varreu o espaço em que se encontrava com fogo. Soldados correram, atingidos pelas labaredas e gritando. Muitos morreram antes que fossem socorridos.
Bagmar mirou sua catapulta, com a ajuda de seus comandados, para a cabeça do dragão. Era a terceira lançadeira que punha em funcionamento. Havia uma quarta, mas o filho do rei queria manter esta como reserva, para o caso de precisarem dela em uma emergência. Giraram as manivelas, até que a catapulta ficou em posição. O fogo já atingia as moradias dos servos e nobres e ameaçava destruir as outras torres. O dragão, desesperado, girava em torno de si e espalhava destruição a uma velocidade espantosa. Logo, o castelo ruiria.
Bagmar esperou, até que a cabeça do monstro ficasse na mira. Cortou os cordames. A rocha de dez toneladas foi lançada e atingiu a cabeça do dragão, que se ocupava de espalhar morte e destruição, cinquenta metros abaixo.

--//--

Trombetas e gritos enchiam a noite. Bagmar, escolhido pelo Conselho Real para se tornar rei, acenava para a multidão da sacada de uma das torres, ainda de pé. Havia sido um dia de trabalho exaustivo, com o povo e o exército apagando o fogo que ameaçava tudo no perímetro do castelo. Enterraram o dragão na planície exterior, pois a magia poderia fazê-lo acordar novamente. Isso era o que todos temiam. Menos Bagmar. Ele não acreditava que um cadáver pudesse se levantar uma vez mais, mas essa era a crença arraigada entre o povo de Frontierish.
Nos salões das três torres intactas, houve comemoração. Em um deles, o novo rei esperava a chegada dos moradores do castelo. Os soldados também haviam sido convidados e, esperando contra as paredes o início da festa, cercavam a mesa enorme, onde seria trazida comida e vinho. Bagmar sentiu falta de uma pessoa, porém. Seu irmão Inrich. Ordenou que o procurassem, estava preocupado com sua ausência, ele poderia ter sido vítima do dragão.
No décimo andar da torre, onde seria celebrada a festa, Inrich aguardava. Estivera escondido, pois o que planejava fazer não teria volta, nem perdão. No quarto onde se ocultara, armara uma arbaleta com uma flecha de ferro e esperou que as tropas do rei passassem pelos corredores, em frente á porta do aposento, trancada.
Ele desceu, rápido e sem fazer barulho, até a sacada de um átrio, acima do salão de festas. Ajoelhou-se e apoiou o braço esquerdo na mureta, enquanto o direito pousava sobre o outro, firme. Mirou a cabeça de Bagmar. Seu rosto não demonstrava raiva, apenas sabia que era aquilo que precisava ser feito, para que se tornasse rei, no lugar do irmão.
Mas sentiu a espada do capitão de armas trespassar seu pescoço, antes que pudesse puxar o gatilho da arbaleta. A dor crescente foi acompanhada por sua visão, que ficou turva, e enegreceu. Ele tombou.
Quando deram a notícia ao rei, este custou a acreditar. Sabia que não conhecera seu irmão como deveria. Sabia que o irmão era um enigma, mas nunca pensara que ele desejasse sua morte.
Enterraram Inrich no sopé de um monte, a centenas de metros do castelo. E, deixando as festividades para quando reconstruíssem o complexo, se prepararam para refazer o que o fogo havia consumido, no dia seguinte.
Vênus brilhava tanto quanto a Lua minguante. A seu lado, fornecia luz adicional à noite brumosa. As estrelas compareceram em peso no firmamento e a iluminação acesa durante a noite, nos corredores do castelo e nos pátios, faziam da ocasião uma noite a comemorar. E a ser pranteada, também.

 

*Sobre Roberto Fiori:
Escritor de Literatura Fantástica. Natural de São Paulo, reside atualmente em Vargem Grande Paulista, no Estado de São Paulo. Graduou-se na FATEC – SP e trabalhou por anos como free-lancer em Informática. Estudou pintura a óleo. Hoje, dedica-se somente à literatura, tendo como hobby sua guitarra elétrica. Estudou literatura com o escritor, poeta, cineasta e pintor André Carneiro, na Oficina da Palavra, em São Paulo. Mas Roberto não é somente aficionado por Ficção Científica, Fantasia e Horror. Admira toda forma de arte, arte que, segundo o escritor, quando realizada com bom gosto e técnica apurada, torna-se uma manifestação do espírito elevada e extremamente valiosa.

Sobre o livro “Futuro! – contos fantásticos de outros lugares e outros tempos”, do autor Roberto Fiori:

Sinopse: Contos instigantes, com o poder de tele transporte às mais remotas fronteiras de nosso Universo e diferentes dimensões.
Assim é “Futuro! – contos fantásticos de outros lugares e outros tempos”, uma celebração à humanidade, uma raça que, através de suas conquistas, demonstra que deseja tudo, menos permanecer parada no tempo e espaço.

Dizem que duas pessoas podem fazer a diferença, quando no espaço e na Terra parece não haver mais nenhuma esperança de paz. Histórias de conquistas e derrotas fenomenais. Do avanço inexorável de uma raça exótica que jamais será derrotada... Ou a fantasia que conta a chegada de um povo que, em tempos remotos, ameaçou o Homem e tinha tudo para destruí-lo. Esses são relatos dos tempos em que o futuro do Homem se dispunha em um xadrez interplanetário, onde Marte era uma potência econômica e militar, e a Terra, um mero aprendiz neste jogo de vida e morte... Ou, em outro mundo, permanece o aviso de que um dia o sistema solar não mais existirá, morte e destruição esperando pelos habitantes da Terra.
Através desta obra, será impossível o leitor não lembrar de quando o ser humano enviou o primeiro satélite artificial para a órbita — o Sputnik —, o primeiro cosmonauta a orbitar a Terra — Yuri Alekseievitch Gagarin — e deu-se o primeiro pouso do Homem na Lua, na missão Apollo 11.
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sexta-feira, 23 de outubro de 2020

Conto "Pronto! Acabou-se!", por Roberto Fiori

 


— Saiam! Saiam do meu quintal! Já! — o dono do hotel bradou, querendo ver se os intrusos eram tão valentes como aparentavam. É verdade que o homem, armado, tinha enorme vantagem sobre os invasores, mas eles tinham o dobro da largura do corpo do humano e eram mais altos. — Vou repetir uma vez, só: saiam, ou serei obrigado a partir para a violência!

Ele levantou a metralhadora-laser e disparou para o céu estrelado. “Flashes” cegantes de luz branca iluminaram a noite, mostrando com clareza os corpos maciços e os rostos toscos, olhos em forma de losango piscando em frenesi. Porém, permaneceram imóveis, as faces em permanente estupefação.

Por sorte, aqueles eram tempos intermediários, entre uma guerra e outra, como acontecia desde o século retrasado. Era a eterna batalha dos homens contra os seres de barro. Ninguém vencia, ninguém perdia. Uma contenda que duraria milhares de anos, ou além. Havia um estado de alerta constante, mas o momento era de uma época de relativa paz.

O dono do hotel podia prever o que aconteceria. Os feixes de laser, sem assustar os inimigos, tinham deixado de funcionar como arma de dissuasão, de uma hora para a outra. E isso era bastante ruim. 

— Ora, seus trogloditas emplumados travestidos de montes de barro! Estou farto de vocês. Vou trazer minha arma de nêutrons e verão que reduzirei a lama de que são feitos a poeira!

O homem brandiu sua arma laser, entrou no chalé principal no parque, onde situavam-se as casas que abrigavam os hóspedes e um “flash” foi visto do lado de dentro. Os alienígenas tinham se espalhado e tentavam entrar nos chalés. Em vários deles, mulheres e homens espreitaram pelas janelas, afastando as cortinas, e fechavam-nas, as mulheres soltando gritinhos e os homens berrando palavrões.

— Vão ver, vão ver, seus vândalos vindos de Alpha Centauri! Vou cozinhar o barro de que são feitos e fazer tigelas de cerâmica com eles — aparentemente, o hoteleiro estava cada vez mais alterado. Ele abriu com força a porta de seu chalé e disparou.

— Viemos... em paz... Viemos em paz... Viemos em paz...

Não era o que se esperaria que as criaturas de barro fizessem, falar com tanta energia, ao se considerar o estrago que uma arma desintegradora de nêutrons podia fazer. O dono do hotel, boquiaberto, ficou vendo enquanto vários seres se aproximavam, devagar, da entrada da casa. Um deles estendeu sua mão disforme e tocou na arma de nêutrons, moldando o barro para envolver o cano do desintegrador. Tirou-o das mãos do homem e dobrou o aço temperado da arma, convertendo-a em um pedaço de metal em forma de “U”.

— O... quê, qu... que significa isso? — o nome do homem era George e pensava como alguma coisa poderia dobrar um artefato feito de aço especial, projetado para suportar pressões de planetas como Júpiter e o calor do centro do Sol.

— Viemos em paz... Viemos em paz... Viemos em paz... Viemos em paz... — era óbvio que George não estava nem aí para o que as coisas queriam dizer. Ele desatou a correr pelo gramado, enquanto as criaturas entraram no chalé, a ladainha acompanhando-os por onde se embrenhavam.

George alcançou seu carro, estacionado em frente ao amplo parque do hotel e ligou o motor. Mal tocou com o pé no acelerador e o automóvel foi projetado dezenas de metros à frente. Pelo espelho retrovisor, o dono do hotel viu quando duas espécies alienígenas se endireitavam, os braços maciços esticados à frente. 

O homem tratou de acelerar seu Ford, que, de resto, estava bastante amassado nas laterais. Comprara-o usado, e, com o tempo, parecia que ficava cada vez mais parecido com uma forma velha para assar pizzas, pães e bolos em uma padaria que funcionasse 24 horas por dia.

George dirigiu o carro, que chacoalhava de modo atroz, até uma bifurcação entre a avenida do hotel e uma rua vicinal. Virou à esquerda e o Ford soltou fumaça negra, parando. O homem apertou repetidas vezes o acelerador e o motor engasgou três vezes, o escapamento estourando alto. George abriu a porta e ela soltou-se da carroceria, ficando dependurada pela mão do humano.

Ele empurrou a porta e ela caiu no asfalto, ao mesmo tempo que, com um som de ranger e quebrar, a carroceria do automóvel se desfez, o porta-malas abrindo, a outra porta do coupé se soltando e se desmanchando no chão e os pneus estourando e se esparramando de lado na avenida. O carro chocou-se contra o asfalto, o capô se abrindo e o motor todo se soltando, o carburador rachando, o radiador estourando, como se fosse feito de papel ou borracha. As janelas se partiram, os bancos se soltando da estrutura e rasgando. 

George olhou estupefato, quando o volante saltou contra o banco estraçalhado e rolou para fora do carro, se equilibrando por um segundo contra sua perna e rodopiando, até que pousou sobre seu pé. Um ruído de borbulhar se ouviu e a tampa do depósito de combustível amassou, dobrou-se, até que foi lançada centenas de metros no ar, acompanhada pela gasolina, jorrando como uma fonte.

--//--

— Cavalo do Rei toma peão do bispo da Dama e... Xeque-Mate!

— Ah! Esta semana você fez esse tipo de cheque contra meu Rei por três vezes! Que droga, cara! — o cabo falou para o sargento da delegacia, os dois jogando enquanto havia uma guerra potencial em andamento, em algum canto do Sistema Solar.

— Leia “A Arte da Guerra”, do Sun Tzu. Vai aguçar seus instintos assassinos.

— Sargento, você é a única pessoa na polícia que joga melhor que eu. O que me diz disso aqui? — o cabo Taylor levantou-se, seu corpanzil ágil alcançando a mochila de trabalho. Tirou “Aprenda a Jogar Xadrez com Bobby Fischer”, um livro de capa dura. 

— Já passei dessa fase, Taylor. Agora leio “Aberturas Clássicas de Xadrez”, de Lizenski. Tome, estude ele e me dê a chance de vê-lo me derrotar.

Um ruído na entrada da delegacia se ouviu. George estava sem fôlego, viera correndo por cinco quarteirões, desde o local onde o Ford se desmantelara. Entrou de supetão na sala onde os dois policiais jogavam xadrez e o sargento se levantou.

— Chegaram! Os seres de lama voltaram e estão em meu hotel. Dobraram o cano de minha arma de nêutrons em um “U”! Não sentiram nada com o disparo da arma contra eles!

— Taylor, chame as Forças Especiais, tem o número na agenda de telefone. George, conte-me em pormenores o que aconteceu, vamos...

Houve um barulho enorme, no terreno baldio ao lado da delegacia, e o Sargento pediu desculpas a George. No exterior da construção, o policial viu-se em meio a escuridão, quando as luzes dos postes e das residências se apagaram. Formas se moviam, eram difusas, de um marrom-claro. O Sargento sacou sua pistola de raios e disparou para todos os lados. Voltou para a delegacia.

— São dúzias deles! Taylor, temos coisa melhor que isso — ele apontou para sua pistola, enfiando-a no coldre. — Vá até a sala de armas e traga o canhão portátil.

George sentara-se em um banco de madeira, onde as visitas dos presos ficavam, antes de serem acompanhadas ao subsolo, onde ficavam as celas. Seu olhar era de dar pena, parecia o desses cachorros abandonados, pedindo comida a quem passasse perto deles. O Sargento Stuart bateu em seu ombro, antes de trancar a delegacia e observar a passagem dos homens de lama pela rua.

O cabo trouxe com dificuldade um aparato que teria deixado qualquer homem comum com uma hérnia de disco nas vértebras. Mas conseguiu, os músculos de seus bíceps se avolumando e as costas encurvadas de modo alarmante.

— Stuart, está aqui!

O Sargento virou a cabeça de onde estava olhando a rua, pela janela da delegacia. 

— Vamos dissolver esses torrões de argila fresca, enquanto podemos. Ligue na tomada, sim, Taylor? 

Este desenrolou um cabo blindado grosso e plugou-o em uma entrada de energia. A máquina, em forma de solenoide, começou a zumbir de modo alarmante, pois o volume aumentava com o passar do tempo. O Sargento ajudou o cabo a levar o canhão até a porta, onde destrancou-a e passaram a arma pela entrada.

— Atenção, Taylor — sussurrou o Sargento. — Depois de ativada, temos um minuto para nos escondermos na delegacia. O canhão destruirá tudo o que se move em um raio de quinhentos metros, para a frente e para os lados. Então, atenção!

O Sargento ativou uma série de chaves e interruptores na base retangular onde o solenoide estava instalado e o zumbido aumentou de intensidade. O solenoide se iluminou. O Sargento ajustou o canhão portátil para “Destruição Total” e saiu correndo em direção ao interior da delegacia, acompanhado pelo Cabo.

Trancaram a porta, fecharam as cortinas da janela e se abaixaram. George se enfiou debaixo do banco de visitas.

O canhão zumbia alto, numa frequência que teria estourado o tímpano dos três homens, mas o ruído atingiu um pico e desceu, desceu, até que parou. O Sargento saiu da construção, viu que o canhão havia enegrecido. Estava frio, o homem constatou, colocando as mãos perto do solenoide. Nas ruas, o silêncio da ausência de qualquer forma de vida.

— Conseguimos?

— Taylor, você tem certeza de que este era o canhão de antimatéria?

— Até onde sei, sim.

— Então me explique porque as luzes estão acesas na rua e não nas casas. E porque metade das casas da rua estão à esquerda da delegacia, quando estavam há pouco à direita. E vice-versa.

O Cabo verificou a máquina e descobriu que ela não era um canhão de antimatéria, mas uma máquina que era usada para teletransportar o que quer que estivesse à sua frente e a seu lado para qualquer outro lugar, num perímetro de quinhentos metros.

Taylor, quando disse isso ao Sargento, pensou que algo estava errado. Mas foi com um espanto de tal modo inacreditável que ouviu o Sargento falar em “Armistício”. O Cabo olhou para Stuart e viu com estupefação, quando seu superior sorriu e piscou o olho direito para ele. 

Afinal, se os alienígenas haviam conseguido vir até o hotel de George, sem que fossem detectados, o que mais seria possível que fizessem?


*Sobre Roberto Fiori:
Escritor de Literatura Fantástica. Natural de São Paulo, reside atualmente em Vargem Grande Paulista, no Estado de São Paulo. Graduou-se na FATEC – SP e trabalhou por anos como free-lancer em Informática. Estudou pintura a óleo. Hoje, dedica-se somente à literatura, tendo como hobby sua guitarra elétrica. Estudou literatura com o escritor, poeta, cineasta e pintor André Carneiro, na Oficina da Palavra, em São Paulo. Mas Roberto não é somente aficionado por Ficção Científica, Fantasia e Horror. Admira toda forma de arte, arte que, segundo o escritor, quando realizada com bom gosto e técnica apurada, torna-se uma manifestação do espírito elevada e extremamente valiosa.

Sobre o livro “Futuro! – contos fantásticos de outros lugares e outros tempos”, do autor Roberto Fiori:

Sinopse: Contos instigantes, com o poder de tele transporte às mais remotas fronteiras de nosso Universo e diferentes dimensões.
Assim é “Futuro! – contos fantásticos de outros lugares e outros tempos”, uma celebração à humanidade, uma raça que, através de suas conquistas, demonstra que deseja tudo, menos permanecer parada no tempo e espaço.

Dizem que duas pessoas podem fazer a diferença, quando no espaço e na Terra parece não haver mais nenhuma esperança de paz. Histórias de conquistas e derrotas fenomenais. Do avanço inexorável de uma raça exótica que jamais será derrotada... Ou a fantasia que conta a chegada de um povo que, em tempos remotos, ameaçou o Homem e tinha tudo para destruí-lo. Esses são relatos dos tempos em que o futuro do Homem se dispunha em um xadrez interplanetário, onde Marte era uma potência econômica e militar, e a Terra, um mero aprendiz neste jogo de vida e morte... Ou, em outro mundo, permanece o aviso de que um dia o sistema solar não mais existirá, morte e destruição esperando pelos habitantes da Terra.
Através desta obra, será impossível o leitor não lembrar de quando o ser humano enviou o primeiro satélite artificial para a órbita — o Sputnik —, o primeiro cosmonauta a orbitar a Terra — Yuri Alekseievitch Gagarin — e deu-se o primeiro pouso do Homem na Lua, na missão Apollo 11.
O livro traz à tona feitos gloriosos da Humanidade, que conseguirá tudo o que almeja, se o destino e os deuses permitirem.

Para adquirir o livro:
Diretamente com o autor: spbras2000@gmail.com
Livro Impresso:
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sexta-feira, 2 de outubro de 2020

Conto "E, no final... o quê?", por Roberto Fiori


2290. Minhas gengivas doem. Tratamento dentário inexiste, no mundo. A comida é escassa. A época de os homens devorarem seus semelhantes passou, faz anos. A Era de Ouro da exploração do Sistema Solar é sonho a ser esquecido, com tão pouca esperança e tanta nostalgia.

Lembro-me de quando lançaram a primeira nave tripulada, para Marte. Fazem mais de duzentos anos que a tripulação de dez astronautas entraram em órbita do planeta vermelho. A viagem fora revigorante. Sob uma aceleração de 1G, os homens viajaram em uma estrutura de circunferência girando ao redor de um eixo, do qual os propulsores de plasma levaram-nos ao quarto planeta. 

Desceram em uma planície onde milhares de fragmentos de rocha se dispunham sem ordem e um abrigo foi construído no topo de uma elevação desértica, junto ao lugar onde o módulo de pouso aterrissara.

Na Terra, fizeram do sucesso da expedição um feriado mundial. Ninguém trabalhou ou estudou naquele dia de Primavera. Tudo foi festa e comemoração. Um dia a ser lembrado, a partir do qual se enviariam mais e mais pessoas, para desafogar a superpopulação terrestre.

 Começaram a erguer outras construções, no Vale Spinoza. Era tudo, menos um vale, mas os diretores do projeto destinado a salvar a Terra da fome eram imaginativos. Um edifício de três andares estava programado para ser erguido em dois meses ou três, dependendo das condições do tempo. Acabou sendo outra maravilha. Algo maravilhoso para quem nunca havia ido além da órbita lunar.

No Vale Spinoza, em três anos, cinco mil homens e mulheres se estabeleceram. As tempestades de areia eram um problema, mas de somenos. As habitações em forma de cúpula protegiam bem os exploradores. Em cinquenta anos, dois milhões de pessoas se espalharam por quilômetros e quilômetros quadrados da superfície arenosa vermelha.

Enquanto isso, uma nova expedição partira para Júpiter. Passara ao largo do Cinturão de Asteroides e rumara para a órbita do gigante gasoso. A exploração do Sistema Joviano fora desalentadora. Nenhuma lua de Júpiter era adequada para a descida na superfície. Ou eram crostas finas demais para se fixarem fundações, e os módulos de pouso afundaram na lama e no líquido que os puxava para o fundo com avidez, ou a atmosfera era corrosiva o suficiente para impedir as naves de pousarem. Tinha-se projetado a missão a Júpiter com o mesmo entusiasmo com que se lançaram as naves em direção a Marte.

Dois terços dos homens da expedição, que ficaram em órbita dos satélites jupiterianos, voltaram. Mas sem recordarem de como chegaram além do Cinturão. Nem de quem eram ou onde estavam. A viagem de volta seguira automatizada, computadores e dispositivos robóticos cuidando do percurso e da alimentação dos astronautas. Mortos-vivos, poder-se-ia chamar os duzentos homens e mulheres que haviam retornado.

Em nosso planeta, Terra, discutiu-se sobre o que causara tal prejuízo às mentes dos cosmonautas. Diziam que o Cinturão fora o responsável, sabia-se pouco sobre o Sistema Solar, como um todo, e, desse modo tinha-se de lançar sondas avançadas o suficiente para desvendar o mistério da barreira de asteroides. Mas havia quem defendia o envio de outros astronautas. Homens dotados de novos trajes espaciais, que aguentariam a exposição direta a todo tipo de radiação que se pudesse imaginar. 

Foi feito. Dez bilhões de euros foram gastos, na preparação da nave interplanetária Voyager 3. Propulsores iônicos foram projetados para a missão. A nave levaria sete anos para chegar ao Cinturão de Asteroides. Como a anterior, a Voyager 3 planou sobre o plano da eclíptica e rumou para o planeta gigantesco. Trinta astronautas, isolados em câmaras dotadas de blindagem ultrassofisticada, uma liga densa e recém-criada, deixavam os homens protegidos de tudo o que se conhecia que pudesse ameaçá-los no espaço.

Voltaram em outros sete anos. Múmias encerradas em seus sarcófagos de titânio, irídio e chumbo. Trinta pessoas inertes e insensíveis, que passariam o resto de suas vidas miseráveis vegetando.

Refletiu-se e experimentou-se tudo o que computadores quânticos e mentes privilegiadas daquela época podiam fazer. Pediu-se o impossível e dessa súplica algo nasceu. A nave que teria de ser lançada deveria passar a no mínimo cem milhões de quilômetros da eclíptica, sobre ou sob ela, para que aquela radiação desconhecida deixasse de atuar.  A viagem demoraria mais dois anos. Projetou-se um detector, que previsse com enorme antecedência, da existência de alguma forma de energia desconhecida, que as sondas lançadas pelo Sistema até o momento não pudessem detectar.

A nave seguiu além de Júpiter, na nova trajetória, e rumou para Saturno e Titã. Nesta lua, cem astronautas sãos pousaram e começaram a construir uma cidade, às margens de um gigantesco mar de metano líquido, metros sob a superfície. O último contato da missão com a Terra dizia:


SEGUINDO CONFORME INSTRUÇÕES. RUMANDO PARA O EXTERIOR DO SISTEMA


A reação de toda equipe dos controladores, diretores, astrônomos e gente ligada ao projeto foi inusitada. A Internet divulgou que a equipe fora tão bem-sucedida que logo a Terra seria um paraíso, para quem ficasse e usufruísse de seus recursos. Novas naves foram construídas, para abrigar dois mil astronautas, no mínimo. Sessenta milhões de pessoas haviam sido escolhidas para, em vinte anos, abandonarem seus lares e seguirem para Titã. 

Parecia que as coisas dariam certo. Tinha-se a tecnologia, a inteligência, as matérias-primas. Pensava-se em lançar um milhão de naves para além do Sistema, em uma viagem que duraria a vida inteira. A Terra precisava de espaço!

Um dia, em que a milionésima astronave foi construída, juntamente com outras tantas, em órbita da Terra, suas superestruturas refletoras iluminando o céu à noite, como constelações cintilantes, algo surgiu nos monitores de computador da Nova Nasa, às margens do Golfo do México:


NÃO VENHAM. PROBLEMAS COM INTRUSOS. NÃO VENHAM. MORTE E DESTINO NEGRO OS ESPERAM ALÉM DA ÓRBITA DO PLANETA ANÃO


Os presidentes dos países envolvidos na corrida em busca de novos planetas decidiram. O desenvolvimento de uma armada espacial deveria ser iniciado em tempo imediato, com duração de dois meses, munida com todo tipo de armas que o Homem já possuísse ou viesse a imaginar.

Um comboio de naves, com propulsão de plasma, atingindo em um mês um quinto da velocidade da luz, foi lançado. Chegaram em algum tempo a Plutão, antes da última missão a Titã e ao exterior do Sistema Solar. Havia alguma coisa situada fora da esfera de compreensão dos astronautas e dos cientistas e computadores da Terra. Os astronautas e combatentes encontraram a escuridão, a ausência de luz, onde deveria haver estrelas e constelações, situadas na Via Láctea. 

Os instrumentos a bordo das astronaves acusavam nenhuma forma de energia luminosa, energia escura ou matéria escura vindos das vastidões do Cosmos. O desconhecido era amplo. E, como havia sido avisado, um destino terrível pairava. Sobre nossas cabeças.

A armada de cem naves estelares voltou à Terra. Passou pelas colônias de Plutão, das luas de Netuno, Urano, Saturno, as cidades de Marte. E as arrasou, uma a uma. A Terra se defendeu, equipando a maioria das naves-colônia que orbitavam nosso planeta com armas mortais. A luta, vinte milhões de quilômetros além da órbita da Lua, foi um massacre. Ambos os lados sofreram perdas colossais, mas a armada passou pelas naves de defesa, pouco a pouco.

Da Terra, lançaram-se feixes de raios gama e lasers cuja potência custou caro à população terrestre. A energia fornecida às indústrias e às cidades foi cortada sem previsão de volta, sendo direcionada para suprir os potentes discos de energia, de um ou dois quilômetros de envergadura, e que dizimaram boa parte da armada em órbita.

Mas a tecnologia usada para se construir a frota era avançada, até para os padrões do que existia para a defesa da superfície da Terra. Em dez dias, as cidades principais haviam sido vaporizadas. Capitais das superpotências nucleares submergidas em uma chuva de radiação. Indústrias reduzidas e sucata derretida. Plantações queimavam. As costas dos continentes enegrecidas, espiralando em fumaça corrosiva, submetidas ao fogo torturante da energia solar, amplificada à décima potência. Montanhas dilapidadas e transformadas em planícies causticantes.

Porém, mesmo quando a rendição foi assinada, a armada continuou a bombardear o globo com mais e mais fogo nuclear, mais e mais radiação solar ultra amplificada, partículas de antimatéria aniquilando o que sobrara da civilização terrestre.

No final, sobraram escombros. Meros restos do que fora uma sociedade com grande potencial, suficiente para atingir outras galáxias. Os homens esqueceram sua Ciência, sua sabedoria. Quem sobreviveu, no início encontrou forças para matar para comer. Porém, ao término de um ano, a fome continuava e a Era da Escuridão sem fim começava.

Estou sozinho, na boca da caverna de Lascaux, França. Eu, entre toda minha família, foi quem sobreviveu. Tenho uma dúzia de lacerações e ferimentos no corpo. Minha boca está seca, minha língua inchada pela sede. Morreram muitos, no final da tarde, ao beberem água das fontes subterrâneas da caverna. O líquido está contaminado, mesmo tão longe da superfície.

Observo a noite. A frota inimiga está em órbita. As estrelas, tão brilhantes quanto as naves, posso apanhá-las com minhas mãos machucadas, de tanto que lutei à tarde por um lagarto, que sobreviveu ao genocídio.

Vou embora. Singrar o mundo e descobrir se há um resquício de civilização, algures.

Duvido.


*Sobre Roberto Fiori:
Escritor de Literatura Fantástica. Natural de São Paulo, reside atualmente em Vargem Grande Paulista, no Estado de São Paulo. Graduou-se na FATEC – SP e trabalhou por anos como free-lancer em Informática. Estudou pintura a óleo. Hoje, dedica-se somente à literatura, tendo como hobby sua guitarra elétrica. Estudou literatura com o escritor, poeta, cineasta e pintor André Carneiro, na Oficina da Palavra, em São Paulo. Mas Roberto não é somente aficionado por Ficção Científica, Fantasia e Horror. Admira toda forma de arte, arte que, segundo o escritor, quando realizada com bom gosto e técnica apurada, torna-se uma manifestação do espírito elevada e extremamente valiosa.

Sobre o livro “Futuro! – contos fantásticos de outros lugares e outros tempos”, do autor Roberto Fiori:

Sinopse: Contos instigantes, com o poder de tele transporte às mais remotas fronteiras de nosso Universo e diferentes dimensões.
Assim é “Futuro! – contos fantásticos de outros lugares e outros tempos”, uma celebração à humanidade, uma raça que, através de suas conquistas, demonstra que deseja tudo, menos permanecer parada no tempo e espaço.

Dizem que duas pessoas podem fazer a diferença, quando no espaço e na Terra parece não haver mais nenhuma esperança de paz. Histórias de conquistas e derrotas fenomenais. Do avanço inexorável de uma raça exótica que jamais será derrotada... Ou a fantasia que conta a chegada de um povo que, em tempos remotos, ameaçou o Homem e tinha tudo para destruí-lo. Esses são relatos dos tempos em que o futuro do Homem se dispunha em um xadrez interplanetário, onde Marte era uma potência econômica e militar, e a Terra, um mero aprendiz neste jogo de vida e morte... Ou, em outro mundo, permanece o aviso de que um dia o sistema solar não mais existirá, morte e destruição esperando pelos habitantes da Terra.
Através desta obra, será impossível o leitor não lembrar de quando o ser humano enviou o primeiro satélite artificial para a órbita — o Sputnik —, o primeiro cosmonauta a orbitar a Terra — Yuri Alekseievitch Gagarin — e deu-se o primeiro pouso do Homem na Lua, na missão Apollo 11.
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