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segunda-feira, 14 de outubro de 2019

O legado de Monteiro Lobato e uma entrevista com Ricardo Monteiro Lobato, seu bisneto

Ricardo Monteiro Lobato - Foto divulgação
ENTREVISTA:

Conexão Literatura: Poderia contar para os nossos leitores como foi o seu início no meio literário
?

Ricardo Monteiro Lobato: Sou do comércio e tenho uma loja de automóveis. Faz 30 anos que estou nessa área, não sou escritor. Muitas pessoas fazem essa pergunta. Tenho vontade de começar a escrever, na realidade já tenho alguns textos escritos e penso em mais pra frente colocar isso em prática.

Conexão Literatura: Como bisneto de Monteiro Lobato, quando e como foi o seu primeiro contato com o Sítio do Picapau Amarelo?


Ricardo Monteiro Lobato: Meu primeiro contato com o Sítio do Picapau Amarelo foi pela Rede Globo, na década de 70. Sou de 71 e assisti o sítio pela tevê. Tive contato antes através dos livros com a minha mãe me contando as histórias do Lobato, mas o contato que tenho mais de memória afetiva foi realmente do Sítio do Picapau Amarelo da Globo, entre os anos 77 e 84, se não me engano.

Ricardo Monteiro Lobato e Monisa Maciel - Foto divulgação
Conexão Literatura: Poderia comentar sobre a importância das obras de Monteiro Lobato?

Ricardo Monteiro Lobato: Lobato é fundamental para a literatura brasileira como um todo, ele escreveu tanto para criança como para adulto, mas a obra infantil dele é um marco na história literária do Brasil. Ele foi o precursor para escrever para as crianças. Foi o primeiro a escrever diretamente para as crianças se preocupando com elas e simplificando a escrita. Lobato foi um visionário nesse sentido, ele fez muito pelo Brasil de um modo geral e a importância dele é fundamental para a formação de diversas gerações, pensamento crítico, desenvolvimento das crianças, desenvolvimento intelectual e emocional. A leitura de Lobato é fundamental, suas obras também misturam ficção com realidade e é uma obra única que todos deveriam ler.

Conexão Literatura: Lobato também foi editor?

Ricardo Monteiro Lobato: Sim. Lobato foi o primeiro editor brasileiro a editar livros no Brasil, pois antigamente os livros eram importados da Europa. Lobato foi a primeira pessoa a montar uma editora aqui, isso em 1920. Ele criou a Monteiro Lobato & CIA. Em 1918 ele comprou a Revista do Brasil e depois ela se tornou a Monteiro Lobato & CIA. Ele importou todo o maquinário e começou a produzir livros e com isso reduziu o custo dos livros, deixando mais acessíveis para a população, pois eles eram caros justamente por serem importados. Além disso ele modernizou as capas, ele era também visionário na área de marketing. Antes as capas eram sem graça, em tons pastéis e sem ilustrações, então ele modificou isso para as pessoas se interessarem ainda mais pelos livros também pela capa, colocando ilustrações e cores chamativas nelas. Ele foi muito importante nessa área. 

Conexão Literatura: Você possui alguns objetos importantes de Monteiro Lobato em sua coleção. Qual deles mais desperta a sua atenção e por quê?

Ricardo Monteiro Lobato: Tenho vários objetos importantes dele. Tenho uma máquina filmadora a corda. Ela é linda. Ele era uma pessoa à frente do seu tempo, pois naquela época ele já fazia filmes. Tenho também um jogo de xadrez lindo que era dele, datado do ano de 1900, todo feito a mão. Tenho também aquarelas, quadros pintados por ele e vários livros antigos que era da sua coleção. Mas a peça que mais desperta minha atenção é a máquina de escrever que foi dele. Ela está comigo. É uma Hamilton portátil e foi com ela que ele escreveu boa parte da sua obra, ele adorava essa máquina. Lobato ganhava muitas máquinas de escrever dos fabricantes. Ele teve muitas em sua vida, mas essa Hamilton era a sua predileta e eu a levo sempre que posso em alguns eventos em que participo.

Conexão Literatura: E sobre o concurso literário Pequenos Escritores – Lobato Para Crianças?

Ricardo Monteiro Lobato: Fizemos um piloto em parceria com a Anglo de Sorocaba e a gente abriu para as escolas também de Sorocaba. A ideia do concurso foi a de justamente incentivar à leitura e a criatividade para as crianças. Foi um sucesso, tivemos quase 400 trabalhos inscritos num prazo de 1 mês. Fizemos a entrega dos prêmios para cada vencedor agora no começo de outubro, demos uma coleção de 8 livros do Imaginário do Lobato. Planejamos fazer um concurso semelhante no ano que vem, pois o que fizemos esse ano foi incrível, tivemos respostas muito legais das crianças. O tema era como seria o Sítio do Picapau Amarelo na atualidade. A Emília virou youtuber. A tia Nastácia virou Master Chef e assim por diante, desenhos mostrando o Sítio com árvores com wi-fi. Foi engraçado e muito legal essa experiência.
Foto divulgação
Conexão Literatura: Em Mairiporã, interior de São Paulo, existe um espaço temático do Sítio do Picapau Amarelo. Poderia comentar?

Ricardo Monteiro Lobato: Sim, é um espaço temático licenciado da Globo que a gente tem contrato. É uma réplica do Sítio que passou na televisão. É um local que a gente vai de manhã, chega às 10hs e passa o dia até às 16hs. Lá tem o laboratório do Visconde, tem a casa da dona Benta onde o visitante poderá comer bolinho de chuva com a tia Nastácia na cozinha, a dona Benta conta uma história na varanda, tem a gruta da Cuca e o Reino das Águas Claras. É um lugar lindo na beira da represa de Mairiporã e eles abrem aos finais de semana para grupos de famílias visitarem e durante a semana para visitação das escolas. Vale a pena conhecer. Fiz o aniversário do meu filho lá recentemente, em julho, e foi um grande sucesso. Convidamos 100 pessoas e todas amaram. É um programa que recomendo. 

No Espaço Temático do Sítio do Picapau Amarelo - Foto divulgação.
Conexão Literatura: Como o leitor interessado poderá saber mais sobre você e Monteiro Lobato?

Ricardo Monteiro Lobato: Os interessados poderão saber mais no meu instagram, que é @rmonteirolobato. Tenho feito um trabalho por todo o Brasil e fora dele. Tenho parceria com o Japão, Alemanha e Inglaterra de perpetuação do legado do meu bisavô com as novas gerações e de resgate com as mais antigas. O Lobato desperta uma memória afetiva incrível nas pessoas e nos lugares em que vou elas me abraçam emocionadas agradecendo por esse trabalho, por ter levado até elas essa recordação desse momento importante na vida delas, pois normalmente em algum momento da infância a criança leu Lobato. No meu instagram tem muitas informações e imagens, além do site que tem toda a cronologia da história do Lobato e outras informações: www.monteirolobato.com. Tem também o meu projeto “Viva Lobato", que lancei agora em outubro de perpetuação de Lobato que estou levando nas escolas, uma palestra de contação de histórias com música e uma palestra feita por mim. É um projeto interessante que também estou divulgando em meu instagram: @rmonteirolobato

Conexão Literatura: Tanto em livros como na tevê, existem novos projetos em pauta?

Ricardo Monteiro Lobato: Sim, como acabei de dizer, tem o meu projeto Viva Lobato, que tem algumas frentes, sendo que uma delas é a parte lúdica para as crianças onde envolve uma palestra com fotos mostrando a vida do Lobato, uma contação de histórias baseada no Sítio, com música e com os personagens. Fazemos algo bem divertido. E tem também um curso para formação de professores de contação de histórias. Minha parceira nesse projeto é uma pedagoga, que é a Monisa Maciel que é de Sorocaba, ela é especialista em contação de histórias. Ela faz o curso de contação e eu faço uma palestra de mais ou menos uma hora e meia e bem recheada falando bastante sobre vários temas da vida do Lobato. Esse curso é baseado na obra do Lobato para os professores aprenderem contação de histórias baseadas no Sítio. Tenho também outros projetos para o ano que vem que ainda estão no forno, mas que por enquanto não posso comentar.

Perguntas rápidas:

Um livro: A Reforma da Natureza, de Monteiro Lobato.
Um (a) autor (a): Monteiro Lobato, sou fã nº 1 dele.
Um ator: Robert de Niro.
Um filme: O poderoso chefão.
Um dia especial: O dia em que fui no Sítio do Picapau Amarelo e fizemos o aniversário do meu filho. Foi um dia muito especial e que guardarei em minha memória com muito carinho.

Conexão Literatura: Deseja encerrar com mais algum comentário?

Ricardo Monteiro Lobato: Agradeço pela oportunidade de levar um pouquinho de Monteiro Lobato para os seus leitores.

VISITE:
https://www.instagram.com/rmonteirolobato
www.monteirolobato.com
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quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Jogo de Máscaras - Pia Prattes

A trama de Jogo de Máscaras, livro de Pia Prattes, publicado pela Editora Coerência em 2019 (388 páginas), se passa na Instituição de Ensino Saint Lathrop Jullians - um colégio interno que recebe tanto alunos do sexo masculino quanto do sexo feminino, misto, portanto.

As pessoas que frequentam o referido colégio, que é dirigido pela Sra. Campbell, fazem parte da nata da sociedade. Ali estão alunos que são exaltados pela beleza, pela jovialidade, mas sobretudo pela condição financeira. Apesar de exigir enorme disciplina dos discentes, o que é feito por meio de muita rigidez e até punições, aqueles que possuem mais condições financeiras do que os outros ganham certa liberdade, o que, naturalmente, acaba gerando mudanças nas vidas de alguns desses estudantes. 

Mai Becker é a protagonista e narradora da história que se apresenta no livro. Ela, que é aluna da instituição, tem um namorado, uma grande amiga e um novo pretendente, chamado Connor Westcott, com quem acaba se envolvendo emocionalmente. Esse relacionamento, no entanto, não trará somente conforto ao coração da garota, como pode supor o leitor. 

Já no início do livro percebemos o relacionamento conturbado que ela cria com o jovem, além de se envolver em outros episódios que demonstram o egocentrismo, a falta de empatia e a medição de forças que os jovens do colégio parecem perpetuar. Quando o dinheiro e as aparências comandam a vida das pessoas, o que será que pode acontecer? 

Alguns dos alunos se envolvem em bullying, difamação, fofocas, intrigas, relacionamentos tóxicos, oportunismo, manipulação e outros conflitos que vão além da questão verbal, chegando às vias físicas. Eles se mostram o tempo todo tentando impor aparências e se sobrepor aos demais. Essas histórias de intrigas reverberam na vida de Mai, envolvem Lily, Tyler, Jasper e o próprio Westcott, além de outros personagens que fazem parte da instituição de ensino. 

"Chorei. Chorei porque me sentia violada, repudiada e humilhada. Chorei porque sabia que, a partir daquele momento nada mais seria como antes."

Jogo de Máscaras fala de aparências e elas acobertam verdades que os personagens camuflam para ostentar uma posição privilegiada em relação aos demais que pertencem ao mesmo grupo, ou camuflam para esconder eventos que manchariam suas reputações, ou ainda para acobertar ações questionáveis de outros personagens, ou simplesmente por terem falta de caráter. No jogo de máscaras, onde ninguém sabe quem é quem de verdade (e com verdade), a hipocrisia reina e protagoniza a vida das pessoas. Os personagens, uns mais e outros menos, usam de dissimulação para viver no ambiente que frequentam. Seriam eles fruto do meio? Ou o meio se transformou por conta de suas ações?

Pia Prattes trata na obra de temas que, implicitamente, nos levam a questionar o que vivemos na sociedade atualmente. Há mentiras, conchavos, inveja, gente que faz de tudo para ver os outros pelas costas, traições, arranjos e rearranjos de situações para obter benefício para si, vingança, violência - tanto verbal quanto física. Coloca em voga os relacionamentos tóxicos e a manipulação exercida por gente que está ao redor da protagonista. Há conflitos diversificados que se concentram no universo que é a St. Jullians. Mas não somente coisas negativas. Em meio a todo esse turbilhão, também há oportunidade de aprendizado, de mudança e de percepção em relação a tudo que faz sofrer.

Mai é uma protagonista que mexe com o leitor por carregar o que temos de mais humano: as imperfeições. Ela não é a típica heroína dotada tão somente de virtudes que nos levam  a admirá-la. Ela tem características e comportamentos que a tornam bastante crível, por ser falha. Quem de nós não tem seu "calcanhar de Aquiles"? A construção de Mai e de outros personagens se revela bem acertada dado o ambiente no qual vivem e pela proposta da obra.

"É incrível como o ser humano possui aptidão para enxergar as coisas como lhe agradam". Essa constatação feita pela protagonista, pode ser também a definição de como todos os personagens presentes no livro  encaram suas ações. Eles ouvem e veem aquilo que lhes convém. Eles toleram o que traz benefícios. Eles encaram de frente aquilo que lhes tira da situação cômoda e confortável cheia de privilégios.

Algumas subcamadas da trama levam-nos à refletir. Por exemplo, qual o papel das instituições de ensino? Em St. Jullians, o jogo que os alunos jogam é o mesmo que a direção do colégio adota. Tudo por aparência. Vemos claramente que há conivência com as ações que ali estão e mesmo quando há punições, a posição de quem será atingido por ela conta. Outra questão que também aparece na obra são as relações familiares. Por vezes nos questionamos qual o papel dos pais na educação desses jovens? O que eles esperam de seus filhos? Seriam eles os exemplos que moldaram a personalidade desses estudantes?

É de fato um jogo de máscaras. Se você, em algum momento, usou a expressão "a máscara vai cair" (grifo meu), com o livro não será diferente. Com o avançar da história o leitor é surpreendido com o caminho que a trama toma e, não faltam reviravoltas. O todo tempo torcemos para que a máscara de alguns personagens caia. Tal qual um jogo, alguns deles blefam com suas ações. Gosto de livros que nos faz olhar para a história e traçar uma porção de teorias. Jogo de Máscaras faz isso conosco e, gerando sentimentos conflitantes no leitor, pela posição que muitos dos personagens adotam no jogo da vida, nós vamos embarcando numa história que provoca e que se apresenta bem estruturada.

O desfecho, não posso deixar de mencionar, me lembrou um bom filme, justamente daqueles em que a verdade aparece e não sobrará ninguém mascarado. Quem é quem nesse jogo? E qual será a verdade?

Jogo de Máscaras me surpreendeu positivamente, tanto pela trama bem montada pela escritora, quanto pela constituição dos personagens, como pelo pano de fundo que suscita questionamentos e pode nos levar à reflexão enquanto lemos uma boa história.

Sobre a autora:

Pia Prattes é atriz, nasceu na cidade do Rio de Janeiro e cresceu em Porto Alegre, onde atuou em algumas peças de teatro e participou de um curta universitário. Ama musicais, comer brigadeiro de panela, assistir à Netflix e maratonar séries. Jogo de Máscaras é seu primeiro romance.

Ficha Técnica:

Título: Jogo de Máscaras
Escritora: Pia Prattes
Editora: Coerência
Edição: 1ª
Ano: 2019
Número de Páginas: 388
ISBN: 978-85-5327-149-8
Assunto: Ficção brasileira

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terça-feira, 20 de agosto de 2019

O Telefonema Que Não Fiz - Jonas Zair Vendrame

O Telefonema Que Não Fiz, do escritor  Jonas Zair Vendrame, foi publicado pela Skull Editora em 2018 (1ª edição; 240 páginas).

Um simples telefonema pode mudar a vida das pessoas? E se esse telefonema não for feito? Pense nisso!

Júlia Pascoal trabalha num hospital e namora um dos médicos do estabelecimento. Protagonista do livro ela faz a narração da história em primeira pessoa. Uma mulher que apresenta traços de imaturidade e desatenção em relação aos sentimentos dos outros. Seu comportamento individualista acaba levando-a a arquivar uma pasta (em que está as informações sobre um telefonema que ela deveria fazer). O erro que comete no trabalho, ao não ligar para quem deveria, culmina num episódio nada agradável.

Júlia, no entanto, parece sentir-se culpada, ainda que por vezes esconda o fato de não ter realizado a tal ligação. Lembre-se que não estamos falando de uma ligação de cunho privado, mas que era uma responsabilidade profissional da protagonista. A culpa, aos poucos, começa a consumi-la, sobretudo quando ela sabe o que aconteceu após a não realização do telefonema.

Então, a moça começa uma jornada em busca de reparar, ou melhor, minimizar a sua culpa. É a partir daí que temos uma história que envolve superação, desprendimento, doação, empatia e os contrapontos de todas essas questões positivas que permeiam o lado humano de personagens que figuram na história criada pelo autor.

É inegável que Júlia vai mexer com o leitor, porque apesar de protagonizar a história, ela expõe suas fragilidades e defeitos, o que nos faz sentir por ela sentimentos contraditórios. É dessa imperfeição que surgem ainda grandes ensinamentos quando lemos a história e que lançam provocações para que o leitor reflita. Reflexões que reverberam tanto das ações que a personagem tem na trama quanto no modo como agimos no cotidiano.

O Telefonema Que Não Fiz é um livro cheio de emoções, que aborda o peso da culpa, o abalo psicológico advindo de uma omissão, o confronto com as consequências de seus atos e a necessidade de pensar sobre a responsabilidade. Uma falha, uma omissão, um desleixo, pode causar dor, sofrimento e danos, não só a quem provoca, mas a quem é abatido por tudo isso, e pode ser não só uma pessoa, mas várias. A extensão de uma ação é tratada na obra de maneira que compreendamos todos os impactos gerados a partir daquilo que Júlia não fez.

“Não sei o que houve, o telefone nunca tocou, nunca...”

Um telefonema não feito pode gerar impactos sem volta, pode gerar a partir daí a oportunidade de refletir sobre a sua própria vida, pode mudar sua visão sobre compromisso e responsabilidade, pode modificar sua forma de encarar a vida, pode gerar impacto na vida de terceiros, pode te fazer amadurecer, pode causar desconforto a partir da culpa e a necessidade de exercício da empatia. E se fosse com você? Um telefonema não feito pode gerar impactos inimagináveis.

Outra coisa que paira na trama é o questionamento sobre o acobertamento de um erro que pode levar outra pessoa a pagar por ele. Provoca, portanto, o senso de justiça, tanto dos personagens envolvidos quanto do leitor ao avaliar o que deveria ou não acontecer.

A história provoca frisson e tem um plot twist inesperado, daqueles que deixam o leitor boquiaberto com o rumo da trama. Surpreende por não ser previsível, mas sobretudo por ter coerência com o que acontece no decorrer da história. Há detalhes que são passados ao leitor durante a narração que tem total conexão com a reviravolta. Nenhum segredo consegue ser mantido para sempre.

Mencionei inicialmente sobre  a imaturidade da protagonista. A trajetória de Júlia dentro da história tem consistência, porque ela não é a típica heroína que espera-se quando imaginamos a palavra "protagonismo". Isso é interessante e atrativo para o leitor, pois sai da mesmice e mostra uma personagem abalável, imatura, individualista, desatenta e até podemos dizer irresponsável, mas ainda assim ela vai se descobrindo e amadurecendo. Outro ponto que vale a pena mencionar é que ela não faz isso num salto de transformação, o que poderia fragilizar a construção da personagem. Ela faz isso de maneira gradual, sem grandes sobressaltos. Observar a trajetória de crescimento da personagem dentro da história faz com que destaquemos a humanidade dela.

O pano de fundo abordado na trama nos faz alerta para doação de órgãos, para a responsabilidade profissional e para o trabalho voluntariado. As imagens que ilustram a obra tem total conexão com a história e fazem parte de um trabalho gráfico bem construído pela Skull.

O Telefonema Que Não Fiz é um livro perfeito para quem gosta de drama, emoções, reviravoltas e uma história com conteúdo que vai além da ficção, deixando reflexões para o leitor.


Sobre o autor:

Jonas Zair Vendrame é ator brasileiro que vive no interior de São Paulo. Amante de terror e suspense policiais, escreve e elabora contos com muito mistério e sangue. Após escrever o seu primeiro livro Relatos de Sangue, uma obra sanguinária e que deu nó na cabeça de muitos leitores, Jonas se aventura em uma atmosfera completamente diferente dentro do suspense com o livro O Telefonema Que Não Fiz.

Ficha Técnica:

Título: O Telefonema Que Não Fiz
Escritor: Jonas Zair Vendrame
Editora: Skull
Edição: 1ª
Ano: 2018
ISBN: 978-85-53037-37-7
Número de Páginas: 240
Assunto: Drama
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segunda-feira, 15 de julho de 2019

O cortiço



Publicado em 1890, O Cortiço, de Aluizio de Azevedo, é um romance baseado na ideia equivocada do determinismo social, segundo o qual o caráter de uma pessoa e seu comportamento é determinado pelo meio. E, para o português Azevedo, um cortiço carioca era o pior dos meios, um local que corrompia todos que entrassem em contato com o mesmo.
Assim, O Cortiço é uma história de degradação moral, em que personagens desfilam diante do leitor, alguns até íntegros, como o português Jerônimo, mas vão sendo aos poucos tomados pela lubricidade do local e acabam contaminados.
O romance guarda forte conteúdo racista certamente influenciada por teorias em voga na época: o europeu é bom, íntegro, o brasileiro é uma raça degradada.
É curioso e irônico, no entanto, que de todos os personagens, o mais corrupto é justamente um português, João Romão, o dono do Cortiço. Perto de suas maldades e de seu egoísmo os moradores do cortiço parecem inocentes.
Muito além de sua mensagem determinista, O Cortiço é um dos melhores livros entre os clássicos da literatura brasileira. A forma como o autor lida com uma infinidade de personagens, caracterizando-os perfeitamente, dando a cada um deles uma uma história, um modo de reagir às alegrias e adversidades, tudo isso é genial.
É fácil aprofundar a personalidade de um único personagem. Mas lidar com uma galeria tão grande sem perder a mão é coisa para grandes autores.
Outro aspecto interessante é a inventividade na criação de situações. No cortiço sempre está acontecendo algo numa espiral vertiginosa de traições, brigas, intrigas.
Acrescente-se a isso afinadas descrições da psicologia dos personagens que lembram muito Eça de Queiros. Como exemplo, um trecho em que o autor descreve a descoberta da inveja por parte de João Romão: “E em volta de seu espírito, pela primeira vez alucinado, um turbilhão de grandezas, que ele mal conhecia e mal podia imaginar, perpassou vertiginosamente, em ondas de sedas e rendas, veludos e pérolas, colos e braços de mulheres seminuas, num fremir de risos e espumar aljofrado de vinhos cor de ouro”.

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quinta-feira, 27 de junho de 2019

Viagem através da literatura brasileira

Isabel Lucas - Foto divulgação
Parceria entre Cepe Editora, jornal português Público e Fundação Oceanos pretende mostrar o Brasil a partir de clássicos literários

No Rio de Janeiro, Brás Cubas, personagem póstumo de Machado de Assis, revela suas memórias do século XIX. Na mesma época, a situação e o cenário eram bem distintos no Sertão da Bahia descrito por Euclides da Cunha. A diversidade da literatura brasileira não reflete apenas a amplitude geográfica de seu continente, mas também as distinções políticas, sociais e culturais do nosso povo, presentes nos títulos literários. Partindo de obras canônicas brasileiras, surge o projeto Viagem ao País do Futuro, assinado pela jornalista portuguesa Isabel Lucas.

A ideia é escrever 12 grandes reportagens sobre lugares/livros visitados/lidos pela autora para traçar o Brasil de agora. Ao final de um ano, as matérias se transformarão em livro a ser editado pela Cepe em parceria com o jornal português Público e a Fundação Oceanos. O projeto será apresentado oficialmente na edição 2019 da Festa Internacional de Paraty (Flip), dentro da programação da Casa Paratodxs, dia 11 de julho, às 19h, em conversa entre Isabel Lucas e o editor da Cepe, Wellington de Melo. Antes disso, no dia 6 de julho, já será publicada -  na versão online do jornal literário Pernambuco (Cepe), e no jornal Público - a primeira das 12 reportagens, e o Pernambuco também já terá na versão impressa do mês de julho uma entrevista exclusiva com a escritora falando sobre o projeto.

"Em meio à crise política e social em que vive o Brasil, pensar a literatura é fundamental, tanto a canônica quanto a que está sendo feita neste momento, no calor da hora. A ficção sempre vê mais longe", defende o editor do Pernambuco, Schneider Carpeggiani. Selma Caetano, representante da Fundação Oceanos, enxerga ainda uma possibilidade de "aproximar literaturas e artes de língua portuguesa".

A escolha por títulos pertencentes ao cânone literário brasileiro, segundo Isabel, foi uma forma de abrir as possibilidades para abordar a diversidade temática e geográfica que compõe a identidade brasileira. "É uma escolha que se pode dizer conservadora, mas que tem o objetivo de, durante a viagem, descobrir e integrar obras mais atuais, chegando ao que neste momento o Brasil escreve sobre o Brasil", esclarece Isabel. Além de Os Sertões (Euclides da Cunha) e Memórias póstumas de Brás Cubas (Machado de Assis), a autora utiliza como pontos de partida os títulos Vidas Secas (Graciliano Ramos), Menino de engenho (José Lins do Rego), Casa-Grande & Senzala (Gilberto Freyre), A hora da estrela (Clarice Lispector), Olhai os lírios do campo (Érico Veríssimo), Grande Sertão: Veredas (Guimarães Rosa),  Viva o Povo Brasileiro (João Ubaldo Ribeiro), Dois irmãos (Milton Hatoum), As meninas (Lygia Fagundes Telles), Macunaíma (Mário de Andrade), e Lavoura Arcaica (Raduan Nassar).

O primeiro texto do road book começou a ser escrito no Recife, em junho passado. Por aqui, a jornalista e escritora portuguesa Isabel Lucas iniciou sua narrativa baseada em pessoas anônimas que por aqui conheceu, e em escritores contemporâneos, como o poeta Miró da Muribeca, que emprestaram seus olhos para que Isabel enxergasse a capital pernambucana à sua maneira. Hotel Central, Mercado da Boa Vista,  Ponte Duarte Coelho e Praça Maciel Pinheiro vistos pelos versos de Miró não são os mesmos de um cartão postal. Depois do Recife, Garanhuns, Caetés, Palmeira dos Índios e Quebrangulo (AL), Canudos (BA), e Petrolina (PE) foram os destinos. De 10 a 21 de julho, os destinos serão para Rio de Janeiro e Paraty. De 2 a 12 de setembro, Isabel passará por Porto Alegre, São Paulo, Salvador e Itaparica, e termina sua viagem entre São Paulo, Manaus e Pindorama, de 21 de outubro a 6 de novembro.

Isabel já havia feito projeto semelhante nos Estados Unidos, por onde viajou por 16 cidades para tentar entender a complexa realidade daquele País. O resultado foi o livro Viagem ao sonho americano, publicado em Portugal em junho de 2017. O título é tão repleto de ironias quanto o que, por ora, batiza o projeto brasileiro, pois o que Isabel descobriu em terras norte-americanas desmontou muitos dos conceitos prévios. "Naquela época, 2015, o então candidato a presidente Donald Trump surgia como uma piada que se tornou realidade". Algo semelhante ao que ocorreu no Brasil com o atual presidente. Já a escolha dos livros foi pautada por questões de raça, imigração, tecnologia... "Achava que sabia o que era racismo nos Estados Unidos e descobri que não sabia nada; é um país de imigrantes conservadores", confessa Isabel.

Há dois anos Isabel 'descobriu' o Brasil quando fez sua primeira visita aos trópicos. Mas a cultura brasileira há muito que 'conquistou' a ela e aos portugueses. Caso de Jorge Amado, muito conhecido por lá. Em Portugal, no entanto, é grande o desconhecimento da literatura brasileira. "E os portugueses acham que conhecem o Brasil ,por causa das novelas!", conta Isabel. Apesar de não haver a barreira linguística, há sim uma barreira de vocabulário, pois nem tudo se conhece do mesmo jeito aqui e do outro lado do Atlântico. "Meu trabalho consiste também em fazer uma tradução de valores; uma tradução cultural". Quanto ao fato de ser uma portuguesa, 'colonizadora' escrevendo sobre o Brasil 'colonizado', Isabel pondera que a alteridade pode favorecer o olhar. "Provavelmente esse livro não será consensual. Se assim fosse, escreveria lá de Lisboa mesmo".

Sobre a autora

Jornalista e crítica literária, Isabel Lucas já passou pelas redações dos principais jornais e revistas portugueses. Freelancer desde 2012, escreve regularmente para o jornal Público e colabora em diversas publicações nacionais e internacionais. Foi curadora da edição de 2018 do Prêmio Oceanos.
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quarta-feira, 15 de maio de 2019

Literatura brasileira é destaque em eventos internacionais

Conceição Evaristo - Foto divulgação
A literatura brasileira ainda se mostra relevante e vai além das fronteiras. Tanto é que dois eventos nos Estados Unidos, em junho, vão destacar obras de língua portuguesa em atividades culturais e exposições para o público em geral. 

Um deles é o ‘Mulheres na Escrita’, programa realizado pelo grupo “Mulheres da Resistência no Exterior”. O evento acontece dia 15 de junho, no The People's Forum, em Nova York. A iniciativa, que visa dar mais visibilidade às mulheres escritoras, vai contar com importantes nomes como, por exemplo, Conceição Evaristo e Manuela d’Ávila. Elas vão falar sobre seus trabalhos artísticos e compartilhar suas experiências na literatura.

Na mesma cidade também acontece o 5º Salão do Livro de Nova York, na Biblioteca Brasileira de Nova York (Brazilian Endowment for the Arts), nos dias 19 e 20 de junho. O programa conta com a realização de atividades culturais e palestra sobre literatura brasileira no mundo.

Organizada pela ZL Editora, o projeto Internacional existe há quase dez anos e já foi realizado em Lisboa (Portugal), Berlim (Alemanha), em algumas cidades da França e em Montreal (Canadá), além do Rio de Janeiro. A iniciativa foi criada com intuito de valorizar o trabalho dos autores independentes e as pequenas editoras, ambos sem acesso ao circuito oficial literário brasileiro. 

Serviço:
Mulheres na Escrita
Data: 15/06/2019
Local: The People's Forum
Endereço: 320 W 37th St, New York

5º Salão do Livro de Nova York
Data: 19 e 20/06/2019
Local: Brazilian Endowment for the Arts
Endereço: 240 E 52nd St, New York
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terça-feira, 5 de março de 2019

Resenha: Sob a Luz da Escuridão de Ana Beatriz Brandão

"Assim foi criado o mundo em que vivíamos: as pessoas matavam por nada e brigavam por tudo. O planeta tinha sido tomado pelo caos. O que tínhamos a perder? Ninguém poderia nos castigar, e sentir medo da morte era para os fracos." (trecho do livro)
Olá leitores! Hoje compartilho com vocês a resenha de uma obra nacional que me surpreendeu: Sob a Luz da Escuridão da jovem escritora  Ana Beatriz Brandão.
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terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Conhecendo a ABL - Academia Brasileira de Letras

A Academia Brasileira de Letras (ABL) é uma instituição cultural, cuja inauguração se deu em 20 de julho de 1897 e que está sediada no Rio de Janeiro. Qual o papel da Academia Brasileira de Letras? A entidade tem por objetivo o cultivo da língua e da literatura nacionais.

Seguindo o modelo adotado pela Academia Francesa, a ABL é formada por  40 membros efetivos (perpétuos), além de contar com 20 sócios correspondentes estrangeiros. 

No dia 13 de dezembro de 2018 tomou posse a nova Diretoria da ABL, para o exercício de 2019. A eleição aconteceu em 06 de dezembro de 2018 e a Diretoria passou a ser composta da seguinte forma:

Presidente: Marco Lucchesi
Secretário-Geral: Merval Pereira
Primeira-Secretária: Ana Maria Machado
Segundo-Secretário: Edmar Bacha
Tesoureiro: José Murilo de Carvalho. 

Sobre os membros da Diretoria da ABL (informações do site da entidade): 


Marco Lucchesi: Sétimo ocupante da cadeira nº 15 da ABL, foi eleito em 3 de março de 2011, na sucessão de Padre Fernando Bastos de Ávila. Nasceu no Rio de Janeiro em 9 de dezembro de 1963 e se tornou o mais jovem Presidente da Academia Brasileira de Letras dos últimos 70 anos. Uma curiosidade: o mais novo, em toda a história da academia, foi o Acadêmico Pedro Calmon (1902-1985), que assumiu em 1945, com 43 anos de idade.

Escritor muitas vezes premiado, tanto no Brasil quanto no exterior, Lucchesi é autor de uma obra que abarca poesia, romance, ensaios, memórias e traduções. Publicou mais de 40 livros ao longo de sua trajetória. Professor titular de Literatura Comparada da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Lucchesi tem pós-doutorado em Filosofia da Renascença na Alemanha. Formado em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF), possui mestrado e doutorado em Ciência da Literatura. Seus livros mais recentes são O carteiro imaterial (ensaios), Clio (poesia) e O bibliotecário do imperador (romance). Ganhou três Prêmios Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro.


Merval Pereira: Oitavo ocupante da cadeira nº 31, eleito em 22 de junho de 2011, na sucessão de Moacyr Scliar, Merval Pereira é jornalista e comentarista da Globonews e da CBN e Colunista de O Globo. Foi eleito Correspondente Brasileiro da Academia das Ciências de Lisboa, em novembro de 2016. Em 1979, recebeu o Prêmio Esso pela série de reportagens “A segunda guerra, sucessão de Geisel”, publicada no Jornal de Brasília e escrita em parceria com o então editor do jornal André Gustavo Stumpf. A série virou livro, considerado referência para estudos da época e citado por brasilianistas, como Thomas Skidmore. Em 2009, recebeu o prêmio Maria Moors Cabot da Universidade de Columbia de excelência jornalística, a mais importante premiação internacional do jornalismo das Américas.


Ana Maria Machado: Sexta ocupante da Cadeira nº 1, eleita em 24 de abril de 2003, na sucessão de Evandro Lins e Silva, e recebida em 29 de agosto de 2003 pelo acadêmico Tarcísio Padilha. A escritora Ana Maria Machado presidiu a Academia Brasileira de Letras em 2012 e 2013. É membro do PEN Clube do Brasil e do Seminário de Literatura da Universidade de Cambridge, na Inglaterra. Integra o Conselho Consultivo do Brazil Institute do King’s College em Londres. Recebeu a Ordem do Mérito Cultural, no grau de Grão-Mestre, a Medalha Tiradentes, a Grande Ordem Cultural da Colômbia, e a Medalha Tamandaré. Publicou mais de cem livros no Brasil, muitos deles traduzidos em cerca de vinte países.


Edmar Bacha: Economista, fundador e diretor do Instituto de Estudos de Política Econômica/Casa das Garças, um centro de pesquisas e debates no Rio de Janeiro, Edmar Bacha nasceu em Lambari, Minas Gerais, de uma família de escritores, políticos e comerciantes. Sexto ocupante da Cadeira 40 da ABL, eleito em 3 de novembro de 2016, na sucessão de Evaristo de Moraes Filho, concluiu a Faculdade de Ciências Econômicas na Universidade Federal de Minas Gerais e, em seguida, obteve o Ph.D. em Economia na Universidade de Yale, EUA. É autor de inúmeros livros e artigos em revistas acadêmicas brasileiras e internacionais. O último livro foi Belíndia 2.0: Fábulas e Ensaios sobre o País dos Contrastes.


José Murilo de Carvalho:  Historiador, professor emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e membro da Academia Brasileira de Letras. Nascido em Andrelândia (MG), fez sua graduação em Sociologia e Política na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e é Ph.D pela Universidade de Stanford. Atuou como professor visitante e pesquisador em diversas universidades estrangeiras, como Oxford, Leiden, Londres, Stanford e Princeton. É autor de vasta produção de artigos e crônicas publicados em jornais e revistas, no Brasil e exterior, e de livros, como Os bestializados (1987), Pontos e bordados (1998), A formação das almas – o imaginário da República no Brasil (1990), Cidadania no Brasil: o longo caminho (2001) e Dom Pedro II (2007). Seu livro mais recente é O pecado original da República.

Como é o processo de escolha de um imortal da Academia

Como instituição cultural a ABL possui um estatuto e nele estão as diretrizes que regem a entidade. Em seu estatuto a Academia estabelece que para alguém candidatar-se é preciso ser brasileiro nato e ter publicado, em qualquer gênero da literatura, obras de reconhecido mérito ou, fora desses gêneros, livros de valor literário. 

Os imortais são escolhidos mediante eleição por votação secreta. 

Quando um Acadêmico falece, a cadeira é declarada vaga numa reunião denominada Sessão de Saudade, e a partir de então os interessados tem o prazo de 2 meses para se candidatarem, enviando uma carta ao Presidente da instituição. A eleição acontece sessenta dias após a declaração da vaga.

A posse é marcada de comum acordo entre o novo Acadêmico e o escolhido para recepcioná-lo. De praxe, o vistoso fardão é oferecido pelo Governo do Estado natal do Acadêmico.

Para saber quem são os acadêmicos que passaram pela ABL, você pode conferir no site da instituição (clique aqui).

Algumas curiosidades:

Quem fundou a Academia Brasileira de Letras?
Machado de Assis e Lúcio de Mendonça fundaram a ABL em 1897.

Quem foi a primeira mulher eleita para a ABL?
A escritora Rachel de Queiroz foi a primeira escritora a assumir uma das cadeiras da instituição. Isso aconteceu em 1977.

Quem foi a primeira presidente do sexo feminino da ABL?
Nélida Piñon tomou posse em dezembro de 1996 como presidente da instituição, tornando-se, portanto, a primeira mulher a presidir a Academia Brasileira de Letras. Ela foi eleita como imortal no ano de 1989.

Quem foi o primeiro presidente da ABL?
Machado de Assis, o seu fundador, foi o primeiro presidente da entidade e dirigiu a Academia até 1908. 

Quem foi o presidente que mais tempo ficou na direção da ABL?
Austregésilo de Athayde presidiu a Academia de 1959 até 1993.



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terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Os Espiões


Título Original: Os Espiões
Autor: Luis Fernando Verissimo
Editora: Alfaguara
Páginas: 144
Ano Lançamento: 2009 

Luis Fernando Verissimo constrói, neste livro, uma alegoria híbrida de mitologia, humor e mistério. Ainda se curando da ressaca do final de semana, na manhã de uma terça-feira, o funcionário de uma pequena editora recebe um envelope branco, endereçado com letras de mãos trêmulas. Dentro, as primeiras páginas de um livro de confissões escrito por uma certa Ariadne, que promete contar sua história com um amante secreto e depois se suicidar. Atormentado por sonhos românticos, esse boêmio frustrado com seu casamento, e infeliz no trabalho, decide tomar uma atitude - descobrir quem é Ariadne e, se possível, salvá-la da morte anunciada. Na mitologia grega, ela ajuda Teseu a sair do labirinto. No entanto, o autor cria uma Ariadne ao contrário, que vai enfeitiçando o protagonista e seus amigos de bar, os espiões deste livro. 

Impressões: 

Verissimo é genial em todos os sentidos da palavra, elaborando uma trama repleta de mistério, sem deixar o bom humor de lado, recriando de forma magistral uma alegoria da mitologia antiga. 

O personagem principal de toda aventura é um funcionário de uma pequena editora, do qual é surpreendido com um envelope branco, dentro às primeiras páginas de um livro. 

Esse mesmo livro que o funcionário recebeu, é uma confissão escrita por uma tal de Ariadne, envolta em um manto de mistério, é a partir daí que começa toda uma aventura em busca de respostas. 

Luis Fernando Verissimo construiu um mistério divertido, com personagens marcantes e caricatos. A evolução é gradativa e fluída, ganhando forma aos poucos, deixando o leitor agarrado logo nos primeiros capítulos. 

O funcionário da editora, reúne seus melhores amigos para fazer uma verdadeira investigação e descobrir quem é essa tal de Ariadne, saber os seus reais motivos em querer publicar um livro tão comprometedor. 

Vale a pena? Com toda certeza! Essa obra vai garantir boas risadas e uma dose generosa de muito mistério e aventura.


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segunda-feira, 23 de julho de 2018

8 filmes para os amantes da literatura brasileira

Cena do filme O Auto da Compadecida - Foto divulgação
1 - O Auto da Compadecida (baseado no livro de Ariano Suassuna) 

2 - Capitães de Areia (baseado no livro de Jorge Amado) 

3 - Lição de Amor (adaptação do livro Amar, Verbo Intransitivo, de Mário de Andrade) 

4 - O Cortiço (baseado no livro de Aluísio Azevedo)  

5 - A Hora da Estrela (da obra de Clarice Lispector)

6 - Incidente em Antares (da obra de Érico Veríssimo)

7 - Quincas Borba (da obra de Machado de Assis)

8 - Memórias póstumas (da obra de Machado de Assis)

Trailer do filme O Auto da Compadecida, baseado na obra de Ariano Suassuna

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segunda-feira, 11 de junho de 2018

Resenha: Ideias Que Rimam Mais Que Palavras - Vol. 1

Título: Ideias Que Rimam Mais Que Palavras. Vol. 1 


Autor: Rashid

Editora: Foco Na Missão

Páginas: 108

Ano Lançamento: 2018 
Sinopse:

“Ideias que rimam mais que palavras - Vol.1” é o primeiro livro de Rashid, rapper paulistano que cultiva desde a infância o gosto pela leitura e pelo universo literário. Como rimador, é referência de lírica e traz isso, agora, em novo formato, fazendo crônicas de suas músicas enquanto relembra momentos marcantes da carreira. Rashid narra partes de sua trajetória musical, indo dos dias mais precários até os mais expressivos, ao dar detalhes das composições e daquilo que o inspirou a fazer os versos que o tornaram consagrado. 

Impressões:

Saudações literárias, queridos leitores da Revista Conexão Literatura, tudo bem com vocês? Espero que sim! Hoje vamos começar mais uma semana com uma dica incrível de livro. Vamos falar um pouco da obra “Ideias que rimam mais que palavras – Vol. 1”. 

Michel Dias Costas, mais conhecido por Rashid, rapper de grande respeito nacional, com suas letras e rimas impactantes mostrando um pouco da sua árdua jornada para se tornar um mito da música, agora um notável e brilhante escritor. 

Ideias que rimam mais que palavras não é um simples livro, e sim, uma proximidade do jovem que sonhava em ser rapper e toda sua batalha pessoal para correr atrás dos seus sonhos. São obstáculos narrados de forma intimista para os leitores, deixando ainda mais próximo do autor e cantor. 

Rashid possui um sentimento poético do qual é extravasado em suas músicas e rimas, um misto de crítica social e tendo referências literárias para compor suas músicas, fazendo enorme sucesso nas plataformas digitais. 

Das rimas, versos e batidas indo parar no livro, Rashid possui um talento ímpar em seus escritos, seja através das músicas que inspiram e agora no cenário literário, mostrando uma infância difícil até chegar no topo da música e subir nos maiores palcos do estilo. 

O livro possui uma boa diagramação, com uma fonte adequada, proporcionando uma leitura agradável, espaçamentos medianos. Destaque pela capa, com um estilo urbanista em sintonia com o rap. 

Uma dica! Ouçam todas as músicas do Rashid, pois durante a jornada em sua obra, o cantor explica de forma fluída todo o processo de criação e composição das suas músicas, cada uma sendo detalhada brilhantemente. 

Se vale a pena? Com toda certeza! Um livro impactante e inspirador com um misto de emoção. Ah! Além disso ele trás uma mensagem forte para nunca desistirmos dos nossos sonhos, corrermos atrás dos nossos objetivos e lutarmos para vencermos.



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quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Faro Editorial lança série de Literatura Brasileira, “Para Amar” Clarice Lispector e Graciliano Ramos



Coleção expõe os pontos mais relevantes da arte literária de grandes escritores, começando por Clarice Lispector e Graciliano Ramos

Por que um autor se torna um clássico? Por que continuam a ser lidos e admirados por tantas décadas? Como é possível ler essas obras e apreciar suas inovações? E, como elas acontecem no texto desses autores?

Nossa literatura é rica de escritores que criaram estilos únicos para contar histórias, bastante lidas, mas nem sempre compreendidas sob o signo de sua inovação e arte. Mergulhar numa obra literária e absorver os os aspectos e ideias mais relevantes pode ser complicado sem um caminho de orientação e, muitas vezes, é complexo até para pessoas ligadas a Literatura.

Foi pensando em aproximar as obras de seus leitores, naquilo que elas têm de mais especial, a Faro Editorial criou a série “Para Amar”. Não se trata de um resumo de obras, pelo contrário. A coleção guia o olhar do leitor para entender a narrativa dos autores a partir do conjunto de suas várias obras, servindo com um roteiro para que qualquer pessoa seja capaz de observar os aspectos mais importantes da obras-primas de nossa literatura.


A Ideia da série?
Os autores se tornam clássicos por terem sido considerados como a melhor produção literária de sua época em termos de arte, de inovação, de exercício da linguagem. No entanto, dizer isso aos leitores atuais não é suficiente. É preciso mostrar onde acontece esse destaque, como acontecem e por quê.

Como isto é feito?
Na obra de Graciliano, Ivan Marques destaca os momentos-chave em que o autor estabelece algumas de suas principais marcas estilísticas como

a incomunicabilidade, a loucura,  críticas a condição humana, estilo seco, conciso e sintético, e uma busca por objetividade e clareza, em obras como  São Bernardo, Angústia, Memórias do Cárcere, Caetés, Vidas Secas entre outras.

Na obra de Clarice, Emilia Amaral encontra elementos bem diferentes: a individualidade, a voz dos que não tem espaço, o inconsciente, a narrativa desordenada, a busca existencial, a metafísica, o caos interno, a visão psicanalítica. E ela utiliza trechos de livros como A hora da Estrela, Laços de Família, A paixão segundo GH, Perto de um coração selvagem, entre outros, incluindo mais de uma dezenas de contos.

O diferencial da coleção é mostrar a arte, no momento em que acontece, com a transcrição de trechos das respectivas obras com a ideia de indicar aos leitores como observar o que é mais importante naquele autor, algo que os consagraram com destaque em nossa Literatura.

Os primeiros volumes da coleção chegam às livrarias em agosto pela Faro Editorial, “Para Amar Clarice” e “Para Amar Graciliano”, foram escritos por dois especialistas em literatura brasileira, Emília Amaral e Ivan Marques, que reunirem qualidades especiais: larga formação em literatura brasileira e capacidade de falar (e escrever) para público não acadêmico.

Na coleção, o leitor também irá encontrar um pouco mais sobre a biografia cada autor. Trata-se de uma coleção focada em leitores que desejam expandir sua forma de ler literatura nacional, sem as urgências dos concursos universitários.

Enquanto eu tiver perguntas e não respostas... continuarei a escrever.”  Clarice Lispector

A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso. Palavra foi feita para dizer.” - Graciliano Ramos

Ficha Técnica:
Título: Para Amar Clarice
Nº de págs: 160
Título: Para Amar Graciliano
Nº de págs :179
Preço: 29,90 cada

Sobre os autores:
EMILIA AMARAL graduou-se em Letras na UNESP (1978), tendo estudado o realismo fantástico de Murilo Rubião. O Mestrado foi em Teoria Literária, na UNICAMP (1986), com a dissertação “Texto literário e contexto didático: os (des) caminhos na formação do leitor”. O Doutorado, também na UNICAMP, juntou os campos de Educação e Literatura, com a tese “O leitor segundo G.H.”. Realizou um Pós-Doutorado, FAPESP, no Departamento de Estudos Judaicos da USP (2011). Tem atuado principalmente nos seguintes temas: iniciação à produção e à leitura de textos, livros didáticos e paradidáticos, leitura de textos literários, iniciação à literatura brasileira, processos de formação do leitor, “A Paixão Segundo G.H”, outras obras de Clarice Lispector e formação continuada de professores. É autora de diversos livros, dentre eles, “Novas Palavras”, pela FTD; obra distribuída por todo o Brasil, pelo PNLD, há mais de vinte anos.

IVAN MARQUES é professor de Literatura Brasileira na Universidade de São Paulo, onde fez seu doutorado. É autor dos livros “Cenas de um modernismo de província: Drummond e outros rapazes de Belo Horizonte” (Editora 34, 2011) e” Modernismo em revista: estética e ideologia nos periódicos dos anos 1920” (Editora Casa da Palavra, 2013). Organizou também as antologias “O espelho e outros contos machadianos” (Editora Scipione, 2008), “Melhores poemas de Augusto Frederico Schmidt” (Editora Global, 2010), “Clara dos Anjos e outros contos de Lima Barreto” (Editora Scipione, 2011) e “Briga das pastoras e outras histórias: Mário de Andrade e a busca do popular” (Edições SM, 2016), entre outros livros. Foi diretor do programa Entrelinhas e editor-chefe do programa Metrópolis, ambos da TV Cultura. Na mesma emissora, realizou documentários sobre literatura, como “Versos diversos: a poesia de hoje, Orides: a um passo do pássaro” e “Assaré: o sertão da poesia”.
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terça-feira, 25 de julho de 2017

Dia do Escritor: Os 5 escritores nacionais da atualidade que vale a pena conhecer

Hoje, dia 25 de Julho, um dia especial tanto para os escritores, quanto para os leitores, comemoramos o Dia do Escritor. Pessoas que tem o dom de fazer os leitores viajarem para novos mundos e diferentes lugares, apenas com as palavras.

Nesse dia tão lindo, não há nada mais oportuno que valorizar o nossos escritores e trazer para vocês, 5 escritores nacionais, de diferentes gêneros, que aos meus olhos, são grandes promessas para ganhar o mundo.


Thaylane R. Ramos

Thaylane é escritora de fantasias e encontra sua inspiração em dias de chuva, na lua e na música clássica. Todas as suas inspirações proporciona ao leitor obras fantásticas que irão te prender do início ao fim, viajando para mundos incríveis.

A primeira obra publicada, da autora é a série Entre Mundos, uma fantasia que une, ou melhor dizendo, coloca em guerra feiticeiros e deuses. Com descrições incríveis e seres de tirar o folego, a obra irá encantar qualquer um que queira se aventurar entre essas páginas.

A autora também tem uma outra série, Segredos da Noite, que está disponível na plataforma, Wattpad e que promete muito mistério, suspense, intrigas e romances


Erick Mafra

Erick é autor do livro O Garoto do Sonho, onde ele trás, de uma forma criativa e doce, sobre o amor. Não o amor entre um casal, mas o amor em tudo e por todas as coisas. Um livro que inspira e encanta muitas pessoas.

O Garoto do Sonho já era uma série de textos, que o autor publicava em seu blog e acabou virando um livro que faz qualquer um se apaixonar com a mensagem linda da história, que o Erick leva como filosofia para a vida, além de espalhar isso para todas as pessoas ao seu redor.

Acompanhando as redes sociais do escritor, nós leitores seremos agraciados com mais textos e mensagens lindas. O contato dele com seu público é bem presente, então você também pode fazer parte dessa cultura do amor que o Erick espalha com seus amigos, que também são personagens de O Garoto do Sonho.


Julianna Rioderguz

Julianna é uma jovem autora que publicou o seu livro, Não Foi Suicídio, no wattpad e alcançou muitos leitores, chamando atenção de editoras e no ano passado foi publicado a edição física.

O livro trás um grande mistério sobre uma sequência de supostos suicídios em uma cidade. Envolvendo o sobrenatural e o mistério, a autora leva o leitor até o fim das páginas sem nem perceber.


Amanda Ághata Costa

Amanda é autora de um dos livros mais queridos pelos leitores, A Escolhida. A fantasia é tão envolvente e cheia de mistérios, além de conter seres incríveis, que todo leitor se apaixona pela história.

Quem acompanha a autora nas redes sociais pode perceber o amor que ela tem pelas palavras. Amanda está produzindo um novo livro, um romance que promete grandes emoções e muitas vezes compartilha com seus seguidores, seus sentimentos ao longo de cada nova página escrita, despertando ainda mais a curiosidade dos leitores.


Mirela Paes

Mirela é autora de livros apaixonantes, como Destinos Cruzados, que faz, com apenas as palavras, o leitor se envolver em uma aventura que o fará sentir até o vento no rosto. Com suas fanfics, passou a marca de setecentos mil leituras e tem um fiel grupo de leitores por todo Brasil.

Recentemente, Mirela publicou um novo romance, Maliciosa. Uma leitura quente e cheia de malicias, mas ao mesmo tempo, doce e romântica. Neste livro, a autora também trás algo que está crescendo cada vez mais no meio literário, que são personagens femininas independentes e cada vez mais fortes.


Esses são apenas cinco autores que trazem um conteúdo muito bom com suas obras, mas sabemos que o nosso Brasil é cheio de escritores maravilhosos, que inspiram e encantam leitores.

Deixo aqui os meus mais sinceros parabéns e obrigada, a cada escritor que acompanha o site e a Revista Conexão Literatura. Vocês são responsáveis por encher nossos corações de amor e nossa mente de aventuras.

“Enquanto escritor, as palavras são a sua tinta. Utilize todas as cores.” Rhys Alexander


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segunda-feira, 24 de julho de 2017

Salão do livro no Canadá abre inscrições para escritores

Jô Ramos
Mais do que vender livros, os escritores buscam levar seu conceito, sua arte e sua maneira de ver o mundo para o universo de leitores. Pensando nisso, o I Salão do Livro do Canadá está com inscrições abertas para autores brasileiros. Organizado pela ZL Editora, o evento acontecerá nos dias 9 e 10 de setembro em Montreal. Os interessados precisam se inscrever, até dia 30 de agosto, pelo e-mail zlcomunicacao8@gmail.com.

Além de disseminar a literatura brasileira para fora de nossas fronteiras, haverá palestras com escritores que irão destacar sobre os desafios do mercado editorial, a importância do trabalho coletivo, como definir objetivos quando se decide editar uma obra entre outros assuntos.

Segundo Jô Ramos, idealizadora do projeto, o salão vai reunir também artistas plásticos, estudantes e professores. “O principal objetivo é promover propostas inovadoras para a literatura brasileira, como um aliado no aprofundamento e extensão das feiras internacionais”.

Ela diz que os escritores independentes precisam construir novas pontes para acessar o mercado editorial que hoje se fecha em apenas alguns nomes. “Por isso, queremos instigar a geração de intercâmbios mais eficazes entre os dois países”, ressalta.

- A ideia é fazer com que o autor leve seu trabalho a um público maior conquistando novos leitores, além de acessar novas formas de divulgação da sua obra - conclui.

Serviço:
I Salão do Livro do Canadá
Inscrições pelo e-mail: zlcomunicacao8@gmail.com
Prazo: até 30 de agosto
Data do evento: 9 e 10 de setembro
Cidade: Montreal (Canadá)
Local: Padoca Pâtisserie Brésilienne
Endereço: 1440, rue Amherst H2L, 3L3.


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quinta-feira, 20 de julho de 2017

Resenha | Arco de Virar Réu - Antonio Cestaro

“Vivo entre a exacerbação de uma mente doente, que ignora limites e poderes, e uma encenação ordinária que impõe toda sorte de dúvidas temperadas com dores de intensidades variadas.”

Arco de Virar Réu, do escritor Antonio Cestaro, publicado pela Editora Tordesilhas, é narrado em primeira pessoa por um historiador, cujo interesse maior está centrado no estudo antropológico das sociedades indígenas.

Pedro, irmão do narrador, é internado depois de ter ficado um tempo desaparecido. Encontrado pela família, na internação vem o primeiro diagnóstico: desorientação. Ele apresenta um quadro grave de ansiedade e fala sobre uma disputa entre um coronel e um general. Aqui percebemos o primeiro descolamento entre realidade e imaginação. Pedro acaba atacando um colega e chega a ferir-lhe gravemente uma parte do corpo, o que leva aquele homem indefeso que fora por ele atacado, a seu fim.

Logo adiante, o diagnóstico confirma a esquizofrenia de Pedro. O narrador, inclusive, chega a tomar a frente numa reunião familiar para decidir o que fariam. Era preciso que ele fosse recebido no seio familiar e, ainda assim, garantir a harmonia. Cada detalhe prático deveria ser empregado de acordo com a situação, a seu tempo.

A família do personagem deixou marcas. Como toda família eles viviam seus problemas, tendo um pai ausente que fugiu de casa, uma mãe fragilizada que começa a se envolver com a bebida, um primo viciado em entorpecentes e que quer usar a historia de Pedro em seu projeto de cinema, aproveitando as falas de Pedro sobre a guerra imaginária, além da própria esquizofrenia do primo. Sem contar Carolina, que ora parece ser a esposa ou enamorada do narrador e ora parece ser apenas fruto de sua mente. Os fatos conturbados vividos pelas pessoas próximas deixam suas impressões na vida de todos.

Arco de Virar Réu trata da deterioração mental e física do narrador. O leitor vai adentrando aos poucos esse universo que é, de certo modo, a descoberta do próprio personagem em relação ao mal que o assola. Ele vai descobrindo nos males do irmão, também o seu mau mental e físico, enquanto narra os fragmentos de memórias e retalhos de uma vida que ele rememora e lança ao leitor. A linha tênue entre a loucura e a sanidade, o delírio e a realidade, se expressam na maneira como ele fala a quem o lê.

A narrativa adotada pelo autor para compor a sua obra não é linear, é, pelo contrário, um labirinto de informações e fragmentos que vão se interligando. Essa confusão proposital, em que o limite entre a realidade e o imaginário não fica estabelecido, leva o leitor para dentro da história. Antonio Cestaro faz isso magistralmente, dando o toque da sanidade que o personagem vai perdendo e da degradação física que vai encarando.

“Apesar de não saber ao certo em que tempo e circunstância mudei para dentro da cabeça, depois de resistir e tentar outros entendimentos, tive que aceitar que tenho passado a maior da vida na cabeça, onde prazeres, afeição e coragem se misturam com ódio, vergonha e medo.”

A identificação do narrador  não é dada logo no início, só ficamos sabendo no final do romance. Certo é que trata-se de um homem de meia-idade, interessado em antropologia, apaixonado pelos costumes dos índios tupinambás e que, em dado momento, lança-se ao costume de acobertar cadáveres o que vem da forma com que os índios tratavam o canibalismo. A história se passa durante toda a vida do personagem, desde o tempo em que seu irmão fora diagnosticado, passando pela sua juventude, pela fase de ocultação de corpos mortos e tem desfecho com a descoberta de sua própria loucura.

Antonio Cestaro, autor do livro, tem uma escrita apaixonante. A forma com que o autor lida com as palavras entrega ao leitor um belíssimo texto. A composição de fragmentos de memórias, dos pesadelos e dos delírios, que se unem nas anotações do personagem, lançam o leitor a questionar a própria veracidade das percepções desse homem. O que é a realidade afinal?

Sobre o autor

Antonio Cestaro nasceu em 1965, em Maringá, Paraná. É editor, fundador do selo Tordesilhas, dedicado à literatura. Em 2012 estreou como escritor com o livro de crônicas Uma Porta Para Um Quarto Escuro, que ganhou o Prêmio Jabuti na categoria Projeto Gráfico. Em 2013 publicou seu segundo livro de crônicas, As Artimanhas de Napoleão e Outras Batalhas Cotidianas. Arco de Virar Réu é o seu primeiro romance.

Ficha Técnica

Título: Arco de Virar Réu
Escritor: Antonio Cestaro
Editora: Tordesilhas
Edição:
ISBN: 978-85-8419-035-5
Número de Páginas: 151
Ano: 2016
Assunto: Ficção brasileira

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