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sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

Conto "Noite", de Roberto Fiori


Noite. A bruma envolve a terra e as gramíneas, como ser vivo. Os insetos param de esvoaçar, restam os grilos, cujos “cri-cris” começam cedo no cortejo com as fêmeas. Distante, um sinal, um piscar na costa da praia. Um farol, avisando as embarcações dos rochedos traiçoeiros. A areia que circunda o prédio foi raspada há anos, retirada para servir na construção civil, na cidadezinha litorânea próxima.
Mas o farol permanece, automático e atingindo o alto mar, a luz de seu projetor a cinquenta metros de altura. O faroleiro morreu há tempos e sua ex-mulher está idosa, agora. As filhas do casal se mudaram para um grande centro urbano, a oitenta quilômetros de distância.
Dou a volta pelo acesso à praia e encosto o carro junto à construção. De pé, ao lado do automóvel, fico olhando as ondas. Violentas, para essa época do ano. Mas relaxo. A zona de arrebentação está recolhida, a uns cem ou cento e cinquenta metros do farol. Vou até o portão, no térreo. Está aberto, as dobradiças enferrujadas e quebradas. Chego no primeiro andar, pela escada em espiral. Todo o local está encharcado. Alguns ratos correm, quando eu piso no chão de cimento. Sou visitante indesejado, nem os roedores me querem. Mas quem sabe os insetos gostem de picar um intruso...
Vou até a janela frontal do farol. O vidro quebrado é a razão de tanta água existir neste pavimento, a essa altura tão baixa. Desisto de subir até o segundo andar. Sei o que vou encontrar lá. No carro, tiro um relógio onde minha esposa posa com um sorriso encantador. Mas ela faleceu, há tantos e tantos anos.
Dirijo pela praia. Muros de pedra e concreto foram erguidos, afastados dez a doze metros da linha do farol, para o interior. A maré subiria às três da manhã, no máximo, portanto tenho tempo. O local estava próximo, alguns quilômetros para o Norte.
Dou uma guinada, quando umas cinco ou seis gaivotas levantam voo, saindo de uma depressão alagada. A lagoa fora formada pela ação do mar sobe a areia, num ponto avançado da maré, onde as ondas quebravam em marolas. Os pássaros chapinhavam, buscando conchas, mariscos. Acelero até sessenta quilômetros por hora. Desvio-me com facilidade de um monte, que fora deixado pelas máquinas escavadeiras.
Chego em um local cercado por barbantes e linhas de pesca, unindo quatro postes de madeira, fincados formando um quadrado. No centro, uma casa cúbica, as paredes lisas de madeira, sem vegetação ao redor. Desço do carro e passo por baixo das linhas de pesca. Dou a volta na casa. Na parede traseira, descubro um mapa, riscado na madeira negra. Apagado, deixa de revelar o que se encontra no interior da forma cúbica. Ao lado do desenho, uma parte octogonal da parede está retraída para dentro.
Passo a mão pelos contornos da porta, linhas escavadas com profundidade na borda do octógono. Derek me falara sobre isso, prestes a morrer junto a mim, há exato um mês. Volto ao carro e retiro uma furadeira acionada por bateria. Coloco a ponta da broca sobre o centro da porta e abro caminho. A madeira é furada, destroçada, até chegar à base broca, onde é atarraxada no corpo da furadeira. Golpeio a madeira sem dó, perfurando os contornos da porta em vários pontos, abrindo buracos de quarenta centímetros de profundidade.
Eu tinha certeza de que Derek me contara a verdade. Quando acabara de fazer oito perfurações nas linhas do contorno da porta, ouvi um barulho, que se transformou em um longo estouro. Afastei-me. A madeira do octógono vibrou e eu corri, a tempo de escapar da avalanche. Toneladas de terra foram arremessadas através da porta e começaram a se espalhar pela traseira da casa cúbica. Eu cheguei lado do carro, abri a porta e me preparei para partir.
A enxurrada de terra seca parou, em cinco minutos. O estrondo cessou. Corri por cima da terra, para a porta da estrutura. Podia passar, mas agachado. Cheguei ao quadro de luz e acionei os disjuntores. Para minha sorte, a luz sobreveio e revelou formas que fizeram meus olhos cintilarem.
Ouro, pedras preciosas e âmbar, nas paredes, em baús abertos, entre a areia que permanecera no interior da construção! O sonho de um homem simples, como eu. E como Derek. Um amigo que me confidenciou dez valiosíssimos locais que, quem os alcançasse, seria a pessoa com uma fortuna que chegava à altura daquela das antigas Pirâmides de Queóps, Quefren, Micherinos e do interior da enigmática Esfinge, do tempo glorioso dos faraós.
Ouvi um ruído de arrastar, vindo de uma divisória de pedra que atravessava a casa lado a lado, em sua parte frontal. Decidi levar o mais precioso tesouro que existia entre tantos. Havia um diamante gigantesco, que deixaria o Cullinan a ver navios. Mais de dois mil quilates brutos, eu estimei, ao levantar a pedra de uma caixa em forma de ostra gigante. Daria mil quilates líquidos, pelo menos um bilhão de euros, no mercado negro. Tirei a joia de onde estava e o raspar no corredor começou a se aproximar.
Corri, deixando a casa e o que quer que existisse tentando me alcançar, para trás. Liguei o carro, o diamante no banco de passageiros a meu lado, e voltei. Quando cheguei a cem metros de distância, o motor enguiçou, em uma pane seca. Fitei o mostrador da capacidade do tanque de combustível, a zero. Eu tinha a certeza de ter abastecido o automóvel! Agarrei a pedra bruta pesada e comecei a caminhar, em direção ao farol. A praia fora murada por trinta quilômetros e eu tinha cinco a percorrer até o ponto onde havia entrado nas areias.
Caminhei sem dificuldade por vinte minutos, a passos largos. Mas comecei a sentir uma enorme vontade de deixar o diamante a meus pés. Ignorei esse sentimento. A pedra ficou minuto a minuto pesada, mais e mais. Em vinte minutos, minha testa banhava-se de suor. Em trinta, minhas pernas amoleceram. Eu me pus de joelhos, os olhos vidrados, as mãos carregando... o quê?
Arrastei-me por um quilômetro, até meus joelhos sangrarem. Olhei para a esquerda. A maré estava adiantada. Ondas de quinze metros vinham em minha direção. Calculei que me alcançariam em trinta segundos. Debrucei-me sobre meus braços, as mãos apertando algo sem significado.
Quando as ondas desabaram sobre mim, ouvi um som de rastejar. Alguma coisa me dizia que eu tinha de sair dali.

 

*Sobre Roberto Fiori:
Escritor de Literatura Fantástica. Natural de São Paulo, reside atualmente em Vargem Grande Paulista, no Estado de São Paulo. Graduou-se na FATEC – SP e trabalhou por anos como free-lancer em Informática. Estudou pintura a óleo. Hoje, dedica-se somente à literatura, tendo como hobby sua guitarra elétrica. Estudou literatura com o escritor, poeta, cineasta e pintor André Carneiro, na Oficina da Palavra, em São Paulo. Mas Roberto não é somente aficionado por Ficção Científica, Fantasia e Horror. Admira toda forma de arte, arte que, segundo o escritor, quando realizada com bom gosto e técnica apurada, torna-se uma manifestação do espírito elevada e extremamente valiosa.

Sobre o livro “Futuro! – contos fantásticos de outros lugares e outros tempos”, do autor Roberto Fiori:

Sinopse: Contos instigantes, com o poder de tele transporte às mais remotas fronteiras de nosso Universo e diferentes dimensões.
Assim é “Futuro! – contos fantásticos de outros lugares e outros tempos”, uma celebração à humanidade, uma raça que, através de suas conquistas, demonstra que deseja tudo, menos permanecer parada no tempo e espaço.

Dizem que duas pessoas podem fazer a diferença, quando no espaço e na Terra parece não haver mais nenhuma esperança de paz. Histórias de conquistas e derrotas fenomenais. Do avanço inexorável de uma raça exótica que jamais será derrotada... Ou a fantasia que conta a chegada de um povo que, em tempos remotos, ameaçou o Homem e tinha tudo para destruí-lo. Esses são relatos dos tempos em que o futuro do Homem se dispunha em um xadrez interplanetário, onde Marte era uma potência econômica e militar, e a Terra, um mero aprendiz neste jogo de vida e morte... Ou, em outro mundo, permanece o aviso de que um dia o sistema solar não mais existirá, morte e destruição esperando pelos habitantes da Terra.
Através desta obra, será impossível o leitor não lembrar de quando o ser humano enviou o primeiro satélite artificial para a órbita — o Sputnik —, o primeiro cosmonauta a orbitar a Terra — Yuri Alekseievitch Gagarin — e deu-se o primeiro pouso do Homem na Lua, na missão Apollo 11.
O livro traz à tona feitos gloriosos da Humanidade, que conseguirá tudo o que almeja, se o destino e os deuses permitirem.

Para adquirir o livro:
Diretamente com o autor: spbras2000@gmail.com
Livro Impresso:
Na editora, pelo link: Clique aqui.
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E-book:
Pelo site da Saraiva: Clique aqui.
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